POESIA ITALIANA EM LISBOA

Na sequência da apresentação das Edições Torino Poesia em Paris (La Libreria), Amesterdão (Libreria Bonardi), Lugano (Postate), é agora a vez de Lisboa, no dia 18 de Setembro, quinta-feira, às 18:30.
Com a colaboração da livraria italiana em Lisboa (Libritalia, Rua do Salitre, 166, junto ao Instituto Italiano, www.libritalia.pt), a DiVersos - Poesia e Tradução (série publicada por Edições Sempre-em-Pé, www.sempreempe.pt) convida a assistir à apresentação da nova poesia de Turim e do Piemonte (www.torinopoesia.org). Libritalia é a anfitriã da apresentação desta nova poesia de Turim e Piemonte.
A introdução será feita pelo escritor Gonçalo M. Tavares. Estarão presentes os poetas Tiziano Fratus e Francesca Tini Brunozzi, e alguns dos tradutores.
Nessa ocasião o editor apresenta o novo número (n.º 14) da DiVersos, no qual estão incluídas (além de outros poetas traduzidos de outras línguas e originais de poetas em português), quatro vozes da poesia turinense: Francesca Tini Brunozzi (com tradução de Letizia Russo e colaboração de José Carlos Marques), Luca Ragagnin (com tradução de Carlos Leite), Tiziano Fratus (com tradução de Teresa Bento) e Valentina Diana (com tradução de José Lima). Será feita leitura de alguns poemas na língua original e em tradução.

Dois livros de Carlos Garcia de Castro

Carlos Garcia de Castro publicou recentemente um ensaio que merece toda a nossa atenção. Vindo a lume no nº. 15 d’ A Cidade, embora – como título indica, “José Régio e os rapazes do meu tempo” – se debruce sobre a recepção do autor de Davam Grandes Passeios aos Domingos e da sua obra entre a juventude alto-alentejana dos anos ’40-’50 do século XX, constitui um amplo friso da mentalidade de uma região e de uma cidade que José Maria dos Reis Pereira, tendo nela vivido várias décadas, “topou [nos seus] atavismos”.
Quase uma década depois de Rato do Campo (1998), fazendo tríptico com esse artigo, editou o poeta d’ Os Lagóias e os Estrangeiros dois livros de poesia: no Brasil, pela Editorial Escrituras, de São Paulo, na sua colecção “Ponte Velha”, uma antologia denominada Fora de portas, com selecção e organização de Floriano Martins; em Portugal, nas Edições Sempre-em-Pé (ligadas à importante revista DiVersos), a colectânea Gloria Victis. Embora consciente dos mecanismos que produzem em Portugal, e noutras partes, a notoriedade pública dos autores de literatura, parece-me que estes dois livros são passos significativos na certificação da importância da obra de Garcia de Castro que – apesar de produzida e divulgada a partir de um espaço ultraperiférico (Portalegre, “cidade amada, mas também claramente divisada enquanto lugar onde, eivada de pequenos sevandijas e suaves infâmias, Virtude é ter esperteza […]”, num “cenário que muitos não querem nem podem ver e que outros, os mais espertos e perigosos, muito bem vêem mas buscam ocultar ao geral dos cidadãos que habitam naquela que é uma das mais belas das cidades alentejanas e portuguesas, mas onde certas coisas não estão nada salubres eticamente”, como afirma Nicolau Saião num atento e esclarecedor prefácio de Fora de portas) – se apresenta com estrutura e carnação que lhe garantem uma voz própria, inconfundível.
A antologia publicada no Brasil, numa prestigiada editora, é uma excelente introdução à sua poesia. A selecção de poemas feita pelo poeta Floriano Martins consegue relevar os pontos mais luminosos de uma obra que se vem solidificando desde um primeiro livro (Cio), editado ainda em 1955. A ausência de fontes bibliográficas – sendo estranha como opção editorial – consegue, descontextualizando os poemas, mostrar esse movimento de sedimentação e progressão, sugerindo ao leitor quanto há de coerente na produção de um autor com mais de cinquenta anos de Poesia. Entre os textos aí vindos a lume, apresenta-se com uma força assinalável o conjunto de poemas (inéditos?) sobre vários elementos materiais (“vegetais”, “peles e couros”, “metais”, “madeira” e “têxteis” – pp. 59 a 67), ajudando-nos a compreender toda a sua poética que, partindo do concreto da existência (mas sabendo que “nem concreto nem abstracto são propriamente poesia” (V. Nemésio)), o interpreta e transfigura.
Um dos paradigmas críticos que mais dominou (ou domina) o meio literário português, sobretudo o académico, é o do afastamento entre a produção literária de um autor e a sua biografia. Válida em vários aspectos, mas errada e cega noutros, esta postura perante os vários géneros da Arte verbal afasta das suas abordagens um conjunto apreciável de textos (poéticos e de outra índole) que, não sendo propriamente autobiográficos (na medida em que lhes falta um pacto nesse sentido entre o leitor e o autor), não dispensam na sua estrutura semântica algumas dimensões que só serão completamente entendidas quando confrontadas com o percurso existencial de quem as produziu. Em Gloria victis (“não-poemas”, numa leitura sui generis de Alberto Caeiro e/ou de Nicanor Parra, dessacralizando a poesia, e valorizando-a, ao colocá-la no mesmo patamar das outras actividades humanas) dificilmente conseguiremos esquecer o ser empírico existente por detrás do ser textual. Num impressionismo que nos mostra a realidade interior e exterior, própria ou envolvente, e o pensamento de um protagonista que não hesita desnudar-se na sua fragilidade biológica e etária, lemos uma espécie de diário reflexivo em verso branco, decassilábico, a trazer-nos à memória as narrativas greco-romanas, vertidas num estilo melodioso, mas nunca etéreo. Poesia do quotidiano? Também. Mas a anos, a séculos-luz do neo-naturalismo charro que por aí abunda entre alguma malta nova e outra menos nova que o gostaria de ser. Para isto confirmarmos, bastará lermos e relermos o mais comovente poema do livro: “Há mais de cinquenta anos – para o Chambel” (pp. 27-34).
José do Carmo Francisco

Marta López Vilar ou a terrível solidão do tempo

A «terrível solidão do tempo» surge na página 50 do livro La palabra esperada de Marta López Vilar. É o outro nome da solidão da vida: nascemos sozinhos, morremos sozinhos e dormimos todos os dias sozinhos – mesmo quando nos deitamos numa cama de casal.
A poesia de Marta López Vilar faz oscilar a sua respiração entre a Natureza e a Cultura. É uma poesia moderna não porque a autora é jovem (nascem em Madrid em 1978) mas porque a sua construção se organiza também no exercício da intertextualidade.
Trata-se sem dúvida de um lugar-comum mas, tal como na agricultura, «a enxertia só se realiza numa árvore que já existe», o mesmo é dizer que é impossível começar uma poesia a partir do zero, a partir do nado ou a partir do vazio.
Chegam até aos leitores deste livro as vozes dos trovadores que andavam de terra em terra a cantar os seus poemas – ainda não havia a palavra literatura porque não havia ainda sequer os livros. É a esses antigos trovadores que a poesia de Marta López Vilar foi buscar referências e pontos de partida para a sua própria, única e pessoal aventura poética.
Dizer que «esta poesia faz oscilar a sua respiração entre a Natureza e a Cultura» é o mesmo que afirmar «esta poesia é uma viagem entre a Natureza e a Cultura». A vida é, ela mesma, uma viagem entre o nascimento e a morte. Mas a viagem não tem aqui um sentido único, uma única direcção.


Pode viajar-se na proximidade do outro, no encontro marcado:
"De muy lejos vengo, como el viento claro / que abandoné en tu voz / para protegerme de la muerte. / No me despedí de ti. / Por eso ven a mí / y sálvame como tantas otras noches / de mis sueños. "
Pode viajar-se no sentido turístico do termo – Dresden, Esmirna, Alexandria, Roma. Ou Lisboa, por exemplo:
"Lisboa no existe. Es la herida desnuda / que contempla el Tajo, la frágil / presencia de la lluvia que florece / en las calles, el vacio que nombro en los secretos. / Ninguna imagem evoqué en esta ciudad. "
Mas também noutro sentido. Pode ser o diálogo inventado com uma estátua:
"Cierras los ojos en busca de ese mar / que a otros cuerpos se llevó de tu lado / vuelto en ceniza e vejez, siendo calor / prematuro de la muerte."
Pode ser o diálogo inventado entre Adriano e Antínoo:
"Ya nada persigo, nada se presenta ante mi puerta. / Ninguna juventud senti sino la tuya / ninguna ciudad, ningún otoño desbordó / por mis manos el cabello de la luz / los misterios del aire."
Grande parte destes poemas faz um convívio com a água. É uma maneira hábil de lembrar que só há vida na água e não por acaso de diz que «rebentaram as águas» quando uma criança está prestes a nascer. Vejamos o poema «Maresia»:
"Me quedo aqui, hermosa e alegre como me hiciste / esperando que regreses del mar / y com tu olor me traigas tu presencia y tu comienzo / tu principio sin fin que me conmueve."
O mar é uma oposição à terra, mapa da secura e da morte. Como no poema final do livro:
"Te marchas para siempre / y ya no sé donde se abre el mundo / donde está mi corazón y tantas flores. / Me vuelvo tierra profunda y desierta / cuerpo joven, sin rostro, enraizado a la muerte."
Um corpo enraizado na morte. Sim, enraizado porque, desde sempre se sabe, é inevitável essa morte, para todos e para o poeta também. Dessa morte só se salva o amor e a poesia. A Poesia. A Poesia. Que é a outra maneira de dizer Amor.


La palabra esperada, de Marta López Vilar
Ediciones Hiperión Madrid
78 páginas – 2007 – capa: uma figura a Acrópole de Atenas
XI Premio de Arte Joven – Poesia – de la Comunidad de Madrid