José do Carmo Francisco

O MISTÉRIO DE FORTALEZA

Seis flores secas, serenas
Envolvidas em resina
São duas jóias pequenas
No rosto de Carolina

Mistério de Fortaleza
Entre livros e escritores
Leva toda a tua beleza
Vás tu para onde fores

Nesta serena suspensão
Do sorriso frente ao mar
Vejo a porta e a solução
Do mistério a desvendar

Somos o mundo suspenso
Nos sonhos não editados
O que sinto e o que penso
Não cabe nestes quadrados

Nestas quadras de balada
Neste ritmo de romance
Uma vida mais revelada
Não está ao meu alcance

A jóia que está à vista
Nas orelhas em dois lados
É motivo a que insista
Por elementos e dados

Mistério de Fortaleza
Que fica por decifrar
Guarda uma incerteza
No tempo do teu olhar

Que o poema não encerra
Nem há canção que defina
Fica cheiro de mar e terra
Luz do rosto de Carolina

A HERANÇA DE DOM CARLOS

de António Cândido Franco


Será apresentado no próximo dia 4 de Dezembro, pelas 19 horas, o novo livro de António Cândido Franco, intitulado A Herança de D. Carlos, editado pela Ésquilo. O lançamento decorrerá no Espaço D. Dinis, sito na Avenida António Augusto de Aguiar, nº 17, 4º Esqº, em Lisboa. Sobre a obra falará o historiador Miguel Sanches de Baêna.

António Cândido Franco afirma sobre este seu romance histórico:


«Carlos I é a tragédia de toda uma família, uma tragédia que vem do fim doséculo XVIII e se prolonga até aos nossos arrabaldes. A história do nosso último rei a sério ­- já que Manuel II não passou duma criança que fez deconta que reinou durante dois anos ­ - foi afinal um caso que demorou bem maisde cem anos a germinar e a desenvolver. Que desmedido ventre o trouxe aomundo! Em vez de nove meses, noventa anos de gestação. É caso muito sério. E é por ser tão horrível e tão imensa, que uma tal tragédia nos parece tão estupenda. Sem conhecermos os avós, nunca perceberemos o neto. Carlos em si é um enigma, uma bola opaca e pesada de carne ou de sebo, avessa ao mais penetrante olhar, mas visto à luz dos hábitos e das histórias dos seus antepassados faz-se claro, fácil, transparente. Este ser que viveu quarenta e quatro anos pode ter sido reservado como um tímido, fechado como um oráculo e desconhecido como um estrangeiro mas o seu passado faz dele um sertão previsível e tão esperado como um hábito repetido; na sua figura e na sua história vieram afinal cruzar-se com a máxima força e crueza todas as virtudes e todas as taras que encontramos dispersas e desencontradas nos seus antepassados mais próximos
Victor Oliveira Mateus


a Cristovam Pavia



Pela janela do meu quarto ouço um ruído que se mantém:
longínquo, indistinto na sua distância, nessa permanência
de rumor que me sufoca. Que me sufoca e atordoa os pássaros
na ramaria em frente. Pela janela as vozes de um lugar!
Vozes que curiosamente vejo e que magoam este desacerto

que sempre volta entre o diferente que vislumbro e esta cidade
empedernida: fanqueiros com os seus manequins de papelão
carcomidos pelo tempo e pelo desuso; miúdos com seus carros
de esferas a ziguezaguearem na humidade do asfalto; um cão
vadio ( ou de liberdade cioso?) vasculhando os restos com que

os imprestáveis excessos mascaram sua vaidade. Pela janela
do meu quarto bebo a luz que a cidade não tem, mas que para ela
sonho em momentos de insurrecto furor ou de esparsa melancolia;
momentos onde ainda teço os poucos poemas que de mim – talvez –
se firmem, para júbilo dos que suportam, mas não desistem.
PONTES NA DIVERSIDADE

Houve um tempo, na Península Ibérica, em que todos (ou quase todos) falavam a mesma língua. Não me refiro tanto ao conhecido latim anterior ao século V ou a essa língua popular que, na opinião de alguns autores (Moisés Espírito Santo, por exemplo), seria a sobrevivência de falares orientais, semitas, com raízes nas migrações pré-romanas provenientes da Fenícia ou de Cartago – e que teria subsistido até ao século VI. Penso nos dialectos moçárabes com que os povos peninsulares se entenderam até à Reconquista, frutos de uma sedimentação secular de morfologias, sintaxes e vocabulários provenientes de povos e épocas diferentes, entrançando os ramos nascidos de raízes indo-europeias com outros semitas (árabes, berberes e não só).
As políticas senhoriais acabaram por dividir administrativamente povos unidos durante milénios (Lusitânia, reino visigodo, taifa de Badajoz…). De cada lado os habitantes começaram a adoptar a língua de prestígio dos seus senhores, sobretudo a escrever nessa língua – e, mais uma vez, Babel foi fazendo das suas…
Se lermos, contudo, documentos escritos até aos séculos XVI-XVII em português e castelhano (textos literários ou de outra índole) – perceberemos que as proximidades são mais significativas do que as distâncias. Não por acaso, até as elites desse tempo tinham orgulho em serem bilingues. O povo, esse, fazia o seu caminho paralelo – falando, sem escrever, à sua maneira.
Essa proximidade, muito esbatida até aos nossos dias, não viria no entanto a apagar-se de todo. Há uma faixa de território, traçada de norte a sul, com sessenta-setenta quilómetros de largura (tendo, invisível, uma fronteira pelo meio), em que as coisas se passaram de outro modo. No lado português da Raia, se nos adentrarmos pelas aldeias e vilas mais modestas (menos sujeitas às influências mediáticas…), não é raro encontrarmos pessoas que se orgulham de falar "espanhol" – quando, na realidade, apenas praticam uma "língua franca", de contrabandista, entendida e partilhada para além de Segura ou dos Galegos.
Se estivermos com atenção ao escutarmos o seu "falar de Portalegre – Castelo Branco" (como lhe chamam os linguistas), que pouco tem a ver com a pronúncia da Beira Alta ou com o português "cantado" do Alentejo abaixo de Arronches, começaremos então a surpreender-nos com uma fala em que, pelo menos, houve uma sementeira vocabular trazida pelos célebres "ventos" de Castela, fruto talvez dos contactos mútuos nascidos no contrabando e em muitos matrimónios celebrados ora no lado de cá ora nas igrejas das terras de Alcántara.
Termos que nenhum (ou quase nenhum) dicionário de Língua Portuguesa regista – parecem vir de vozes extremenhas, embora hoje estejam de tal maneira enraizados nos falares e na toponímia que muitos os consideram apenas regionalismos. O orvalho matinal é, por estes lados, "mareia"; um rochedo de grandes dimensões, um "canxo"; um matagal será sempre "matorral"; um pêssego come-se como "malaquetão"; um caminho rural largo é uma "carteira". Um homem aborrecido é "empalagoso"; uma mulher sabida e perigosa, uma "culebra"; se veste uma samarra, usa uma "pelice"; uma criança será sempre um "nino"…
Os exemplos poderiam multiplicar-se por muitas dezenas ou centenas. Faz falta, aliás, um trabalho sistemático de pesquisa e estudo deste fenómeno de intercomunicação linguística, afinal bem compreensível, – antes que a normalização imposta pelos modelos televisivos acabe com toda a riqueza dos nossos povos e seus habitantes.
Afinal, na língua, como noutros domínios – por mais que alguns políticos, a xenofobia e as guerras lutem pela separação – o contacto entre seres humanos trabalhará sempre em prol da ligação, da construção de pontes, primeiro motor do entendimento e da paz.

(Publicado, em tradução castelhana, na revista Imagen de Extremadura)

Nicolau Saião

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Maria Estela

Cá estou de novo no Alentejo – que fica no extremo sudeste de Portugal, como é sabido - aonde cheguei ontem sob um intensíssimo frio que mais me fez sentir o contraste com o calor natural que nesta época do ano envolve Fortaleza, o Ceará e o Brasil por extenso.

Refiro-me agora ao calor do tempo e do espaço, não ao do ambiente pessoal e humano. Esse pôde a Maria Estela senti-lo, como eu o senti, como todos os participantes o sentiram – fôssem de Quito ou de Caracas, de Madrid, de Bogotá ou da Cidade do México...
Creio não me enganar, nem exagerar – como exilado que sou e de asa meio-ferida que ando – se disser que o clima de cordial fraternidade que pude sentir naquele hotel que por dias nos foi lugar de acolhimento, e nos entrepostos de bom tamanho onde decorreu fisicamente a Bienal, me gratificou, me espantou e finalmente me comoveu um bocado, pois fômos tratados com apreço e mesmo estima desde o princípio até ao fim.
Poderá a Maria Estela, que tem experiência destes eventos no estrangeiro, dizer com alguma surpresa ao lusitano/alentejano que sou: ”Mas é habitual ser assim, valha-o Deus!”. De acordo. Mas o que a minha experiência me diz, do que tenho participado dentro de portas, é que lá pelo último dia, perceptivelmente, se começa a sentir um ambiente estilo “já debitaste tua parlenga, agora vai pela sombra e adeusinho...”. Creio que me faço entender.
Não é preciso recordar-lhe a estruturação competente – e o Curador geral decerto se congratulou - que se sentia naqueles enormes salões, nas áreas e jardins de acesso, nos lugares circundantes. Na organização dos diversos lugares de palestra, de colóquio, de debate, de repouso. Até na própria forma como o transporte dos participantes foi congeminado. Coisas simples, está de ver, mas que têm uma importancia que não deve subalternizar-se.

A presença das muitas centenas de milhares de visitantes sentia-se fluir de maneira vivaz e interessada. Talvez seja por ingenuidade da minha visão, mas nas deambulações que tive ocasião de efectuar, nos minutos em que me pude “escapulir” das acções em que participei ou a que assisti, aliás com muito gosto, fiquei com a sensação de que havia nas pessoas – crianças, adolescentes, adultos de várias idades – um genuíno interesse pela leitura, pela presença física dos livros, do eventual saber e da eventual maravilha que neles reside e que deles parte. E aquele salão da literatura de cordel, Maria Estela, com centenas e centenas de títulos mesclando a imaginação e a proverbial vivacidade de um povo pronto para todas as viagens como dizia Ungaretti e que, sim senhora, merece um futuro de luminosidade a construir, como luminosas são as praias de Fortaleza!

Termino epigrafando – em jeito de relembrança aqui entre nós – a comunicabilidade que se estabeleceu entre os confrades que ali iam efectuar seus trabalhos específicos: era boa, era espontânea, era verdadeira. Funcionava como uma leve cooptação. Nos locais das sessões, bem como naquela sala de repastos, no hotel que nos serviu de guarida, radicaram-se momentos de estima fraternal que, para além de tudo, nos garantiram a ideia, que creio apropriada, de que gente diversa, de diversa formação e nacionalidades, podem sentir um leve ou mais marcado frémito de amizade entre seres que passam ao mesmo tempo pelo tempo da Terra. E certos nomes e rostos e vozes ficaram, ficam em mim: o boliviano Gabriel, a quem por ironia amiga eu chamava “anjo gabriel” em vista da sua permanente boa-disposição e simpatia humana; o mexicano Eduardo, cavalheiro-poeta bem digno dos velhos tempos, como dizia Eugène Canseliet; o poeta José Santiago, que eu lia há tanto tempo e ali achei em pessoa de ser bem humano; e tantos, tantos outros e outras que não refiro aqui para não ser redundante e eventualmente maçador...

E pois cá estou de novo no país e na província transtagana, satisfeito mas inquieto. Pois logo que saí do aeroporto e entrei num cafézito para uma bica retemperadora, olhei e vi que, na televisão... Mas cala-te boca, que não vou agora, ainda que ao de leve, linguajar sobre tristezas e caquexias nacionais!

O triplo beijinho de estima do
n.