FEIRAS E FESTIVAIS

Sei o que valem as "feiras medievais" e os "festivais", "islâmicos" ou de outra índole, que pululam por Portugal e, talvez, por outras partes. São, sobretudo, invenções políticas e económicas que visam atrair o carcanhol turístico, meios de revitalização de comunidades que caminham muitas vezes para a desertificação social e humana. Têm muito pouco a ver com o entendimento histórico - são, podemos dizer, meios de ocultação da História, na medida em que fazem passar como verdades mentiras ou cenários que nunca corresponderam à realidade. Não passa por aí a compreensão do passado, por essas visões paradisíacas que tapam o sol com a peneira, mas que, no entanto, só enganam os tolos ou os distraídos.
Vêm estas considerações a propósito de uma feira que decorrerá numa vila do Baixo Alentejo. Chamam-lhe "festival islâmico", porque pretende relembrar o passado muçulmano da localidade. Tudo bem para o turismo e para os rendimentos da população; os seres humanos precisam de comer. Tudo mal para verdade histórica, que se vê mutilada em muitos dos cenários propostos.
Reviver o passado só vale a pena quando se mostram as luzes e as sombras. Mostrar estrategicamente apenas as luzes (algumas de duvidosa luminosidade) é mergulhar a História num ácido selectivo e manipulador.
Pergunto apenas: quantos dos participantes ou dos organizadores do "festival" gostariam de viver sob uma teocracia islâmica? Muito poucos, certamente...

José do Carmo Francisco


D. Afonso IV
de Bernardo Vasconcelos e Sousa

D. Afonso IV nasceu em 1291, subiu ao trono em 1325 e veio a morrer em 1357, depois de um reinado de trinta e dois anos. Pois apesar da duração do seu reinado, trata-se de um dos reis menos conhecidos da primeira dinastia. De um modo geral fala-se deste rei a propósito da morte de Inês de Castro ou do seu cognome de «O bravo», palavra que na Idade Média tinha um significado diferente do que tem hoje. Este livro acompanha a sua vida preenchida e agitada. Enquanto jovem pegou em armas contra o seu próprio pai e manteve uma guerra civil entre 1319-1324 mas depois de instalado no trono desenvolveu uma política de reforço do poder do rei impondo-se contra bispos, nobre e municípios. Ao lado de outro Afonso (Afonso XI de Castela) este rei português travou em 30 de Outubro de 1340 a decisiva batalha do Salado, pequeno rio do mesmo nome na região de Tarifa e nas proximidades de Gibraltar. Embora não se conheça em pormenor a evolução da batalha é bem possível que Afonso IV tenha derrotado o exército granadino enquanto o seu genro e sobrinho terá desbaratado as topas vindas do Norte de África. Esta retumbante vitória do Salado revestiu-se de grande significado militar e teve um enorme impacto na cristandade ocidental. A ameaça de uma investida muçulmana na Europa a partir de Península ficava ultrapassada. Um dos aspectos mais curiosos da sua vida tem a ver com o facto de na juventude ter lutado contra seu pai D. Dinis mas acabou por enfrentar o seu filho D. Pedro, revoltado e querendo vingar a morte de Inês de Castro.

(Editora – Círculo de Leitores, Capa – F. Rochinha Diogo)
FANATISMOS E COBARDIAS
(Oz & Reverte)


"Sentido de humor, a capacidade de imaginar o outro, a capacidade de reconhecer a capacidade peninsular que existe em cada um de nós, pode pelo menos constituir uma defesa parcial contra o gene fanático que todos temos dentro de nós." A proposta é de Amos Oz que, sem maniqueísmos, consegue manter-se, funâmbulo, na linha de fronteira entre a cegueira terrorista palestiniana e o entrincheiramento judeu.

*

A entrevista de Arturo Pérez-Reverte ao Público de 20 de Abril é um raro documento de frontalidade e lucidez perante o nosso tempo. Nada a que não estejam habituados os leitores das suas crónicas poderosas, mas ainda assim esta entrevista é algo de assinalável no meio da cobardia politicamente correcta que está a dar cabo do Ocidente europeu. Quanto mais nos baixamos (nomeadamente perante o terrorismo de todas as proveniências, social e armado), mais o traseiro nos aparece... E é bom que pessoas como o romancista espanhol, ouvidas, digam que o rei vai nu.
"Merecíamos ser invadidos", afirma. É verdade! Mas sofreriam nessa altura os crápulas que, conscientemente, hoje tudo justificam? Duvido.

DOUTRINA CRISTÃ

segundo Agostinho da Silva





"Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades."


(Esta e outras reflexões aqui.)

A RECUSA DE GAMBETTA


Gambetta (então primeiro-ministro francês) justificou assim a Renoir a sua recusa de um projecto de mural para o novo edifício da Câmara Municipal de Paris:
"Mais vale ver a República viver com a má pintura do que vê-la morrer com uma grande arte..."
O político afirmava amar a pintura de Pierre-Auguste, ou pelo menos reconhecia a sua eminência. Os seus (contra)valores eram no entanto outros. Talvez por isso caiu da cadeira pouco tempo depois. Ao contrário do que pensava, a verdadeira Arte vai permanecendo (mesmo quando ocultada), enquanto os regimes e os governos cedem facilmente à erosão do tempo.
E os Gambetta de hoje? Na sua maioria, nem reconhecem nem amam a Arte. Mesmo quando parecem fazê-lo, continuam a preferir pomposos pilritos (que fazem vista sem incomodar ninguém), ignorando o trabalho destes no esboroamento dos políticos e dos regimes que os promovem.



(Na imagem: "Le Moulin de La Galette", de Renoir.)