A literatura portuguesa contemporânea

AQUILINO NO PANTEÃO


Os ossos de Aquilino Ribeiro foram hoje colocados num sarcófago do Panteão Nacional, fazendo companhia a Garrett, Guerra Junqueiro, João de Deus e Delgado, mas também a Sidónio Pais e Óscar Carmona (o nosso país é assim...). Seja qual for a nossa opinião sobre a sua acção política, é uma atitude louvável do Estado, embora redundante, pois há muito a sua escrita o colocara no panteão da inteligência portuguesa.

Fui convidado pela Assembleia da República para a cerimónia, mas infelizmente não estive presente. A profissão e os condicionamentos impostos pelo Estatuto da Carreira Docente não mo permitiram. Tratando-se dum acontecimento que se desejaria o mais participado possível, não compreendo como se programou a homenagem para um dia e um horário (11 horas) em que apenas os desempregados e os disponíveis (aposentados ou de outra índole) puderam assistir.

Mário Cesariny
evocado
por
António Cândido Franco

José do Carmo Francisco


D. Manuel II
de Maria Cândida Proença


O último rei de Portugal, D. Manuel II (1889-1932) não estava preparado para assumir o trono quando as circunstâncias o obrigaram a reinar em resultado do regicídio que ceifou a vida de seu pai e de seu irmão.
Um aspecto curioso do seu temperamento é que o rei convidou, a expensas suas, o sociólogo francês Léon Poinsard para conhecer as condições de vida dos trabalhadores em Portugal. Acompanhado por Matos Braamcamp e Serras e Silva, Poinsard fez um diagnóstico imediato: «A principal causa da desordem crónica do país reside na sua organização política dominada por uma tribo pouco escrupulosa, ávida de poder e de proventos. Portugal está reduzido à falência, acabrunhado sob o peso de um fisco absurdo e mantido numa horrível situação de abandono e de atraso da qual não pôde ainda sair, apesar dos esforços e sacrifícios de alguns homens de acção
Outro aspecto que revela a sua pouca preparação para reinar é o que passa na semana anterior ao «5 de Outubro». Enquanto Lisboa vive momentos de agitação social com as greves dos tanoeiros, dos corticeiros e dos garrafeiros, o rei vai ao Buçaco com Lord Wellesley, neto do duque de Wellington. Na parada militar tem a seu lado os ministros da Guerra e dos Negócios Estrangeiros e no banquete ouvem-se «vivas» ao rei. No final D. Manuel afirma «Conquistei hoje o Exército» mas uma semana depois surge a República e o rei, abandonado pelo Exército, vê-se obrigado a deixar o país num iate da Ericeira para Gibraltar tendo escrito uma carta ao chefe do Governo: «Sou português e sê-lo-ei sempre. Tenho a convicção de ter sempre cumprido o meu dever de rei em todas as circunstâncias e de ter posto o meu coração e a minha vida ao serviço do meu País. Viva Portugal!»

(Editora: Círculo de Leitores, Capa: José Malhoa, Foto: Manuel Silveira Ramos)
A MÁQUINA DE JOSEPH WALSER

Concreto/abstracto, utilidade/inutilidade, guerra/paz, ódio/amor, mecanismo/organismo, técnica/humanidade, indivíduo/colectividade... - poderia continuar a listar as dicotomias que estruturam A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares, mas estas são as principais. Na tensão entre o Homem e a Máquina se estabelece o romance, ao ponto de não sabermos já quem é um e quem é outro. Walser colecciona peças metálicas com menos de dez centímetros, separando-as do mecanismo original (ou agravando a supressão). Só quando a máquina com que trabalha lhe suprime um dedo da mão direita parece reposto o equilíbrio - surgindo a incompletude como condição para a grandeza humana, numa sociedade em que esta se confunde com a procurada vanglória.