Maria do Sameiro Barroso



CRISTOVAM PAVIA

Sei que todos os rouxinóis já morreram,
no centro das paisagens amarelas,
onde os cães já não uivam, nem os galgos
choram.
Sei que todos os pássaros que me trazem
a névoa são cometas efémeros.
Por isso, nada designo.

Hoje, tudo é triste, como um poema que desaba
na Rua dos Fanqueiros.
Talvez os meteoros ainda pulsem, algures,
na estrada sinuosa do meu sangue.
Sei que todos os rouxinóis já morreram
e que os lobos e os homens apenas desfiam
a sua teia de morte.

Que pode o silêncio quando a luz se cinde?
Que pode o corpo, quando o coração se prende
e se estilhaça?
Que pode a sede, o magma, o vulcão,
quando as faíscas cintilam

apenas para perfilar o nada?


Lisboa, 13 de Outubro de 2008






HOMENAGEM A CRISTOVAM PAVIA

Faz hoje 40 anos que morreu em Lisboa Cristovam Pavia, aí nascido em 7 de Outubro de 1933. Estes dois poemas, da autoria do coordenador deste blogue e retirados do seu livro inédito Vale dos Homens, são os primeiros passos de uma homenagem alargada que aqui se publicará em primeira mão, visando uma futura edição em livro. Enquanto a poesia do filho de Francisco Bugalho não sai do limbo onde tem sido colocada pelo esquecimento dos editores portugueses de poesia - é mínimo que lhe devemos.



[entre Francisco Bugalho e Cristovam Pavia – 1968]

não pude, meu filho, acolher no peito
a carne e a madeira. nesta terra
reservei de antemão o espaço necessário
para aumentares comigo o fogo
em que fui depositando a minha sede.
perdeste a chave, eu sei. mas fertilizaste com a tua mão
o rosto dessa escultura virada a nascente.
na montanha, a água do tanque ficou límpida.
nela entalhaste o oiro e a agonia. o medo
desfez a porta. colocou sobre os músculos o lintel
dessa torre, como se fora um tronco de carvalho.
o líquido assentou no coração.
só então pudeste beber desse cálice
esculpido pelo mar e pela sombra.


*


recebi, meu pai, o tempo e a sementeira. procurei
nesta terra um veio de água
para lavar e alimentar o coração.
o campo enegrecia.
fui escutando, quando não conseguia vigiar,
essa ponte sobre o mundo.
que lugar me pertencia?
sem olhos, o verbo toldava o movimento.
a água corria entre os lençóis postos de novo.
colei retratos de gente. desenhei mapas, paisagens e rostos.
anotei com minúcia estradas que se cruzavam comigo.
contudo, o campo enegrecia.
transportei a humanidade inteira
no peso dos ossos e da carne.
atravessei a corrente transportando
sobre os ombros a viagem e o desespero.
em silêncio, tentei regressar. a semente ardia entre os dedos
queimando lentamente a pele e as unhas.
espalhada pelo mundo, era preciso reunir essa carne
para com ela fertilizar o vale e a ribeira.
sobre o arco registei o cântico dos mortos.
procurei uma paisagem para alimentar o coração.
diante da imagem tive de novo o corpo reunido.
o sangue desenhou no mármore
o canto da devesa.
entre as ervas e a inscrição do medo – pude descansar.



[p/ Cristovam Pavia]

escreve, sempre de novo,
o vento entre os pinheiros,
uma chuvada, antes da divisão da terra.

no sótão, a mão direita
(os dedos demasiado longos).
fragmentos de um texto circundam
a abóbada, o comboio, o coração.

plantaram carvalhos na encosta
dentro da viagem
na fresta virada a poente.

a legenda continua incompleta.
sob as letras nascem letras ainda mais antigas.
desapareceram as paredes,
a cal onde o texto surgiria.

vizinhos na infância,
resguardaram teu sangue nos limites do campo:

o sopro que escreveste nas ruínas,
o odor que sempre nos iluminou.

[Castelo de Vide, ruínas de S. Paulo]
LE CLÉZIO HONRA A ACADEMIA








Há duas categorias de premiados: aqueles que a Academia Sueca notabiliza com o galardão e, num outro mundo, aqueles que honram a Academia com a sua aceitação do prémio. Jean-Marie Gustave Le Clézio pertence, quanto a mim, ao segundo grupo - enquanto outros, como por exemplo Cholokov ou Saramago, fazem parte do primeiro. A distinção nada acrescenta à obra. Mas não deixa de ser muito justa, embora justificada - como é costume - com um chorrilho de chavões.



Nascido a 13 de Abril de 1940 em Nice, no Sul de França, Jean-Marie Gustave Le Clézio é um dos nomes cimeiros da literatura francesa contemporânea. Publicou mais de 50 romances, contos, ensaios, novelas e mesmo traduções de mitologia ameríndia. É formado em Letras e trabalhou na Universidade de Bristol, em Londres. Aos 23 anos foi distinguido em França com o Prémio Renaudot pelo ensaio Le procès-verbal. Em 1967, após uma experiência de ensino nos Estados Unidos, partiu para a Tailândia em serviço militar. Acabaria por ser expulso depois de denunciar a prostituição infantil, partindo então para o México. Entre 1970 e 1974, Le Clézio viveu junto de índios do Panamá. Durante os anos de 1970, trabalhou no Instituto da América Latina. Reside em Albuquerque, no Novo México, mas viaja com frequência para França. A obra-prima Deserto, O Processo de Adão Pollo, O Caçador de Tesouros, Estrela Errante, Diego e Frida e Índio Branco são os títulos do Nobel da Literatura com tradução para Português.

(Título e introdução de RV, nota biobibliográfica a partir texto de Carlos Santos Neves - RTP, foto de Jessica Gow)
CARTA AO SENHOR PRESIDENTE

"Porque quem merece deferência e respeito é o povo, não esses sujeitos que continuamente, baseados no poder de que disfrutam, tripudiam sobre os cidadãos e fazem pouco de todos nós!
Creio que é notório que a Nação, senhor Presidente, espera de V.Exa. mais que simples paliativos...
Ainda não percebeu que o tempo começa a esgotar-se?
”.

Todos deveríamos escrever ao senhor Presidente Cavaco uma carta como esta. Nicolau Saião fê-lo no Triplov. Ler o texto completo aqui.

Nicolau Saião

ELE E O CHANDLER E OUTROS PARCEIROS

Há textos que custam a escrever. Mas ainda custaria mais se não escrevêssemos nada. Porque o silencio é, na verdade, o pior de tudo. E, assim, impõe-se ao menos, como homenagem e derradeiro aceno fraternal, o pequeno ruído de umas palavras escritas.

Sim. E congemino que a estas horas estarão eles já em amena cavaqueira, possívelmente degustando um “on the rocks” de excelente qualidade. Em jeito de recepção, pelo menos, ao novel companheiro de situação...
O Dashiell Hammet chegara primeiro, vai p'ra meio século, colhido pela tísica e por uns cheirinhos de ópio com todos. A seguir foi o Chandler, que não gastava do triste fumo mas se deixara cilindrar pelo generoso “bourbon” dos “saloons” de Santa Mónica ou de Hollywood e pela amargura que o estorvava, sem que o Marlowe lhe pudesse valer.
E agora, há poucas horas como me elucidou o José do Carmo Francisco, foi o Machado. O Dinis Machado. Sim, o do Molero, mas também a almaviva do Tintim, essa nave para viajar na imaginação onde emparceirava com o Vasco Granja. O Dennis Mc Shade dos policiais a caracter mas com sabor a Bairro Alto, português dos quatro costados com pseudónimo estrangeiro – para dar mais sustância à intriga de mistérios e tiros a granel como não houvera ainda daquela maneira no país dos brandos costumes... Ceifado, no seu caso, pelo tal de nome impronunciável alojado num pulmão, ajudado pelo excessivo apego – mais diria gosto, ainda que letal – às cigarrilhas Mercator, “as melhores do mundo” como ele dizia e explicou a um dos meus filhos fumadores, na altura, na noite (inesquecível, yep) em que o fômos levar do Alentejo a Lisboa após estarmos num programa de rádio precisamente dedicado aos segredos da novela policiária.

Recordei, com o JCF, em jeito de necrológio apreciativo e saudoso, os textos em que na Ler evocámos a “Barateira”, essa instituição de encartados cultores do alfarrabismo. E algumas jornadas nos entrepostos duma Lisboa de bairro popular que ele tanto apreciava (o seu pai fôra o dono de um arqui-conhecido restaurante de meia-desfeita, o famoso “Farta-Brutos”) e que lhe dera o tom do seu justamente apreciado (pese a alguns neófitos da escrita obrigada a mote) O que diz Molero, que por muitos e bons anos se me afigura que não o esquecerá o lote de gente que por cá sabe ler.

Era um homem de facto bom e leal. E fraternal. E amigo com os olhos e o coração bem abertos.
Este, que segue, foi o poema que um dia lhe dediquei, juntando num ramalhete a sua personagem detectivesca preferida e os mitos de que se reivindicava uma certa rapaziada boa, prenhe de imaginação e dignidade que decerto irá durando pelos tempos.




MARLOWE

a Dinis Machado

Aos deuses, que o sereno céu sustenta
entre Amarillo Road ou Canyon Drive
ou em em esquinas de ruas indiscretas
como luzes num bosque além dos montes
ofereço as minhas horas de amargura
e muitas meias-noites em meu rumo.

Acresce que
fui sempre muito pouco metafísico
mau grado a nostalgia que me punge
ao longo de não poucos boulevards.

Morenas tive algumas, mas não foram
mais que pistas abertas p'lo destino
como louras que rápido olvidamos
- fios de música correndo pelo tempo
e uns sopapos ao norte da figura.

Fiz de conta que os anos eram flores
numa campa de amigos ou de amores
sonhos que o vento leva quando calha
como folhas das árvores de Los Angeles.

Saber de mais é obra que não chega
p'ra ti, p'ra mim, p'ra todos os que sofrem
em vernáculo ou calão.

Dizer da vida o pouco que nos dá?

Prefiro um highball bem fornecido
um disco de hot jazz a meio da tarde
(solarenga ou chuvosa)
- até as convenções nos são propícias
se a carne é fraca, posto que perspicaz.

Nos meus arquivos guardo alguma 'sperança
mesmo que o tempo venha e me devore.


in Os olhares perdidos