Nicolau Saião (texto)
João Ribeirinho Leal (fotos)


ROSTOS PARA UM MUNDO


Desde há milénios que o Homem, sem cessar, pergunta aos arcanos maiores: quem somos, donde viemos, para onde vamos? Porque se o princípio do Mundo foi ruído e tempestade, a seguir começou a ser interrogação e memória. E o Homem no afã de reconhecer o seu rosto busca-se através das Idades.Qual o rosto do Homem? Qual o rosto humilde ou senhoril pelo qual o Homem se pode reconhecer? A História do Mundo, na verdade, é a história da procura – umas vezes desesperada, outras vezes esperançosa – com que o Homem ergue o signo da sua presença completa.


O espelho da Humanidade é o viver quotidiano. Mas por dentro do quotidiano há imagens cuja origem urge determinar. Pois só assim se compreenderá o mistério que todo o momento, todo o minuto, seja de trabalho ou de festa, de contentamento ou de melancolia, transporta consigo.


Homem significa permanência. A criança, o velho, o adolescente, são sinais erguidos na vasta correnteza da vida. A paisagem é ou pode ser uma habitação esparsa, não contida, propagando-se no mundo como o vozear da multidão – ou a serenidade de alguém que está só. Os detalhes também são permanência: por eles nos guiamos para reconhecer o segredo da existência. E por isso se diz que tudo conta, assim como numa vida humana nenhum minuto se desbaratou. Porque na vida humana tudo o que se cria se transforma.


O rosto do mundo está por vezes repleto de amargura. Devemos saber que se a vida tem uma parte de abnegação, o peso dos sacrifícios não deve contudo manchar os múltiplos vértices com que o Homem pontua a sua caminhada. Por isso devemos perguntar-nos: aparentemente semelhantes, as notas da sinfonia vital diferenciam-se por que timbre? Se nos sentimos distantes do conhecimento que se procura, da realidade que se quer atingir, é necessário ter a coragem de nos interrogarmos conscientemente, de conscientemente interrogarmos o mundo que nos cerca e em que nos inserimos.


A vida, a morte, o medo, a alegria, o sofrimento. Temas maiores para o verdadeiro rosto do Homem, para o autêntico rosto do Mundo. O Mundo e o Homem são realidades absolutamente ligadas, mesmo quando tal parece não se verificar. O que os liga é o génio de uns poucos, o talento de mais alguns, a interessada solidariedade de muitos mais. É importante que pouco a pouco esta corrente desenvolva a sua robustez através do que de mais nobre, mais harmonioso se criou através dos séculos.O passado, quer o queiramos ou não, liga-se ao futuro pelo presente. Em qualquer lugar da Terra foi assim. As imagens menos nítidas, mais arbitrárias em aparência tornam-se compreensíveis se a elas ligarmos o sinal do Homem, o seu rosto luminoso. Porque o Mundo existe. E o Homem existe. E existe a Terra, o firmamento, tudo o que está ou pode vir a estar ao alcance do nosso deslumbramento.


Que mundo amanhã?



Nota – A propósito, ou sublinhando, a exposição “Cem Rostos do Alentejo”, que esteve patente em Gáfete (distrito de Portalegre) é da autoria do Prof. João Ribeirinho Leal. São rostos daquela localidade do Alentejo profundo – mas podiam ser, creio, de uma irmã e semelhante de qualquer outra parte.


A totalidade dos rostos pode ser visitada aqui.

A leitura de José do Carmo Francisco de...


Gloria victis
de Carlos Garcia de Castro


Sexto livro do poeta que se estreou em 1955 com Cio, é irónico o subtítulo: «Não-poemas». Não-poemas (nesse sentido) eram também os poemas de Cesário Verde que foi o grande mestre de Álvaro de Campos e de todos nós.
O ponto de partida é a idade cronológica do poeta: «A minha idade é já de senador. / Classicamente quer dizer sou velho». Essa idade é inserida no espaço da casa: «Quando à noitinha vou ao nosso quarto / de algumas vezes sou eu quem abre a cama.» Mas também no espaço da cidade: «Escrever é vício, amar é condição. / Não é com versos que se prega um prego / nem é com versos que o amor se faz. / Fico sentado no canto da cozinha. / Vou lá para dentro, aqui não faço nada.» E também na memória do Liceu: «Tínhamos medo de pensar com arte / e em quase nada a vida se aprendia. / Bastava uma janela mais acesa / para a noite logo ser uma aventura.» Essa memória choca com a realidade de hoje: «Sei lá quem foi Romeu e Julieta! / O que é que interessa se eu não sei quem são? / Fico marado à noite, eu quero é bares / o mais são gajas a fazer linguado / por tanto tempo que se deixam vir. / Mas não me fico só por marmeladas. / A gente ter um sonho? Não percebo. / A gente sonha mas é quando dorme.»
Entre o precário do amor («Os netos são pavor ou são saudade») e o inevitável da morte («Não me convinha se morresse agora») fica a memória: «O que mais custa é sermos só memória / (Poetas há que abusam da palavra) / Porque a memória, para vocês lembrança / é coisa meramente cerebral / que tem neurónios, linfas e sinapses / sem mais qualquer valia na esclerose. / É mais confusa do que persistente.»
Um belo livro de poemas dum poeta que por ironia os designa como «Não-poemas».

Amadeu Baptista revisita Lisboa


Depois de inúmeras apresentações pelo norte do país, o poeta Amadeu Baptista — nascido no Porto — regressa a Lisboa [cidade onde também viveu, em pleno Bairro Alto] para duas sessões de apresentação dos seus 3 últimos livros de poesia editados na Cosmorama: O Bosque Cintilante [Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007], Sobre as Imagens [Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008] e Poemas de Caravaggio [Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007].
As sessões terão lugar na Fábrica Braço de Prata [quarta-feira 24 de Setembro, pelas 20h.] e na Fnac do Chiado [quinta-feira 25 de Setembro, pelas 18h.30].
DOIS POEMAS PERDIDOS
DE NICOLAU SAIÃO

E

DUAS FOTOS RECORDADAS
DE M. ALMEIDA E SOUSA



ÁFRICA, FEVEREIRO DE 70


Entre mim e as janelas há o rio e as árvores
e milhões de anos feitos para a gazela e a marabunta.

Dionísio teria percorrido a savana e a montanha
quando ainda não havia rastos de camião
nem o mar sepultava pensamentos e memórias
entre um olhar e um silencio.
Serena era a madrugada, subitamente despertando
um vôo de coruja sobre os ombros de quem velava
- pastor e aguadeiro -
homem que na terra colocava a semente do tempo
ou do milho fremente para os sonhos e os minutos.

Algures, junto a uma parede devastada
onde a cal cristalizara a inocencia e a perfídia
as abelhas eram a equivalencia perfeita
do universo gerando a carne negra e branca
que dos livros guardara a misericórdia e o temor
de anos e anos a vir.

Há um grande e perpétuo rumor que faz pensar
em Orion e no Cruzeiro do Sul
mesmo quando o sol ainda risca a figura
incontusa dos sete pontos cardeais.

Qual o fulgor
que viaja entre oriente e ocidente
- os campos do mamute e da zebra primaveril -
mesmo quando a época das gramíneas refloresce
entre lua e penumbra?

Na terra
marco os dedos e os vestígios
de avós e bisavós
mas o contorno das palavras que escrevo e que despertam
as sombras do passado e do futuro
hei-de lembrá-las sempre
impolutas sobre o rio, sobre as casas, sobre os homens

que vi e que inventei.








PALAVRAS

Há palavras que nunca ninguém pronunciará.
Palavras de esquecimento, emocionadas palavras.
Palavras de mistério, apenas entrevistas
pairando entre a figueira e o computador
Palavras assombradas, iluminadas, nocturnas
palavras incontusas, breves, imarcescíveis.
Palavras encontradas num súbito combóio
palavras navegando no coração da chuva.
A palavra memória para a infância das estrelas.
A palavra planície, a palavra mamute.
Uma chaminé-palavra no alfabeto oculto
para a morte saudosa de todas as designações.
E também as palavras de todos os hemisférios afundados.
A palavra solstício e a palavra suicídio
e todas as palavras em que a sombra encontrou
o inquieto horizonte de uma ânfora de oiro.
A palavra das cidades vazias, dos espigões erguidos
pelos olhos do medo
as palavras de todos e as palavras sem ninguém.
O abeto-palavra, gelado e milimétrico
invadindo os espelhos nos mais escondidos quartos.
O salto, o golpe a palavra absoluta.
Uma palavra simples como uma boina basca
subtil como um navio, límpida como um rato
uma palavra desvendada e solene como um leito.
O natural do escuro, palavra negra e sangrenta.
A palavra completa
dos muros transfigurados



ou da casa doente abandonada aos chacais.
A palavra do peixe
do animal
do homem

a palavra habitante de todos os séculos martirizados.






Nota - Os poemas supra deste poeta apátrida de origem portuguesa foram recentemente encontrados por José Soares da Veiga numa gravação do programa radiofónico “Mapa de Viagens”. Aqui se dão a lume colmatando o extravio de 18 anos.



de Nuno Matos Duarte