Aguarelas como estas e muito mais
poderá ser encontrado
Nuno Matos Duarte.
Uma visita de que tiraremos sempre proveito.
José do Carmo Francisco

Balada dos quatro dias

Quatro dias de ausência
São semanas de saudade
A dissipar com urgência
No meu regresso à cidade
Vejo a manhã de bruma
Cheira ao iodo do mar
São páginas de espuma
À mesa deste meu lugar
Onde escrevo uma balada
Como se fosse a canção
O papel não dá por nada
Mas há motivo e razão
Duma saudade nascida
Na distância tão litoral
Quatro dias de uma vida
Concentrados por igual
Numa palavra saudosa
Levantada numa mesa
Onde o limão na gasosa
Faz uma ácida leveza

Um eléctrico reformado
É um bar numa barreira
Onde o teu nome trocado
Está escrito na bandeira
Onde o som repentino
Duma paragem tão perto
Faz sobressalto ao destino
De quem respira deserto
Dum calor mais abafado
A ir por entre as casas
Como a música dum fado
A voar com as suas asas
Até à luz desta maré
Sete vezes repetida
E ao lume da chaminé
A cozer o pão da vida
Até à alma da gente
Que se perfila a cantar
Uma cantiga diferente
Na mesa ao pé do mar
CACHAPREGO

Wilmar Silva, poeta brasileiro que divide a sua identidade com Joaquim Palmeira, começou a publicar um blogue que promete: http://www.cachaprego.blogspot.com/
Brevemente apontaremos aqui algumas linhas sobre um dos seus livros. Enquanto esse momento não chega, deixo um dos seus poemas:

A todos eu pudesse escrever os poemas
Como se escreve Tijolos Paredes Fogo Camas
Tecidos Os corpos que vivem As casas
Onde os corpos andam e param como fossem
A mesa O campo de arremessos As bocas
Que falam As palavras mais quentes e Também
As mais frias A todos eu pudesse escrever
Os poemas invioláveis a estranhos mundos
Mesmo que fosse a você A miserável Eu
Pudesse escrever os poemas A palavra casa
Que fosse mais que casa pernas andando lá
Dentro Rudes como As pedras líquidas
Que evaporam A todos eu pudesse escrever
Os poemas e depois me abandonar
Nicolau Saião

Juízo do ano
(diálogos entre a Tia Brízida e o Seringador)


Introdução

O trecho que agora se dá a lume, o primeiro diálogo que se conhece das duas imortais figuras tornadas célebres no Almanaque o Seringador, foi descoberto quase por acaso numa velha biblioteca pelo Dr. Pitta Raposo, que dispensa apresentações: com efeito, pela mão de Ruy Ventura e de outros dois fabianos, o famoso estoriador – um émulo do Prof. Teodoro Rabejana, o melhor especialista português em Estoriografia Sustenida - publicou no suplemento FANAL textos fundamentais a mais dum título e que todos mais ou menos conhecerão.
Abreviando: Pitta Raposo, já depois de abandonar o cargo de catedrático de Alentejanismo Espiritual, que regeu com insuperável mestria na Universidade da Avenida de Ceuta, votou-se à investigação quase arqueológica, nomeadamente nas vetustas salas de gente ilustre que faz o favor de lhe franquear os inóspitos solares.
Eis a primeira das suas descobertas, que aqui largamos para deleite do leitor.


TIA BRÍZIDA – Ora bons olhos o vejam, meu caro Seringador. Então o que traz para me contar?

SERINGADOR – Coisas bonitas, Tia Brízida, coisas amáveis. Então já sabe que o nosso país continua a ser a menina dos olhos dos estrangeiros que nos visitam? No dizer de alguém é um exemplo para todos os europeus, incluindo o Mugabe, que têm uma visão sagaz do mundo moderno!

TIA BRÍZIDA – Já ouvira dizer, sim senhor, já cá me chegara. Muito se tem falado no facto, único no mundo, em que as crianças, sejam elas de 11 ou de 23 anos, caso se mantenham em funções nessa idade, podem frequentar a Escola sem temerem o traumatismo de chumbarem. E isso devido ao sentido humanista e compreensivo de uma senhora que por aí está ministra...

SERINGADOR – Desculpe se a corrijo, Tia Brízida. Deverá dizer antes: graças ao senhor que aí está como, assim a modos que, Caudilho salvo seja. Um homem proficiente que, depois de ter sido “animal feroz da política”, como disse um pensador de primeira, soube a seguir transmutar-se numa espécie de “anjo guardião” dos moleques populares. Que a seguir lhe irão dar o votinho, mas isso são outras voltas. E, Brízida, diga-me: já ouviu falar que os jovens verão aumentada de 30 para 50 anos a possibilidade de liquidarem a continha do empréstimo para comprar casa?

TIA BRÍZIDA – Não me diga! Ai, que é uma medida de grande alcance, sim senhor. Já viu o descanso que é um rapazola de 25 anos e uma moçoila de 28, ao entrarem nos setentas e muitos, verem a sua continha calada finalmente raspada? A que, bondosamente, diria, os acompanhou toda a vida de casados? É de se sentir uma certa nostalgia!

SERINGADOR – Faço idéia... E que me diz a nossa Brízida à atitude, de grande visão patriótica, do senhor Presidente da coisa pública ao queixar-se docemente, no discurso abrilongo, de que os jovens têm uma memória de passarinho, não sabem quem é este cavalheiro da Nação, aquele acontecimento, aqueloutra data fundacional?...

TIA BRÍZIDA – Olhe, só me ocorre dizer que esse salvador me parece ter também pouca memória. Já se terá esquecido das parlendas com que nos encheu outrora as orelhas, em que falava a granel no país de sucesso e noutros centros de Belém? Olhe, leia um artigote do Cardeal Pulido Valente na folha-de-couve de qualidade onde ele escreve e não terá dúvidas nenhumas...

SERINGADOR – Os exercícios de memória podem ser cruéis...Lá nisso tem a Tia Brízida razão...Mas vamos a outra: que me diz desta telenovela mais actual que a nossa TV nos anda a fornecer para nosso gáudio?

TIA BRÍZIDA – A “Gabriela cravo e canela”?

SERINGADOR – Ó Brízida, deixe-se de piadinhas... Refiro-me, como é óbvio, à “Manuela y sus muchachos”, que segundo me disse um sobrinho meu está a fazer grande êxito nos écrans de lares, tascas e até nuns lugares estranhos onde se reunem, parece, os políticos do Reyno para fazer as suas serenatas.

TIA BRÍZIDA – Ah, essa! Digo-lhe que tem grandes intérpretes – aquele Santana enche-me as medidas!! - e o argumento também não está nada mau... Há golpes de teatro súbitos, aliás já esperados por todos, que mantêm o auditório a salivar. Ele é uns que entram e uns que saiem, outros que juram pela pele a este, ao outro. Um forrobodó, que diz bem a que pontos de qualidade chegou o telenovelismo nacional...

SERINGADOR – E o Alberto? Como se tem portado o Alberto?

TIA BRÍZIDA – Ao seu nível habitual, não se preocupe. Mas, embora haja outros muito talentosos, o melhor tem sido um Coelho, um galã cheio de sofisticação e que veio do estrangeiro para fazer a fita. Atira uns olhares tão devastadores, enquanto diz o seu papel, que de certezinha já “tombou” por aí uma dúzias de moças romanticas sempre de espreita aos moços tafuis. E a Manuela também tem actuado bem, embora já esteja um pouco como a Meryl Streep: ligeiramente passada. Mas é um papel de respeito, uma espécie de mãe salvadora do elenco!

SERINGADOR – Pois muito me conta. E que outras novidades há por aí que valha a pena saber?

TIA BRÍGIDA – Talvez literaturas. Letras, artes, economia, finanças, futebóis a fartar...

SERINGADOR – (com um estremecimento indisfarçável) Safa, Brízida, safa! Como dizia o Outro, co'abreca. Não me venha com esses temas, que fico todo a tremer! Até pr'ó ano, minha amiga!

(E os dois compadres, com um riso entre o nervoso e o escarninho, separam-se com o proverbial abraço).
MORTE E RESSURREIÇÃO

Se uma nação se apresenta moribunda, só uma morte, seguida de algum tempo de tumulação, permitirá a ressurreição do seu corpo modificado, melhorado. Assim sucedeu com a Itália, entre a queda do Império Romano e o Renascimento; com a França, depois da Revolução; com a Espanha, entre a República e o fim do Franquismo; com a Alemanha, entre 1918 e 1989.
Portugal vive um tempo moribundo. Que morte nos trará o ressurgimento enquanto nação (que poderá acolher ou não a forma de um estado)?