SOBRE AGOSTINHO DA SILVA


Decorrido há cerca de um ano, o colóquio "Agostinho da Silva e o Espírito Universal" organizado pela Biblioteca Municipal de Sesimbra teve agora as suas actas publicadas, com textos de, entre outros, Paulo Borges, Manuel Ferreira Patrício, António Cândido Franco e Pedro Sinde. Em linha estão entretanto disponíveis as comunicações aí apresentadas pelo coordenador deste blogue, "A cal para caiar o universo (cartas e quadras de Agostinho da Silva)", e por Nicolau Saião.

CRÓNICA(S) DO SÉCULO XX PORTUGUÊS


A antologia Crónica Jornalística – Século XX, organizada por Fernando Venâncio e editada há poucos anos pelo Círculo de Leitores é um livro imprescindível. Já antes devorara o volume dado a lume por Ernesto Rodrigues, com textos do século XIX. Mas este livro toca-nos de perto, sobretudo os textos nascidos depois de 1974 – que nos mostram o Portugal de esplendores e misérias em que todos vamos existindo.
Forte, cortante e luminoso, António José Saraiva (democrata até à raiz) desnuda uma revolução inepta e cobarde – e o país que dela nasceu. José Martins Garcia revela, com ironia, o fechamento e a violência da “democracia” existente em terras pequeninas. Luiz Pacheco relata-nos uma “jantarada” oferecida por Mário Soares a alguns escritores – expondo, com o desassombro e o humor cortante a que nos habituou, os ridículos de muito deles. Nuno de Bragança fala-nos de um “povo” que, embora “sereno”, não é politicamente “parvo”. Miguel Esteves Cardoso descreve Portugal como uma “república dos ananases”, onde a “burocracia convida os cidadãos a aldrabá-la, porque a alternativa à aldrabice é tão penosa, tão cara, tão morosa e tão chata”. Cáustico e irónico, Manuel António Pina desvenda os eufemismos utilizados pelos políticos, quando pretendem enganar os eleitores e/ou camuflar a acção de quem se serve do Estado para alimentar interesses particulares. Miguel Sousa Tavares desmonta o vazio chamado “revista feminina” que tem invadido o mercado de publicações. Viale Moutinho conta-nos como foi vítima da prosápia e da arrogância de um representante da classe dos poetastros. Fernando Dacosta dá-nos um murro no estômago, ao narrar o suicídio de um homem que “partiu para não ceder” à “ditadura de mercado”, que lança no desemprego pessoas válidas e competentes. Francisco José Viegas, num texto actualíssimo, escreve sobre o Bloco de Esquerda e o seu “folclore moderno”, que coloca “o acessório antes do essencial, a política do espírito antes da política real”, em questões como, por exemplo, a despenalização do aborto.
Mas este livro, crónica do século XX que todos os portugueses deviam ler, não se limita a compilar textos sobre a realidade portuguesa nascida depois da Revolução do Cravos. Nele podemos encontrar pérolas valiosas escritas por muitos dos vultos mais importantes e/ou mais conhecidos da Cultura do século XX: Pessoa, Almada, Proença, Aquilino, Régio, Irene Lisboa, Sebastião da Gama, Nemésio, Gomes Ferreira, Sena, Mourão-Ferreira, Araújo Correia, Mário Dionísio, Saramago, Rodrigues Miguéis, O’ Neill, Urbano, Luísa Dacosta, Maria Ondina Braga, Vergílio Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Guerra Carneiro, Agustina, Assis Pacheco, Cardoso Pires, António Osório, Mário de Carvalho, etc.. Como refere Fernando Venâncio, as cem crónicas que aí podemos apreciar e saborear são “impagáveis”, demonstrando “quanta agilidade mental, quanta inventiva, na feitura e na expressão, quanta finura e malícia, quanto domínio da persuasão e do divertimento, vão investidos num género tido, desde sempre, por marginal às artes sérias”.
Folheando as páginas desta antologia vêm ainda nosso encontro trechos lapidares, que nos fazem ver mais claramente o Portugal de 2007. Com duas delas termino: “O Estado português dá a impressão de uma tenda de louça onde entrou uma manada de toiros bravos.” (Aquilino Ribeiro, 1926); “As nossas dificuldades presentes (...) merecemo-las, moralmente. (...) Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente.” (António José Saraiva, 1979).
PERGUNTAS A ESMO

Há perguntas que nos inquietam no dia a dia. Resolvi deixar aqui expressas algumas que me tocam particularmente, partilhadas decerto por alguns leitores.


Por que razão quase todos os incompetentes com filiação partidária, quando fazem asneira, não são castigados, mas premiados?
Que motivos guiam a maioria que sustenta o Governo a não querer aprovar legislação eficaz contra a corrupção?
O que leva certos municípios a homenagearem caciques e a deixarem na sombra aqueles que verdadeiramente contribuíram para o desenvolvimento da comunidade em que viveram?
Que vaidade conduz tantos autarcas quando desejam deixar a sua marca nas terras que vão gerindo, mesmo que essa marca seja um mamarracho sem sentido, mesmo que a obra seja inútil e dispendiosa?
Por que razão continuam a existir psicólogos, sociólogos e pedagogos que olham de lado para quem exige dos alunos esforço, trabalho e responsabilidade, preferindo antes nivelar por baixo, transformando a seriedade em palhaçada?
Que razões levam o Ministério da Educação a sobrecarregar os professores com burocracias e mais burocracias, nomeadamente na sua avaliação, diminuindo o tempo que estes deveriam dedicar ao crescimento e à aprendizagem dos seus alunos?
Para que existe uma autonomia do Ensino Superior com os contornos actuais, se ela é muitas vezes sinónima de abuso, de irregularidade, de ilegalidade e de impunidade?
Por que continuamos nós a ver licenciados e mestres no desemprego, quanto vemos tantos iletrados e/ou semi-analfabetos (alguns camuflados) a ocupar lugares que nunca deveriam pertencer-lhes?
Quanto tempo mais continuarão alguns a culpabilizar só aqueles que trabalham pela baixa produtividade da nossa economia, quando está provada a inépcia e ignorância de muitos e muitos empresários?
Por que continuam as autoridades policiais e judiciais a fechar os olhos perante alguns cidadãos que passam em velocidade de cruzeiro da mais negra penúria para a mais descarada riqueza, mesmo quando a medo se vai revelando a mola que produziu tão grande salto?
Por que continuam alguns juízes e magistrados do Ministério Público a vergar a sua coluna vertebral perante certos representantes (locais ou nacionais) do poder económico, político ou mediático?
Que interesses levam a gestão do país a querer mirrar aqueles que não podem escapar ao pagamento de impostos, quando não mexe uma palha para obrigar os que mais têm a entregar ao Estado aquilo que lhe é devido?
Para onde vão os donativos obrigatórios que muitas instituições de “solidariedade social” recebem, como resultado da discreta chantagem de que são vítimas tantas pessoas que não podem ter em casa os idosos da sua família? E em que bolsos estarão guardados os fundos indevidamente recebidos do Estado, à conta de falsas declarações e de utentes inventados?
Quanto tempo mais continuaremos a fazer estas e outras perguntas que nos inquietam e angustiam o viver quotidiano?

VIAGEM A PORTUGAL


Não se lê com desgosto a Viagem a Portugal, de José Saramago. Nem espanta, nem mete medo... Baseia-se, contudo, numa dupla banalidade: de um lado, a dos folhetos turísticos (erros incluídos); do outro, um falso lirismo, nem carne nem peixe. Nos seus melhores períodos, este livro do escritor ribatejano aproxima-se das crónicas de Manuel Teixeira Gomes ou de Brito Camacho. Mesmo sem a sobranceria (com pés de barro) que domina muitas das suas outras obras, esta não deixa contudo saudades.
escuridão
[Carreiras]



a mão desapareceu sob a madeira?
a luz escondeu os dedos – ligando
o norte e o sul, o sul e o sudeste?
a dor, debaixo de algumas palavras, dividiu
e recompôs o reflexo do vidro sobre os olhos.
a pedra renasce depois do negrume.
o ouro envolve três quartos desse rosto:
a legenda.

dissolvi esta parte do meu corpo
para melhor dirigir o olhar
aos alicerces da montanha. poderia subir
deixar entre os rochedos a chama
que iluminaria as asas e o farol.
dissolvi, porém, o clamor, a cinza
e o testemunho. pedaços de metal ficaram
como linhas na água e no trevo, junto da parede.


que ficou dos alicerces
na tiara que ostentas sobre as veias?
que estilete registou sobre o ouro, entre a seda e o damasco,
a palavra – o rosto em que o gelo descreve o canto
negro, ecoando entre os castanheiros e os filamentos
de nojo na sarça e no navio onde tentámos rever-nos?


a luz atravessa a muralha entre excrementos
e pastas de sangue. a flama dirige a sua língua
até muito perto de nós. o cabelo arde. o som
parece idêntico, mas guarda no interior a união
entre o rosto e a seara. mudamos de edifício,
o lintel segura-nos no tremor. as telhas estalam
durante a noite. a mão escreve sobre a cal
a voz do imperador. transporta para dentro
peso da madeira – tantos séculos sepultada a nascente.


olho a imagem. as interrogações surgem nesta agenda.
não consigo encontrar uma única hora
em que não estejam presentes o sangue e o fogo.
a mão desaparece. desaparece apesar do segredo.
a veste alcança o universo. a paixão
revolve a legenda que procuramos colocar
junto do mapa para conseguirmos encontrar o destino.
o friso estoura. quebra cada um dos selos
desta vinha e deste campo. um outro mar
a cidade que vemos. a dança e a morte
nos degraus do altar.

nenhuma celebração nos redime. a tinta esconde
apenas um pigmento mais antigo. que nome possuo?
grande, talvez, a linguagem dos pássaros e das pedras,
do tronco desta árvore, da lombada deste livro
em que escrevo sem cessar. tudo dissolvo com o tempo:
a minha mão abençoando o vazio, a tua mão
acariciando essa criança
crescida demais para a idade, a mão do pastor
a semear insectos nas águas e no futuro, a mão
do mártir atada à distância, os estigmas do fogo
nessa mão que segura a morte e a vida.
tudo dissolvo.
só assim sei reunir as cartas que escrevi:
respigo primeiro, procuro depois a essência –
uma sombra, o milagre do reencontro,
a resistência e o desejo, a assinatura e o alimento.
a autópsia revela algumas palavras no estômago.
algumas palavras. o coração aberto sobre a cama.
a língua recolhendo na carne e na pintura
o escopro e o cinzel para fabricar
o sopro e a memória.