PONTES NA DIVERSIDADE

Houve um tempo, na Península Ibérica, em que todos (ou quase todos) falavam a mesma língua. Não me refiro tanto ao conhecido latim anterior ao século V ou a essa língua popular que, na opinião de alguns autores (Moisés Espírito Santo, por exemplo), seria a sobrevivência de falares orientais, semitas, com raízes nas migrações pré-romanas provenientes da Fenícia ou de Cartago – e que teria subsistido até ao século VI. Penso nos dialectos moçárabes com que os povos peninsulares se entenderam até à Reconquista, frutos de uma sedimentação secular de morfologias, sintaxes e vocabulários provenientes de povos e épocas diferentes, entrançando os ramos nascidos de raízes indo-europeias com outros semitas (árabes, berberes e não só).
As políticas senhoriais acabaram por dividir administrativamente povos unidos durante milénios (Lusitânia, reino visigodo, taifa de Badajoz…). De cada lado os habitantes começaram a adoptar a língua de prestígio dos seus senhores, sobretudo a escrever nessa língua – e, mais uma vez, Babel foi fazendo das suas…
Se lermos, contudo, documentos escritos até aos séculos XVI-XVII em português e castelhano (textos literários ou de outra índole) – perceberemos que as proximidades são mais significativas do que as distâncias. Não por acaso, até as elites desse tempo tinham orgulho em serem bilingues. O povo, esse, fazia o seu caminho paralelo – falando, sem escrever, à sua maneira.
Essa proximidade, muito esbatida até aos nossos dias, não viria no entanto a apagar-se de todo. Há uma faixa de território, traçada de norte a sul, com sessenta-setenta quilómetros de largura (tendo, invisível, uma fronteira pelo meio), em que as coisas se passaram de outro modo. No lado português da Raia, se nos adentrarmos pelas aldeias e vilas mais modestas (menos sujeitas às influências mediáticas…), não é raro encontrarmos pessoas que se orgulham de falar "espanhol" – quando, na realidade, apenas praticam uma "língua franca", de contrabandista, entendida e partilhada para além de Segura ou dos Galegos.
Se estivermos com atenção ao escutarmos o seu "falar de Portalegre – Castelo Branco" (como lhe chamam os linguistas), que pouco tem a ver com a pronúncia da Beira Alta ou com o português "cantado" do Alentejo abaixo de Arronches, começaremos então a surpreender-nos com uma fala em que, pelo menos, houve uma sementeira vocabular trazida pelos célebres "ventos" de Castela, fruto talvez dos contactos mútuos nascidos no contrabando e em muitos matrimónios celebrados ora no lado de cá ora nas igrejas das terras de Alcántara.
Termos que nenhum (ou quase nenhum) dicionário de Língua Portuguesa regista – parecem vir de vozes extremenhas, embora hoje estejam de tal maneira enraizados nos falares e na toponímia que muitos os consideram apenas regionalismos. O orvalho matinal é, por estes lados, "mareia"; um rochedo de grandes dimensões, um "canxo"; um matagal será sempre "matorral"; um pêssego come-se como "malaquetão"; um caminho rural largo é uma "carteira". Um homem aborrecido é "empalagoso"; uma mulher sabida e perigosa, uma "culebra"; se veste uma samarra, usa uma "pelice"; uma criança será sempre um "nino"…
Os exemplos poderiam multiplicar-se por muitas dezenas ou centenas. Faz falta, aliás, um trabalho sistemático de pesquisa e estudo deste fenómeno de intercomunicação linguística, afinal bem compreensível, – antes que a normalização imposta pelos modelos televisivos acabe com toda a riqueza dos nossos povos e seus habitantes.
Afinal, na língua, como noutros domínios – por mais que alguns políticos, a xenofobia e as guerras lutem pela separação – o contacto entre seres humanos trabalhará sempre em prol da ligação, da construção de pontes, primeiro motor do entendimento e da paz.

(Publicado, em tradução castelhana, na revista Imagen de Extremadura)

Nicolau Saião

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Maria Estela

Cá estou de novo no Alentejo – que fica no extremo sudeste de Portugal, como é sabido - aonde cheguei ontem sob um intensíssimo frio que mais me fez sentir o contraste com o calor natural que nesta época do ano envolve Fortaleza, o Ceará e o Brasil por extenso.

Refiro-me agora ao calor do tempo e do espaço, não ao do ambiente pessoal e humano. Esse pôde a Maria Estela senti-lo, como eu o senti, como todos os participantes o sentiram – fôssem de Quito ou de Caracas, de Madrid, de Bogotá ou da Cidade do México...
Creio não me enganar, nem exagerar – como exilado que sou e de asa meio-ferida que ando – se disser que o clima de cordial fraternidade que pude sentir naquele hotel que por dias nos foi lugar de acolhimento, e nos entrepostos de bom tamanho onde decorreu fisicamente a Bienal, me gratificou, me espantou e finalmente me comoveu um bocado, pois fômos tratados com apreço e mesmo estima desde o princípio até ao fim.
Poderá a Maria Estela, que tem experiência destes eventos no estrangeiro, dizer com alguma surpresa ao lusitano/alentejano que sou: ”Mas é habitual ser assim, valha-o Deus!”. De acordo. Mas o que a minha experiência me diz, do que tenho participado dentro de portas, é que lá pelo último dia, perceptivelmente, se começa a sentir um ambiente estilo “já debitaste tua parlenga, agora vai pela sombra e adeusinho...”. Creio que me faço entender.
Não é preciso recordar-lhe a estruturação competente – e o Curador geral decerto se congratulou - que se sentia naqueles enormes salões, nas áreas e jardins de acesso, nos lugares circundantes. Na organização dos diversos lugares de palestra, de colóquio, de debate, de repouso. Até na própria forma como o transporte dos participantes foi congeminado. Coisas simples, está de ver, mas que têm uma importancia que não deve subalternizar-se.

A presença das muitas centenas de milhares de visitantes sentia-se fluir de maneira vivaz e interessada. Talvez seja por ingenuidade da minha visão, mas nas deambulações que tive ocasião de efectuar, nos minutos em que me pude “escapulir” das acções em que participei ou a que assisti, aliás com muito gosto, fiquei com a sensação de que havia nas pessoas – crianças, adolescentes, adultos de várias idades – um genuíno interesse pela leitura, pela presença física dos livros, do eventual saber e da eventual maravilha que neles reside e que deles parte. E aquele salão da literatura de cordel, Maria Estela, com centenas e centenas de títulos mesclando a imaginação e a proverbial vivacidade de um povo pronto para todas as viagens como dizia Ungaretti e que, sim senhora, merece um futuro de luminosidade a construir, como luminosas são as praias de Fortaleza!

Termino epigrafando – em jeito de relembrança aqui entre nós – a comunicabilidade que se estabeleceu entre os confrades que ali iam efectuar seus trabalhos específicos: era boa, era espontânea, era verdadeira. Funcionava como uma leve cooptação. Nos locais das sessões, bem como naquela sala de repastos, no hotel que nos serviu de guarida, radicaram-se momentos de estima fraternal que, para além de tudo, nos garantiram a ideia, que creio apropriada, de que gente diversa, de diversa formação e nacionalidades, podem sentir um leve ou mais marcado frémito de amizade entre seres que passam ao mesmo tempo pelo tempo da Terra. E certos nomes e rostos e vozes ficaram, ficam em mim: o boliviano Gabriel, a quem por ironia amiga eu chamava “anjo gabriel” em vista da sua permanente boa-disposição e simpatia humana; o mexicano Eduardo, cavalheiro-poeta bem digno dos velhos tempos, como dizia Eugène Canseliet; o poeta José Santiago, que eu lia há tanto tempo e ali achei em pessoa de ser bem humano; e tantos, tantos outros e outras que não refiro aqui para não ser redundante e eventualmente maçador...

E pois cá estou de novo no país e na província transtagana, satisfeito mas inquieto. Pois logo que saí do aeroporto e entrei num cafézito para uma bica retemperadora, olhei e vi que, na televisão... Mas cala-te boca, que não vou agora, ainda que ao de leve, linguajar sobre tristezas e caquexias nacionais!

O triplo beijinho de estima do
n.

ÁNGEL CAMPOS PÁMPANO

(1957-2008)



Faleceu ontem, no hospital de Badajoz, o poeta e amigo de Portugal Ángel Campos Pámpano, meu vizinho de San Vicente de Alcántara, onde nasceu em 1957. Sem ter convivido muito com ele, guardava-lhe estima pela sua poesia, pela difusão da cultura portuguesa em Espanha e pela sua postura fraternal. Tinha algumas dívidas para com ele: convites seus levaram-me a escrever na revista ibérica Espacio / Espaço Escrito, a participar em sessões de poesia em terras da Extremadura e a ter em mãos a grata tarefa de traduzir para a nossa língua o seu belo livro chamado Jola (nome de uma aldeia das terras de Alcántara, onde também haviam vivido alguns antepassados meus e seus).

Prémio Eduardo Lourenço, reunira recentemente a sua poesia em La vida de otro modo (Poesía, 1983 - 2008). O seu funeral acontecerá hoje pelo meio-dia, na sua terra natal. As condolências pode ser encaminhadas para a Biblioteca de Extremadura: Plaza de Ibn Marwan, s/n - 06001 Badajoz ou pelo email biex@juntaextremadura.net

"Las mejores palabras en el mejor orden"

JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

(El País, Babelia, 22/11/2008)

García Baena, Gamoneda, Segovia, Brines, Sánchez Robayna, Atencia ... reflexionan sobre cómo la poesía trasciende los géneros literarios y, aunque está lejos de tener los lectores de la narrativa, ha conseguido salir de su propio gueto

El lugar en el que se cruzan la eternidad y el tiempo. La energía que nace de la contradicción. Una emoción reconstruida... Todo eso, dice la tradición, puede ser la poesía, esa manera de usar el lenguaje que, como quería Percy B. Shelley, "levanta el velo que cubre la belleza oculta del mundo y hace aparecer los objetos familiares como si no lo fueran". Mucho más escueto y siguiendo a sus propios clásicos, Luis Cernuda lo dijo así: "Las mejores palabras en el mejor orden".
La búsqueda de una definición para su propio oficio es una de las ocupaciones más antiguas de los poetas. Otra es discutir el carácter minoritario de ese oficio. ¿Malos tiempos para la lírica? Lo dijo Bertolt Brecht hace medio siglo, lo cantó Golpes Bajos hace dos décadas y el año pasado lo certificaron las estadísticas. La encuesta sobre hábitos de lectura en 2007 promovida por la Federación de Gremios de Editores de España es rotunda. El 94,2% de lectores habituales lo son de novela y cuento. El porcentaje restante se lo reparten el ensayo (3,6%), el teatro (0,9%) y la poesía (1,3%). Comparados con los de narrativa, en efecto, los lectores de poesía son un bien escaso. Comparados con los que había hace 50 años, la escasez no es tanta. Fruto de una demanda limitada pero creciente es también una mayor oferta. "Antes dependías de las bibliotecas de los amigos, porque ni se editaba tanto ni los libros llegaban a las librerías. Por no hablar de Internet, que ha revolucionado la difusión de la poesía", recuerda María Victoria Atencia, premio de la Crítica en 1998 por Las contemplaciones (Tusquets) y, a sus 77 años, uno de los grandes nombres de la generación de los cincuenta. Para Atencia, no obstante, es difícil que la poesía pierda su carácter minoritario: "Pero no es un género residual". Así pues, un 1,3% de pura intensidad. En palabras de Francisco Brines: "La poesía no tiene público, tiene lectores".
Por otro lado, hace ya tiempo que los poetas le retorcieron el cuello al cisne de la cursilería. Hermética o prosaica, la poesía moderna ha elevado su nivel de exigencia hasta romper con los clichés que la habían disecado como un desahogo rimado para gente con la cabeza en las nubes. Pablo García Baena, que acaba de publicar la antología Rama fiel (Universidad de Salamanca) y de recibir el Premio Reina Sofía de Poesía, el más prestigioso de Iberoamérica, recuerda los tiempos en los que empezó a publicar: "La verdadera poesía estaba ausente. Abundaban los recitadores folclóricos que imitaban a Lorca". Con todo, el autor cordobés, de 85 años, no pierde de vista la famosa dedicatoria de Juan Ramon Jiménez -"A la inmensa minoría"- al señalar que la poesía necesita un determinado contexto -"No creo en la poesía para campos de fútbol"-, es decir, soledad y silencio, otros dos bienes escasos. "Mientras una novela te entretiene y te hace tomar distancia, un poema te hace pensar y revivir cosas que son tuyas. Los poetas se meten en tu vida. Y eso es duro".
En esa distinción entre la lectura de poesía y la de narrativa coincide también Antonio Gamoneda. Para el premio Cervantes de 2006, la poesía no es literatura: "La literatura descansa en la ficción. La poesía, sea clara u oscura, no. Manifiesta hechos existenciales (sufrimientos, gozos, temores), es una emanación de la vida". En opinión del autor leonés, de 77 años, la poesía trasciende los géneros literarios -"Hay mucha poesía en Kafka"- pero en medio del ruido de la modernidad ha perdido su función primitiva: "Empezó siendo el único medio de comunicación. Era uno de sus grandes valores en la Edad Media. Ese espacio lo ocupa ahora la televisión. Si ésta ocupa todo el cerebro de la gente, será el triunfo del consumo sobre la reflexión".
"Lo que dicen los poetas sigue siendo importante", afirma Carlos Pardo, de 33 años y ganador del Premio de la Generación del 27 con Echado a perder (Visor). "Hay un margen que sólo puede llenar la poesía: el de la reflexión sobre el lenguaje, el de la música de las palabras. Esto último algunos lo encuentran también en las canciones, pero tampoco hay tanta diferencia", continúa Pardo, que además de escritor es coordinador de Cosmopoética, el festival de poesía de Córdoba -que este año celebró su quinto aniversario, con los premios Nobel Seamus Heaney y Dario Fo entre 200 autores-, uno de los referentes del género al lado de la Semana de Poesía de Barcelona y del Festival de Poesía de Medellín en Colombia. Los festivales, de hecho, se han convertido en la mejor prueba de que la poesía puede salir del gueto. "Lo bueno es que a las lecturas", cuenta Pardo, "viene gente desprejuiciada a escuchar a poetas a veces muy arriesgados. Y funciona". Eso sí, hay más espectadores que lectores. Superventas aparte, si vale la palabra, y atendiendo a las tiradas medias, Pardo calcula que hay en España alrededor de mil lectores-compradores puros de poesía: "A un festival va gente que no compra libros de poemas, pero el pesimismo no está justificado. Cada vez hay más lectores. Además, se ha roto el provincianismo. Cada vez se publica más poesía extranjera, y más latinoamericana".
La industria editorial española, en efecto, se está poniendo al día respecto a la lírica escrita en América Latina. Un fenómeno reciente. "Yo hice un curso en una universidad de Madrid en los años noventa y algunos profesores decían directamente que no les interesaba. Eso ha cambiado", recuerda la colombiana Piedad Bonnett, de 57 años, que en el transcurso del pasado festival VivAmérica presentó en España su libro Las herencias (Visor). Los herederos de César Vallejo y Pablo Neruda no son ya aves raras en el catálogo de las editoriales españolas. Algunos, no obstante, no son tan optimistas. Es el caso del poeta canario Andrés Sánchez Robayna, coautor junto a José Ángel Valente, el uruguayo Eduardo Milán y la peruana Blanca Varela de la antología Las ínsulas extrañas (Galaxia Gutenberg / Círculo de Lectores), en la que Miguel Hernández convivía con Lezama Lima y Gil de Biedma con Ida Vitale porque el criterio de selección era la lengua española y no la nacionalidad: "Se edita, es cierto, pero dudo que los libros tengan incidencia real. Eso sí, estamos lejos de afianzar un espacio cultural hispánico al modo en que lo está, con una lengua menos fuerte hoy, la francofonía".
Uno de los incluidos en aquella antología, Tomás Segovia, es un buen exponente de esa cultura transatlántica. Nacido en Valencia hace 81 años, vivió en México durante décadas y ahora lo hace en España, donde acaba de recibir el Premio Internacional García Lorca. Según Segovia, el franquismo detuvo la poesía latinoamericana en los alrededores del modernismo para el lector español. "Hay mucho que recuperar", explica, "pero los nombres de poetas como Juan Gelman, Gonzalo Rojas o Eugenio Montejo empiezan ya a estar en boca de la gente". Respecto al futuro de la poesía, el autor de Siempre todavía (Pre-Textos) tampoco es pesimista: "Su valor numérico no se corresponde con su prestigio, que es enorme. ¿Que no la leen? Ya la leerán dentro de 200 años. La influencia de la poesía se extiende por contagio, cuerpo a cuerpo". -

PEQUENO LIVRO DE AFORISMOS

Na terça-feira 25 de Novembro 2008, será apresentado publicamente olivro de poesia PEQUENO LIVRO DE AFORISMOS seguido de ALGUMAS ALUMIAÇÕES, de Vítor de Oliveira Jorge.
A apresentação, a cargo da Prof.ª Fátima Vieira, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, decorrerá às 18:30 na Livraria Leitura Books & Living, situada no Shopping Cidade do Porto, ao Bom Sucesso (Campo Alegre/Boavista).
Estará presente o Autor, a quem se devem já numerosos livros de poesia para além da sua actividade científica de arqueólogo e pedagógica de professor universitário, bem como o Editor (José Carlos Costa Marques, Edições Sempre-em-Pé).
O livro, na verdade dois livros com laços de proximidade, contém um prólogo escrito por Manuel António Pina.

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