José do Carmo Francisco
«Não ponha o insecticida na salada!»
Foi no tempo da «Estrada de macadame» que eu vivi os quatro anos da então chamada Escola Primária, além do exame de admissão à Escola Técnica e ao Liceu. Entrei em Outubro de 1958 para a Escola Primária do Montijo e lá fiz a primeira classe. No ano seguinte, fiz a segunda classe. Entretanto fui fazer a terceira classe a Santa Catarina com o respectivo exame a ser realizado nas Caldas da Rainha em Abril de 1961 na escola que era também delegação escolar, entre o cemitério e o parque de campismo. Voltei em Julho desse ano para fazer o exame da quarta classe e um mês depois lá estava em Leiria a vencer os exames de admissão à Escola Técnica e ao Liceu Nacional. Em Vila Franca de Xira vivi a partir de Outubro de 1961, onde fiz o Ciclo Preparatório e o Curso Geral do Comércio e tive a grande sorte de ficar livre das actividades da Mocidade Portuguesa graças ao simpático contínuo senhor Moreira. Com a desculpa de não ter dinheiro para a farda, acabei por não ter que cantar a célebre marcha com poema de Mário Beirão, do seu livro Novas estrelas – «Lá vamos cantando e rindo / levados, levados sim».
Este incidente numa escola secundária do Porto, mostrado em todas as televisões, com uma aluna de quinze anos a empurrar com violência uma professora por causa de um telemóvel, lembrou-me a célebre frase do programa de Jô Soares «Viva o Gordo! Abaixo o regime!» quando um grupo de meninas com as suas saias muito curtas e os seus decotes muito compridos gritava para o artista, desmoralizado porque tinha acreditado em tudo o que diziam na televisão, enchendo com o seu corpo um caixote de lixo: «Não ponha o insecticida na salada! Veja o que está fazendo!»
Estes alunos de 2008 que empurram professores porque não dispensam o telemóvel mesmo durante as aulas, são aquilo a que eu chamo a geração «Morangos com veneno». Toda a gente lhe chama «Morangos com açúcar» mas eu chamo e sempre chamei «Morangos com veneno». Outra coisa não posso chamar a uma gentinha que vê na televisão um miúdo com uma prancha de surf na mão esquerda e um copo de água tónica na mão direita e pensa que a vida real é isso. Um gentinha que dá um beijo ao fim de dois minutos de ter sido apresentada a outra gentinha num bar de uma praia. E pensa que a realidade é isso, esse beijo dado dois minutos depois da apresentação, sem esquecer a prancha de surf e o copo de água tónica. E pensa que a realidade real é isso, essa mistura de aventura e de imponderabilidade num lugar onde ninguém é responsável por nada mas onde tudo pode acontecer. A felicidade pode acontecer sem motivos, sem encontro, sem esforço, sem generosidade, apenas por acaso, apenas porque o filme é assim.
Uma geração que empurra a professora porque não percebe que o telemóvel tem que estar desligado durante uma aula, é uma geração que nunca ouvirá o grito das meninas do Jô Soares «Não ponha o insecticida na salada!» porque simplesmente eles não ouvem nada. A não ser os seus telemóveis. Além de tudo o mais, eles continuam a pensar que os morangos que a televisão lhes serve todos os dias são acompanhados com açúcar mas na verdade são morangos com veneno. Tudo aquilo é venenoso.
Jô Soares no programa «Viva o Gordo! Abaixo o regime!» quer colocar insecticida na salada porque descobre que o que dizem na TV é uma mentira. Os meninos que empurram as professoras por causa dos telemóveis não percebem que a TV é uma mentira e o mal é que já não vão a tempo de perceber.
(Publicado in Gazeta das Caldas)

A MANDRÁGORA EM BICICLETA
Vai, em breve, sair mais um número de Bicicleta, organizada por Manuel Almeida e Sousa e dirigida por Bruno Vilão. A revista, em fase de impressão, trabalha sem rede; por outras palavras, tal como os anteriores números, não tem subsídio e acontece por ternura teatral da Mandrágora.
Será lançada no decorrer da Edita de Punta Umbria (princípio de Abril).
Há nela colaborações de Antonio Gomez, Renato Suttana, A.Sousa, B. Vilão, Fernando Aguiar, Vergílio Alberto Vieira, Clemente Padin, Uberto Stabile, Pedro Serra, João Bentes, Gonçalo Mattos, traduções de Georges Ribemont- Dessaignes e Tristan Tzara e dois poemas referentes a Luiz Pacheco, Lud e Pedro Oom, além de uma carta inédita de Mário Cesariny dirigida a NS. A encerrar condignamente, o geral da peça em representação, sobre texto de Maquiavel transtornado por Almeida e Sousa. E um pequeno manifesto para condimentar.
A Bicicleta será uma das revistas que estarão presentes na Bienal do Livro e das Artes do Ceará (Fortaleza) deste ano.
Vai, em breve, sair mais um número de Bicicleta, organizada por Manuel Almeida e Sousa e dirigida por Bruno Vilão. A revista, em fase de impressão, trabalha sem rede; por outras palavras, tal como os anteriores números, não tem subsídio e acontece por ternura teatral da Mandrágora.
Será lançada no decorrer da Edita de Punta Umbria (princípio de Abril).
Há nela colaborações de Antonio Gomez, Renato Suttana, A.Sousa, B. Vilão, Fernando Aguiar, Vergílio Alberto Vieira, Clemente Padin, Uberto Stabile, Pedro Serra, João Bentes, Gonçalo Mattos, traduções de Georges Ribemont- Dessaignes e Tristan Tzara e dois poemas referentes a Luiz Pacheco, Lud e Pedro Oom, além de uma carta inédita de Mário Cesariny dirigida a NS. A encerrar condignamente, o geral da peça em representação, sobre texto de Maquiavel transtornado por Almeida e Sousa. E um pequeno manifesto para condimentar.
A Bicicleta será uma das revistas que estarão presentes na Bienal do Livro e das Artes do Ceará (Fortaleza) deste ano.

Nicolau Saião
(c/ ilustração de João Garção)
A nostalgia de viver...
De há uns tempos a esta parte tenho a doce sensação de ter voltado atrás no tempo, tornando-me agradavelmente mais novo. Pois está de novo em curso, abençoadamente, um tique que não é bem tique, um estilo que não é bem estilo - será antes uma amorável característica de agora - propiciado pelos "orgãos de informação" do reino.
"Fontes policiais afirmam...Fontes policiais sustentam...De acordo com fontes policiais...".Ou seja: de acordo com fontes policiais a realidade é esta, a que elas referem. E não outra.Por outras palavras: a Polícia como fulcro e penhor da verdade. Nomeadamente do número e mansuetude de manifestantes...
De há uns tempos a esta parte tenho a doce sensação de ter voltado atrás no tempo, tornando-me agradavelmente mais novo. Pois está de novo em curso, abençoadamente, um tique que não é bem tique, um estilo que não é bem estilo - será antes uma amorável característica de agora - propiciado pelos "orgãos de informação" do reino.
"Fontes policiais afirmam...Fontes policiais sustentam...De acordo com fontes policiais...".Ou seja: de acordo com fontes policiais a realidade é esta, a que elas referem. E não outra.Por outras palavras: a Polícia como fulcro e penhor da verdade. Nomeadamente do número e mansuetude de manifestantes...
Falemos sem justos sarcasmos: esta é a melhor bitola, para quem não abdica de ter um pensamento autónomo, para aferir da acentuada policiarização do regime, estimulada pelo mesmo.Se juntarmos a isto os discretos actos de intimidação e os menos discretos de censura levados a efeito em diversas instancias, mesmo informativas e alegadamente de referência, teremos a radiografia perfeita da "democracia" em que vamos existindo.
A saudade que eu já tinha destes carinhos!
"Plaudite, cives!", como dizia Marco Aurélio.
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