O cinismo como último recurso contra a arte


O universo da criação artística não é definido somente por seus períodos de vanguarda. Ali atuam também aspectos como confirmações, vencimentos e diluições. Este último aspecto resulta de maior perigo, porque em seu nome se concentram os falsos testemunhos, que em muitos casos não se restringem a simples questão de ingenuidade ou falta de talento. O grau de perversão instituído pelas relações comerciais no que respeita à produção artística trouxe uma conotação programática para este precioso aspecto: a diluição. Romances, filmes, telas, canções, poemas escondem, por trás de sua aparente fragilidade estética, todo um sistema de facilidades contratuais, difusão e consumo. Em meio a este bem sucedido empreendimento, baseado nas leis do mais austero imediatismo, já ninguém dá pela conta dos prejuízos culturais que tais ações possam acumular em sua trajetória.


Assim se inicia o editorial do mais recente número da Agulha. Mais uma vez, merece toda a nossa atenção. Entre os motivos de interesse, destaco um artigo sobre Fernando Echevarría, outro sobre Raul Proença e Florbela Espanca e as ilustrações de Mayte Bayon, apresentadas por Nicolau Saião.

Antonio Sáez Delgado
premiado por tradução


Barcelona, Espanha, 15 Mai (Lusa)
O tradutor espanhol Antonio Sáez Delgado foi hoje agraciado com o 8.º Prémio de Tradução Giovanni Pontiero pela sua tradução para castelhano da obra A Ruiva, de Fialho de Almeida, publicada sob o título La Pelirroja em 2006.
O prémio é atribuído anualmente pelo Centro de Língua Portuguesa/Instituto Camões de Barcelona e pela Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB).
Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970) é doutorado em Filologia Hispânica e, desde 1995, professor de Literatura Espanhola e de Literaturas Ibéricas na Universidade de Évora.
Na cerimónia de apresentação do prémio participaram, entre outros, o reitor da UAB, Lluís Ferrer, o conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, João de Melo, o decano da Faculdade de Tradução e Interpretação da UAB, Francesc Parcerisas, e a responsável do Centro de Língua Portuguesa, Helena Tanqueiro.
A personalidade convidada foi a fadista catalã Névoa, que falou sobre o seu papel de mediadora cultural através da música e fechou a cerimónia com um recital de fado.
O Prémio de Tradução Giovanni Pontiero destina-se a traduções de obras literárias, de qualquer género, escritas originariamente em língua portuguesa e publicadas em castelhano ou catalão (nos anos pares em castelhano e nos anos ímpares em catalão).
O prémio foi instituído em 2001 para honrar a figura do grande tradutor Giovanni Pontiero.

LITTERA

Está a dar os primeiros passos. A Littera Libros é uma jovem editora extremenha, nascida de uma associação cultural sediada em Villanueva de la Serena (Badajoz, Espanha). A caminhada afigura-se segura. Para conhecer o seu catálogo, em crescimento, basta carregar aqui.
José do Carmo Francisco

«Recuperar a claridade»
Poesia de Joaquim Carvalho


A claridade é o contrário da escuridão. Como projecto de livro «recuperar a claridade» é todo um programa. A luz sempre fascinou os poetas. Um dos meus livros tem o título de «Leme de Luz». Um bom dicionário nos dirá que «claridade» é sinónimo de «luz viva». E também de «luz do Sol» ou de «luz da vida». Isto por oposição à noite que é outra palavra para a morte. Toda a poesia digna desse nome é uma afirmação do amor e a negação da morte. A poesia, tal como a oração, liga de novo o que a morte separou.
Vejamos as palavras-chave deste livro: pai, mãe, irmão, mulher, filho, amigo e saudade. Não por acaso são sete palavras pois os poetas não deixam nada ao acaso. Registemos duas delas. A Mãe está na página 51: «Desaguo de um abraço vital que tu e o pai se deram! /Amor criado! / Amor-perfeito! / Amor antes do amor! / Luz! / Luz antes da Luz! / Início!» A Saudade está na página 40, no poema Casco velho de Vigo: «Barco de pedra / Ancorado no tempo / Desde o tempo em que o tempo / Não tinha tempo. / Foi por isso / É talvez por isso / Que à Casa de Arines / Calha o destino de abrigar / A saudade!»
Não por acaso o poeta escreve «acende-se a madrugada» e não «a madrugada chegou» por exemplo: «O silêncio / traz a noite / à cova funda / fria / gelada / a tocar-me o corpo… / Nada é esperado…/ Só a raiz da oliveira / que da terra / há-de resgatar os óleos / que alumiam / nos altares. / Pressinto / junto às folhas / gaivotas / enviadas do mar / ao encontro / da despedida.»
De modo muito explícito o poeta sublinha a relação entre o amor e a claridade por oposição à escuridão e à noite: «A noite, dizem, surge / quando o sol se põe / e acaba quando a aurora acorda. / Mas há outra noite! / A noite que adormece no dia / e funda a escuridão contínua / quando um amor acaba.»
Esta oposição entre o efémero e o perene está bem desenhada no poema da página 79: «Há coisas eternas / como a luz. / Outras / a viver vão morrendo».
Só o amor pode contrariar a morte: «O amor que sentimos / não tem dimensões / não tem tempo… / Veste-se de alegria /e, pelo caminho, / cada sorriso nosso / acrescenta um fio de luz / aos abraços que trocamos / todo os dias. / É com eles / que tecemos a manta / que nos aquece / e aos que se aproximam de nós / nos dias mais frios.»
O registo destes poemas oscila sempre entre a Natureza e a Arte. A Natureza está na página 102: «Oiço / o gaio / cantar nos pinheiros. / Num agitar de asas / a caruma cai / doura o chão / e acrescenta odor de resina / que / misturado no ar quente / me incita a mergulhar…»
A Arte está na página 105: «Pintar-te é dar cor ao último pensamento / Desenhar-te é ser contorno da tua pele / Esculpir-te é encontrar teu espaço dentro de mim / Amar-te é darmos sentido ao último encontro.»
«Recuperar a claridade» não é apenas o título do livro, é o título do poema da página 125: «O que outrora / era claro e transparente / adquiriu num ápice / a turbidez de um rio de lama. / Agora as nuvens escondem no avesso / o que resta da luz dos dias que já teve. / Por fora / a penumbra anuncia a tristeza que o espera / se não for capaz de impedir que a escuridão / se instale. / Há que ceifar rente a morte / e, com alegria, / recuperar a claridade / que as nuvens escondem
E só existe uma maneira de cumprir esse programa, de recuperar a claridade. É pelo amor porque só o amor pode ser uma resposta para a morte. Como na página 184: «Sem vislumbre / sem procura / sem razão / sem tempo / Puro encontro… / leve… / sublime… / translúcida… / transparente… / Inevitável viagem / Inês é vela / Pedro é timoneiro / Lá dentro vamos todos nós / Vai Portugal inteiro!»
Um poema não é um amontoado de palavras, é um lugar mágico para estarmos todos juntos. No fim desta viagem de 191 páginas fica uma certeza: Só o amor responde à morte e só há uma medida para o amor que é amar sem medida.