matéria


sangue ou tinta? nada substitui o corte
na paisagem. pedra ou tinta? não interessam
as formas nem as figuras dispostas no paramento
que rompe a linha das casas. os vitrais escondem

a passagem de um navio por entre os dedos.
não existem imagens que os olhos reconheçam.
na memória avultam movimentos mínimos –
lábios recebendo no negro esplendor

a torre inteira, arquitectura de sangue.
pedra ou sangue? esqueço o horizonte.
contemplo os vitrais. gritos explodem
como sinos num dia de nevoeiro.

ou tocarão os sinos como gritos nesta torre
que permanece sobre o livro?

* * *

sangue, tinta, pedra. a inexistência
sobre o espaço, substituindo a existência sobre a terra.
a pedra como símbolo do sangue – o sangue
como tinta, elevando na superfície
da carne outra torre feita de vulcões e de memória.

nada resiste contudo ao efémero das raízes.
a erosão e a humidade desfazem e apodrecem
o corpo, a torre, a paisagem.

os átomos subsistem. mas no fim dos tempos
ninguém poderá distinguir no deserto
a torre do corpo, o corpo da tinta e do papel
que um dia registaram a transfiguração

da pedra, do sangue – nas palavras.



(Paris: torre de Saint-Jacques.)

José do Carmo Francisco



D. Duarte
de Luís Miguel Duarte


Não por acaso este volume tem o subtítulo de «Requiem por um rei triste». Na verdade D. Duarte, o décimo-primeiro rei de Portugal, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre foi um rei muito especial. Nascido em Viseu no ano de 1391 e armado cavaleiro aos 24 anos, casou-se em 1428 com D. Leonor de Aragão tendo sido aclamado rei em 1433. Faleceu em Tomar no ano de 1438 deixando um reino dividido entre o seu irmão D. Pedro e a sua viúva, a rainha D. Leonor. Marcado desde o século XIX pela imagem fortemente negativa que dele traça Oliveira Martins, a vida de D. Duarte é fascinante: escreveu dois livros, deixou outro de notas e apontamentos, ajudou D. João I na governação, foi pai de nove filhos, sofreu uma depressão, durante o seu reinado os portugueses dobraram o cabo Bojador e perderam uma batalha – e ele um irmão – em Tânger.
Um dos aspectos mais curiosos da sua vida tem a ver com a sua especial relação com a escrita: «D. Duarte introduz pela primeira vez na língua portuguesa alguns latinismos que depois se tornaram vocábulos de raro sucesso: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto ou intelectual são alguns deles. De resto algumas das melhores páginas do Leal Conselheiro são precisamente aquelas em que ele medita sobre a língua: é o caso da análise de campos semânticos como tristeza, nojo, aborrecimento, pesar, desprazer, saudade, avisado, percebido, previsto e circunspecto. O que lhe faltou eventualmente em fluidez e elegância de escrita, sobrou-lhe em visão política, em capacidade de articular o passado e o futuro ao serviço de uma ideia de reino.»


Editora – Círculo de Leitores
Capa – F. Rochinha Diogo

PINTURA DE BRIAN STRANG
na Canessa Park Gallery
em San Francisco (EUA)


"I’ve always been interested in art that is guided by forces larger than itself, art that follows more than hammers the contours of thought, whether linguistic, visual or otherwise. And “nature” is the word we give to the largest context, the most permeating materiality, the system of interrelated forces so complex, so enormous and so minute, so internal and external, that it extends far beyond the limitations of imagination and is, therefore, marvelous. This is Whitman’s “spear of summer grass.” But in an ecosystem poised at the brink of collapse, a world of drowning polar bears, disappearing bees, dying coral reefs and increasingly-intense weather events that kill tens of thousands of human beings at a time, our understanding of this system of systems is tinged with peril and fragility."


Já há algum tempo realçámos, como ponto luminoso, a pintura de Brian Strang, que pode ser visitada no blogue Sorry Nature. O artista e poeta expôe agora numa das mais prestigiadas galerias de San Francisco. O texto transcrito será lido por ele na inauguração, a ocorrer no dia 3 de Junho. Vale a pena lê-lo na íntegra.

AINDA NICOLAU


Para além da entrevista, que recomendámos há dias, de Nicolau Saião merecem ainda visita a sua exposição virtual intitulada "Ruínas" e leitura um seu artigo sobre Agostinho da Silva.
José do Carmo Francisco

Dissertação
sobre o Nocturno de Chopin,
opus 9 nº 1

Há quem lhe chame Nocturno mas eu, modesto amador, sem diploma nem outras qualificações, oiço a interpretação de Maria João Pires e penso: deveria chamar-se poema sinfónico. Esta música leva-me a ligar de novo dois tempos separados pela angústia e pela distância. Estamos de novo em Setembro de 1973, eu acabo de ser promovido a furriel e tu chegas a Lisboa com todas as dúvidas de quem acabou o sétimo ano do Liceu. Estavas entre Medicina e Educação Física. Descubro o teu rosto numas escadas, num fugaz olhar de quem se cruza sem se conhecer mas percebe que está ali uma pessoa especial. A irmã mais nova de uma fratria de sete irmãos com dois rapazes e cinco raparigas, a mais nova, a mais protegida, aquela de quem todos e todas falam como a menina. O diminutivo envolve o teu nome com um halo de ternura tão grande como a Serra de Aire ou como a espuma sem fim da Praia da Vieira de Leiria. A tua voz acumulava todo o calor do Verão da Estremadura, toda a cor das maçãs mais vermelhas da nossa mais bela Província. Temos junto o que os outros só podem ter em separado: o iodo das praias, as planícies semeadas, as encostas ricas de vinha e de pomar e, por fim, as serras onde o ar é mais puro e também mais leve. Havia no teu olhar toda a extensão de uma geografia equilibrada entre o mar e a serra, dum ritmo entre sementeira e colheita, as quatro estações seguidas, pontuais e completas. O som do Nocturno de Chopin entra pela casa da costura e voa até à eira onde o vento já atirou para longe a última espiga de trigo. Cansada mas atenta, a tua mãe sorri. Só tu permaneces na eira, hoje como em 1973. Nem o vento nem o tempo fizeram no teu olhar qualquer erosão.