PINTURA DE BRIAN STRANG
na Canessa Park Gallery
em San Francisco (EUA)


"I’ve always been interested in art that is guided by forces larger than itself, art that follows more than hammers the contours of thought, whether linguistic, visual or otherwise. And “nature” is the word we give to the largest context, the most permeating materiality, the system of interrelated forces so complex, so enormous and so minute, so internal and external, that it extends far beyond the limitations of imagination and is, therefore, marvelous. This is Whitman’s “spear of summer grass.” But in an ecosystem poised at the brink of collapse, a world of drowning polar bears, disappearing bees, dying coral reefs and increasingly-intense weather events that kill tens of thousands of human beings at a time, our understanding of this system of systems is tinged with peril and fragility."


Já há algum tempo realçámos, como ponto luminoso, a pintura de Brian Strang, que pode ser visitada no blogue Sorry Nature. O artista e poeta expôe agora numa das mais prestigiadas galerias de San Francisco. O texto transcrito será lido por ele na inauguração, a ocorrer no dia 3 de Junho. Vale a pena lê-lo na íntegra.

AINDA NICOLAU


Para além da entrevista, que recomendámos há dias, de Nicolau Saião merecem ainda visita a sua exposição virtual intitulada "Ruínas" e leitura um seu artigo sobre Agostinho da Silva.
José do Carmo Francisco

Dissertação
sobre o Nocturno de Chopin,
opus 9 nº 1

Há quem lhe chame Nocturno mas eu, modesto amador, sem diploma nem outras qualificações, oiço a interpretação de Maria João Pires e penso: deveria chamar-se poema sinfónico. Esta música leva-me a ligar de novo dois tempos separados pela angústia e pela distância. Estamos de novo em Setembro de 1973, eu acabo de ser promovido a furriel e tu chegas a Lisboa com todas as dúvidas de quem acabou o sétimo ano do Liceu. Estavas entre Medicina e Educação Física. Descubro o teu rosto numas escadas, num fugaz olhar de quem se cruza sem se conhecer mas percebe que está ali uma pessoa especial. A irmã mais nova de uma fratria de sete irmãos com dois rapazes e cinco raparigas, a mais nova, a mais protegida, aquela de quem todos e todas falam como a menina. O diminutivo envolve o teu nome com um halo de ternura tão grande como a Serra de Aire ou como a espuma sem fim da Praia da Vieira de Leiria. A tua voz acumulava todo o calor do Verão da Estremadura, toda a cor das maçãs mais vermelhas da nossa mais bela Província. Temos junto o que os outros só podem ter em separado: o iodo das praias, as planícies semeadas, as encostas ricas de vinha e de pomar e, por fim, as serras onde o ar é mais puro e também mais leve. Havia no teu olhar toda a extensão de uma geografia equilibrada entre o mar e a serra, dum ritmo entre sementeira e colheita, as quatro estações seguidas, pontuais e completas. O som do Nocturno de Chopin entra pela casa da costura e voa até à eira onde o vento já atirou para longe a última espiga de trigo. Cansada mas atenta, a tua mãe sorri. Só tu permaneces na eira, hoje como em 1973. Nem o vento nem o tempo fizeram no teu olhar qualquer erosão.

TRIÁLOGO
com Nicolau Saião

Por motivos pessoais e de saúde, Nicolau Saião tem andado afastado das lides literárias (o que não significa afastamento em relação à Arte e à Poesia). Como noticiámos, publicou recentemente uma antologia pessoal no Brasil e preparam-se, para breve, edições noutros países da América do Sul. Quebrou há pouco tempo um relativo silêncio, através de uma entrevista concedida à revista brasileira Agulha, um triálogo com Augusto José e Manuel Caldeira de que seleccionámos algumas declarações. O documento vale no entanto como um todo - merece ser lido e reflectido.

Em primeiro lugar desprezo os oportunistas, tanto na vida quotidiana como nas letras & artes… Aqui na cidade de Portalegre e no Alentejo, para não sair da região, tenho conhecido vários. Pequenos oportunistas, porque isto é uma terra pequena. O que aliás não me descansa, às tantas uma pessoa gostava de encontrar canalhas em grande, como no Balzac… e apanha só canalhinhas à portuguesa! Bom… E desprezo também os enfatuados, os que se escondem por detrás do dinheiro ou do poder. A nível geral desprezo os politiqueiros, os raposões que fazem grandes frases e apenas querem enganar o povo, os – no caso da escrita – que constroem as suas lendas, grandes ou pequenas, sobre a desgraça dos povos, para acatitarem as respectivas produções. Mas os que desprezo acima de todos são os que se proclamam irmãos dos homens e nada mais têm para lhes dar que obtusidade, dureza e frieza. Pessoas por vezes com grande formação académica e intelectual, universitários e quejandos, mas que são uns perfeitos patifórios, usando o lugar de que dispõem para exterminar a dignidade com um evidente sentido de que o podem fazer impunemente.


Ao contrário do que às vezes se usa fazer (“os outros que me definam” e tal… ) tenho muito gosto em me definir… até para poder epigrafar o que me parece legítimo: creio que sou um poeta surrealista pop. Nos meus textos, se bem notar, o universo onírico entra e sai (como uma bomba de pistão?) pela sociedade de consumo adentro, são constantes nos meus textos as referencias aos objectos e coisas característicos dos tempos que correm, comidas, lugares quotidianos, coisas vulgares em suma. Isso não é, evidentemente, premeditado, garanto-lhe que não tenho gosto pelo miserabilismo, não há tanto quanto me dou conta qualquer propósito preconcebido. Sinto a dada altura que os textos vivem vida própria, vivem por eles mesmos. Os mundos à Dali não me atraem nada enquanto hacedor, nada me dizem, os vastos painéis oníricos encaro-os como entidades… bem, falecidas. A meu ver o universo da poesia não é extático, há uma intrínseca vitalidade nas coisas. Sonho, sim, mas com cadeiras, janelas, motocicletas, roupas até. Que eu me lembre nunca sonhei com cavalos voadores ou homens espantados de olhos na ponta do nariz ou assim… O meu surrealismo é de situações inusitadas entre os factos e as personagens, o que me parece ser muito peculiar e ter muita força. Aliás, a “imagerie” surrealista à la page (ou pseudo-surrealista, se quiser) nunca foi cultivada com insistência senão por falsos surrealistas e explorada por publicistas pouco éticos ou propriamente tolos.

Não me diz nada enquanto literatice e creio mesmo que autores que se respeitam sofrem um pouco com esse cenário. Enquanto paixão interessa-me muito, é uma parte muito importante da minha vida. Aliás, numa palestra que fiz há uns dois anos em Espanha deixei isso bem claro. É uma grande aventura. Não posso esquecer o gosto com que defrontei – não apenas como simples leitor - livros como Mau tempo no canal de Nemésio, Voltar atrás para quê? de Irene Lisboa, Apresentação do rosto de Herberto Hélder, os livros de contos de Branquinho da Fonseca, prosa de Pascoaes e de Raul Brandão… O teatro do Ionesco, mesmo os seus contos, as reflexões memorialísticas em que se vasou às vezes, o Margarita e o mestre de Bulgakov, A montanha mágica de Thomas Mann… São experiências absolutas, só por isso valeu a pena ter vivido. Não falando em certos autores mais chegados, cuja escrita também sigo atentamente. No entanto o comboio literário em estilo Deve-Haver é frequentemente uma tristeza mas, como vivo fora desses meios onde as pugnas mais intensas acontecem, não sou muito tocado pela eventual peralvilhice. De vez em quando em fortuitos órgãos de informação topo com inquéritos género “ano passado nas letras” ou “para onde vai a literatura” que relanceio com certa má disposição porque aquilo tem mais o tom de treta mercantilista, o usual tique de coscuvilhice. Pacoviada. A literatura para onde vai? Para onde sempre foi, para o limbo dos séculos. O que interessa é a poesia e a escrita que se erguem altivamente para escarnecer as leis e ofender os deuses, como dizia Brassai. O resto é assim como que cocoricó para seis anos de imortalidade…”

“[…] nos últimos tempos têm tentado dar a poesia, a escrita, o “complexo literário”, como algo de supranumerário, talvez porque antes se tentava fazer dele uma arma de ascensão político-partidária. O que por vezes me parece que há é tácticas de sector onde o que se busca é fazer do autor uma espécie de padre sem sotaina, no mais acabado estilo de super-mercado ou de assanhada evangelização para primários. Aponto, como exemplo, para o neo-naturalismo (para empregar a expressão cunhada por Levi Condinho e posta a circular por Ruy Ventura) que entre nós quer agora ocupar totalmente, totalitariamente, a paisagem. De forma ainda mais nefanda que os antigos próceres e proponentes do “realismo-socialista”, pois esses ainda tinham uma justificação ideológica. Nestes lê-se, sem ser necessário binóculos, o simples nivelamento por baixo, para que a sua mediocridade, controlando por fora e em simultâneo “a praça”, seja legítima e imprescindível.
No campo das escritas as mais diversas os surrealistas trabalham sem rede, a própria busca de continentes novos a que se votam é por vezes empatada e prejudicada por gente que, já sem sequer disfarçar, o que quer é prebendas mesmo que a sua falta de talento as não justifique. E há encenações para “
inglês ver”: certos prosopoemadores, que se desunham em tragédias artilhadas em livro, quando na vida quotidiana tiram a mascarilha afinal são cidadãos cheios de calma, muito contentes com o lugar que ocupam na árvore dos níveis…

NOUTRA LÍNGUA

É estranho encontrarmo-nos noutra língua. Mesmo assim, nessa duplicação poética, vislumbramos uma imagem que não nos é completamente estranha.
Cada vez que estabeleço ligação com este número (o sexto) da Alice Blue Review sei que encontro outro (transfigurado no inglês de Brian Strang) e que, simultaneamente, me encontro a mim mesmo.