AS PALAVRAS DE MANUEL ALEGRE
sobre o que se passa na política educativa do Governo

"Confesso que me chocou profundamente a inflexibilidade da Ministra e o modo como se referiu à manifestação, por ela considerada como forma de intimidação ou chantagem, numa linguagem imprópria de um titular da pasta da educação e incompatível com uma cultura democrática.
Confesso ainda que, tendo nascido em 1936 e tendo passado a vida a lutar pela liberdade de expressão e contra o medo, estou farto de pulsões e tiques autoritários, assim como de aqueles que não têm dúvidas, nunca se enganam, e pensam que podem tudo contra todos.
O Governo redefiniu a reforma da educação como uma prioridade estratégica. Mas como reformar a educação, sem ou contra os professores? Em meu entender, não é possível passar do laxismo anterior a um excesso de burocracia conjugada com facilitismo. Governar para as estatísticas não é reformar. A falta da exigência da Escola Pública põe em causa a igualdade de oportunidades. Por outro lado, tudo se discute menos o essencial: os programas e os conteúdos do ensino. A Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros para as necessidades empresariais. No momento em que começa a assistir-se no mundo a uma mudança de paradigma, esta é a questão essencial. É preciso apostar na qualificação como um recurso estratégico na economia do conhecimento, através da aquisição de níveis de preparação e competências alargados e diversificados. Não é possível avançar na democratização e na qualificação do sistema escolar se não se valorizar a Escola Pública, o enraizamento local de cada escola, a participação de todos os interessados na sua administração, a autonomia e responsabilidade de cada escola na aplicação do currículo nacional, a educação dos adultos, a autonomia das universidades e politécnicos.
Não aceito a tentativa de secundarizar e diminuir o papel do Estado no desenvolvimento educacional do nosso país. Sou a favor da gestão democrática das escolas, com participação dos professores, dos estudantes, dos pais, das autarquias. Defendo um forte financiamento público e um razoável valor de propinas, no ensino superior, acompanhado de apoio social correctivo sempre que necessário. E sou a favor do aumento da escolaridade obrigatória para doze anos. Devem ser criadas condições universais de acesso à escolaridade obrigatória, nomeadamente através de transporte público gratuito e fornecimento de alimentação. O abandono escolar precoce deve ser combatido nas suas causas sociais, culturais e materiais.Não se pode reformar a educação tapando os ouvidos aos protestos e às críticas. É preciso saber ouvir e dialogar. É preciso perceber que, mesmo que se tenha uma parte da razão, não é possível ter a razão toda contra tudo e contra todos. Tal não é possível em Democracia."

Publicadas no editorial da revista OPS - Opinião Socialista.



RUI ALMEIDA vence


Prémio de Poesia "Manuel Alegre"

É com muita satisfação que o anuncio, enviando um abraço ao poeta e ao amigo. Lábio cortado, original de poesia de Rui Almeida (o autor do blogue Poesia Distribuída na Rua), acaba de vencer a primeira edição do Prémio de Poesia "Manuel Alegre", instituído pela Câmara Municipal de Águeda. Entre outras personalidades, integraram o júri do concurso o poeta Nuno Júdice, a romancista Lídia Jorge e a ensaísta Clara Crabbé Rocha.

Do livro premiado - primeira obra deste escritor nascido em 1972 e residente em Queijas (Oeiras) - deixo aqui o poema inicial:


Suave, devastadora, a sombra deste tempo
De pernas dormentes por não caminharem.
Esta coisa de estar parado a assistir a nada,
Consciente da cor de cada objecto à minha frente
Enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro.

Não são crianças que oiço, nem pássaros,
São os pés de quem sabe andar e se desloca,
É o riso de quem reage à sedução e ao modo do desejo.
O peito está vazio e abandonei-o
– respirar é o acto de misericórdia permitido ao corpo.

Penso até à exaustão naquilo que podia ter sido.
Demasiado cedo me reconheci como vivente,
Como servo do movimento e das funções vitais.
Não renego a força que em mim surge
Nem me permito a queda na tentação da morte.

Os braços são pequenos demais para a coragem,
Isso que nem sei que seja ou de que me valha.
O roubo é uma solução como outra qualquer
Para viabilizar a vontade ou o impulso do gesto.
O risco é projectar a voz para além do mar;
Para além de tudo o que de imenso se estende
Diante de um homem que tem olhos perdidos.
Como se perde a distância? – é esta a pergunta
Sussurrada no momento em que se desiste
E da qual nasce a sede que permite a resposta.

É no candeeiro que extingo o excesso do pensamento;
Não reconheço à luz os efeitos salvíficos
A que a aparência poderia levar-me.
Prefiro o vazio sistemático da brancura
Diluído no ar que me envolve e que respiro.

DESOBEDECER É PRECISO

"Perguntar-se-á: o que ando então a fazer o tempo todo para deixar de preparar as minhas aulas como deve ser? A resposta poderia ser dada até pelo meu filho, apesar de ainda ser criança: além das aulas, passo os dias em reuniões intermináveis para entender o sentido do terrorismo legislativo com que se tolhem e intimidam os professores. "

"Os responsáveis pelo actual ministério da educação parecem, talvez inconscientemente, querer pôr em prática o cenário tenebroso descrito por George Orwell em "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro", em que a catadupa de despachos, decretos regulamentares, documentos orientadores, ordens de serviço, instruções superiores, recomendações, etc., frequentemente incoerentes – vale a pena dizer que acumulo em casa mais de mil fotocópias sobre avaliação, que me foram entregues na escola –, são a tradução quase literal do "Big Brother is watching you" da 5 de Outubro."

"Mas o pior de tudo é que o modelo de avaliação fabricado na 5 de Outubro não vai permitir distinguir os bons dos maus professores, ao contrário do que a senhora ministra alega. Talvez seja até pior do que a completa ausência de avaliação, premiando arbitrariamente alguns dos maus e castigando cegamente muitos dos bons. Se assim não fosse, que razões teriam os bons professores que desfilaram na manifestação de sábado para lá estarem? Ou será que os mais de cem mil são todos maus ou simplesmente estúpidos? Os professores sentem-se compreensivelmente ameaçados porque o modelo, além de burocrático, como convém ao Big Brother, obedece a uma espécie de pensamento único pedagógico: há um dogma pedagógico subjacente a que todos têm de aderir, tal como se emanasse do Ministério da Verdade orwelliano."

"A verdade é que neste momento já não são os sindicatos a comandar os professores, mas os professores a empurrar os sindicatos, de tal modo que os próprios sindicatos já não estão em condições de cumprir o acordo assinado há meses com o ministério. De nada serve, portanto, ao primeiro-ministro apontar o dedo ao incumprimento dos sindicatos. Se estes tivessem representado devidamente os professores, nunca teriam de voltar agora atrás com a palavra. Por isso, não vale a pena recorrer a fantasias e negar uma realidade muito crua: a insistência do governo no actual modelo está a degradar como nunca o sistema educativo nacional e a pôr em causa o normal funcionamento das escolas. E esta ministra ficará seguramente na história como a maior desgraça que se abateu nos últimos tempos sobre a educação em Portugal."

"E é também por isso um imperativo de justiça desobedecer a esta lei arbitrária e injusta, sobre uma questão de tão grande importância. Chama-se a isto desobediência civil e foi isso que fizeram em diferentes circunstâncias Gandi, Luther King, Bertrand Russell e muitas das referências cívicas e culturais do nosso mundo. É ilegítimo não cumprir a lei, diz a senhora ministra sem se aperceber que está a ser redundante. Pois é, é ilegítimo não obedecer à senhora ministra, pois foi ela que fez a lei. Mas terá mesmo de ser."

O artigo de Aires Almeida, professor na Escola Secundária de Portimão, editado ontem no jornal Público, pode ser lido na íntegra aqui.
Nicolau Saião

UMA MINISTRA PARA MANTER

Em certos círculos, tem sido pedido que a inadequada senhora que está ministra do eensino no governo Sócrates, provavelmente o pior depois de cimentada a democracia tendencial em que Portugal vegeta, seja demitida ou, num arroubo de sensatez ou de pudor intelectual, saia ela mesma por decisão própria.

Peço aos professores, fautores primeiros duma humanização inicial dos alunos enquanto crianças e, mais tarde, enquanto adolescentes, que não alinhem nessa facilidade.

Por consideração minha pela actividade da senhora em causa? De forma alguma.

Por uma razão muito diferente e, arriscaria dizer, de senso comum. Ou, então, de justa estratégia pedagógica e verdadeiramente democrática.

Sigam-me durante um par de minutos e todos entenderemos o porquê do meu alvitre.

Em primeiro lugar, devido ao cinismo político do homem que neste momento é primeiro-ministro. Em segundo lugar, pela sua insensibilidade ante o interesse mais alto da Nação, pervertido que está o seu senso das realidades e do quotidiano. Sócrates, enquanto ser de pensamento societário, é um sujeito que não consegue pensar o múnus político sem ser pela sua bitola conceptual de pequeno líder que, por um bambúrrio de sorte em que por vezes o destino é fértil, chegou alto.

Nesta conformidade, apenas consegue raciocinar a realidade política, enquanto factor de progresso e desejável bem-estar do país, pelos binóculos do interesse partidário e, muito particularmente, pelo óculo de longo alcance da sua carreira pública e dos áulicos que o rodeiam.

Assim sendo, a ministra (“ajudanta”, para empregarmos a expressão vivaz dum antigo manipulador do poder), não passa de uma cera moldável nas suas mãos hábeis enquanto governante.
Se Lurdes Rodrigues fôr alijada, tal como se fez na “jogada” Correia de Campos (ex-titular da Saúde, lembram-se?), isso permitirá que a cégada, mas mais disfarçada e eficaz, continue – para tudo dizer, que a miséria do ensino em Portugal siga em frente mas já camuflada com a sua habilidade de “animal feroz da política”, para citarmos os mídias que o bajulam.

Como na frase famosa do livro de Lampedusa, “O Leopardo”, “é preciso que tudo mude para que tudo continue na mesma”.

Seria fácil para o ardiloso primeiro-ministro correr com a inadequada senhora que, durante o tempo que lhe fez falta, o serviu como aia veneradora e agradecida.

O que é preciso é que a política de remancho termine. E isso só se conseguirá se Sócrates largar o lugar, democrática e popularmente mandado embora pelos cidadãos.

Neste momento, o maior factor de iluminação e esclarecimento é a acção prejudicial da inadequada ministra.

Mantenhamo-la no cargo como se de uma obra-prima de cristal se tratasse!

Primeira publicação do poema de Dinis Machado divulgado na última revista Ler: Fanal, suplemento cultural d' O Distrito de Portalegre, nº 13, 25/5/2001. Entretanto o texto já recebera publicação antológica neste blogue, no passado dia 9 de Novembro de 2006.
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