Defendo que a poesia de C. Ronald é uma das mais fortes da literatura de língua portuguesa do nosso tempo. Este facto não colide com a minha admiração pela sua obra plástica, pintada e esculpida.

(Na imagem: "Ansiedade", escultura de C. Ronald.)


NOVA AGULHA

Já está disponível o número 58 da Agulha, revista cultural brasileira disponível on-line. São vários os motivos de interesse: um texto de Nicolau Saião sobre Agostinho da Silva (já aqui referenciado), um artigo sobre Umberto Saba e muitos outros numa edição cujo tema é a Poesia. Aí poderão encontrar também um artigo meu sobre a poesia de Gérard Calandre (autor cuja obra aprecio bastante), ilustrado por belos quadros de Siegbert Franklin (como aquele que encima este post). Boas leituras!
DOIS LIVROS
DE GONÇALO M. TAVARES


Se um livro de contos de Gonçalo M. Tavares, recentemente premiado, não me impressionou totalmente, concluída a leitura de Um homem: Klaus Klump, sou obrigado a reconhecer a eminência da sua ficção. Cruzam-se na narrativa várias linhas de sentido: desde a mais evidente (o corte na linha temporal da vida de uma cidade, entrelaçado com a focalização de um percurso humano individual - ambos fixados com o cimento da violência) às subterrâneas (a simbólica da sonoridade, o movimento pendular entre a verdade e a mentira, entre a face e a máscara, entre o indivíduo e a colectividade, entre a vida e a sobrevivência). A erupção aforística constitui outro dos pilares do edifício narrativo - e talvez um dos mais atractivos (para este leitor que aqui escreve).




Jerusalém - ou o nome desmaterializado, sem toponímia, tornado lugar verbal de memória, eixo da memória. A dado passo, o retorno selectivo (de Nietzche?), quando a prisão-hospital se torna espelho do hospício, completando o triângulo espacial do romance, com um dos seus vértices no exterior-cidade. A loucura, a violência, o horror - constituem outro triângulo, num livro feito de geometrias sobrepostas, cujo rompimento (pela introdução da irregularidade) faz irromper os factos que promovem o avanço da narrativa. "Unheimlich" - até na antroponímia escolhida.
Mais tarde ou mais cedo, todos escreveremos, afinal (com Mylia), a palavra "fome" na parede de uma igreja fechada ou em qualquer outra casa por abrir...

FLORIANO MARTINS

Regressado a estas lides, apetece-me partilhar convosco esta belíssima colagem e este belíssimo poema de Floriano Martins:




Em versos que sabem repetir-se, desperta lentamente
a tua noite acumulada em meu peito: folhagem abrigada
à beira do abismo, e então me sentes, de bruços,
flagrante de peixes escavando nuvens na acústica do mar
que embala teus sonhos: elegias que a todo instante
acariciam o cenário de mamilos fulminantes, feixe de ritos,
luzes em pranto encontradas sob a pele, suores louvados.
Dorso apegado ao entusiasmo, com suas encostas
folheando estrofes e línguas de fogo no excesso de risos.
Ali onde eu espero que a tua eternidade me acalme,
um bailado de ancas faz da noite um gato na janela
a revelar em seu olhar o último andar onde renasces:
não te escondes atrás de um segredo, roubas o limiar
de rumores, as dissonâncias do amor e saltas em meu colo.



Durante as próximas duas semanas dedicar-me-ei apenas ao papel de pai. Estarei, assim, afastado das lides da blogosfera. Até lá, boas leituras!