PÁGINAS DE UM DIÁRIO
Há cidades (Portalegre, por exemplo) que são como o vinagre: amolecem os ossos, se não nos precavemos. Só assim se pode explicar que cidadãos com algum exercício de verticalidade e de clarividência aceitem, mais tarde, colaborar com algumas das manifestações mais nocivas e repugnantes da sua vivência social.
*
Portugal traduzido - abecedário de reflexões, de John Wolf. Este livro tem a virtude de sistematizar a existência nacional, apertando-lhe o pus quando necessário. Fica-me uma frase: "Caberá a cada um assumir a sua quota de responsabilidade na gestão da 'honra nacional', procurando contrabalançar os comportamentos marginais, através da assunção do contrato individual de consciência própria."
*
Percorrer as estantes dum alfarrabista é confrontarmo-nos com quanta erosão apaga as esperanças de notoriedade pública. Isso nos angustia? Trabalhar é contudo preciso. Mesmo que seja para o esquecimento (sempre relativo). Somos todos transeuntes nesta sociedade. Areias anónimas neste deserto.
*
O perigo de lermos livros de Claude Roy ou de C. Ronald é que nada, depois, nos aproveita, se não tiver a mesma altura ou uma dimensão estética e ética semelhante.
*
Um olhar para os dias, novo livro do poeta brasileiro C. Ronald. Diário de resignação na aproximação do fim? Sobretudo, uma linguagem arcana, simbolizadora, em que até as palavras chãs (ou sobretudo elas) assumem uma dimensão transcendente, que barrela a realidade mais concreta.
*
Instalou-se na Itália aquilo a que alguns analistas chamam um "regime pós-democrático" (eufemismo bárbaro para designar um novo autoritarismo, fundado sobre a alienação televisiva, o consumismo, a impunidade e a rasquice). Aqui, em Portugal, como bem viu José Gil na Visão de 2/10/2008, estamos dominados por políticos com capacidade anestesiante, veiculadores duma propaganda ignóbil, porque avilta para dominar.
*
A revista Ler trouxe uma entrevista de um poeta transmontano. A principal qualidade desta conversa é não esconder o calculismo e a hipocrisia do autor. Outros, por este país, têm a mesma face, mas escondida.
*
O primeiro andamento do Te Deum de Marc-Antoine Charpentier é um bom exemplo de uma obra a tocar a alegria divina do inefável. Transformaram-no no hino da televisão europeia... Emporcalharam-no.
Maria do Sameiro Barroso
vence «Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009"
Maria do Sameiro Barroso, com o original Uma Ânfora no Horizonte,acaba de vencer a edição portuguesa do "Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009".
O Prémio, instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de SantoAntónio, numa parceria com o Ayuntamiento de Punta Umbria e acolaboração de Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, tem o valor de 2500 euros, estando prevista a publicação, em edição bilingue, daobra vencedora.
O júri, constituído por Casimiro de Brito, Fernando J. B. Martinho e Manuel Frias Martins, escolheu o original Uma Ânfora no Horizonte de entre os 86 originais a concurso. Realçando a elevada qualidade das obras concorrentes, o júri recomendou ainda para publicação o original Labirintos Cruciais, assinado com o pseudónimo de Eva Maria. De acordo com o autor – Paulo Renato Cardoso – Eva Maria é mais que um pseudónimo, assumindo-se como entidade co-autoral num livro em que os poemas são atravessados por uma voz feminina. Em 2007, Paulo Renato Cardoso venceu o Prémio Daniel Faria com o livro Órbitas Primitivas: Fracções de um Tratado Heliocêntrico.
Maria do Sameiro Barroso nasceu em Braga em 1951. Médica, germanista,ensaísta e investigadora, licenciada em Filologia Germânica e emMedicina, fez a sua estreia literária em 1986. Publicou os seguintes livros de poesia: O Rubro das Papoilas, Rósea Litania, Mnemósine,Meandros Translúcidos e Amantes da Neblina. Vindimas da Noite é o seu livro mais recente, editado por edições Labirinto. Maria doSameiro Barroso é ainda a responsável pela organização das antologias Um Poema para Ramos Rosa (com prefácio de Paula Cristina Costa) e Um Poema para Agripina, com prefácio de Ana Paula Coutinho.
A edição anterior do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibéricatinha sido vencida por Amadeu Baptista, com o livro Sobre as Imagens.
A ALMA ANTIGA DOS PÁSSAROS
Nada poderei esquecer, nem as algas nem os mapas,
nem a escrita, que em seu nimbo florindo,
tantas vezes me elege, chama, ou equivoca.
O girassol do amor esconde-se na relva, nas flores,
nas searas de nuvens.
De nada serve procurar a água, os pássaros,
os laboriosos elementos.
Quando as entranhas de luz se acendem,
bebo, nas águas macias do silêncio, a sagração,
o vinho, as plumas, o hausto condensado,
os cones de penumbra,
o veludo que levanta a ruga, a cicatriz, a leveza
da avenca.
Nas cartilagens de barro, violinos, artérias abruptas
pernoitam, entre formas de luz que se auscultam
na língua, no corpo, ilhéu azul, onde nada ressoa,
no cetim incandescente dos joelhos, da pele.
Numa aura magnética de ossos, sellaginelas,
a alquimia da escrita desenha, pelo ar de chumbo,
transparências, perfume, a lua claríssima,
estrias douradas, álamos aquáticos,
pássaros de penumbra
e um rasto estranho de rupturas, dicção.
in As Vindimas da Noite, Labirinto, 2008
vence «Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009"
Maria do Sameiro Barroso, com o original Uma Ânfora no Horizonte,acaba de vencer a edição portuguesa do "Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2009".
O Prémio, instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de SantoAntónio, numa parceria com o Ayuntamiento de Punta Umbria e acolaboração de Sulscrito – Círculo Literário do Algarve, tem o valor de 2500 euros, estando prevista a publicação, em edição bilingue, daobra vencedora.
O júri, constituído por Casimiro de Brito, Fernando J. B. Martinho e Manuel Frias Martins, escolheu o original Uma Ânfora no Horizonte de entre os 86 originais a concurso. Realçando a elevada qualidade das obras concorrentes, o júri recomendou ainda para publicação o original Labirintos Cruciais, assinado com o pseudónimo de Eva Maria. De acordo com o autor – Paulo Renato Cardoso – Eva Maria é mais que um pseudónimo, assumindo-se como entidade co-autoral num livro em que os poemas são atravessados por uma voz feminina. Em 2007, Paulo Renato Cardoso venceu o Prémio Daniel Faria com o livro Órbitas Primitivas: Fracções de um Tratado Heliocêntrico.
Maria do Sameiro Barroso nasceu em Braga em 1951. Médica, germanista,ensaísta e investigadora, licenciada em Filologia Germânica e emMedicina, fez a sua estreia literária em 1986. Publicou os seguintes livros de poesia: O Rubro das Papoilas, Rósea Litania, Mnemósine,Meandros Translúcidos e Amantes da Neblina. Vindimas da Noite é o seu livro mais recente, editado por edições Labirinto. Maria doSameiro Barroso é ainda a responsável pela organização das antologias Um Poema para Ramos Rosa (com prefácio de Paula Cristina Costa) e Um Poema para Agripina, com prefácio de Ana Paula Coutinho.
A edição anterior do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibéricatinha sido vencida por Amadeu Baptista, com o livro Sobre as Imagens.
A ALMA ANTIGA DOS PÁSSAROS
Nada poderei esquecer, nem as algas nem os mapas,
nem a escrita, que em seu nimbo florindo,
tantas vezes me elege, chama, ou equivoca.
O girassol do amor esconde-se na relva, nas flores,
nas searas de nuvens.
De nada serve procurar a água, os pássaros,
os laboriosos elementos.
Quando as entranhas de luz se acendem,
bebo, nas águas macias do silêncio, a sagração,
o vinho, as plumas, o hausto condensado,
os cones de penumbra,
o veludo que levanta a ruga, a cicatriz, a leveza
da avenca.
Nas cartilagens de barro, violinos, artérias abruptas
pernoitam, entre formas de luz que se auscultam
na língua, no corpo, ilhéu azul, onde nada ressoa,
no cetim incandescente dos joelhos, da pele.
Numa aura magnética de ossos, sellaginelas,
a alquimia da escrita desenha, pelo ar de chumbo,
transparências, perfume, a lua claríssima,
estrias douradas, álamos aquáticos,
pássaros de penumbra
e um rasto estranho de rupturas, dicção.
in As Vindimas da Noite, Labirinto, 2008
Seis escritores portugueses
na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil
Os escritores Fernando Aguiar, Maria Estela Guedes, Joana Ruas, Nicolau Saião, Rosa Alice Branco e José do Carmo Francisco vão participar em Novembro na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil, que este ano tem como tema "A aventura cultural da mestiçagem".
A Bienal, que decorre entre 12 e 21 de Novembro em Fortaleza (Ceará), contará com a presença de agentes culturais (autores e editores) de 30 países de quatro continentes - África, América, Ásia e Europa.
A organização do encontro é da responsabilidade da secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
O escritor Floriano Martins, curador do evento, esclareceu que este se destina a "revelar as diversas culturas envolvidas, reconhecendo os seus hábitos, costumes e literatura e comprometer-se com a democratização e mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção literária".
Numa entrevista recente a um jornal cearense, o curador declarou ter escolhido os autores - brasileiros e estrangeiros - para o encontro, tendo em conta a "qualidade da obra" e a "diversidade estética e geracional".
"A estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural em relação a esses países", disse.
Do lote de autores convidados fazem parte, segundo o mesmo responsável, os peruanos Carlos Garayar de Lillo e Carlos Germán Belli, o galego Carlos Quiroga, o cubano Abel Prieto, o argentino Rodolfo Alonso, o colombiano Jotamario Arbeláez, o mexicano Carlos Montemayor e a paraguaia Susy Delgado.
No tocante a brasileiros, citou os nomes de Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico Anysio (cearenses), Lêdo Ivo, Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz (não-cearenses).
(A partir de RMM, comunicado da Lusa, 27/10/2008)
na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil
Os escritores Fernando Aguiar, Maria Estela Guedes, Joana Ruas, Nicolau Saião, Rosa Alice Branco e José do Carmo Francisco vão participar em Novembro na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil, que este ano tem como tema "A aventura cultural da mestiçagem".
A Bienal, que decorre entre 12 e 21 de Novembro em Fortaleza (Ceará), contará com a presença de agentes culturais (autores e editores) de 30 países de quatro continentes - África, América, Ásia e Europa.
A organização do encontro é da responsabilidade da secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
O escritor Floriano Martins, curador do evento, esclareceu que este se destina a "revelar as diversas culturas envolvidas, reconhecendo os seus hábitos, costumes e literatura e comprometer-se com a democratização e mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção literária".
Numa entrevista recente a um jornal cearense, o curador declarou ter escolhido os autores - brasileiros e estrangeiros - para o encontro, tendo em conta a "qualidade da obra" e a "diversidade estética e geracional".
"A estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural em relação a esses países", disse.
Do lote de autores convidados fazem parte, segundo o mesmo responsável, os peruanos Carlos Garayar de Lillo e Carlos Germán Belli, o galego Carlos Quiroga, o cubano Abel Prieto, o argentino Rodolfo Alonso, o colombiano Jotamario Arbeláez, o mexicano Carlos Montemayor e a paraguaia Susy Delgado.
No tocante a brasileiros, citou os nomes de Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico Anysio (cearenses), Lêdo Ivo, Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz (não-cearenses).
(A partir de RMM, comunicado da Lusa, 27/10/2008)

José do Carmo Francisco
BILHETE NO BOLSO
Às vezes está tão longe
Às vezes está mais perto
Fala e ninguém o ouve
Como telefone no deserto
Vai dar uma longa volta
Pode morrer e não morre
Com um bilhete no bolso
Anda a pé, viaja e corre
Apanha a chuva dos outros
Porque é poeta concreto
Suja as mãos fica na rua
E desenha um ângulo recto
Traz às costas uma dor
Sem peso nem dimensão
Com um bilhete no bolso
Já não ouve o coração
Faz os poemas devagar
Num forno feito de fogo
Que nasce da combustão
Duma voz fora de jogo
Defende sem bem saber
Justos contra tiranos
Com um bilhete no bolso
Anda assim há muitos anos
Um quase nada lhe chega
Para o que vai sonhar
Um futuro sem a morte
Em todo e qualquer lugar
Escondido na multidão
Atravessa as ruas só
Com um bilhete no bolso
Há-de voltar para o pó
(in Leme de Luz, Sol XXI, 1993)
Amadeu Baptista
vence Prémio Literário Oliva Guerra/ Sintra 2008
O original de poesia Doze Cantos do Mundo, de Amadeu Baptista, venceu o Prémio Literário Oliva Guerra – Sintra 2008, promovido pela Câmara Municipal de Sintra. A distinção mereceu a unanimidade do júri, que analisou 83 originais concorrentes. O júri integrou os escritores Liberto Cruz, em representação da Associação Portuguesa de Críticos Literários, José Correia Tavares, em representação da Associação Portuguesa de Escritores, e Ricardo António Alves, em representação da Câmara Municipal de Sintra.
O Prémio Literário Oliva Guerra é anualmente patrocinado pela Câmara Municipal de Sintra e consiste, além da publicação em livro da obra vencedora, no montante de 5.000 euros. A entrega do prémio ocorrerá em data a anunciar pela autarquia de Sintra.
Amadeu Baptista - a quem o Estrada do Alicerce endereça publicamente os parabéns - nasceu no Porto em 1953, onde frequentou a Faculdade de Letras da Universidade daquela cidade.É membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Clube Português.Tem colaboração dispersa em jornais, revistas, antologias e livros colectivos, em Portugal e no estrangeiro, designadamente: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U.A., Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, México, Roménia e Uruguai.Poemas seus foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.
Publicou os seguintes livros de poesia: As Passagens Secretas (1982), Green Man & French Horn (1985), Maçã (1986) (Prémio José Silvério de Andrade - Foz Côa Cultural, 1985), Kefiah (1988), O Sossego da Luz (1989), Desenho de Luzes (1997), Arte do Regresso (1999) (Prémio Pedro Mir – Revista Plural, na categoria de Língua Portuguesa, México, 1993), As Tentações (1999), A Sombra Iluminada (2000), A Noite Ismaelita (2000), A Construção de Nínive (2001), Paixão (2003) (Prémio Vítor Matos e Sá e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004), Sal Negro (2003), O Som do Vermelho - Tríptico Poético sobre pintura de Rogério Ribeiro (2003), O Claro Interior (2004), (Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2000), Salmo (2004), Negrume (2006), Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007) (2007), Outro Domínios (2008), (Prémio Literário Florbela Espanca, 2007), O Bosque Cintilante (2008) (Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2007), Sobre as Imagens (2008) (Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008), Poemas de Caravaggio (2008) (Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007). Recentemente foi galardoado com o Prémio Literário Edmundo Bettencourt – Cidade do Funchal, pelo original Os Selos da Lituânia e o Prémio Espiral Maior (Galiza/Espanha), pelo original Açougue.
Do original premiado divulgamos em pré-publicação:
GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1800)
Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.
Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura
Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.
Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo
– as insipiências
onde a criação é um malogro.
Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quatro,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.
O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ‘ai que não dói’,
que se escuta em toda a corte,
lhe lava as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.
Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido,
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.
O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.
Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.
Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.
E o cínico sou eu.
Por isso, à esquerda,
onde há ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.
Não é verdade.
A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os de vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.
Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.
E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.
E o meu coração
anotou tudo:
- a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo, ou água,
no olhar do condenado.
E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.
Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.
Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,
enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.
Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.
Provavelmente,
entre a maga vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:
para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.
Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego,
e totalmente surdo
e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.
Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.
O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.
Mas persisto.
Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:
– fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,
e não lhes dê tréguas.
Este é meu tempo:
tomai e bebei.
Este é meu tempo,
tomai e comei.
Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.
vence Prémio Literário Oliva Guerra/ Sintra 2008
O original de poesia Doze Cantos do Mundo, de Amadeu Baptista, venceu o Prémio Literário Oliva Guerra – Sintra 2008, promovido pela Câmara Municipal de Sintra. A distinção mereceu a unanimidade do júri, que analisou 83 originais concorrentes. O júri integrou os escritores Liberto Cruz, em representação da Associação Portuguesa de Críticos Literários, José Correia Tavares, em representação da Associação Portuguesa de Escritores, e Ricardo António Alves, em representação da Câmara Municipal de Sintra.
O Prémio Literário Oliva Guerra é anualmente patrocinado pela Câmara Municipal de Sintra e consiste, além da publicação em livro da obra vencedora, no montante de 5.000 euros. A entrega do prémio ocorrerá em data a anunciar pela autarquia de Sintra.
Amadeu Baptista - a quem o Estrada do Alicerce endereça publicamente os parabéns - nasceu no Porto em 1953, onde frequentou a Faculdade de Letras da Universidade daquela cidade.É membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Clube Português.Tem colaboração dispersa em jornais, revistas, antologias e livros colectivos, em Portugal e no estrangeiro, designadamente: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U.A., Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, México, Roménia e Uruguai.Poemas seus foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno.
Publicou os seguintes livros de poesia: As Passagens Secretas (1982), Green Man & French Horn (1985), Maçã (1986) (Prémio José Silvério de Andrade - Foz Côa Cultural, 1985), Kefiah (1988), O Sossego da Luz (1989), Desenho de Luzes (1997), Arte do Regresso (1999) (Prémio Pedro Mir – Revista Plural, na categoria de Língua Portuguesa, México, 1993), As Tentações (1999), A Sombra Iluminada (2000), A Noite Ismaelita (2000), A Construção de Nínive (2001), Paixão (2003) (Prémio Vítor Matos e Sá e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004), Sal Negro (2003), O Som do Vermelho - Tríptico Poético sobre pintura de Rogério Ribeiro (2003), O Claro Interior (2004), (Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2000), Salmo (2004), Negrume (2006), Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007) (2007), Outro Domínios (2008), (Prémio Literário Florbela Espanca, 2007), O Bosque Cintilante (2008) (Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2007), Sobre as Imagens (2008) (Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, 2008), Poemas de Caravaggio (2008) (Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007). Recentemente foi galardoado com o Prémio Literário Edmundo Bettencourt – Cidade do Funchal, pelo original Os Selos da Lituânia e o Prémio Espiral Maior (Galiza/Espanha), pelo original Açougue.
Do original premiado divulgamos em pré-publicação:
GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1800)
Assim como há o cinismo,
há uma gramática do cinismo.
Cada mestre usa o seu
à luz do seu compêndio,
com forças à deriva,
e consubstanciando
o alarde da pintura
Tomemos o exemplo
da família real,
esta ou qualquer outra.
Se olharmos bem os rostos
vemos o que Deus
falha no mundo
– as insipiências
onde a criação é um malogro.
Mas o cínico sou eu,
embora o Príncipe
esteja talhado para a maldade,
com o corpo a três quatro,
olhando para trás,
sem profundidade,
mas a arrogância que é própria dos príncipes.
O Rei é uma amálgama de sucata,
que a idade sutura
e um certo ‘ai que não dói’,
que se escuta em toda a corte,
lhe lava as mãos
na promiscuidade,
enquanto acata as ordens da Rainha.
Esta, ao centro do painel,
é só os braços
que mostra por contraste
com a riqueza insultuosa do vestido,
paramentado de rendas espanholas
e formas que, há muito,
exercem a lascívia
a bom recato.
O mais são tétricas figuras,
que uma Princesa apoia colocando a altivez
em contraponto com gente impaciente pelo almoço
e as fatias de presunto quando a tarde
os puser a caminho do curral.
Lamento que a pintura não faça ouvir
os ruídos da rua,
o povo com os sacos de carvão sobre os ombros
e as putas com os ombros sobre os sacos de carvão.
Lá fora o mundo é a mais valia
do conjunto,
sendo que tudo está lubrificado
para que se note o estupro
e seja Deus, Nosso Senhor, crucificado.
E o cínico sou eu.
Por isso, à esquerda,
onde há ponto de luz
que a sombra alcança,
olho de esguelha o universo
e quase que parece que sorrio.
Não é verdade.
A esse canto,
onde fito como posso os que estão,
sendo que os de vejo de frente
e de joelhos,
queixando-se do reumático,
apenas conjecturo
como há aberrações
que podem tudo.
Passei por Moncloa
a um fim de tarde,
começava Maio
e dos campos desprendia-se
o odor sereno e violento
que há na terra.
E vi
como os massacres são, ainda,
o pão de cada dia,
por mais ou menos cínicas
que sejam as pinturas,
ou as armas estejam prontas para o abate.
E o meu coração
anotou tudo:
- a luz, sempre vital,
o pelotão de anónimos
e as suas vítimas,
a centelha de fogo, ou água,
no olhar do condenado.
E, já tendo visto tudo,
quero dizer,
já tendo visto em excesso
deste excesso de vergonha
sem vergonha,
aferi o meu lugar
na tábua rasa em que vivo,
e morro,
e, sem sonhos, durmo.
Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.
Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal
de redenção,
enquanto o povo
é à míngua que morre
e eu, cínico sendo,
página a página leio este compêndio
que os cínicos maiores que o meu cinismo
instituíram.
Pudesse eu regressar a Fuendetodos,
ou fazer pintura sacra,
cheia de entorses e nervos,
com o Cristo ladeado de ladrões,
como eu estou.
Provavelmente,
entre a maga vestida e a desnuda,
preferiria chorar
até ao fim do mundo,
chorar
e abrir as veias:
para que o sangue corresse
e a pintura tomasse um outro rumo
de cores,
difusas, se possível,
repartidas.
Mas eis que a doença chega
e a vivacidade se esvai,
e estou cego,
e totalmente surdo
e sou, assim, o cínico do retrato
a conferir ao mundo o mundo retratado
e os seus caprichos,
enquanto os desastres
e a guerra submeto
nas gravuras.
Já nem sei o que digo,
o tempo sobrevoa-me as têmporas
e onde estive não estou,
estando sempre
algures,
mais ano para a frente ou para trás,
mais cão ou menos cão nas telas,
mais cínico ou menos cínico
entre os cínicos.
O Príncipe, o Rei e a Rainha:
vesti-os de cores vivas
e, contudo, é de luto que está a minha arte,
porque, por esta comitiva,
nem para a eternidade
ressuscito.
Mas persisto.
Para isso é que o cinismo
recebe do cinismo
moedas de oiro,
e posso, quando posso,
com o branco de espanha
misturar azul cerúleo,
e ao verde-bétula
juntar óxido de ferro,
para que o esplendor da luz
seja o que é, na obra:
– fútil, sem glória,
como é cada guerra,
embora lute sempre,
e não lhes dê tréguas.
Este é meu tempo:
tomai e bebei.
Este é meu tempo,
tomai e comei.
Por mim, como sempre, estou
cheio de fome.
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