José do Carmo Francisco

Cal
de José Luís Peixoto

A cal que dá título ao livro pode ser a cal da vida («a casa é caiada ano sim, ano não») ou a cal da morte, a do caixão dos mortos. Vida e morte, amor e ódio, vazio e esperança – são estes os limites das narrativas, dos poemas e da peça de teatro que integram este volume. As crianças correm pelas ruas da vila: «O céu das hortas é maior que o mundo: / a vila apresenta ruas calcetadas para / homens de sapatinho fino, mulheres / sozinhas e cachopos: eh, cachopo de má raça. / Vamos aos figos e passamos a vida: / a vila às vezes é desenhada por esta aragem que é o lápis de um carpinteiro.» Os velhos recusam a velhice («sentia-se tão velha como se tivesse nascido no primeiro dia do mundo») e às vencem conseguem vencer o tempo: «Nem o homem nem Ana tinham um único cabelo branco.» Também recusam a realidade servida pela televisão: «só mostram este homem a falar, bem podiam mostrar uma praia ou um casamento.» Também recusam a solidão e o vazio: «Porque chora vossemecê Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gosta muito de si.» A peça de teatro tem cinco protagonistas, todos com mais de 70 anos. A partir da solidão da aldeia («às vezes até me parece que isto tudo é uma espécie de sonho») chegam à esperança: «Tanto que eu esperei por isto, meu amor bendito. Agora podemos descansar, temos a vida toda à nossa frente.» O autor não precisou de chegar aos 80 anos para entender a sabedoria da vida que interessa, a do amor: «Em natais, festas de aniversário com pão-de-ló ou em casamentos, as mulheres de 80 anos reúnem uma assembleia de afilhadas solteiras e explicam-lhes que a vida é transparente e que o passado, fechado em armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como as pratas dos chocolates que entregam nas mãos das crianças.»

(Editora: Bertrand, Capa: Vera Braga)
José do Carmo Francisco

Um neto para Vó Mam

Um amor que continua
Nossa vida é uma estrada
Moramos na mesma rua
Numa cidade inventada

Um amor multiplicado
Em trinta anos inteiros
Chega forte a todo o lado
Levado por mensageiros

Cada neto uma bandeira
Ministros de uma nação
Todos juntos numa eira
Cabem no seu coração

Na colheita das canseiras
As lágrimas são cereais
As tulhas são verdadeiras
E cheias, não levam mais

Na casa da sua costura
Esquina do nosso destino
Há um olhar que procura
O retrato dum menino

O amor que não termina
Imensa a rede de afecto
No coração feito oficina
Há lugar para um bisneto

Algures na Grã Bretanha
Entre um rio e um jardim
Há um retrato que apanha
A luz dum amor sem fim

Se aqui estivesse pedia
Avó, a bênção da Paz!
E a Vó Mam respondia
Deus te abençoe, Tomás!

Poderão ler no Triplov o texto da minha intervenção sobre Sebastião da Gama, apresentado ontem na sessão ocorrida na Câmara Municipal de Setúbal, no âmbito do "Dia Municipal da Arrábida", colocado nas comemorações do 84º aniversário natalício do autor de Serra-Mãe. Boa leitura!

Tenho andado um pouco ausente desta casa. Assuntos pessoais e profissionais me têm obrigado a isso. Assim continuarei entretanto até final desta semana.
No próximo dia 10 de Abril - Dia da Arrábida no município de Setúbal - irei proferir uma palestra sobre Sebastião da Gama, a qual será apresentada no salão nobre da Câmara local, pela 16 horas, integrada na homenagem a Joana Luísa da Gama, viúva do poeta. Devido ao trabalho de preparação da intervenção não poderei, assim, actualizar este blogue nos próximos idas. Espero no entanto por todos vós em Setúbal. Até breve!