SOCIEDADES CRIMINAIS
Sándor Márai, um dos vultos cimeiros da narrativa europeia, escreveu nas suas Memórias da Hungria:
"Começámos a interrogar-nos sobre a responsabilidade do indivíduo num Estado criminal, culpado de actos ilegais no plano moral. Não será responsável na medida em que aprova ele mesmo esses actos e neles participa activamente? O seu dever primordial consiste certamente em se proteger e em proteger os seus - mas poderá ir ao ponto de executar as ordens que a sua consciência condena? Necessita sobreviver, como um camaleão, mas sem dar o seu concurso aos assassinatos cometidos pelo poder, sem beneficiar dos seus crimes desumanos nem aceitar os privilégios que lhe valeria uma eventual cumplicidade."
Sobre as "sociedades criminais" (que por vezes tomam a aparência de "democracias representativas") escreveu Nicolau Saião um artigo que merece ser lido. Ficamos muito mais esclarecidos.
Matilde Rosa Araújo
SABER LER NA VIDA
Saber ler na vida - folhear honestamente a vida
Apaixonadamente a vida
Nas arcas da noite, nas arenas do dia:
Risos, lágrimas, serenos rostos aparentes
Como se abríssemos cada dia a verde lima do espanto.
Não passar folhas em branco sem as entender,
Olhar rostos como quem tacteia rugas
Descobrindo planetas de mágoa ou rios de alegria.
A primeira página e o segredo puro dos acabados de gritar o primeiro grito,
iluminada essência do futuro.
E tudo isto
Entre vermes, frutos, flores, rinocerontes, pássaros,
Cães fiéis
Águas e pedras
E o fraterno fogo que acendemos a cada hora,
No espaço branco que é estendermos a nossa mão
Para outra mão apertarmos simplesmente
Mão pela qual corre o sangue como um rio de fogo.
Só temos uns tantos anos para lermos este livro
Debaixo do Sol,
Ou sob o aço da noite
Para este fogo tecer.
Chamarás ciência cultura vida dor espada ou espanto a tudo isto
Ou ilegível monotonia.
Nada. Mas lê.
(in Voz Nua, 2001)
SABER LER NA VIDA
Saber ler na vida - folhear honestamente a vida
Apaixonadamente a vida
Nas arcas da noite, nas arenas do dia:
Risos, lágrimas, serenos rostos aparentes
Como se abríssemos cada dia a verde lima do espanto.
Não passar folhas em branco sem as entender,
Olhar rostos como quem tacteia rugas
Descobrindo planetas de mágoa ou rios de alegria.
A primeira página e o segredo puro dos acabados de gritar o primeiro grito,
iluminada essência do futuro.
E tudo isto
Entre vermes, frutos, flores, rinocerontes, pássaros,
Cães fiéis
Águas e pedras
E o fraterno fogo que acendemos a cada hora,
No espaço branco que é estendermos a nossa mão
Para outra mão apertarmos simplesmente
Mão pela qual corre o sangue como um rio de fogo.
Só temos uns tantos anos para lermos este livro
Debaixo do Sol,
Ou sob o aço da noite
Para este fogo tecer.
Chamarás ciência cultura vida dor espada ou espanto a tudo isto
Ou ilegível monotonia.
Nada. Mas lê.
(in Voz Nua, 2001)

ENCONTRO
Não existe ser humano que não recorde um encontro feliz, porque inesperado. Numa das minhas deambulações bibliófilas pelos alfarrabistas da capital, tive há uns tempos um desses momentos. Esperaria encontrar de tudo ou toda a gente naquele espaço discreto, como que enxertado numa das mais belas ruas de Lisboa. Menos ele.
Enquanto, entre as mãos, limpava o pó acumulado sobre a capa do volume cinzento, com moldura azul e vermelha, era já grande a minha satisfação. Tinha a manhã ganha, pois há muito procurava aquela célula quase esquecida de um amigo que guardo no peito. Comecei então a folhear as 72 páginas desse discreto livro de poemas intitulado Cio, publicado por Carlos Garcia de Castro em 1955.
A surpresa do encontro (encontrar o livro de um autor, há muito procurado, é encontrá-lo a ele, embora sem o calor do abraço muscular...) não ficaria por aqui. Ao levantar a capa, li com emoção uma dedicatória:
“Ao / Manuel d’ Assunção, com o / abraço da melhor amizade e admi- / ração, oferece o / Carlos Garcia de Castro / Lx. Março. 1956”
Era-me conhecida a amizade que ligou o poeta portalegrense ao grande pintor surrealista e abstraccionista D’ Assumpção. Saíram da pena do autor d’ Os Lagóias e os Estrangeiros algumas das melhores páginas que até hoje se escreveram sobre o artista, considerações e reflexões que foram aos alicerces da sua obra e da sua personalidade artística. Bastará lermos os textos publicados em catálogos, em revistas ou no Fanal d’ O Distrito de Portalegre (nº 1, 19/05/2000). A “amizade” e a “admiração” por D’ Assumpção, manifestadas na dedicatória, eram sinceras, portanto. Quem conhece Carlos Garcia de Castro (homem de qualidade, frontal e vertical em todas as horas), outra coisa não esperaria.
A chegada à minha repartida biblioteca deste exemplar do Cio foi, portanto, fonte de emoção. Juntei num único objecto a presença de um poeta que admiro como escritor e como ser humano à de um pintor cuja obra faz parte das minhas referências artísticas. Há dias e encontros felizes...
Carlos Garcia de Castro considera hoje que este seu primeiro livro é sobretudo “um documento poético que não tem nada de particular, (...) resultante de uma envolvência de gostos, para aquela época em que [foi] educado, ilustrando o tempo dos dois primeiros anos da faculdade” (assim o declarou em entrevista ao suplemento Fanal, de 22/2/2002). Sendo, na verdade, um produto poético digno (em que, no entanto, vemos apenas florescer a intensidade verbal que caracteriza a obra do poeta), revela no seu todo uma poesia que ainda se lê com interesse, situada, já naquele tempo, a anos-luz dos pilritos dados a lume por certos versejadores. Revelador é, por exemplo, o poema “Deslumbramento” (reflexão surrealizante sobre “O Último Bailado”, de D´Assumpção, obra então exposta no Café Plátano portalegrense, hoje no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian):
“Uma colcha fria, / de mil pedrarias indiferentes, / o livro impávido da noite, / onde crepita o nada das aragens / e o roçagar das ramagens / a estremecerem cetim. // [...] // Nós temos a Certeza e a Visão - / duma absoluta-relativa dó: / um astro-rei no céu, / e as barbas dum gigante numa árvore-anã! // E casas, montes, rios e valados, / e sonhos, alegrias, sofrimentos - / a dor! as brumas e o sol, / místicos abraços criminosos... // [...] // Ternos, duvidosos, dualistas, / os deuses que nós somos: / fica revibrante a vida que retemos, / e damos ao que é bruto / o mito que abrangemos sem o ter. [...]”
Nisto tudo, há uma memória artística e humana que acalenta. Um acto de amizade (um livro oferecido por um amigo, onde um poema reflecte sobre a obra do amigo a quem é dedicado) torna-se presença material. Como escreve Garcia de Castro, “Do que mais custa sermos só memória / são os afectos dela então esquecidos / que só a morte leva para os deixar, / sem nunca mais quem morre os ter consigo”. Que a memória permaneça, digna, desta ou doutra forma.
Não existe ser humano que não recorde um encontro feliz, porque inesperado. Numa das minhas deambulações bibliófilas pelos alfarrabistas da capital, tive há uns tempos um desses momentos. Esperaria encontrar de tudo ou toda a gente naquele espaço discreto, como que enxertado numa das mais belas ruas de Lisboa. Menos ele.
Enquanto, entre as mãos, limpava o pó acumulado sobre a capa do volume cinzento, com moldura azul e vermelha, era já grande a minha satisfação. Tinha a manhã ganha, pois há muito procurava aquela célula quase esquecida de um amigo que guardo no peito. Comecei então a folhear as 72 páginas desse discreto livro de poemas intitulado Cio, publicado por Carlos Garcia de Castro em 1955.
A surpresa do encontro (encontrar o livro de um autor, há muito procurado, é encontrá-lo a ele, embora sem o calor do abraço muscular...) não ficaria por aqui. Ao levantar a capa, li com emoção uma dedicatória:
“Ao / Manuel d’ Assunção, com o / abraço da melhor amizade e admi- / ração, oferece o / Carlos Garcia de Castro / Lx. Março. 1956”
Era-me conhecida a amizade que ligou o poeta portalegrense ao grande pintor surrealista e abstraccionista D’ Assumpção. Saíram da pena do autor d’ Os Lagóias e os Estrangeiros algumas das melhores páginas que até hoje se escreveram sobre o artista, considerações e reflexões que foram aos alicerces da sua obra e da sua personalidade artística. Bastará lermos os textos publicados em catálogos, em revistas ou no Fanal d’ O Distrito de Portalegre (nº 1, 19/05/2000). A “amizade” e a “admiração” por D’ Assumpção, manifestadas na dedicatória, eram sinceras, portanto. Quem conhece Carlos Garcia de Castro (homem de qualidade, frontal e vertical em todas as horas), outra coisa não esperaria.
A chegada à minha repartida biblioteca deste exemplar do Cio foi, portanto, fonte de emoção. Juntei num único objecto a presença de um poeta que admiro como escritor e como ser humano à de um pintor cuja obra faz parte das minhas referências artísticas. Há dias e encontros felizes...
Carlos Garcia de Castro considera hoje que este seu primeiro livro é sobretudo “um documento poético que não tem nada de particular, (...) resultante de uma envolvência de gostos, para aquela época em que [foi] educado, ilustrando o tempo dos dois primeiros anos da faculdade” (assim o declarou em entrevista ao suplemento Fanal, de 22/2/2002). Sendo, na verdade, um produto poético digno (em que, no entanto, vemos apenas florescer a intensidade verbal que caracteriza a obra do poeta), revela no seu todo uma poesia que ainda se lê com interesse, situada, já naquele tempo, a anos-luz dos pilritos dados a lume por certos versejadores. Revelador é, por exemplo, o poema “Deslumbramento” (reflexão surrealizante sobre “O Último Bailado”, de D´Assumpção, obra então exposta no Café Plátano portalegrense, hoje no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian):
“Uma colcha fria, / de mil pedrarias indiferentes, / o livro impávido da noite, / onde crepita o nada das aragens / e o roçagar das ramagens / a estremecerem cetim. // [...] // Nós temos a Certeza e a Visão - / duma absoluta-relativa dó: / um astro-rei no céu, / e as barbas dum gigante numa árvore-anã! // E casas, montes, rios e valados, / e sonhos, alegrias, sofrimentos - / a dor! as brumas e o sol, / místicos abraços criminosos... // [...] // Ternos, duvidosos, dualistas, / os deuses que nós somos: / fica revibrante a vida que retemos, / e damos ao que é bruto / o mito que abrangemos sem o ter. [...]”
Nisto tudo, há uma memória artística e humana que acalenta. Um acto de amizade (um livro oferecido por um amigo, onde um poema reflecte sobre a obra do amigo a quem é dedicado) torna-se presença material. Como escreve Garcia de Castro, “Do que mais custa sermos só memória / são os afectos dela então esquecidos / que só a morte leva para os deixar, / sem nunca mais quem morre os ter consigo”. Que a memória permaneça, digna, desta ou doutra forma.
José do Carmo Francisco
Hugo Santos –
Do poema como oração e como voz da Terra
Rezar é sempre a tentativa (nem todas as vezes realizada) de unir dois mundos – o da terra e o do céu, o material e o espiritual, o dos homens e o de Deus. Ao colocar-se de joelhos o crente mais não faz do que recordar nesse gesto a sua origem e o seu fim anunciado. Sabe que veio do pó, é pó e em pó se há-de tornar mas rezando ele (o crente) procura elevar as suas palavras do rés da terra para o reino superior que ele nunca viu mas pressente, que ele nunca tacteou mas reconhece, que ele nunca visitou mas sabe nomear.
Religando o que o tempo separou ele (o crente) procura ascender a uma relação superior. Algo mais do que o emprego, o café, o supermercado, o stand de automóveis, a loja de pronto-a-vestir, o centro comercial.
Rezar é tentar criar outra realidade dentro da quotidiana realidade prática, mercantil, de desperdício. Para quem tem os pés bem assentes na terra (sua condição e seu limite) rezar é uma viagem entre dois mundos, a veloz ligação entre dois tempos, a procura de uma ponte a unir dois espaços.
O poema (tal como a oração) procura ligar, unir, juntar o que a erosão do tempo separou no coração dos homens. O poeta, obscuro sacerdote duma liturgia de silêncio, procura resgatar no poema (que a folha de papel testemunha) uma outra ponte feita de palavras entre a fronteira e o limiar do país sentimental que o ignora.
A infância, a voz da mãe, as colheitas perdidas, a azeitona nos lagares, a lavoura vagarosa dos dias da inocência que nenhum banco financia e sobre a qual nenhuma companhia ou corrector se atreve a emitir uma apólice de seguro, são todos eles, bocados de terra. A mesma terra onde o crente ajoelha para rezar. E mesmo o estádio na cidade, lugar de romaria e de culto, altar urbano de um ritual de ofertório e consagração, cântico e comunhão nas vitórias e nas derrotas, o estádio é também um bocado de terra.
Na grande solidão do Mundo, perdido entre o precário do amor e o inevitável da morte, resta ao crente o lugar da oração. Por isso reza. Perdido entre o peso da morte e a ostensiva falta de atenção, valor e importância que o Mundo dá à vida verdadeira (deixando-se resvalar para uma vida virtual, em diferido e por interposta realidade) resta ao poeta o lugar do poema. Por isso escreve. Afinal escrever é uma forma de rezar na desolada paisagem do seu quotidiano cada vez mais cinzento, vazio e hostil.
Por uma estranha sucessão de coincidências soube há muitos anos que a casa que (sei hoje) habita este livro tem um poço dentro dela. Fui um dia a Campo Maior à Festa das Flores e mostraram-me a casa do poeta. Aquele poço dentro da casa remeteu-me para a minha própria infância. Ao lado da casa do meu avô, casa onde nasci no já distante ano de 1951, havia uma taberna e um poço onde o seu dono mergulhava um cesto de vime cheio de gasosas, laranjadas e cervejas. Essa fr
escura vinda dessa água nunca mais se repetiria porque foi substituída pelo gelo dos frigoríficos e é outra coisa.
A luz das pequenas coisas é também a memória de uma casa e, por isso, começa com estas palavras: Primeiro falemos da casa, da rua, das vozes.
Mas a casa não é só paisagem: é também povoamento. A casa é povoada pelas pequenas coisas que são: Um livro, uma sépia traída pelo tempo, o vago sopro duma voz que se interpôs entre a mão e o afago que a reclamava.
Antes de Hugo Santos já Raul Brandão tinha proclamado que a ternura é húmida. Na página 10 deste livro se percebe como a água do poço da cozinha da casa, inunda de humidade e de ternura as palavras do poeta. Vejamos:
Creio que amei aqui / o que não poderia ter amado em qualquer outro lugar do mundo. / E, no entanto, é-me grato pensar que uma perene eternidade / avalizou cada uma das minhas emoções. / Ou, melhor sempre houve uma asa a percorrer o sagrado território / situado (sitiado) entre as palavras e os silêncios.
Situado e sitiado entre a palavra e o silêncio, resta ao poeta romper esse impasse pelo poema que é uma ponte a ligar dois Mundos:
Uso-me e gasto-me no coração mais profundo das palavras. / ou, talvez não bem um coração profundo mas uma indefesa concha / que, pelo refluir das marés, recobra o secreto desvelo das águas / e o devolve à fala ou à escrita que o requer.
Na poesia como na outra agricultura há muitas colheitas perdidas. Por isso mesmo o poeta obriga-se a ser também o repórter das chuvas de Setembro:
Olhai; aí está a luz, o vento, a água, o suave perfume / das flores do loendreiro e, perene, o quotidiano aviso da eternidade. / Depois, lento como um afago, o harpejo suave duma gota de orvalho / que em breve retomará o ofício proclamador das primeiras chuvas.
Se a casa é o lugar da água e da vida, o Terreiro é o lugar do encontro com os outros, os que tiveram caminhos e memórias comuns na infância já distante:
Tu lembras-te? perguntam. Talvez minta e lhes diga que sim, que me lembro / de tudo quanto está ali e parece comover-me / como se o tempo não fosse mais que o canhestro prestidigitador / que as ilusões e as nostalgias necessitam para se acercarem / das emoções que as antecederam.
O poeta mente porque é um fingidor mas na verdade não tem ilusões:
Tive uma bicicleta e um sonho, mas nunca a glória / de ter almejado a distância entre a flor e o livro / o voo da ave e o salvo-conduto das águas e do vento. / Não estive só; muitos outros me acompanharam. / Ouviu-se sempre o eco dos passos de quantos, a meu lado / subiram a rua e procuraram a teia e o casulo da casa.
A única certeza feliz é a ligação do poeta à sua terra natal:
A minha terra tem, inegavelmente, a forma do meu coração. / Notai como nela se escuta ainda o balbucio de antigas águas. / Atentai no silêncio. Reparai como nele se cruzam / todas as palavras, mesmo as mais distantes e impronunciáveis. / A eternidade começa aqui.
A lucidez do poeta avisa e proclama que muita coisa poderia ter sido feita
Eu poderia ter amado mais que o lento acordar das vozes submersas. / Poderia ter escrito todos os nomes no poço mais fundo da alma e beber todos os dias a água fresca desses nomes. / Poderia tê-los escrito à lareira e permitir que eles fossem a labareda ágil e eterna que habita o coração dos homens.
Poderia ter feito isso o muito mais mas o poeta escolheu o seu ofício
Contento-me com as palavras deslizando de manso sobre o papel. / Há entre mim e elas, creio que o disse já, um pacto de sangue onde cabe sempre um voo inesperado / dum pássaro insurrecto, planador de confins. / Talvez nem eu nem elas atentemos nas distâncias / que juntos percorremos nem esse seja o mester / para que as palavras foram escritas.
É nesse ofício que ele procura vencer o pó do esquecimento, o mesmo é dizer da morte
Inomináveis filhos do nada para o nada caminhamos. / Fica-nos às vezes a luz e a melodia dum poema. / Dizemo-lo então de nós a nós e é então que a casa, as árvores / e as palavras resplandecem. Quem pode pedir-nos mais?
Só o poema e a palavra do poema ficam quando tudo se perde no silêncio
Como um nómada indeciso, caminha o poema sobre o papel. / água vegetal, angular pedra da casa, trave-mestra da emoção, aqui me tens. / Carne e espírito do tempo, devolvo-te intacto ao secreto lugar onde os rios incendeiam as suas águas na volúpia da nascente.
Todos os poetas aspiram a ser a voz da terra mesmo que essa voz, para ser solene e altiva, surja na humidade e na ternura das pequenas coisas:
Ah, como dizer de outra forma da harmonia das pequenas coisas?
Notai como mesmo as que se ausentaram, persistem.
É escutá-las agora, por dentro das caixas-de-música dos silêncios
Numa mansidão que parece feita para a solícita comoção
dos que chegam e dos que partem.
Inesgotáveis veias da casa, multiplicam-se para lá dela.
Só depois, ao fechar da noite, se tornam violinos de vento.
(Lido na cerimónia de entrega do Prémio Cidade de Almada / Poesia a Hugo Santos)
Hugo Santos –
Do poema como oração e como voz da Terra
Rezar é sempre a tentativa (nem todas as vezes realizada) de unir dois mundos – o da terra e o do céu, o material e o espiritual, o dos homens e o de Deus. Ao colocar-se de joelhos o crente mais não faz do que recordar nesse gesto a sua origem e o seu fim anunciado. Sabe que veio do pó, é pó e em pó se há-de tornar mas rezando ele (o crente) procura elevar as suas palavras do rés da terra para o reino superior que ele nunca viu mas pressente, que ele nunca tacteou mas reconhece, que ele nunca visitou mas sabe nomear.
Religando o que o tempo separou ele (o crente) procura ascender a uma relação superior. Algo mais do que o emprego, o café, o supermercado, o stand de automóveis, a loja de pronto-a-vestir, o centro comercial.
Rezar é tentar criar outra realidade dentro da quotidiana realidade prática, mercantil, de desperdício. Para quem tem os pés bem assentes na terra (sua condição e seu limite) rezar é uma viagem entre dois mundos, a veloz ligação entre dois tempos, a procura de uma ponte a unir dois espaços.
O poema (tal como a oração) procura ligar, unir, juntar o que a erosão do tempo separou no coração dos homens. O poeta, obscuro sacerdote duma liturgia de silêncio, procura resgatar no poema (que a folha de papel testemunha) uma outra ponte feita de palavras entre a fronteira e o limiar do país sentimental que o ignora.
A infância, a voz da mãe, as colheitas perdidas, a azeitona nos lagares, a lavoura vagarosa dos dias da inocência que nenhum banco financia e sobre a qual nenhuma companhia ou corrector se atreve a emitir uma apólice de seguro, são todos eles, bocados de terra. A mesma terra onde o crente ajoelha para rezar. E mesmo o estádio na cidade, lugar de romaria e de culto, altar urbano de um ritual de ofertório e consagração, cântico e comunhão nas vitórias e nas derrotas, o estádio é também um bocado de terra.
Na grande solidão do Mundo, perdido entre o precário do amor e o inevitável da morte, resta ao crente o lugar da oração. Por isso reza. Perdido entre o peso da morte e a ostensiva falta de atenção, valor e importância que o Mundo dá à vida verdadeira (deixando-se resvalar para uma vida virtual, em diferido e por interposta realidade) resta ao poeta o lugar do poema. Por isso escreve. Afinal escrever é uma forma de rezar na desolada paisagem do seu quotidiano cada vez mais cinzento, vazio e hostil.
Por uma estranha sucessão de coincidências soube há muitos anos que a casa que (sei hoje) habita este livro tem um poço dentro dela. Fui um dia a Campo Maior à Festa das Flores e mostraram-me a casa do poeta. Aquele poço dentro da casa remeteu-me para a minha própria infância. Ao lado da casa do meu avô, casa onde nasci no já distante ano de 1951, havia uma taberna e um poço onde o seu dono mergulhava um cesto de vime cheio de gasosas, laranjadas e cervejas. Essa fr
escura vinda dessa água nunca mais se repetiria porque foi substituída pelo gelo dos frigoríficos e é outra coisa.A luz das pequenas coisas é também a memória de uma casa e, por isso, começa com estas palavras: Primeiro falemos da casa, da rua, das vozes.
Mas a casa não é só paisagem: é também povoamento. A casa é povoada pelas pequenas coisas que são: Um livro, uma sépia traída pelo tempo, o vago sopro duma voz que se interpôs entre a mão e o afago que a reclamava.
Antes de Hugo Santos já Raul Brandão tinha proclamado que a ternura é húmida. Na página 10 deste livro se percebe como a água do poço da cozinha da casa, inunda de humidade e de ternura as palavras do poeta. Vejamos:
Creio que amei aqui / o que não poderia ter amado em qualquer outro lugar do mundo. / E, no entanto, é-me grato pensar que uma perene eternidade / avalizou cada uma das minhas emoções. / Ou, melhor sempre houve uma asa a percorrer o sagrado território / situado (sitiado) entre as palavras e os silêncios.
Situado e sitiado entre a palavra e o silêncio, resta ao poeta romper esse impasse pelo poema que é uma ponte a ligar dois Mundos:
Uso-me e gasto-me no coração mais profundo das palavras. / ou, talvez não bem um coração profundo mas uma indefesa concha / que, pelo refluir das marés, recobra o secreto desvelo das águas / e o devolve à fala ou à escrita que o requer.
Na poesia como na outra agricultura há muitas colheitas perdidas. Por isso mesmo o poeta obriga-se a ser também o repórter das chuvas de Setembro:
Olhai; aí está a luz, o vento, a água, o suave perfume / das flores do loendreiro e, perene, o quotidiano aviso da eternidade. / Depois, lento como um afago, o harpejo suave duma gota de orvalho / que em breve retomará o ofício proclamador das primeiras chuvas.
Se a casa é o lugar da água e da vida, o Terreiro é o lugar do encontro com os outros, os que tiveram caminhos e memórias comuns na infância já distante:
Tu lembras-te? perguntam. Talvez minta e lhes diga que sim, que me lembro / de tudo quanto está ali e parece comover-me / como se o tempo não fosse mais que o canhestro prestidigitador / que as ilusões e as nostalgias necessitam para se acercarem / das emoções que as antecederam.
O poeta mente porque é um fingidor mas na verdade não tem ilusões:
Tive uma bicicleta e um sonho, mas nunca a glória / de ter almejado a distância entre a flor e o livro / o voo da ave e o salvo-conduto das águas e do vento. / Não estive só; muitos outros me acompanharam. / Ouviu-se sempre o eco dos passos de quantos, a meu lado / subiram a rua e procuraram a teia e o casulo da casa.
A única certeza feliz é a ligação do poeta à sua terra natal:
A minha terra tem, inegavelmente, a forma do meu coração. / Notai como nela se escuta ainda o balbucio de antigas águas. / Atentai no silêncio. Reparai como nele se cruzam / todas as palavras, mesmo as mais distantes e impronunciáveis. / A eternidade começa aqui.
A lucidez do poeta avisa e proclama que muita coisa poderia ter sido feita
Eu poderia ter amado mais que o lento acordar das vozes submersas. / Poderia ter escrito todos os nomes no poço mais fundo da alma e beber todos os dias a água fresca desses nomes. / Poderia tê-los escrito à lareira e permitir que eles fossem a labareda ágil e eterna que habita o coração dos homens.
Poderia ter feito isso o muito mais mas o poeta escolheu o seu ofício
Contento-me com as palavras deslizando de manso sobre o papel. / Há entre mim e elas, creio que o disse já, um pacto de sangue onde cabe sempre um voo inesperado / dum pássaro insurrecto, planador de confins. / Talvez nem eu nem elas atentemos nas distâncias / que juntos percorremos nem esse seja o mester / para que as palavras foram escritas.
É nesse ofício que ele procura vencer o pó do esquecimento, o mesmo é dizer da morte
Inomináveis filhos do nada para o nada caminhamos. / Fica-nos às vezes a luz e a melodia dum poema. / Dizemo-lo então de nós a nós e é então que a casa, as árvores / e as palavras resplandecem. Quem pode pedir-nos mais?
Só o poema e a palavra do poema ficam quando tudo se perde no silêncio
Como um nómada indeciso, caminha o poema sobre o papel. / água vegetal, angular pedra da casa, trave-mestra da emoção, aqui me tens. / Carne e espírito do tempo, devolvo-te intacto ao secreto lugar onde os rios incendeiam as suas águas na volúpia da nascente.
Todos os poetas aspiram a ser a voz da terra mesmo que essa voz, para ser solene e altiva, surja na humidade e na ternura das pequenas coisas:
Ah, como dizer de outra forma da harmonia das pequenas coisas?
Notai como mesmo as que se ausentaram, persistem.
É escutá-las agora, por dentro das caixas-de-música dos silêncios
Numa mansidão que parece feita para a solícita comoção
dos que chegam e dos que partem.
Inesgotáveis veias da casa, multiplicam-se para lá dela.
Só depois, ao fechar da noite, se tornam violinos de vento.
(Lido na cerimónia de entrega do Prémio Cidade de Almada / Poesia a Hugo Santos)
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