Estrada de Macadame
José do Carmo Francisco


«A seriedade, a obstinação,
o amor à terra, ao azeite e ao pão…»

O meu filho Filipe acaba de dedicar ao meu neto Tomás a sua dissertação de mestrado no Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi no passado dia 16 de Julho de 2007, no auditório D. Pedro V, frente a um júri bem exigente e qualificado, mas perante um relógio parado, que o meu filho defendeu a sua tese Guerra e Cultura na Formação de uma Imagem Pública Setecentista – D. Pedro Miguel de Almeida Portugal, Conde de Assumar e Marquês de Alorna. O júri (os professores Dias Farinha, Maria Leonor Garcia da Cruz e Ana Paula Avelar) atribuiu ao trabalho de 300 páginas a classificação de «muito bom» por unanimidade, a nota máxima.
Tudo isto tem a ver (e muito!) com a Estrada de Macadame embora possa não parecer à primeira vista. É que, além de dedicar a Tese ao sobrinho Tomás que vive em Londres, o meu filho lembrou na dedicatória os meus sogros e a minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) e sabia que o meu pai (José Francisco) acompanhava em Santa Catarina, via telemóvel, as incidências da discussão do seu trabalho.
Dito de outra maneira: foi na Estrada de Macadame que em 1956 o meu pai fez de bicicleta os noventa quilómetros semanais para poder tirar a carta de condução em Santarém, procurando assim subir na vida, deixar a enxada e lavrar os seus dias ao volante de uma camioneta de carga e, mais tarde, de passageiros. Foi na Estrada de Macadame que eu desenhei um percurso em 1966 logo que acabei o Curso Geral do Comércio e arranjei trabalho no Banco Português do Atlântico em Lisboa: queria fazer mais do que entrar às nove e sair às seis (como era nesse tempo) em que ainda se trabalhava aos sábados até às 13 horas. O meu percurso como jornalista e como escritor tem início em 1978 no Diário Popular – um jornal que já não existe – mas a origem de tudo está nessa «seriedade, nessa obstinação, nesse amor à terra, ao azeite e ao pão» de que trata a cabeça desta crónica. Essas palavras de Raul Brandão, aplicadas ao labor de Alexandre Herculano são, afinal, uma chave essencial para perceber o sorriso de quem alcança os seus objectivos.
Ao dedicar em 2006 a sua tese de mestrado ao sobrinho bebé e aos avós falecidos, o meu filho mostra que, no fundo, percebeu uma verdade elementar: se as nossas gerações não se ligassem em afectos na sua sucessão, a nossa vida não seria outra coisa senão dor, deserto e desespero. Há 50 anos o avô decidiu tirar a carta de condução, há 40 anos o pai decidiu fazer um caminho nas Letras, hoje ele atinge um ponto alto que mais ninguém na família atingiu até hoje mas não esquece as raízes nem omite o futuro.
Em termos simples a sua tese divide-se em três partes: na primeira analisa o quadro familiar do Marquês de Alorna, o seu enquadramento na sociedade portuguesa e o início da sua carreira (politica, militar, cultural); na segunda parte enuncia as acções durante o Vice-Reinado (1744-1750), examinando e decompondo a realidade que constituía o Estado da Índia na primeira metade do século XVIII; por fim define-se a importante realidade documental impressa que acompanha e descreve o Vice-Reinado da Índia (1746-1752). É um percurso documentado que acompanha este Homem (Marquês de Alorna) na sua interacção com a realidade que o rodeia, procurando analisar a arte que transforma a Acção em Imagem. Apesar de toda a retórica e idealização da sua Figura, é erigida esta Imagem a partir do conjunto de acções políticas e militares que constituem o seu percurso público. (Espero ter conseguido dar uma ideia…)

A entrada de Aquilino no Panteão
BAIRRISTAS E FORASTEIROS

Lembro-me como se fosse hoje. Corria o ano de 92. Escrevia eu no Notícias de Elvas. Num debate promovido por este jornal, fôra convidado um moderador qualificado. Feita a introdução necessária ao tema, logo um cavalheiro se levantou da assistência, pedindo a palavra. Quando todos esperávamos uma intervenção suscitadora, o dito cidadão pronunciou: “Com tanta gente boa que há em Elvas, logo havia de vir um gajo de fora dizer das suas!” Assim mesmo. Com a delicadeza de um elefante numa loja de loiça (perdoem-me os paquidermes...).
Há gente assim. Não olham para a qualidade dos seres humanos, para a sua experiência e verticalidade (que consideram, quiçá, incómodas), para as suas capacidades ou para os seus atributos – mas apenas para a certidão de nascimento (verdadeira ou suposta) que, tanto quanto sabemos, não constitui atestado fiável nem de inteligência nem de competência. Certo bairrismo tem destas coisas: há gente que prefere vinho carrascão, só porque nasceu dumas vides enfezadas lá da terra, e rejeita um néctar divino, só porque a cepa rebentou em território que não consegue alcançar com a vista. Esquecem quase sempre um princípio universal: podemos nascer em qualquer canto, até num comboio ou numa avioneta; a “pátria”, contudo, é um assunto do coração, crescendo da adesão espiritual a um lugar, tantas vezes diferente daquele em que lançámos o primeiro grito.
O bairrismo vale a pena quando defende com abertura de espírito e frontalidade crítica as mais profundas aspirações duma colectividade (o seu verdadeiro desenvolvimento mental, cultural, cívico e económico). É manifestação espúria duma sociedade fechada e ignorante sempre que revela uma bacoca miopia, embebida em estupidez, quando defende o indefensável, quando promove a mediocridade local só porque é local, quando recusa a crítica legítima, quando é veículo de reprodução social na promoção do imobilismo e, frequentemente, do caciquismo nas suas expressões mais perigosas e/ou descaradas.

Exemplos contrários também existem. Há habitantes de aldeias, de vilas, de cidades e de países que vão dando bordoada na qualidade dos seus naturais, mesmo que seja notória e reconhecida fora de portas (sobretudo quando esses naturais vêm das camadas desfavorecidas, pois ameaçam a pirâmide social) – mas não hesitam em bajular quem venha de fora, mesmo que seja um burlão ou um vigarista, ou apenas um chico-esperto que habilmente manipula a hospitalidade local.
Por isto e por muito mais escrevo sem hesitações: nem forasteiros nem indígenas. Melhor dizendo: para nada nos deve interessar o bilhete de identidade de uma cidadã ou de um cidadão, desde que mostre verticalidade, qualidade e competência; igual desprezo devemos votar à naturalidade de quem se apresenta na sua mediocridade. Prezemos quanto de bom nasça nas nossas terras, mas com o mesmo amor acarinhemos os frutos saborosos vindos do resto do mundo. Com Marco Aurélio, defendo que “pouco importa viver aqui ou ali se em toda a parte tivermos a ideia que este mundo é uma cidade”. Ninguém vive plenamente sem raízes e sem uma profunda religação ao espaço que ocupa no mundo e à sua memória integral (positiva ou negativa). Mas não deixo de concordar com Pascal: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. (...) pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.

A literatura portuguesa contemporânea

AQUILINO NO PANTEÃO


Os ossos de Aquilino Ribeiro foram hoje colocados num sarcófago do Panteão Nacional, fazendo companhia a Garrett, Guerra Junqueiro, João de Deus e Delgado, mas também a Sidónio Pais e Óscar Carmona (o nosso país é assim...). Seja qual for a nossa opinião sobre a sua acção política, é uma atitude louvável do Estado, embora redundante, pois há muito a sua escrita o colocara no panteão da inteligência portuguesa.

Fui convidado pela Assembleia da República para a cerimónia, mas infelizmente não estive presente. A profissão e os condicionamentos impostos pelo Estatuto da Carreira Docente não mo permitiram. Tratando-se dum acontecimento que se desejaria o mais participado possível, não compreendo como se programou a homenagem para um dia e um horário (11 horas) em que apenas os desempregados e os disponíveis (aposentados ou de outra índole) puderam assistir.