AMADEU BAPTISTA

Se não tivesse ganho estes prémios,estaria na miséria


Vencedor recente da edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, Amadeu Baptista (n. 1953) começou a publicar em 1982 (As Passagens Secretas) e tem 20 livros editados em Portugal, além de poemas traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.
Em entrevista feita por e-mail, falou a este blogue da génese de Sobre as Imagens (o livro premiado), da escrita compulsiva, do seu “sistema” poético, do desemprego que vai enganando com o dinheiro dos vários prémios ganhos nos últimos meses e do “enxovalho” a que a maior parte dos autores estão sujeitos em Portugal.

(A entrevista dada ao blogue Bibliotecário de Babel, cuja entrada se reproduz, pode ser lida também no Triplov. Estrada do Alicerce aproveita assim a ocasião para dar os parabéns a Amadeu Baptista por mais um - merecido... - prémio.)

Nicolau Saião

O MASSACRE DOS INOCENTES

“O governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, avançou esta sexta-feira que «há mais de 13 milhões de operações de crédito» e que, por esse motivo, não lhe compete ver tudo. «Há certas coisas que podem existir e que podem não ser encontradas. São encontradas normalmente por acaso ou por denúncia como neste caso (BCP)», disse Vítor Constâncio no Parlamento, onde está a ser ouvido no âmbito de alegadas irregularidades na instituição financeira. “
(Dos jornais)

As declarações do sr.governador do Banco de Portugal (sublinho: de Portugal, não do Governo, do Estado ou de qualquer fabiano de vulto) são uma pérola que despertaria comicidade se não tivesse um eco trágico. Com efeito, dão bem o tom do descalabro a que chegou esta "democracia tendencial", em que os mandantes, apesar da prosápia que ostentam, parecem - a atender a estas declarações que nos deixam estupefactos - estar enfronhados numa brincadeira de garotos.
Não lembra ao diabo o sr. governador dizer que não tem possibilidades de ver tudo. Se não vê, se isso é de facto assim, devia procurar arranjar os mecanismos que obstassem a que qualquer aventureiro do sector argentário possa fazer o ninho atrás da orelha ao Povo, ao Estado a que deve contas. Além disso, parece-nos que o cidadão vulgar não deve gozar certamente da possibilidade material (a não ser que disponha dos poderes do Mandrake) de conseguir tirar milhões da cartola, para empregar esta expressão que desejaria sugestiva...
O que o sr. governador, que é regiamente pago e muito bem, pois deve fazer um trabalho excelente, nos deixa inferir - é que o Estado de que é alto funcionário está inerme como um anjola perante os díscolos de alto coturno. Assim sendo, eu pasmo (ou não pasmo, o que vem a dar no mesmo) e fico com a certeza, material e comezinha, de que esta democracia tão festejada pelo sr. primeiro-ministro e outros maravilhosos mantenedores do progresso que nos envolve está de facto, como costuma dizer-se, “de cabeça para baixo”.
Não fui o primeiro a fazê-lo - outros antes de mim, na Assembleia da República, já disseram coisas que o sr.governador certamente apreciou, porque decerto, apesar da sua aparência macambúzia, é pessoa com senso de humor. Mas eu quero dar-lhe os parabéns pela sua “verve”.
O país necessita, como do pão para a boca, de pessoas assim expeditas e vivazes!
TAMBÉM EU...

... gostaria de leccionar numa escola onde o Conselho Pedagógico tivesse tudo em seu sítio e apresentasse à Tutela uma proposta fundamentada como esta. Prova quão impossível é cumprir a avaliação do desempenho docente (não será esse o objectivo do Ministério, para prolongar ainda mais o congelamento de progressões?) , agora concretizada pelo Decreto Regulamentar nº. 2/2008, de 10 de Janeiro, conforme já manifestara conscientemente um homem vertical como José Matias Alves.
Nicolau Saião

"Em Portalegre cidade"... ou Portalegre no seu melhor

Não é todos os dias que, na chamada grande imprensa, o nome da cidade de Portalegre é citado. Em geral costuma ser pelos motivos menos positivos: um burlão que é apanhado com a doutorice na botija, um desastre ou um assalto perpetrado em plena luz do dia na rua mais concorrida da terra, um grupo de funcionários/polícias que, por denuncia do seu comandante da altura, é investigado e (processado?) por se ter enredado em "ligações perigosas" com comerciantes, um caso momentoso no hospital, noutra entidade funcionalista, ou a derrocada súbita duma casa entaipando quem lá morava...
Verdade seja que lá de vez em quando também aparecem citados, ainda que ao de leve, acontecimentos positivos de relevo: um prémio atribuído, à autarquia e ao arquitecto, pela recuperação de um edifício histórico integrado na renovação da cidade, os sucessos de autores de reconhecido mérito (em geral depois discriminados portas adentro, porque não interessa que façam concorrencia aos "galhetas" semi-intelectuais), um alto empresário que, segundo consta, virá para cá trabucar, um bispo novo que vai ser para cá nomeado, etc...Enfim, creio que me faço entender.

[ler continuação no Arquivo do Norte Alentejano]

José do Carmo Francisco


Balada da Calçada do Combro

A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses

Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas

Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz

Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão

Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua

Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura

Nos cafés ao fim do dia
Os boatos são notícias
Falar é uma teimosia
À paisana são polícias

«Suplemento literário»
Quinta-feira nos jornais
Via o tempo ao contrário
Onde os sonhos eram reais

Passam já quarenta anos
Sobre mim sobre a calçada
Fora estes mitos urbanos
Parece que não houve nada

Excepto talvez a ternura
Que se gastou em excesso
A calçada é uma gravura
Mas virada do avesso

Onde até eu sou presente
Na multidão disfarçado
Estou no lugar da frente
Assim vou a todo o lado

Numa porta de Livraria
Vi Bocage em imagem
Na paragem da alegria
Acabou esta viagem