Nicolau Saião

ELE E O CHANDLER E OUTROS PARCEIROS

Há textos que custam a escrever. Mas ainda custaria mais se não escrevêssemos nada. Porque o silencio é, na verdade, o pior de tudo. E, assim, impõe-se ao menos, como homenagem e derradeiro aceno fraternal, o pequeno ruído de umas palavras escritas.

Sim. E congemino que a estas horas estarão eles já em amena cavaqueira, possívelmente degustando um “on the rocks” de excelente qualidade. Em jeito de recepção, pelo menos, ao novel companheiro de situação...
O Dashiell Hammet chegara primeiro, vai p'ra meio século, colhido pela tísica e por uns cheirinhos de ópio com todos. A seguir foi o Chandler, que não gastava do triste fumo mas se deixara cilindrar pelo generoso “bourbon” dos “saloons” de Santa Mónica ou de Hollywood e pela amargura que o estorvava, sem que o Marlowe lhe pudesse valer.
E agora, há poucas horas como me elucidou o José do Carmo Francisco, foi o Machado. O Dinis Machado. Sim, o do Molero, mas também a almaviva do Tintim, essa nave para viajar na imaginação onde emparceirava com o Vasco Granja. O Dennis Mc Shade dos policiais a caracter mas com sabor a Bairro Alto, português dos quatro costados com pseudónimo estrangeiro – para dar mais sustância à intriga de mistérios e tiros a granel como não houvera ainda daquela maneira no país dos brandos costumes... Ceifado, no seu caso, pelo tal de nome impronunciável alojado num pulmão, ajudado pelo excessivo apego – mais diria gosto, ainda que letal – às cigarrilhas Mercator, “as melhores do mundo” como ele dizia e explicou a um dos meus filhos fumadores, na altura, na noite (inesquecível, yep) em que o fômos levar do Alentejo a Lisboa após estarmos num programa de rádio precisamente dedicado aos segredos da novela policiária.

Recordei, com o JCF, em jeito de necrológio apreciativo e saudoso, os textos em que na Ler evocámos a “Barateira”, essa instituição de encartados cultores do alfarrabismo. E algumas jornadas nos entrepostos duma Lisboa de bairro popular que ele tanto apreciava (o seu pai fôra o dono de um arqui-conhecido restaurante de meia-desfeita, o famoso “Farta-Brutos”) e que lhe dera o tom do seu justamente apreciado (pese a alguns neófitos da escrita obrigada a mote) O que diz Molero, que por muitos e bons anos se me afigura que não o esquecerá o lote de gente que por cá sabe ler.

Era um homem de facto bom e leal. E fraternal. E amigo com os olhos e o coração bem abertos.
Este, que segue, foi o poema que um dia lhe dediquei, juntando num ramalhete a sua personagem detectivesca preferida e os mitos de que se reivindicava uma certa rapaziada boa, prenhe de imaginação e dignidade que decerto irá durando pelos tempos.




MARLOWE

a Dinis Machado

Aos deuses, que o sereno céu sustenta
entre Amarillo Road ou Canyon Drive
ou em em esquinas de ruas indiscretas
como luzes num bosque além dos montes
ofereço as minhas horas de amargura
e muitas meias-noites em meu rumo.

Acresce que
fui sempre muito pouco metafísico
mau grado a nostalgia que me punge
ao longo de não poucos boulevards.

Morenas tive algumas, mas não foram
mais que pistas abertas p'lo destino
como louras que rápido olvidamos
- fios de música correndo pelo tempo
e uns sopapos ao norte da figura.

Fiz de conta que os anos eram flores
numa campa de amigos ou de amores
sonhos que o vento leva quando calha
como folhas das árvores de Los Angeles.

Saber de mais é obra que não chega
p'ra ti, p'ra mim, p'ra todos os que sofrem
em vernáculo ou calão.

Dizer da vida o pouco que nos dá?

Prefiro um highball bem fornecido
um disco de hot jazz a meio da tarde
(solarenga ou chuvosa)
- até as convenções nos são propícias
se a carne é fraca, posto que perspicaz.

Nos meus arquivos guardo alguma 'sperança
mesmo que o tempo venha e me devore.


in Os olhares perdidos

O OURO DO TEJO

Não existem fronteiras nas duas margens de um rio. Existem margens. Margens só – e água pelo meio. Podemos encontrar símbolos e colá-los à matéria – mas esta continuará sendo apenas o que é e sempre foi: rocha e terra rasgadas e esculpidas por uma corrente.
Todos os rios são, assim, internacionais, mesmo quando sulcam um só país. Internacionais porque sem nacionalidade (ou com todas as nacionalidades). Por mais que os Homens desejem o contrário, nas suas águas não se espelham línguas nem dialectos – e muito menos bandeiras ou linhas administrativas. A sua gramática é outra. Mesmo quando os seres humanos os transformaram em fronteiras, ditas (erradamente) “naturais”.
Creio que tudo isto entenderam os criadores do Parque Natural do Tejo Internacional. Não é possível separar o que a geografia une. Não se trata apenas de uma questão cultural. Os pontos de contacto e de continuidade são imensos – mas ainda assim insuficientes para o estabelecimento de pontes invisíveis e indissolúveis. A água não separa, une. As margens são metades de um mundo que a corrente bravia, precedida por fortes movimentos tectónicos, afastou, mas não separou. Não por acaso, quando um rei português do século XII doou aos Templários a enorme “herdade de Açafa”, soube incluir nela territórios de ambas as margens do Tejo, tanto do sul da actual Beira Baixa, quanto do norte do Alentejo e do que seriam terras de Cedillo, Herrera e Valencia de Alcántara.
A paisagem é a mesma, sulcada pela espinha dorsal do ocidente peninsular, um Tejo hoje amansado pelas barragens que tentam canalizar toda a sua energia (tradicionalmente temível) para as necessidades humanas. Quem se digne subir a um dos miradouros do termo de Herrera (Negrales, vg.), verá de um e de outro lado das águas uma sucessão de montes agrestes, em que o cinzento-acastanhado das rochas se mistura com a vegetação resistente às inclemências do Verão e do Inverno, à escassa pluviosidade, aos devastadores incêndios que por vezes a atacam. Sobreiros, azinheiras, oliveiras, em simbiose com uma infinidade de espécies integráveis na flora de tipo mediterrânico, podem ser olhadas como indícios de uma abundante fauna – também ela adaptada aos rigores do clima e da geografia.
Entre os habitantes que o tempo colocou nestas partes – ou que a ela aportaram subindo o Tejo, provenientes da Fenícia ou doutras partes –, não podemos deixar de realçar uma população humana que, sendo escassa, merece a nossa admiração pela sua capacidade de resistência ao meio e, até, às investidas de quantos procuraram diminuí-la ao longo de séculos ou milénios. Houve sempre barcas a ligar a sua dispersão. Foi essa necessidade de intensificar o contacto que, na época romana, levou estes povos a construírem uma das mais impressionantes obras da engenharia, a ponte de Alcántara, que – segundo consta numa lápide – existirá “enquanto o mundo durar” (crendo nós que a frase se referirá mais ao contacto entre Homens e menos às pedras talhadas que um dia se dispuseram em ponte).
Andar pelas terras de Herrera e de Cedillo é encontrar costumes, cultos e monumentos que reproduzem, surpreendentemente (ou não), os existentes noutras margens do Tejo. Os monumentos megalíticos (as antas de Bodegas, Cerro de la Caldera, Sesmo, etc.) não podem ser entendidos, como viu Jorge de Oliveira, sem uma visão de conjunto que abarque os seus congéneres portugueses. Não se podem compreender rituais cíclicos como a “hoguera del gallo”, “enfariñar” ou o “jueves de compadres”, sem conhecermos o que acontece do outro lado da fronteira. O mesmo acontece com o culto de São Sebastião em terras de Herrera, tão ligado na “Açafa” às ordens militares.
As margens do rio Tejo foram até há poucas décadas locais de exploração de ouro. Já em épocas muito antigas assim era. Hoje o ouro é outro. Está à nossa espera – na água, na terra, nas rochas, na flora e na fauna, nos seres humanos (e na sua memória) que convivem e conviveram com tudo isto. Saibamos nós descobrir e trabalhar, em filigrana espiritual, todo este minério – produzindo riqueza, uma riqueza sempre interior.

(Artigo publicado, em versão castelhana, tal como os dois anteriores de temática raiana, na revista Imagen de Extremadura, publicada em Mérida.)

Nicolau Saião

CONTRA OS PACTOS DE OMERTÁ, CORAGEM E BOM SENSO

«É mais fácil contratar gangsters do que ir a tribunal», declarou Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados (dos jornais)

O Bastonário Marinho Pinto, a meu ver, possui duas características de verdadeiro homem de bem - coragem e bom senso.
Vou explicitar, ainda que sucintamente e com vossa licença, estas duas afirmações:
- coragem porque num universo social em que certos membros de topo do Sistema Judicial se julgam acima de qualquer crítica (recorde-se o verdadeiro "pacto de omertá", para que MP não desse certas opiniões em público, referido pelo sindicalista líder dos magistrados) o Bastonário tem a lucidez para perceber o estado de revolta e de indignação que vai nos cidadãos, em função da desqualificação ética, do desleixo e da incapacidade do Sistema Judicial em corresponder a uma Justiça equânime.
Bom senso, porque num quadro destes o verdadeiro bom-senso não é calar, não é ser "politicamente correcto" ou ceder a corporativismos, não ser cínico ou oportunista para manter uma aparente bonomia - e sim dizer a verdade doa a quem doer, pois os direitos dos cidadãos estão acima dos interesses duma clique que se apoderou dos cinzentos corredores dos Tribunais.
A nudez forte da verdade é que é legítima, não o manto diáfano e aparentemente manso da fantasia.
Pois, na verdade, e como já se tem afirmado em textos apropriados, "O Sistema Judicial é o cancro que está a destruir a Democracia portuguesa".
Ou o que resta dela.

in PORTUGAL DIÁRIO

Álvaro Valverde

fala sobre o seu mais recente livro...
e não só.
(Brevemente publicaremos aqui poemas de AV traduzidos para português.)
José do Carmo Francisco

Os labirintos do esquecimento
(para uma leitura de De sombras y sombreros olvidados)


Os poemas deste livro de Marta López Vilar que recebeu o Prémio Blas de Otero de Poesia oscilam a sua respiração poética entre a Arte e a Natureza.
Alguns poemas denunciam no seu articulado um convívio permanente com a literatura. Por exemplo: «Como siempre, se acostumbra la luz / hasta muy tarde. / También yo, que espero tu voz / com el dolor cumplido / y un poema de Montale / Nel fumo / a punto de decirme donde estás.»
Entre a vida chamada «real» e a vida povoada por símbolos, imagens e metáforas, o poema testemunha uma expectativa: «Hace tiempo que abandonamos / la pátria de los símbolos / Ni noches ni poemas. / Sólo el olvido / y la certeza de que no estarás / al otro lado de la cama.»
Depois do encontro vem o esquecimento em «El después»: «Entre tu y yo la vida se ha perdido
O segundo capítulo instala os poemas na Natureza. Vejamos «Los motivos de la aurora»: «Como si hubiera tenido tu cuerpo / acorralado entre la espuma / deambula la luz. / Puedo escribir sus pasos / sus cuchillos, hogueras, caracolas…»
Mas instala não só os poemas mas também os protagonistas como em «Víctimas de la aurora»: «?Qué esperamos tú y yo / en esta esquina helada de la aurora? / Todos los encuentros ya llegaran / Ahora, palomas muertas y las palabras / contemplando todos nuestros cuerpos.» Subtilmente a autora liga as duas realidades (Arte e Natureza) num poema: «Es la aurora quien nos observa com los cien / ojos de Argos, quien recorre / uno a uno tus cuerpos fatigados y dormidos / tu brillo constelado entre la cama / Dentro de ti se despierta un cauce / de olvido y de memoria / del que yo bebería cada amanecer / si no durmieras.» Refiro subtilmente porque a autora conjuga com toda a naturalidade uma realidade geográfica («aurora») com um valor cultural que radica na mitologia grega («Argos») e no seu conhecimento.
De novo a Arte surge num conjunto de poemas a partir de motivos poéticos (Carles Riba, Jorge Luís Borges, Lizardi e Stratos Marino/Georgios Seferis) e a Natureza a partir de memórias de cidades como Granada e Atenas. A primeira porque é uma cidade repleta «de fuentes y de flores»; a segunda porque há cidades necessárias para apagar a obscuridade: «Al igual de los dioses, hay ciudades necesarias / para borrar lo oscuro / la tiniebla poderosa de la palabra rota / o esse no querer despertar outra vez / de la caverna del olvido y de la muerte.»
Um dos problemas que se colocam à escrita (e à leitura) dos poemas de alguém que domina a história e a teoria da literatura, os conceitos e os meios de tradução poéticas de várias línguas, é o perigo real de haver um excesso de cultura, um luxo verbal, uma certa ostentação. Os poemas deste livro desviam-se convictamente desse perigo. Bastam pequenas citações de um poema para se perceber a capacidade da autora para surpreender os leitores com versos inesperados, insólitos e felizes.
Vejamos quatro curtas citações de um poema intitulado «Apuntes sobre tema de Noviembre»:
«Qué lluvia, qué amor de paraguas tan extraño
Cruzo la madrugada com nosotros dentro
Para que nunca nos salvara.
»

«Recuerdo que no estabas o que nunca habías llegado

«Noviembre. Tú buscabas la muerte como quien explica
la llegada de un tren vacio desde la lejanía del invierno


«Morir o vivir / forman parte de la misma mentira. /
Cada dolor tiene su ángel hermoso / custodiando los cuchillos


Entre o precário ostensivo do Amor e o inevitável misterioso da Morte, o poema de Marta López Vilar lembra que só se pode olhar para o esquecimento com prudência quando caminhamos nos seus enormes labirintos.
Vejamos o poema «Las sombras y los olvidos»:
«Ni el amor ni la muerte a ti me une / solo la desolación de marcharnos / sin cordura hacia el olvido / yo no regresar nunca y no saber / qué hemos vivido ni com quién

(Editora: Ediciones Amargord, Capa: René Magritte, Foto: Luiz Pablo Nuñez, Prefácio: José Cereijo)