Nicolau Saião


SOBRE CRISTOVAM

Dizia o célebre inquisidor-mor de Richelieu, com um cinismo não isento de senso de humor, “Dai-me uma frase qualquer e conseguirei que ela ponha um baraço ao pescoço do seu autor”. E embora se trate aqui de poesia e de um poeta, talvez faça sentido suspender a respiração por uns segundos.
Porque, com efeito, a poesia é um perigoso ofício. E se não pelas partes de fora, pelo menos pelas partes de dentro.
Será verdade que os poetas são sobreviventes? Talvez sejam - sobreviventes do tal lugar onde se acoita a verdadeira vida a que aludia, entre outros, o sobrevivente de Charleville (Rimbaud). A poesia será também, assim, uma certa arte das retiradas, a forma mais pessoal de combater a adversidade. Quem diz pessoal diz eficaz. Eficaz, na verdade, porque nisto de coisas de dentro temos de nos haver com presenças muito mais perigosas que os habituais fantasmas do quotidiano. Daí que, por vezes, como (não) queria Cristovam Pavia, só possa haver “saída pelo fundo”. Pelo fundo, pelo meio, por cima, em suma e afinal: pelo lugar onde, no encalço de Flamel, “os touros encantados que deitam fumo e fogo pelas narinas” encontram finalmente a brancura da verdade perseguida.
De Cristovam sei muito pouco. Quer dizer, talvez saiba relativamente muito – porque vou a ele inteiramente pelo coração. Como fascinado leitor, primeiro, de uns raros poemas inseridos numa pequena antologia algo precária e, depois, dum livro muito pundonorosamente feito, com os seus poemas completos - publicados, esparsos e inéditos – que li inteirinha num pedaço de tarde de verão, sentado sob uma das nogueiras citadinas em frente do edifício barroco do antigo Hospital da Misericórdia portalegrense.
Cristovam falava (fala) de pequenas coisas, o que é indício de que o fazia de grandes coisas: da morte do seu cão, da luz difusa batendo na parede da casa da velha quinta alentejana dos ancestros, da recordação que sua mãe teria na noite do seu hipotético e afinal sucedido funeral. Coisas assim leves para quem julga que o poeta é uma espécie de artilharia pesada.
E porque o tom em que o fazia é dos mais belos (e estou a lembrar-me da emoção em Rilke, em Hesse, mas também em Marie-Noel), há-de encontrar sempre quem através dele possa olhar as tardes de negrume e, simultaneamente, de inteira claridade onde se vão reflectindo ora um rosto, ora um ombro, ora uma mão escapando ao nevoeiro...
Rui Almeida





(homenagem a Cristovam Pavia)


I.


De um lado
a sombra delicada dos que choram.

A tristeza virginal cosida ao forro do casaco
e os dedos viciados na textura
do tecido do interior dos bolsos.

Mergulhamos na terra
que já não nos dá pão ou sepultura.

Lá dentro
dizem qualquer coisa que nos ensina a ser velozes,
a estar perto da cegueira.
Depois calam-se dentro da violência
e do sussurro tremido.

Somos nós quem mente
quem abandona os ossos para não morrer,
antes mesmo de saber contar pelos dedos
a secura da cara que antecipa a nudez.

O golpe mais viável é o desespero.
Tudo o resto fere a sensibilidade da pele
sujeita ao frio que queima.

Como são belos os frutos
roubados das mãos dos suicidas.




II.


Do outro
o riso abundante chovendo sobre os mortos.

Amanhã não estou cá e não sei se volto.
Todo o gozo pode ser devolvido
e marcado com o sinal da virtude.

O zelo da coragem não compensa
e só a resposta dos que esperam pode salvar.

Falo das ruas onde não habita ninguém
mas não sou compreendido.
É como se todos desconhecessem
que tudo o que se pode comparar ao mar
permanece inteiro nas vísceras
e está acessível ao rubor da pele.

Os defuntos agonizam ainda
sem se lembrarem do sangue de quando viviam.
Não há qualquer solenidade nisto,
é apenas um veneno que serve para afiar facas
nos dedos dos desempregados;
um licor de calma que alivia
para que não se ausentem do registo.

A chuva é branca e suspende os olhos
no elogio do corpo reclinado sobre a aparência.

Aurélio Porto


Dois poemas



(um quase haiku)

Cristovam, mastigadores do mundo
somos, e de tuas glicínias.
Doce flor na saliva, passado menino.

1983


A uma cadela

Enquanto vives,
Diana, e teus olhos do teu mais profundo sono
jamais me perdem e vigilantes
ao menor gesto meu se sobressaltam,
enquanto o sopro que não há te atravessa inteira
e te mantém a nosso lado,
na poeira e no vento, e no sol o xisto
abrindo,
digo-te agora que o teu sopro é o meu sopro,
e enquanto imóveis na memória
frescas glicínias tombam sob o calor de agosto
sob a sombra tombam onde Farrusco
o cão dormindo outro cão lembra
esse que Cristovam amou onde outras glicínias engrinaldam
esse menino só
lembrança,
digo-te enquanto vives a alegria a dor
do coração compassivo,
a ferida funda rasgada e o golpe
à faca o corpo já morto e agoniza,
digo-te aí o lugar único
onde o coração repousa,
e quando tuas orelhas ao longe se erguem
ao curto silvo que o vento traz,
não há,
Diana,
outra alegria.

1988


in Flor de um Dia
no prelo

Amadeu Baptista

PARA UMA HOMENAGEM A CRISTOVAM PAVIA


1.
Se eu tivesse uma pistola em vez de um abre-latas,
obviamente não me inquietaria esta manhã.
Há opções a que o livre arbítrio força
e alvos a que disparo mesmo às escuras.

De tanto protagonizar a solidão
respiro o ar rarefeito dos cafés.
Não fossem Plutão e a Atlântida
não sei onde esconderia o coração.

Raios partam a vida e quem lá ande,
já o outro disse e viu-se o fim que teve.
Eu sou daqueles que sabem por experiência

a que mundos virtuais nos leva a maledicência.
Um barco é que eu assaltava, se pudesse.
Se tivesse uma pistola em vez de um abre-latas.


2.
Na capital do império às nove da manhã
reflicto sobre alguma gente que aqui vive
e faz das letras portuguesas
a história da carochinha que se vê.

A esta hora o monstro ainda dorme
infinitamente cansado da crítica hebdomadária.
Há bons empregos pela noite dentro
entre o cais das colunas e a cruz quebrada.

Sejam quem sejam os da academia
deviam dedicar-se à vaselina
em vez da ambiguidade que mantêm

no exercício frustrado da alquimia
ao politicamente correcto hipotecado.
Tivesse eu uma pistola em vez de um abre-latas.


3.
Entre o engarrafamento geral e a loira do cais
fico de rastos com tanta violência.
Valha-me o rio e aquela coisa alta
que deste lugar de luz ao longe se avista.

Embora saiba que nada me convence
e a insurreição prometida ainda não basta,
obrigado, destino, pela feliz desgraça
que veio a mim neste desatino.

Uma criança soletra no autocarro
um sorriso perverso para os que passam
e avança sobre mim com a metralhadora de plástico.

Ao menos tenho um cúmplice nesta selva urbana.
Do mesmo modo sorrindo já nada mais me resta
que premeditar o disparo que o abre-latas adestra.
Nos 15 anos de
OS OBJECTOS INQUIETANTES

de Nicolau Saião

Por um acaso em que o destino e os meios editoriais são férteis, para a saída dos meus livros de poesia foi-me oferecida de bandeja uma sucessão de datas como que numa graça temporal. Assim, fez agora 15 anos que o primeiro veio a lume, 5 anos depois sairia o segundo (Flauta de Pan), um lustro depois o terceiro (Os olhares perdidos) e à guisa de irónico “gran finale” que, querendo os deuses, terei por provisório, o quarto – o qual em parte antologiou os outros (Olhares perdidos, antologia - Brasil).
Não houve nisto nenhuma premeditação - tanto mais que na aventura de editar sou uma espécie de “
prima da província” como dizia Balzac: nunca tive o que se chama editor, aquele cidadão empenhado ou interessado que, olhando para a fila de autores no largo principal da vila, aponta este, escolhe aquele, toca no ombro de outro...Na verdade, com excepção da Ed. Caminho e da Ed. Escrituras, até fui poupado ao acto de assinar contrato... O que, dizem-me, costuma ser usual em certos meios.
Ou seja: as minhas andanças enquanto objecto de edição partiram apenas de um enfoque fortuito, bilateral é certo mas sem sequência que desse para me permitir pensar que, elaborada uma obra, esta indubitavelmente veria a seguir as luzes dos prelos.
Aliás, tal facto talvez me tenha permitido um maior à-vontade ao cruzar os mares e continentes da versejação não obrigada a mote ou a prazos.
E permite agora, digamos desta maneira, que numa sequência que espero vos quadre eu vá apresentando a livralhada em causa no decorrer dos tempos a vir. -
NS






OS “OBJECTOS” E O SEU SUJEITO
por Levi Condinho


1. Sendo-me o seu nome já familiar, foi só na Feira do Livro de 1994, em Lisboa, que me encontrei com NS, que me foi apresentado pelo comum amigo, o escritor José do Carmo Francisco. A dedicatória que inscreveu no livro (e que me dirigiu) reza assim: ”Para o meu Amigo imediato Levi Condinho, poeta e pessoa de bem. N.Saião, 94. Assina também Flora Garção”. Poeta e pessoa de bem – retribuo o “galhardete” - é, isso sim, NS, cuja simpatia me cativou. Um intelectual, um artista, homem cheio de imaginação e de sereno humor, mas dessa estirpe dos simples que, em substância profunda, navegam na boa nau da fraternidade e da generosidade universais.
Pouco depois, escrevi sobre Os objectos inquietantes um texto que só passados 9 anos publiquei e dei a conhecer nas páginas respeitáveis e valiosas do suplemento alentejano Fanal.
Como disse Pilatos, de acordo com “A paixão segundo São João”, “o que escrevi, está escrito”. Terei acertado, mesmo a alguma distância do centro do alvo? Tarefa difícil para um texto tão exíguo e sem pretensões. Mas os leitores do livro – e que tenham sido ou venham a ser muitos – ajuizarão.


2. NS, pintor e poeta, não esconde a sua filiação, embora não exclusiva, na área do surrealismo. Por vezes, este aparece na sua escrita de forma deliberadamente “ortodoxa” funcionando aí, em pleno, a consagrada fórmula de “automatismo psíquico” verbalizado ou figurado plasticamente, em que a síntese obtida pela fricção ou embate de forças/signos antitéticos aparentemente desconexos não nos surge como produto simbólico e evidente, pronto à digestão, mas como uma “outra coisa”. Coisa essa que despertará em nós energias e formas outras de reconhecimento, nem sempre traduzíveis pela racionalidade da linguagem corriqueira. Aí, “isto” não significa “aquilo”, antes se detendo radicalmente no próprio “isto”, que possuirá, entretanto, uma força tão poderosa que dispensará o comentário absolutista da razão lógica. O que, é certo, exige as necessárias disponibilidade e cumplicidade do imaginário e de alguma “vocação” por parte do receptor. E, quanto mais rico esse imaginário, mais perspicaz será o funcionamento da “leitura”...(“Um indivíduo não é a sombra de outro indivíduo/ a não ser que o asfalto permita cogitações quotidianas.”).
Julgo, e penso não estar só neste juízo, que raramente no surrealismo (literário) português o automatismo total, o abandono “desumanizado” como sistema de destruição da razão e do(s) sentidos, funcionou como estaria previsto nos programas do “líder” André Breton e seus cúmplices. Com poucas excepções, o nosso surrealismo agiu sobretudo como uso de técnicas, de possibilidades metodológicas, arsenal de energias, ou até como instrumento ou “arma” de múltiplos combates ideológicos. Uma das excepções, talvez a mais notória, radicará em António Maria Lisboa, autor de textos como, nomeadamente, “Isso ontem único”. Mas, curiosamente, essa quase impossibilidade de automatismo total, constituindo-se, quiçá, de um utópico voluntarismo, conduziu a uma maior humanização e ao enriquecimento das conhecidas tendencias líricas da poesia portuguesa, pelo reforço de uma mais poderosa expressividade, mais agressiva, mais incandescente. E aqui encontramos o verdadeiro terreno de implantação da “casa” de NS.
Humanização. Tónica dominante de um livro que de “objectos” se ocupa. Sucede que esses objectos, pelo uso, aproximação, contiguidade, complementaridade ou sobreposição, constituem-se sempre em entidades antropófilas...(mesa, cadeira, janela, chapéu, garfo, prato, penico, pente) corpóreas (pé, molar, mão) ou justapostas no ente/ser humano (homem, ferreiro, poeta, pintor, defunto, futebolista, árbitro, etc, etc).
Mas essas entidades, na sua relação de empatia, funcionalidade e comunhão histórica com o homem, são também objectos de “inquietação” - suspeita, temor – não só pela reminiscencia de ancestrais lendas e conjecturas metafísicas que, a todos ou a alguns em particular, sempre atribuíram propriedades enigmáticas, mágicas, maléficas ou sofredoras (os tachos e panelas no livro ameríndio Popol Vuh) mas principalmente, aqui, por outros motivos. É que, em Saião, os objectos entendem-se como coisas familiares que nos podem comover, como nos comovem a cadeira ou o par de botas de Van Gogh ou do Charlot, ainda que nos possam atingir por alguns súbitos e inesperados calafrios de estranheza, e de algum terror. Inquietantes até pela má consciência que podem despertar em nós, pela utilização que deles fazemos, quantas vezes de forma distraída, alienada, desprovida de afecto, “injusto” uso de coisas que julgaremos inanimadas. Sê-lo-ão? (“As coisas// nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito/ nesse universo que é o nosso resumido encontro/ com a sua// eternidade acontecida.”).
Poesia onde o cosmopolitismo se conjuga com a sobranceira implantação telúrica na rus alentejana, onde o humor fino e certeiro, por vezes dramático, nunca exalta o grotesco em detrimento do Belo (veja-se a segunda parte do poema “O pão”, constante na antologia anexa).



Resta referir que Os objectos inquietantes foram publicados pela Editorial Caminho (92) e pela mesma distribuídos (93), uma vez que o livro recebeu o Prémio Revelação APE/IPLL de Poesia-1990, tendo uma nota introdutória de M. Pons, foto do autor e apontamentos críticos e biográficos, nas badanas, de António Luís Moita e João Garção, que efectuou também a ilustração sobre a qual foi construída a capa.




ANTOLOGIA


A JANELA

Às vezes o poeta tira
coisas da cidade: um muro, a sombra
dum morto, cores que o obrigam
a ficar ligeiramente envergonhado. Dizem
que é operação vulgar esta pesquisa
de memória rendida em geografia
adormecida. Mas o poeta insiste: tira
por exemplo uma janela. Tira três ou quatro
belíssimas pernas de mulher, um sentimento
um cheiro, endomingadas recordações
em suma: elementares presenças
comunicadas entre os anos. Tira a janela. E coloca
a janela em diversos pontos
do Universo: aqui vê um rio
acolá sente através da janela gritos e risos
e depois a janela esvoaça
com as mãos e a cabeça do poeta enrodilhadas
como que perdidas
solenemente atentas
na noite ardida. A janela reparte-se
por países e por rostos. O poeta perde
a janela de vista. A janela desapareceu.
A janela repousa nas paredes
a janela cola-se-lhe à roupa, a janela
obriga o poeta a pestanejar. A janela talvez
seja menos ou mais que um simulacro
de animais que viajam no triângulo dos tectos
no impenetrável reflexo das madrugadas
na palma da mão de alguém que já não pode
abrir ou fechar uma janela.

A janela constrói-se
pouco a pouco, a janela diz
milhares de palavras inventadas
e nuas, é uma imagem
em equilíbrio subtil. A janela é agora
quase porta, parece feita de
altas meditações familiares. Nem precisa de ser
ausência, como um retrato

que sai de nós para todas as ruas
onde irrompe um perfil enegrecido
onde alguma outra vida se acolheu.


O PÉ

Em todos os lugares, é
sempre pé: pé de mundo
pé de mando, pé de mar. Sem par
é pé de coxo. Pé
parado. Morto em pé.
Por vezes
os pés desaparecem
durante anos: esconderam-nos
em claustros, chaminés, prisões.

O pé no fundo
é estranho: de noite
parece um ser solar. Um pé
sem perna já foi mais frequente do que pensam.
Um pé de casa é uma vírgula posta
entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco
é um pé a cavalo. E um pé que se preza
ama a liberdade. De contrário é pé chato
pé de planeta aziago.
Um pé sem suor é pé desafinado.
Lagosta, pé carregado
O pé costuma ver (o pé tem sorte)
o começo da vida, ou o fim do corpo:
ir de pés para a frente
fazendo finca-pé
à própria morte.

O pé de flor vive em todo o lado.
Planta de pé é um silêncio vegetal.
Pé de cabra é bom na magia oculta.
O pé de cão tem horror aos polícias.
O pé de amor é um bicho esquisito: mede
os outros pelo seu tamanho – pé universal

Pé ou mão? Doce animal
dentro do coração.


O PENICO

Perdoa-se o mal que nos fazem
pela beleza do que se contempla. Maganão
que não quis ser caneca ou bilha d’água
preso ao sonho erótico de ter
outros horizontes a conhecer: fagulha
imaginária
levemente odorífera
sempre provocante
ou incómoda.

Lumpen-proletário abismado
num Universo de águas e fezes lustrais.


O PÃO

1.

Eis o pão sobre a toalha:
não se agita, não grita
- está ali, simplesmente
como uma ilha a descobrir
pelo sabor e o cheiro.

Um pão morto, um pão vivo
o cortado ou o inteiro?

O pão por vezes geme
como uma égua louca
e cresce, cresce ardendo
no sangrento e lavrado
triste e desabitado
nevoento, esfomeado
céu da boca.

O pão é a substância
dum bicho transformado:
o tempo e a terra
onde foi criado.

2.

Tronco de paz, tronco de escuridão
erguendo o cadafalso para todos

Suavíssimo, cercado de claridade
um avião gelou o sonho e a aurora

Uma flor crepuscular desafia o delírio
litania de fome destruindo o desejo

e uma cidade, angustiada, afoga-se
na sua própria imagem
sem que lembrada seja
como o sabor do pão

para ninguém.