José do Carmo Francisco



A Terceira Atlântida
de Fernanda Durão Ferreira

A partir do site http://www.aterceiratlantida.com/ a Editora Contraponto publica o mais recente trabalho de Fernanda Durão Ferreira, jornalista, investigadora e sócia da Sociedade Portuguesa de Geografia – secção de História. Esta ligação parece confusa mas não é: já Vitorino Nemésio tinha escrito «A Geografia, para nós, vale tanto como a História.» A partir de textos de Platão que descrevem a Atlântida e de uma observação no terreno sobre algumas tradições terceirenses, a autora chega a uma conclusão: «as culturas tradicionais transformam-se; não desaparecem». As touradas à corda, a justiça da noite, o sangue cozido nas festas tradicionais terceirenses, o azul, o açor e o próprio nome da Ilha são aqui estudados à luz da relação entre os textos de Platão e a realidade real da Ilha Terceira. O nome da Ilha pode ter uma relação directa com as ideias de Joaquim de Fiore para quem a idade do Pai compreendia o tempo desde a criação do Mundo até Moisés e a idade do Filho era o tempo desde Moisés até Jesus Cristo. A terceira idade, idade do Espírito Santo, era uma resposta à corrupção que grassava na hierarquia da Igreja do século XIII. Outra hipótese é o nome Terceira derivar na verdade de outro facto: depois das primeiras (Cabo Verde) e das segundas (Madeira e Porto Santo) as ilhas açorianas seriam as Ilhas Terceiras. Um aspecto igualmente curioso e fascinante neste texto é a semelhança claríssima entre o mapa da Ilha de S. Miguel e a parte inferior do chamado painel do Arcebispo pintado por Nuno Gonçalves. O Infante D. Pedro, filho de D. João I, era o donatário de S. Miguel e as cordas estão dobradas numa semelhança quase total com o recorte da Ilha de S. Miguel. Na net ou em papel, um texto fascinante.

Palavras proferidas na entrega do Prémio Sebastião da Gama a Amadeu Baptista também aqui.
Cristovam Pavia


POEMA

(de uma fotografia de meu Pai comigo,
pequeno de meses, ao colo)


Vamos através do incêndio
Mas não temas, meu filho,
Podes dormir nos meus braços frescos e fortes,
Embala-te a cadência dos meus passos.

Vamos através do incêndio
E sonhas.
Detrás das tuas pálpebras a tarde
Beija e doira as folhas dos sobreiros.

E quase me esqueço
Deste puro fogo,
P'ra te dar frescura.
Arde o meu sangue calmo.
E o meu suor, arde.

E, devagar,
Vamos através do incêndio.

Dorme, meu filho.


(in 35 Poemas, 1959)

matéria


sangue ou tinta? nada substitui o corte
na paisagem. pedra ou tinta? não interessam
as formas nem as figuras dispostas no paramento
que rompe a linha das casas. os vitrais escondem

a passagem de um navio por entre os dedos.
não existem imagens que os olhos reconheçam.
na memória avultam movimentos mínimos –
lábios recebendo no negro esplendor

a torre inteira, arquitectura de sangue.
pedra ou sangue? esqueço o horizonte.
contemplo os vitrais. gritos explodem
como sinos num dia de nevoeiro.

ou tocarão os sinos como gritos nesta torre
que permanece sobre o livro?

* * *

sangue, tinta, pedra. a inexistência
sobre o espaço, substituindo a existência sobre a terra.
a pedra como símbolo do sangue – o sangue
como tinta, elevando na superfície
da carne outra torre feita de vulcões e de memória.

nada resiste contudo ao efémero das raízes.
a erosão e a humidade desfazem e apodrecem
o corpo, a torre, a paisagem.

os átomos subsistem. mas no fim dos tempos
ninguém poderá distinguir no deserto
a torre do corpo, o corpo da tinta e do papel
que um dia registaram a transfiguração

da pedra, do sangue – nas palavras.



(Paris: torre de Saint-Jacques.)

José do Carmo Francisco



D. Duarte
de Luís Miguel Duarte


Não por acaso este volume tem o subtítulo de «Requiem por um rei triste». Na verdade D. Duarte, o décimo-primeiro rei de Portugal, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre foi um rei muito especial. Nascido em Viseu no ano de 1391 e armado cavaleiro aos 24 anos, casou-se em 1428 com D. Leonor de Aragão tendo sido aclamado rei em 1433. Faleceu em Tomar no ano de 1438 deixando um reino dividido entre o seu irmão D. Pedro e a sua viúva, a rainha D. Leonor. Marcado desde o século XIX pela imagem fortemente negativa que dele traça Oliveira Martins, a vida de D. Duarte é fascinante: escreveu dois livros, deixou outro de notas e apontamentos, ajudou D. João I na governação, foi pai de nove filhos, sofreu uma depressão, durante o seu reinado os portugueses dobraram o cabo Bojador e perderam uma batalha – e ele um irmão – em Tânger.
Um dos aspectos mais curiosos da sua vida tem a ver com a sua especial relação com a escrita: «D. Duarte introduz pela primeira vez na língua portuguesa alguns latinismos que depois se tornaram vocábulos de raro sucesso: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto ou intelectual são alguns deles. De resto algumas das melhores páginas do Leal Conselheiro são precisamente aquelas em que ele medita sobre a língua: é o caso da análise de campos semânticos como tristeza, nojo, aborrecimento, pesar, desprazer, saudade, avisado, percebido, previsto e circunspecto. O que lhe faltou eventualmente em fluidez e elegância de escrita, sobrou-lhe em visão política, em capacidade de articular o passado e o futuro ao serviço de uma ideia de reino.»


Editora – Círculo de Leitores
Capa – F. Rochinha Diogo