COLÓQUIO / LETRAS
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A colecção completa da revista Colóquio / Letras, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, é um inegável monumento literário. Embora com alguns desvios académicos evitáveis no últimos tempos, constitui um arquivo vivo de alguma da melhor produção criativa e ensaísta de expressão portuguesa. Está agora disponível on line no endereço: http://www.coloquio.gulbenkian.pt/index.html



ECOS DO MAIO 68

A revista brasileira Correio das Artes, dirigida pelo escritor Linaldo Guedes, dedica o seu número deste mês, a sair dentro de uma semana, ao Maio de 68. Dirigiu a diversos autores do espaço da lusofonia, que viveram aquele ano, as perguntas que seguem.
Transcrevemos adiante a resposta de Nicolau Saião, acompanhada por uma pintura sua.


1. O que você estava fazendo em maio de 1968?
2. Qual importância dos acontecimentos daquele ano para a sua formação política, cultural, ideológica e afins?



Caro Linaldo

Correspondendo à sua sugestão/solicitação, entro na sala das memórias e apanho a gaveta referente a 1968. Pego no dossier de Maio. Como é relativamente pesado, como está um pouco encarquilhado e como sobressai nele um tom amarelo!
Começo por me admirar: na primeira página, preso por um clip, está o retrato a preto e branco - pois ainda não havia fotos a cores - dum fulano esbelto, de basto cabelo castanho-claro que a máquina zero do exército colonial a seguir iria rapar, olhando para mim com uma certa expressão indefinível, entre o sonhador e o espantado. Com certa surpresa reconheço-me nesse jovem de 22 anos que apesar de ter já no pêlo 13 meses de tropa e se lhe perspectivarem mais dois anos ou mais de Guiné, ainda excursionava por uma certa esperança que os anos depois lhe roubaram. A primeira esperança: não morrer na guerra. E a segunda: não ficar encordoado, perro, doido pelas andanças de tiros e quedas que pareciam esperá-lo.
O pobre diabo da foto não morreu. Mas talvez tenha tido que matar.
Em primeiro lugar a inocencia e uma certa suavidade de maneiras - que a Guiné não dava para cavalheirismos. Depois, as certezas ingénuas de pensar que um ser humano merecia respeito, nomeadamente de coronéis, generais, tenentes ou capitães. Mas nisto não irei falar, para não sentir na boca um sabor azedo de desprezo e nos olhos um fuzilar de comiseração por essa gente fardada que nos tratava como se estivéssemos numa quinta de animais de abate. Silencio... Deixemos que seja a História a compor-lhes a figura exacta e merecida. Tanto mais que, se foi na tropa que conheci alguns dos maiores canalhas de que tenho memória, foi também ali que achei a gente mais nobre e devotada de que me lembro, companheiros admiráveis de dignidade e estatura interior varonil e merecedora da minha recordação.
Estava pois na Guiné, na tropa, em Bissau, em Maio de 68.
Foi por vagos periódicos (República, Diário de Lisboa) já atrasados, cedidos fraternalmente por um sargento companheirão, que soube do que se passava nas doces terras de França agitadas por um vendaval que buscava que o homem tivesse mais clareza em torno de si. Digo assim para não politizar muito estas nótulas, inteiramente dadas aqui com a nostalgia que baste. Mas sempre me cabe e quero dizer que o que de lá me chegava não me tranquilizava inteiramente: pois se tomei contacto com a figura libertária e justa e limpa dum Daniel Cohn-Bendit, também sabia que se agitavam pelas ruas que tanto amo dos Champs-Elysées e dos arredores da Sorbonne as bandeiras repugnantes e totalitárias dos maoístas e estalinistas encenando-se em amigos do Povo.
Foi depois de ter contemplado, no Diário de Lisboa (ou seria no República?) uma fotografia onde uma bela jovem olhava a câmara de frente, com o seu rosto de morena encantadora, dando o braço a diversas companheiras e companheiros coroados por uma bandeira negra, que escrevi o meu primeiro poema "africano", que começava assim: "Ter prazer em falar/ como quem fôsse/ um simples animal, um ser da treva/Ter prazer em nascer, como quem desse/ o nascimento à própria solidão(...)". Mas esse Maio distante, para mim eivado de calor e do cheiro pungente, doce e misterioso da terra africana, naquela altura não despertou em mim mais congeminações de teor societário: estava demasiado longe, entregue às penas duma guerra que não escolhera, que não me aprazia e que quase me levou ao calabouço, adversário que era do colonialismo e do cripto-fascismo lusitano de fachada ocidentalizada.
Passei por Maio e por Junho, pelos setembros e pelos janeiros até que num belo dia regressei à minha terra. E foi, estranhamente, nessa época que Maio mais me apanhou pela banda do pensamento especulativo, pelas abas da criação poética e da entrada no sedutor mundo do companheirismo com artistas, pintores, actores e actrizes e jornalistas e poetas que no Café Monte Carlo e no Café Monumental se juntavam pelas noites e pelas tardes lisboetas dum outro Maio, o de setenta, mas onde ecoavam ainda os rumores do outro que existira na Paris que amo como amo Lisboa, que só admiro simplesmente na humana e comovente medida em que me é ou me tem sido também fraternal, fecunda e amiga como um jardim de Portalegre ou de Guimarães.
Foi então por essa altura que pude perceber mais intensamente o que Maio de 68 representara e era para mim, as pistas que nos deu (que ainda hoje nos dá, se o soubermos entender!) esgarçadas já pelas voltas e adequações do tempo as ingenuidades menos defensáveis. Depois - e agora muito mais - entendi melhor a razão que assistia a Raymond Aron e a outros lúcidos observadores, que alertavam as consciencias para o facto de que, se pelas ruas de Paris se soltara um evento salubre de liberdade e salutar exigencia, também corriam miasmas que buscavam atrelar o ser humano e as pessoas por extenso a novos conformismos, novos destrambelhamentos de cariz duvidoso. Percebi então que por debaixo do alcatrão não estaria apenas a praia mas, ardilosamente camuflados, bicharocos monstruosos para mais uma vez morderem o luminoso coração das gentes sedentas de verdadeira emancipação.
Maio de 68 radicou em mim aquilo que sempre fui: libertário mas não de obediencia estreita. E, por estranho que pareça, deu-me a certeza de que a tolerancia, que defenderei até ao fim, não deve nem pode confundir-se com cedencia ou cumplicidades com chantagens morais - ainda que se pretendam apresentar como a necessidade mais premente das populações e dos países.

Receba, caro Linaldo, um firme abraço do seu

Nicolau Saião

( Atalaião de Portalegre, em Maio de 2008)

O cinismo como último recurso contra a arte


O universo da criação artística não é definido somente por seus períodos de vanguarda. Ali atuam também aspectos como confirmações, vencimentos e diluições. Este último aspecto resulta de maior perigo, porque em seu nome se concentram os falsos testemunhos, que em muitos casos não se restringem a simples questão de ingenuidade ou falta de talento. O grau de perversão instituído pelas relações comerciais no que respeita à produção artística trouxe uma conotação programática para este precioso aspecto: a diluição. Romances, filmes, telas, canções, poemas escondem, por trás de sua aparente fragilidade estética, todo um sistema de facilidades contratuais, difusão e consumo. Em meio a este bem sucedido empreendimento, baseado nas leis do mais austero imediatismo, já ninguém dá pela conta dos prejuízos culturais que tais ações possam acumular em sua trajetória.


Assim se inicia o editorial do mais recente número da Agulha. Mais uma vez, merece toda a nossa atenção. Entre os motivos de interesse, destaco um artigo sobre Fernando Echevarría, outro sobre Raul Proença e Florbela Espanca e as ilustrações de Mayte Bayon, apresentadas por Nicolau Saião.

Antonio Sáez Delgado
premiado por tradução


Barcelona, Espanha, 15 Mai (Lusa)
O tradutor espanhol Antonio Sáez Delgado foi hoje agraciado com o 8.º Prémio de Tradução Giovanni Pontiero pela sua tradução para castelhano da obra A Ruiva, de Fialho de Almeida, publicada sob o título La Pelirroja em 2006.
O prémio é atribuído anualmente pelo Centro de Língua Portuguesa/Instituto Camões de Barcelona e pela Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade Autónoma de Barcelona (UAB).
Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970) é doutorado em Filologia Hispânica e, desde 1995, professor de Literatura Espanhola e de Literaturas Ibéricas na Universidade de Évora.
Na cerimónia de apresentação do prémio participaram, entre outros, o reitor da UAB, Lluís Ferrer, o conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Madrid, João de Melo, o decano da Faculdade de Tradução e Interpretação da UAB, Francesc Parcerisas, e a responsável do Centro de Língua Portuguesa, Helena Tanqueiro.
A personalidade convidada foi a fadista catalã Névoa, que falou sobre o seu papel de mediadora cultural através da música e fechou a cerimónia com um recital de fado.
O Prémio de Tradução Giovanni Pontiero destina-se a traduções de obras literárias, de qualquer género, escritas originariamente em língua portuguesa e publicadas em castelhano ou catalão (nos anos pares em castelhano e nos anos ímpares em catalão).
O prémio foi instituído em 2001 para honrar a figura do grande tradutor Giovanni Pontiero.

LITTERA

Está a dar os primeiros passos. A Littera Libros é uma jovem editora extremenha, nascida de uma associação cultural sediada em Villanueva de la Serena (Badajoz, Espanha). A caminhada afigura-se segura. Para conhecer o seu catálogo, em crescimento, basta carregar aqui.