José do Carmo Francisco

«Recuperar a claridade»
Poesia de Joaquim Carvalho


A claridade é o contrário da escuridão. Como projecto de livro «recuperar a claridade» é todo um programa. A luz sempre fascinou os poetas. Um dos meus livros tem o título de «Leme de Luz». Um bom dicionário nos dirá que «claridade» é sinónimo de «luz viva». E também de «luz do Sol» ou de «luz da vida». Isto por oposição à noite que é outra palavra para a morte. Toda a poesia digna desse nome é uma afirmação do amor e a negação da morte. A poesia, tal como a oração, liga de novo o que a morte separou.
Vejamos as palavras-chave deste livro: pai, mãe, irmão, mulher, filho, amigo e saudade. Não por acaso são sete palavras pois os poetas não deixam nada ao acaso. Registemos duas delas. A Mãe está na página 51: «Desaguo de um abraço vital que tu e o pai se deram! /Amor criado! / Amor-perfeito! / Amor antes do amor! / Luz! / Luz antes da Luz! / Início!» A Saudade está na página 40, no poema Casco velho de Vigo: «Barco de pedra / Ancorado no tempo / Desde o tempo em que o tempo / Não tinha tempo. / Foi por isso / É talvez por isso / Que à Casa de Arines / Calha o destino de abrigar / A saudade!»
Não por acaso o poeta escreve «acende-se a madrugada» e não «a madrugada chegou» por exemplo: «O silêncio / traz a noite / à cova funda / fria / gelada / a tocar-me o corpo… / Nada é esperado…/ Só a raiz da oliveira / que da terra / há-de resgatar os óleos / que alumiam / nos altares. / Pressinto / junto às folhas / gaivotas / enviadas do mar / ao encontro / da despedida.»
De modo muito explícito o poeta sublinha a relação entre o amor e a claridade por oposição à escuridão e à noite: «A noite, dizem, surge / quando o sol se põe / e acaba quando a aurora acorda. / Mas há outra noite! / A noite que adormece no dia / e funda a escuridão contínua / quando um amor acaba.»
Esta oposição entre o efémero e o perene está bem desenhada no poema da página 79: «Há coisas eternas / como a luz. / Outras / a viver vão morrendo».
Só o amor pode contrariar a morte: «O amor que sentimos / não tem dimensões / não tem tempo… / Veste-se de alegria /e, pelo caminho, / cada sorriso nosso / acrescenta um fio de luz / aos abraços que trocamos / todo os dias. / É com eles / que tecemos a manta / que nos aquece / e aos que se aproximam de nós / nos dias mais frios.»
O registo destes poemas oscila sempre entre a Natureza e a Arte. A Natureza está na página 102: «Oiço / o gaio / cantar nos pinheiros. / Num agitar de asas / a caruma cai / doura o chão / e acrescenta odor de resina / que / misturado no ar quente / me incita a mergulhar…»
A Arte está na página 105: «Pintar-te é dar cor ao último pensamento / Desenhar-te é ser contorno da tua pele / Esculpir-te é encontrar teu espaço dentro de mim / Amar-te é darmos sentido ao último encontro.»
«Recuperar a claridade» não é apenas o título do livro, é o título do poema da página 125: «O que outrora / era claro e transparente / adquiriu num ápice / a turbidez de um rio de lama. / Agora as nuvens escondem no avesso / o que resta da luz dos dias que já teve. / Por fora / a penumbra anuncia a tristeza que o espera / se não for capaz de impedir que a escuridão / se instale. / Há que ceifar rente a morte / e, com alegria, / recuperar a claridade / que as nuvens escondem
E só existe uma maneira de cumprir esse programa, de recuperar a claridade. É pelo amor porque só o amor pode ser uma resposta para a morte. Como na página 184: «Sem vislumbre / sem procura / sem razão / sem tempo / Puro encontro… / leve… / sublime… / translúcida… / transparente… / Inevitável viagem / Inês é vela / Pedro é timoneiro / Lá dentro vamos todos nós / Vai Portugal inteiro!»
Um poema não é um amontoado de palavras, é um lugar mágico para estarmos todos juntos. No fim desta viagem de 191 páginas fica uma certeza: Só o amor responde à morte e só há uma medida para o amor que é amar sem medida.

Fui ontem ao largo de São Domingos prestar a minha homenagem aos mortos de 1506. Todos deveríamos fazê-lo. Para que o fanatismo não vença a partida, aqui ou em qualquer parte.
Nicolau Saião

COGUMELOS LUSITANOS

Esperar-se que este governo demita o chefe da ASAE é o mesmo que esperar que o betão dê cogumelos. Ou que os pinheiros dêem tangerinas.
Portugal, infelizmente, vive já numa fase cripto-autoritária, que só ainda não passou a autoritária expressa porque a Europa ainda por aqui anda.
A todos os momentos, ora aqui ora ali, se sente que o pudor já abandonou o nosso executivo.
Vive-se numa verdadeira navegação à vista: discreta censura, discretos ataques à liberdade de expressão, utilização do sistema judicial e do medo que este, por ser remanchado e desqualificado provoca, enfim: Portugal no seu melhor.
Este senhor da ASAE, num país a sério, não só seria demitido como sujeito a inquérito formal interno e, muito provávelmente, externo através dos mecanismos de Direito em uso numa sociedade civilizada.
Em Portugal é pura utopia esperar tal coisa.
Eis um dos motivos porque já sinto tristeza por ser português. Vergonha sinto há muito mais tempo.
SIGAM O CHEIRO DA MASSINHA

De há uns anos a esta parte, sempre que me apresentam certas "inovações" procuro submetê-las a uma avaliação simples, perguntando-lhes quem vai ganhar com elas e que proventos irão produzir no bolso de certos cidadãos. Seguir o cheiro da massinha é, parece-me, uma estratégia avisada para destruirmos algumas ingenuidades inerentes à condição humana.
Assim me aconteceu com a "miraculosa" avaliação do desempenho docente. Embora concorde com a necessidade de distinguir o desempenho dos professores com base em critérios justos e objectivos, torci sempre o nariz ao sistema instituído pela doutora Maria de Lurdes Rodrigues e seus companheiros, pois era/é evidente que o mesmo não pretendia e não pretende promover a qualidade do ensino ou a valorização do mérito, mas apenas poupar dinheiro de uma forma inqualificável, para depois o canalizar até domínios que socialmente nunca o deveriam receber.
A esta forma de ganho, começámos agora a tomar conhecimento de outras mais subreptícias. Uma delas foi divulgada por José Matias Alves, membro do Conselho da Avaliação Docente nomeado pela ministra. Será bom que a conheçamos. Há sempre aves que gostam de beneficiar com a carne dos outros seres vivos... mastigando-os.
Agora, mais do que nunca, é preciso estarmos de olhos abertos!