José do Carmo Francisco

Um neto para Vó Mam

Um amor que continua
Nossa vida é uma estrada
Moramos na mesma rua
Numa cidade inventada

Um amor multiplicado
Em trinta anos inteiros
Chega forte a todo o lado
Levado por mensageiros

Cada neto uma bandeira
Ministros de uma nação
Todos juntos numa eira
Cabem no seu coração

Na colheita das canseiras
As lágrimas são cereais
As tulhas são verdadeiras
E cheias, não levam mais

Na casa da sua costura
Esquina do nosso destino
Há um olhar que procura
O retrato dum menino

O amor que não termina
Imensa a rede de afecto
No coração feito oficina
Há lugar para um bisneto

Algures na Grã Bretanha
Entre um rio e um jardim
Há um retrato que apanha
A luz dum amor sem fim

Se aqui estivesse pedia
Avó, a bênção da Paz!
E a Vó Mam respondia
Deus te abençoe, Tomás!

Poderão ler no Triplov o texto da minha intervenção sobre Sebastião da Gama, apresentado ontem na sessão ocorrida na Câmara Municipal de Setúbal, no âmbito do "Dia Municipal da Arrábida", colocado nas comemorações do 84º aniversário natalício do autor de Serra-Mãe. Boa leitura!

Tenho andado um pouco ausente desta casa. Assuntos pessoais e profissionais me têm obrigado a isso. Assim continuarei entretanto até final desta semana.
No próximo dia 10 de Abril - Dia da Arrábida no município de Setúbal - irei proferir uma palestra sobre Sebastião da Gama, a qual será apresentada no salão nobre da Câmara local, pela 16 horas, integrada na homenagem a Joana Luísa da Gama, viúva do poeta. Devido ao trabalho de preparação da intervenção não poderei, assim, actualizar este blogue nos próximos idas. Espero no entanto por todos vós em Setúbal. Até breve!
José do Carmo Francisco

«Não ponha o insecticida na salada!»

Foi no tempo da «Estrada de macadame» que eu vivi os quatro anos da então chamada Escola Primária, além do exame de admissão à Escola Técnica e ao Liceu. Entrei em Outubro de 1958 para a Escola Primária do Montijo e lá fiz a primeira classe. No ano seguinte, fiz a segunda classe. Entretanto fui fazer a terceira classe a Santa Catarina com o respectivo exame a ser realizado nas Caldas da Rainha em Abril de 1961 na escola que era também delegação escolar, entre o cemitério e o parque de campismo. Voltei em Julho desse ano para fazer o exame da quarta classe e um mês depois lá estava em Leiria a vencer os exames de admissão à Escola Técnica e ao Liceu Nacional. Em Vila Franca de Xira vivi a partir de Outubro de 1961, onde fiz o Ciclo Preparatório e o Curso Geral do Comércio e tive a grande sorte de ficar livre das actividades da Mocidade Portuguesa graças ao simpático contínuo senhor Moreira. Com a desculpa de não ter dinheiro para a farda, acabei por não ter que cantar a célebre marcha com poema de Mário Beirão, do seu livro Novas estrelas – «Lá vamos cantando e rindo / levados, levados sim».
Este incidente numa escola secundária do Porto, mostrado em todas as televisões, com uma aluna de quinze anos a empurrar com violência uma professora por causa de um telemóvel, lembrou-me a célebre frase do programa de Jô Soares «Viva o Gordo! Abaixo o regime!» quando um grupo de meninas com as suas saias muito curtas e os seus decotes muito compridos gritava para o artista, desmoralizado porque tinha acreditado em tudo o que diziam na televisão, enchendo com o seu corpo um caixote de lixo: «Não ponha o insecticida na salada! Veja o que está fazendo!»
Estes alunos de 2008 que empurram professores porque não dispensam o telemóvel mesmo durante as aulas, são aquilo a que eu chamo a geração «Morangos com veneno». Toda a gente lhe chama «Morangos com açúcar» mas eu chamo e sempre chamei «Morangos com veneno». Outra coisa não posso chamar a uma gentinha que vê na televisão um miúdo com uma prancha de surf na mão esquerda e um copo de água tónica na mão direita e pensa que a vida real é isso. Um gentinha que dá um beijo ao fim de dois minutos de ter sido apresentada a outra gentinha num bar de uma praia. E pensa que a realidade é isso, esse beijo dado dois minutos depois da apresentação, sem esquecer a prancha de surf e o copo de água tónica. E pensa que a realidade real é isso, essa mistura de aventura e de imponderabilidade num lugar onde ninguém é responsável por nada mas onde tudo pode acontecer. A felicidade pode acontecer sem motivos, sem encontro, sem esforço, sem generosidade, apenas por acaso, apenas porque o filme é assim.
Uma geração que empurra a professora porque não percebe que o telemóvel tem que estar desligado durante uma aula, é uma geração que nunca ouvirá o grito das meninas do Jô Soares «Não ponha o insecticida na salada!» porque simplesmente eles não ouvem nada. A não ser os seus telemóveis. Além de tudo o mais, eles continuam a pensar que os morangos que a televisão lhes serve todos os dias são acompanhados com açúcar mas na verdade são morangos com veneno. Tudo aquilo é venenoso.
Jô Soares no programa «Viva o Gordo! Abaixo o regime!» quer colocar insecticida na salada porque descobre que o que dizem na TV é uma mentira. Os meninos que empurram as professoras por causa dos telemóveis não percebem que a TV é uma mentira e o mal é que já não vão a tempo de perceber.

(Publicado in Gazeta das Caldas)