A MANDRÁGORA EM BICICLETA

Vai, em breve, sair mais um número de Bicicleta, organizada por Manuel Almeida e Sousa e dirigida por Bruno Vilão. A revista, em fase de impressão, trabalha sem rede; por outras palavras, tal como os anteriores números, não tem subsídio e acontece por ternura teatral da Mandrágora.
Será lançada no decorrer da Edita de Punta Umbria (princípio de Abril).
Há nela colaborações de Antonio Gomez, Renato Suttana, A.Sousa, B. Vilão, Fernando Aguiar, Vergílio Alberto Vieira, Clemente Padin, Uberto Stabile, Pedro Serra, João Bentes, Gonçalo Mattos, traduções de Georges Ribemont- Dessaignes e Tristan Tzara e dois poemas referentes a Luiz Pacheco, Lud e Pedro Oom, além de uma carta inédita de Mário Cesariny dirigida a NS. A encerrar condignamente, o geral da peça em representação, sobre texto de Maquiavel transtornado por Almeida e Sousa. E um pequeno manifesto para condimentar.
A Bicicleta será uma das revistas que estarão presentes na Bienal do Livro e das Artes do Ceará (Fortaleza) deste ano.

Nicolau Saião
(c/ ilustração de João Garção)


A nostalgia de viver...

De há uns tempos a esta parte tenho a doce sensação de ter voltado atrás no tempo, tornando-me agradavelmente mais novo. Pois está de novo em curso, abençoadamente, um tique que não é bem tique, um estilo que não é bem estilo - será antes uma amorável característica de agora - propiciado pelos "orgãos de informação" do reino.

"Fontes policiais afirmam...Fontes policiais sustentam...De acordo com fontes policiais...".Ou seja: de acordo com fontes policiais a realidade é esta, a que elas referem. E não outra.Por outras palavras: a Polícia como fulcro e penhor da verdade. Nomeadamente do número e mansuetude de manifestantes...

Falemos sem justos sarcasmos: esta é a melhor bitola, para quem não abdica de ter um pensamento autónomo, para aferir da acentuada policiarização do regime, estimulada pelo mesmo.Se juntarmos a isto os discretos actos de intimidação e os menos discretos de censura levados a efeito em diversas instancias, mesmo informativas e alegadamente de referência, teremos a radiografia perfeita da "democracia" em que vamos existindo.

A saudade que eu já tinha destes carinhos!

"Plaudite, cives!", como dizia Marco Aurélio.
José do Carmo Francisco

«Gente feliz com lágrimas» vinte anos depois

Parece que foi ontem mas já lá vão vinte anos que saiu a público o livro de João de Melo Gente Feliz com lágrimas. Uma edição especial em formato de bolso foi apresentada pela Editora D. Quixote no passado dia 7 de Março na Casa dos Açores – como não podia deixar de ser. Estou a ler o livro com a surpresa da primeira vez, com o fascínio da primeira vez, com a emoção da primeira vez. E, se tivesse que fazer de novo uma nota para um jornal, citando a página significativa que mostra a respiração da personagem chave deste livro (Nuno Miguel) escolhia a página 93: «A primeira vez que fui levado a conhecer o mar de perto tinha nove anos. Ainda hoje não sei, não consigo acertar com o vocabulário que melhor se ajuste a descrever o mercúrio das trevas do alto-mar, nessa tenebrosa viagem entre Ponta Delgada e a luminosa cidade de Lisboa. Tudo se confunde de resto com as águas turvas e o tempo sombrio da infância. Felizes dos que hoje cruzam o espaço para aqui chegarem, viajando de avião. Que sejam felizes mesmo sem saberem porquê. Felizes as crianças, os jovens e os cidadãos adultos deste país de hoje: conhecem o mar quando nascem, vêm-no de cima dos aviões e não precisam de viver vigiados e policiados. A minha geração acabou com a guerra de África, perdoou os esbirros e devolveu ao povo português o céu diáfano do seu país escuro. Pode morrer de consciência tranquila: deu o seu salto mortal no trapézio, caiu de pé, não venha ninguém dizer-lhe que o circo vai nu ou que são falsos o Sol, o mar, os dias de agora e os que a estes hão-de seguir-se.» Fim de citação; parabéns ao autor e à editora. Parabéns aos leitores que vão sair deste livro mais lúcidos, mais emocionados e mais felizes.