ANO NOVO

Eis-nos entrados em 2008, com maior peso sobre os ossos e certamente menos ilusões. Nele ingressámos não com o pé direito (provocaria desequilíbrio), mas com os dois pés bem assentes na terra, que o tempo não está para brincadeiras.
O Presidente, com esperteza e sensibilidade - tentando levar-nos a esquecer os dez anos em que geriu o país -, alertou-nos para os problemas do Portugal dos nossos dias (mas haverá alguém que ainda não tenha dado por deles... mesmo aqueles que tentam tapar o sol com a peneira?): a erosão da exigência e da responsabilidade na Educação, o acentuar da desertificação humana dos meios rurais interiores e litorais por políticas desastradas ou mal-intencionadas, a quase-total descrença no sistema judicial, as falsas políticas de promoção da natalidade, o desemprego, o abismo entre ricos e pobres, etc., etc., etc.. São realidades que nenhuma propaganda irá esconder... Entretanto recebemos mensagens (sms) de amigos que nos escrevem de longe: a Ana, que partiu para Inglaterra; o André, que por lá anda; a Emília e o Vítor, que só na América viram o seu valor reconhecido; a Paula, que ficará pela Alemanha... Unamuno escreveria: "Que desgraçado país!"
Lá fora, assistimos com preocupação ao processo de instalação da anarquia no Paquistão, estratégia dos terroristas para melhor chegarem às armas atómicas com que querem ameaçar-nos e, quiçá, destruir-nos. Vemos, entretanto, como nuvem cinzenta a possível subida de um politicamente-correcto ao poder global - que nada resolverá, com grandes riscos para todos nós.
Apesar tudo, resta-nos a Esperança, a Esperança num Homem que saiba entender os sinais dos tempos, desvelar e acolher a Luz onde quer que ela se manifeste. Só a Esperança nos salvará! É neste princípio - acreditando nela - que vos desejo um 2008 muito feliz.

(Na imagem, uma foto de André Alface.)

José do Carmo Francisco

Cristovam não é Cristóvão
ou
Esta juventude é um espanto…

A história é complicada mas conta-se em poucas palavras. Tenho dito e escrito já diversas vezes que Portugal é um país de analfabetos e que um escritor é sempre outra coisa. Costumo explicar esta ideia com o caso Alves Redol. Tendo eu vivido em Vila Franca de Xira entre 1961 e 1966 descobri que as pessoas da terra, mesmo as de esquerda, davam mais importância à D. Inocência Redol que tinha um colégio de meninas do que ao escritor António Alves Redol seu irmão. Na revista «Pública» sai há pouco tempo um trabalho do jornalista Adelino Gomes sobre a minha turma de 1962 que deu gente importante a este país. Mas a história é agora outra.
Descobri num livro chamado Jardins com história (Edições Inapa) com coordenação de Cristina Castel-Branco um conjunto de citações de poetas e de ficcionistas portugueses: Fernando Pessoa, Sophia, Miguel Torga, Eça de Queirós, António Gedeão, Sebastião da Gama, José Régio, Camilo Pessanha, Frei Agostinho da Cruz e Cristovam Pavia. E aqui é que surge o problema: nas páginas 58, 94 e 156 deste livro aparece escrito o nome do poeta como Cristóvão Pavia quando toda a gente sabe (devia saber…) que o nome é bem Cristovam Pavia. Também igualmente grave é o facto de aparecer como título do livro de onde é feita a citação «Círculo de Poesias» quando o «Círculo de Poesia» é o nome mas da colecção da Moraes Editores em cujo catálogo também tenho dois livros. Sei do que falo. Já agora o nome civil do poeta é bem Francisco António Flores Bugalho e a sua vida civil decorreu entre 1933 e 1968. Mas isso já é outra história. O Jô Soares tinha razão: esta juventude é um espanto…





Caras amigas e caros amigos,

Gostaria muito de vos desejar individualmente
um Natal cheio de alegria e de paz.
Sendo isso impossível
(os leitores deste blogue já são alguns...),
mando-vos um abraço forte
e deixo aqui os meus desejos mais sinceros:
tudo de bom para vós!


artigo originalmente publicado na revista Espacio/Espaço Escrito

está agora disponível no


assim como a recensão




Boas leituras!
José do Carmo Francisco

A «árvore de Natal» de António Ferro e a «Trama»

Há coisas no mínimo misteriosas. Minutos depois de receber a mensagem de telemóvel com Rita Ferro a anunciar o facto de uma rua em Cascais passar a ter o nome de António Quadros, descobri uma nova Livraria Alfarrabista. A nova rua é perto do Hotel Cidadela e será António Capucho a fazer a inauguração. A «Trama» é um jovem estabelecimento livreiro que fica na Rua de São Filipe Nery nº 25B, ali ao Largo do Rato. Pois lá descobri um livro de António Ferro com o curioso título de Árvore de Natal. A editora é a Portugália e os desenhos são de Jorge Barradas. O livro é de 1920. Vejamos um poema que poderá ser para muitos de nós (como foi para mim) uma revelação. Por detrás do editor do Orpheu e do homem que deu um jeito para não se perder o tal livro do Fernando Pessoa (Mensagem) há uma voz poética. Vejamos o soneto "Madrugada":
«Tu vais ser mãe… Tu vais amanhecer…/ No teu ventre suave que se enflora / Eu sinto já prenúncios de uma aurora / O sol que, atrás das nuvens, quer romper/ Vais ter um filho de outro, meu amor / Tu que já foste mãe dum filho meu! /Um filho sim… Que o meu amor nasceu /Como um menino, no teu corpo em flor…/ Mesmo esse filho que tu vais gerar / É quase meu… Pois com o coração /É que o teu corpo o tem que imaginar / Lê esta sina, escuta esta adivinha: / Parecer-se-á com ele na expressão / Mas vai ter uma alma igual à minha!»
Há coisas no mínimo misteriosas. Com minutos de intervalo um rua nova com o nome de António Quadros em Cascais e um livro antigo de António Ferro numa livraria nova aqui ao pé do Rato.