UMA DESNECESSIDADE ORTOGRÁFICA

A reforma ortográfica que, em breve, será posta em prática nos países que falam a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes é, quanto a mim, uma desnecessidade e um desperdício de energias.
Ao contrário do que defendem os advogados deste acordo político, o que divide as diversas variantes da nossa língua materna não é, nem nunca foi, a ortografia. Nunca a grafia diferenciada impediu o entendimento dos escritos brasileiros em Portugal ou dos textos portugueses no Brasil ou noutras partes. Temo-nos entendido até agora - e assim continuaríamos, mesmo que não nos impusessem este processo de simplificação (?) da escrita. Quem tenha mínima consciência das várias formas do português falado e escrito sabe que a separação entre elas acontece sobretudo ao nível da pronúncia, do vocabulário e da sintaxe. O que não constitui qualquer problema. É um sintoma de riqueza - que só mentes preguiçosas, amigas da facilidade militante que vai empobrecendo a nossa sociedade, podem rejeitar.
A reforma da ortografia não responde por isto a qualquer necessidade intrínseca. Não partiu de um movimento científico ou cultural de qualquer dos países constituintes da Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, mas da mente de alguns políticos e de alguns académicos especialmente preocupados em uniformizar o que nunca poderá ser uniforme e em submeter tudo às "leis do mercado".
Uma pergunta se impõe então no meu espírito. Se não existem neste "acordo" necessidades culturais ou científicas (e muito menos educativas, pois esta reforma pouco alterará no ensino do Português), que propósitos presidiram então à sua elaboração/aprovação? Um amigo meu lembrou-me há dias a frase de um romance policial: "Sigam o cheiro da massinha..." Assim será? Quem ganharia com isso? Entre dúvidas, uma certeza se me impõe: quem esteve/está por detrás disto será tudo, menos ingénuo.

(Opinião disponível também no Triplov, onde poderão ser lidas as bases do acordo ortográfico.)

São Paulo, de Pascoaes
(alguns apontamentos)



São Paulo, de Teixeira de Pascoaes. Uma biografia onírica que, enquanto tal, vale muito mais como ensaio opinioso, cujas ideias merecem muita discussão. Nos entremeios, é legível um "protestantismo" anti-petríneo e anti-romano do autor. Atraentes as intuições filosóficas. Sublime a linguagem em que tudo é vertido.


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Irrito-me sempre quando vejo factos documentados serem torcidos para servirem ideias preconcebidas. Mas reconcilio-me com Pascoaes quando reconheço a ousadia das suas concepções (mesmo quando não concordo com elas). No São Paulo, pseudobiografia ateoteísta, ou seja, um cripto-ensaio, há luzes que não podem esconder-se. (Despropositada me parece, contudo, a aceitação beata das suas intuições, sem as submeter a um escrutínio crítico, canonizando-as a elas e ao seu autor.)


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As últimas acções serão sempre as mais lembradas. Neste livro também. Os dois últimos capítulos (o penúltimo, sobretudo) são memoráveis. Se a erupção de intuições saborosas atrai este leitor em todos os livros de Pascoaes, a sua capacidade como narrador ágil não pode deixar-lo indiferente.


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Pascoaes é muito maior quando se universaliza.


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Vai uma grande distância entre as biografias de Zweig e as de Pascoaes. Ambas ensaios e ambas registadas num escrita dinâmica e fervente, tudo o mais as separa. Se, para o português, os factos documentados são argolas onde uma corda ténue prende um barco sujeito às vagas do sonho, para o austríaco constituem pilares bem assentes a partir dos quais se eleva um edifício psicológico sólido e verosímil.

(Também aqui.)
Mário Chamie

Fogo no Céu da Boca

Os que possuem a palavra e o relho
se consultam sem assédio
sem assalto no invadido terreno
do seu reino.
Cortam a fibra do meu tédio.

O assalto é coisa certa de direito
de quem tem o relho e o mando
de meu peito.

O assédio é coisa rápida de comando
de quem tem a estaca e a cerca
de meu campo.

Não são lúbricos os que possuem
o código de meu tédio
que, mais que meu, é público.

São súditos de seu juízo
se me julgam
em seu inquérito.

Eu os compreendo com o desprezo
que os enerva
quando piso no terreno do meu reino
e renego a paz que me renega.

Mas não espero o reverso da medalha.
Em vez da paz é a guerra
o que me dão esses morcegos
fortificados em sua muralha.

Eu os desprezo com o descrédito
que os assalta no assédio
com que atacam a retaguarda
de meu tédio sem ressalva.

Ganham a batalha, pois tudo têm
para o triunfo de seu reino:
a palavra e o relho, o código
e o súdito sem remédio
entre a estaca e a cerca
de seu terreno.

Mas não me rendo, nesse entrevero.
Do fundo de minha derrota
vejo o pânico dos que não lambem
o barro de vossa bota
na poça de nosso sangue.

(in A Quinta Parede, Rio de Janeiro, 1986)

ao diário espanhol Hoy.
Conduzida por Antonio Sáez Delgado.
Tradução disponível aqui.
José do Carmo Francisco

Cal
de José Luís Peixoto

A cal que dá título ao livro pode ser a cal da vida («a casa é caiada ano sim, ano não») ou a cal da morte, a do caixão dos mortos. Vida e morte, amor e ódio, vazio e esperança – são estes os limites das narrativas, dos poemas e da peça de teatro que integram este volume. As crianças correm pelas ruas da vila: «O céu das hortas é maior que o mundo: / a vila apresenta ruas calcetadas para / homens de sapatinho fino, mulheres / sozinhas e cachopos: eh, cachopo de má raça. / Vamos aos figos e passamos a vida: / a vila às vezes é desenhada por esta aragem que é o lápis de um carpinteiro.» Os velhos recusam a velhice («sentia-se tão velha como se tivesse nascido no primeiro dia do mundo») e às vencem conseguem vencer o tempo: «Nem o homem nem Ana tinham um único cabelo branco.» Também recusam a realidade servida pela televisão: «só mostram este homem a falar, bem podiam mostrar uma praia ou um casamento.» Também recusam a solidão e o vazio: «Porque chora vossemecê Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gosta muito de si.» A peça de teatro tem cinco protagonistas, todos com mais de 70 anos. A partir da solidão da aldeia («às vezes até me parece que isto tudo é uma espécie de sonho») chegam à esperança: «Tanto que eu esperei por isto, meu amor bendito. Agora podemos descansar, temos a vida toda à nossa frente.» O autor não precisou de chegar aos 80 anos para entender a sabedoria da vida que interessa, a do amor: «Em natais, festas de aniversário com pão-de-ló ou em casamentos, as mulheres de 80 anos reúnem uma assembleia de afilhadas solteiras e explicam-lhes que a vida é transparente e que o passado, fechado em armários que rangem durante a noite, brilha às vezes, como as pratas dos chocolates que entregam nas mãos das crianças.»

(Editora: Bertrand, Capa: Vera Braga)