RESISTIR ÀS TENTAÇÕES


A "oferta" governamental era tentadora - e eu deixei-me tentar, confesso. Um computador portátil com serviço de banda larga daria jeito a este cidadão docente pouco abonado. Trinta contos de entrada com trinta e seis mensalidades de dezassete euros e meio era aliciante...
O assunto começou a dar-me comichão no nariz quanto me apercebi de que a "computadeira" não é propriamente um exemplo de tecnologia de ponta. Não se vende por aí e, não sendo uma raridade, a coisa tem marosca. Existem computadores com muito melhor memória e as empresas já nem se dão ao trabalho de os porem à venda. Ninguém lhes pegaria... dizem-me.
Quando recebi o contrato da empresa de telecomunicações, mandei tudo às urtigas. Apesar das benévolas palavras desse primo do Conde d' Abranhos que nos governa, nunca assinarei um contrato sem hipótese de denúncia que, nas letras pequeninas, quase ilegíveis, me obrigue a pagamentos durante três anos a uma empresa que se reserva o direito de alterar o preço pré-estabelecido, elevando-o a cumes desconhecidos, quiçá altíssimos.
Será esta maneira de proceder (outros chamar-lhe-iam "tramóia") legal? Não sei. A mim, contudo, não me enganaram. Por pouco...

CUNHAS

Dispensam até a hipocrisia... Como António Mega Ferreira (ler Visão, de 02.08.2007), há muitos cidadãos que consideram aceitável as editoras não lerem os originais recebidos, recusando quiçá obras-primas, enquanto publicam livros de "influentes" ou de outros promovidos pelas alavancas da "influência", por mais indigentes que sejam. Mais vale porem à porta um letreiro dizendo: "Acesso reservado. São necessárias cunhas!"

melodia
[Portalegre]


subimos por fim até ao firmamento
na dor cantada nesta noite
em que as palavras elevaram (no seu lamento)
a celebração da luz, atributo da voz e do tempo.


Gaspar, o entalhador, lembrou ainda a Afonso, contemplando:
não viste de antemão o percurso desta melodia.
acompanhou no entanto o nascimento das colunas,
o cruzar das abóbadas, as estrelas
que semeaste por todo este mundo.
ficaste, sustentando o lugar da música,
aguardando todos estes séculos
a sua chegada à tua arquitectura.


desculpa-me, Gaspar”, pronunciou Morales, el divino,
nenhum de nós esperou este momento.
de entre as notas, desde o local do nascimento,
aquela voz traçou uma outra veneração
entre a dor e a alegria.
imagens, altares, retábulos e resplendores,
a pintura nossa narrando a própria vida,
permaneciam na imperfeição
que só a palavra e a melodia conseguiram resgatar.


Stabat mater dolorosa...
a tua voz traduziu durante a noite
a angústia que nos conduz,
mas também a esperança,
lendo nos sinais o brilho no corpo e no gesto.
o perfume desce pelos teus ombros,
caminha pela encosta ao encontro do rio e da terra
.”

nenhum dos quatro respondeu:
nem Gaspar, nem Luis, nem Afonso
ou Fernão, sempre em silêncio.
as sílabas haviam nascido de um outro espaço,
de uma casa onde eram apenas o alicerce.
a (sua) obra ficara completa.
há porém um retábulo. uma pauta. permanecem ainda no início.

INGENUIDADE

Um amigo saiu há pouco da ingenuidade literária. Começou a aperceber-se da trampa que rodeia a escrita, ou melhor, a sua publicação e/ou divulgação. Mais tarde ou mais cedo, acontece a todos. Nesse momento, só existem três caminhos: resistência, desistência ou cumplicidade.