TAMBÉM EU...

... gostaria de leccionar numa escola onde o Conselho Pedagógico tivesse tudo em seu sítio e apresentasse à Tutela uma proposta fundamentada como esta. Prova quão impossível é cumprir a avaliação do desempenho docente (não será esse o objectivo do Ministério, para prolongar ainda mais o congelamento de progressões?) , agora concretizada pelo Decreto Regulamentar nº. 2/2008, de 10 de Janeiro, conforme já manifestara conscientemente um homem vertical como José Matias Alves.
Nicolau Saião

"Em Portalegre cidade"... ou Portalegre no seu melhor

Não é todos os dias que, na chamada grande imprensa, o nome da cidade de Portalegre é citado. Em geral costuma ser pelos motivos menos positivos: um burlão que é apanhado com a doutorice na botija, um desastre ou um assalto perpetrado em plena luz do dia na rua mais concorrida da terra, um grupo de funcionários/polícias que, por denuncia do seu comandante da altura, é investigado e (processado?) por se ter enredado em "ligações perigosas" com comerciantes, um caso momentoso no hospital, noutra entidade funcionalista, ou a derrocada súbita duma casa entaipando quem lá morava...
Verdade seja que lá de vez em quando também aparecem citados, ainda que ao de leve, acontecimentos positivos de relevo: um prémio atribuído, à autarquia e ao arquitecto, pela recuperação de um edifício histórico integrado na renovação da cidade, os sucessos de autores de reconhecido mérito (em geral depois discriminados portas adentro, porque não interessa que façam concorrencia aos "galhetas" semi-intelectuais), um alto empresário que, segundo consta, virá para cá trabucar, um bispo novo que vai ser para cá nomeado, etc...Enfim, creio que me faço entender.

[ler continuação no Arquivo do Norte Alentejano]

José do Carmo Francisco


Balada da Calçada do Combro

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem

ÁNGEL GONZÁLEZ (1925-2008)

Soube da sua morte ontem, através do blogue do poeta Álvaro Valverde, que assim escreveu:
"Ha muerto uno de nuestros mejores poetas del XX. Como mi amigo Josemari, lo tuve como uno de mis maestros, aunque con el tiempo dejara de ser uno de mis autores de cabecera. Con todo, libros como Tratado de urbanismo o Muestra... siempre formarán parte de la biblioteca de mi vida. Tampoco puedo olvidar sus textos sobre Machado y Juan Ramón.Me encontré con él en algunas ocasiones pero sólo llegamos a saludarnos. La primera, en presencia de Luis Muñoz, en la fiesta del Loewe del 92, en el Círculo de Bellas Artes de Madrid. De su biografía, destacaría su paso por la escuela, entre las nieves de sus montañas asturianas, con la enfermedad y la postguerra a cuestas. Aníbal Núñez me contó que la poesía de González fue una referencia fundamental en sus comienzos. En el libro que le dedicara Debicki (en la memorable colección Los Poetas, de Júcar), me encuentro un recorte de El País donde se anunciaba su boda con Susana Rivera. Entre los asistentes, Dulce Chacón. Era, según creo, el año 90."
Foi com tristeza que recebi a notícia. Era um dos poetas de Espanha que me apetecia ler com frequência. Aqui ficam, em jeito de homenagem, três poemas que dele traduzi:



Para que eu me chame Ángel González

Para que eu me chame Ángel González,
para que a minha existência pese sobre a terra,
foi necessário um largo espaço
e um longo tempo:
homens de todo o mar e toda a terra,
férteis ventres de mulher, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
noutro corpo novo.
Solstícios e equinócios alumiaram
com sua cambiante luz, seu variado céu,
a viagem milenária da minha carne
escalando pelos séculos e pelos ossos.
Da sua passagem lenta e dolorosa
da sua fuga até ao fim, sobrevivendo
a naufrágios, aferrando-se
ao último suspiro dos mortos,
já não sou mais do que o resultado, o fruto,
o que fica, apodrecido, entre os restos:
isto que vedes aqui,
apenas isto:
um escombro tenaz, que resiste
à sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a sítio algum. O êxito
de todos os fracassos. A enlouquecida
força do desalento...

(in Áspero mundo, 1956)



Cidade zero

Uma revolução.

Depois, uma guerra.

Naqueles dois anos – que eram
a quinta parte de toda a minha vida –
eu havia experimentado sensações distintas.

Imaginei mais tarde
o que é a luta na qualidade de homem.
Mas para mim, criança,
a guerra era apenas:

suspensão das aulas na escola,
Isabelita em cuecas na cave,
cemitérios de automóveis, andares
abandonados, fome indescritível,
sangue descoberto
na terra ou nas pedras da calçada,
um terror que durava
o mesmo que o frágil rumor dos vidros
depois da explosão,
e a quase incompreensível
dor dos adultos,
suas lágrimas, seu medo,
sua ira sufocada,
que, por alguma ponta,
entrava na minha alma
para desvanecer-se logo, rapidamente,
perante um dos muitos
prodígios quotidianos: descobrir
uma bala ainda quente,
um incêndio
de um edifício próximo,
os restos de um saque
– papéis e retratos
no meio da rua...

Tudo passou,
é tudo confuso agora, tudo
menos aquilo que apenas entendia
naquele tempo
e que, anos mais tarde,
ressurgiu dentro de mim, então para sempre:

este medo difuso,
esta ira repentina,
estas imprevisíveis
e verdadeiras vontades de chorar.

(in Tratado de urbanismo, 1967)



Velho tapete

Toda a gente era pobre naquele tempo,
todos entreteciam
sem o saber
– e às vezes sorriam –
os fios de tristeza
que formavam a trama da vida
(inconsistente tela, mas
que fio teimoso, a esperança).
Umas linhas
de amor douravam
uma ponta daquele tapete sombrio
na qual eu era um menino que corria
não sabendo de quê ou para onde,
talvez para o espaço luminoso
que urdiam incansáveis
as obstinadas mãos amorosas.

Nunca cheguei a essa luz.
Quando ia alcaná-la,
o tempo, mais veloz,
já a tinha apagado, com a sua pátina.

(in Otoños y otras luces, 2001)


Nota: Qualquer das três traduções apresentadas foi publicada inicialmente na antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX, organizada por Antonio Sáez Delgado e por mim vertida para a nossa língua (Coimbra, Alma Azul, 2003), na qual se incluem ainda poemas de Miguel de Unamuno, Antonio Machado, Juan Ramón Jiménez, Pedro Salinas, Jorge Guillén, Vicente Aleixandre, Federico García Lorca, Luis Cernuda, Rafael Alberti, Miguel Hernández, Blas de Otero, José Hierro, José Ángel Valente, Jaime Gil de Biedma, Francisco Brines, Claudio Rodríguez, Pere Gimferrer, Antonio Colinas e Leopoldo Maria Panero.
José do Carmo Francisco
(in Gazeta das Caldas)

«As Filarmónicas perdidas
e as lágrimas doiradas pelo Sol»

«Hoje vamos tocar a DINA!» – foram estas as primeiras palavras do meu primo Luís Almeida com a trompete debaixo do braço à porta da igreja paroquial de Santa Catarina no passado dia 25 de Novembro. Eu tinha chegado há minutos mas como parei logo no café do Garcia para uma bica escaldada e dois dedos de conversa com ele e com o Hélder Funcheira, não me tinha ainda apercebido que era o dia da festa de Santa Catarina.
Pouco tempo depois já estava integrado na procissão ao lado de dois amigos de longa data (Manuel e Joaquim Clímaco) e atrás do meu filho e do meu pai. Com os primeiros acordes da marcha solene pelos músicos da Filarmónica Catarinense e com o repicar dos sinos (já não está lá o Zé Pombo…) tomou conta de mim uma emoção muito especial. As bandeiras e os estandartes, a imagem de Santa Catarina levada num andor por quatro rapazes novos, todo o ambiente da procissão com as colchas nas varandas e verdura no chão, tudo me fazia recuar ao tempo da Estrada de Macadame. A procissão continuou, lenta e solene, e as minhas emoções iam subindo de tom. Depois da volta no fim da Índia e da passagem na fábrica de cutelarias IVO, aconteceu uma cena emotiva: ver a figura debilitada do António «Cuco», amparado a duas bengalas e com uma luva para aquecer a mão fria. Lembrei-me logo dos músicos dos velhos tempo como o seu pai José «Cuco» e o seu irmão Abílio. Mas também o Joaquim Carvalho e os filhos José, António e Edmundo. E o grupo dos Freires: o meu tio Joaquim, o Vítor, o Juventino e o António Freire. Sem esquecer outro grupo: o João «Calão», o Artur «Balaú», o Zé Coimbra, o António Branco, o Américo Paulo, o António «Larila», o João «Areia», o «Ernestinho», o Abílio «Milhafre», o David Funcheira sempre disponível para a trompa e o meu querido primo «Palheirão» com o seu contrabaixo. E claro, também o meu avô José Almeida Penas e os meus tios Álvaro e Armindo, por último mas não em último. E todos os outros que posso não recordar hoje mas não estão esquecidos na memória mais profunda.
A estranha emoção de ver o António «Cuco» impedido de ser actor e obrigado a ser apenas espectador de uma festa que ele ajudou tantas vezes a edificar, levou-me a chorar algumas lágrimas que o Sol, batendo de chapa, acabou por ajudar a doirar. Os acordes da marcha solene DINA também ajudaram ao aparecimento das lágrimas. Lembrei-me nessa altura do título de um livro de poemas dum escritor dos Açores, Mário Machado Fraião. O livro chama-se Todas as Filarmónica perdidas e um poema por dizer. Lembrei-me também que quando vivi no Montijo não me separei das Filarmónicas. Havia lá duas em 1957: a «Democrática 2 de Janeiro» e a «Imparcial 1º de Dezembro». Tal como em Santa Catarina, eu no Montijo ia sempre atrás da música. Em Vila Franca de Xira havia a Banda do Ateneu Artístico Vila-franquense. Acompanhei de perto a sua música desde 1961 a 1966 e lá voltei em 1969 para acompanhar o funeral do escritor Alves Redol. Fazia muito frio, era Novembro e a marcha fúnebre deixou-me muito comovido. Tal como a marcha DINA no passado dia 25 de Novembro em Santa Catarina, durante a procissão da festa da nossa padroeira. Não há dúvida: a nossa vida é feita de Filarmónicas perdidas, de emoções fortes e de lágrimas doiradas pelo Sol. Se não fosse assim também não valia a pena. Não era vida; era apenas subsistência. E isso não interessa a ninguém que quer ser (mesmo!) uma pessoa. Ver os miúdos e as miúdas novas no lugar dos velhos filarmónicos do meu tempo, transmite uma ideia forte: a única resposta à morte e às suas emboscadas é a vida.