Adélia Prado é uma das poetas de língua portuguesa mais consistentes na sua produção. Há poucos dias fez anos e deu uma entrevista ao Cronópios. Pode ser lida aqui. Vale mesmo a pena.

NATAL ZERO OITO

(Textos de Nicolau Saião, desenho de H. Mourato)

Mais uma vez se cumpre a data que, para além de tudo o resto por dentro ou por fora, é uma saborosa pausa num quotidiano quantas vezes bichoso, inquietante ou imediatista.
Este ano o panorama, creio, não é de molde a fazer-nos sonhar amavelmente.
Não se trata só da violencia camuflada ou insolitamente nua que em tanto lugar se exibe contra indivíduos ou comunidades. Essa infelizmente já a conhecemos. O caso é um pouco mais complexo: as gloriosas certezas que percorriam esta parte do planeta, depois do apagamento por implosão da outra, começaram a dar de si, como se dum caixotão excessivamente repleto se tratasse. Mas o realmente grave – daí a inquietação – é que os seus próceres, alheios às terapêuticas eficazes, têm afixado uma estratégia de recurso que mais se parece com uma táctica de adiar para as calendas gregas o estrépito que já perspectivaram. E que é muitíssimo evidente.
Creio que nos cabe a nós todos aconselhar esses cavalheiros sobre a melhor actuação cidadã: abandonarem de uma vez por todas as prestidigitações e as habilidades de circo, tanto mais que não parecem estar a conseguir tirar coelhos de dentro da cartola...

Enfim, mais um período de Natal, essa quadra encantadora para a nossa não perdida inocência, chegou até nós. Como se usa dizer, parece que foi ontem a outra – e já trezentos e tal dias abalaram para o antigamente.
Mas calo-me já. Deixando-vos, com vossa licença e espero que por vossa estima, com o poema natalino que segue, cuja ilustração é de H.Mourato.
Boas Festas!


*

Quem fala de Natal perde palavras
à entrada do Inverno, na secura dos dias
no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas
tão de infância e de Agosto. O fogo
misturado: árvores, luzes, fantasmas
e as doces mãos das Avós. E ainda
um postal velho velho cheio de vento e de memórias.

Quem fala de Natal perde palavras, ganha
e perde as demais coisas que as palavras edificam.

“Quem grita no Natal? E Deus
não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos
na fria água do rio? Com seus chapéus à banda
em barcos engalanados
os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos
dizendo estranhas frases, assombrando as moradas
onde afinal não nasce o tal de Nazareh. O sal e o
pão terrenal dos que ainda não foram
pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.

Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.

Para ser do Natal é preciso possuir
uma lembrança ardente, um brinquedo estripado
e muita tristeza feita nos anos em leilão
dos retratos tombando com um nó na garganta.
Para ser do Natal é preciso morrer
e viver de seguida com o sangue nos braços
esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno
junto à porta perdida dum milagre adiado.

Ah falar de Natal! Quem o consente?

O pão e o sal
talvez
de toda a gente. E um olho de animal
pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele
abrindo a água lustral (no bem, no mal)
frente ao horror da morte
terrena e inocente.

Por isso, no Natal
os segredos demoram
e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato
para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz
- uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha
dos animais inominados
e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.

No Natal treme a casa, a casa
sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.

E o inventário dá, se estiver certo:
um coração ardido todo azul
uma recordação minúscula que se guardou num bolso
um riso salutar ensanguentado
uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial
uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço
o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã
um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas
uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram
duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida
numa cruz de polo a polo
um hálito que soprado no peito nos enlouquece
um arrepio, uma agonia
uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.

Talvez o Natal seja um rosto
ou uma madrugada de outono
ou um avião nocturno
ou um verão por detrás das coisas aparentes
ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal
ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito
numa rua da cidade
no escuro muito escuro de uma cidade do universo
quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez

que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal
se resuma a filhós e azevias de um outrora
a canecas de café familiar
algures num horizonte, numa idade, num momento
no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.

E a chuva que diabo irá cobrindo tudo
no infinito Natal dos mundos desaparecidos.
NÃO HÁ LUGAR NA HOSPEDARIA

"Não havia lugar na hospedaria". De entre todas as frases que constroem a narrativa da Natividade é esta uma das que mais me impressiona. Mais do que uma imagem de pobreza, de ausência de abrigo, esta afirmação ecoa no meu cérebro como desencantada constatação da rejeição da digna humanidade de Jesus.
Hoje vivemos um Natal sem Natividade e sem Menino, envelhecido nas barbas brancas de um velho com barriga de fartura - empanturrado talvez pela "água suja" açucarada do refrigerante que trajou Nicolau de vermelho e lhe retirou o nome e o papel de servo de Cristo. Ausenta-se dele não só a pobreza de Jesus, mas até a sua imagem (envolvida nas notas de banco do comércio ou em papéis de embrulho), numa reverência aos deuses do neo-paganismo dominante (o Dinheiro, o Consumo, a Indiferença, o Relativismo, o Sucesso, etc.). Vivemos, assim, num mundo em que a verdade da frase registada no Evangelho se tornou evidente.
Como há cerca de dois mil anos, não há hospedaria que acolha muitos dos seres humanos que habitam neste planeta Terra. É fácil lembrarmo-nos dos impressionantes números da miséria extrema que revestem alguns países dominados por sanguessugas que, por vezes, até assumem as vestes da "democracia" para melhor se perpetuarem no poder e cometerem os seus crimes. Mais difícil é lembrarmo-nos daqueles que, ao nosso lado, não encontram lugar nas hospedarias da dignidade. E não são apenas quantos povoam as arcadas e os recantos do relento deste país, deitados em caixas de papelão. São também, por exemplo, as crianças que não encontram lugar nos infantários públicos, os jovens altamente qualificados que não têm emprego nem esperança de trabalhar no seu Portugal, os cidadãos dignos que se vêem espezinhados por dirigentes políticos económicos ou sociais levianos e/ou corruptos ou por um sistema de justiça em erosão, aqueles que perdem o seu emprego, os que vêem o seu sustento reduzido pela ganância bancária, os idosos que não têm que olhe por eles, sendo excluídos dos lares por causa das suas doenças ou por não terem dinheiro suficiente que compre a abertura de vagas.

*

Há pouco mais de um ano Rosária foi uma dessas excluídas que, todos os dias em Portugal, não têm lugar na hospedaria. Residente no concelho de Portalegre e doente de Alzheimer, quando a sua família se viu impossibilitada de cuidar dela durante alguns dias, ouviu em quase todos os lares da sua região a mesma resposta. Como se fosse uma pestífera, a sua doença provocou sempre a mesma recusa. Apenas o director do Lar de São Domingos dos Fortios lhe mostrou alguma luz na sua atitude sincera e sensível, apesar das dificuldades de espaço da instituição que dirige.
Felizmente a solidariedade aldeã resolveu as coisas de outro modo.
Ainda não há um mês, Deus, em definitivo, cessou por completo o seu sofrimento, as suas dificuldades e as da sua família.
Há sempre seres humanos que nos fazem acreditar na Humanidade e não descrer completamente deste mundo. No exemplo apontado, vemos o director de um lar, a vizinha solidária (D. Armandina) e até o médico (Dr. Serpa Soares) que, na hora da morte de Rosária, soube vencer os muros da burocracia cega do Estado e da insensibilidade de colegas seus.
Esta história poderá ser de proveito e exemplo, aclarando a consciência. Hoje, como há dois mil anos, há gente que é posta na rua porque não há lugar na hospedaria. Mas há sempre estrelas que guiam, grutas que na pobreza se abrem para acolher os excluídos deste mundo em que vivemos, pastores que oferecem o pouco que têm. Façamos parte deste segundo grupo - e concretizemos, com o nosso contributo, uma verdadeira comemoração da Natividade de Jesus de Nazaré.

As aventuras do nosso amigo Nicolau Saião

na Cronópios podem ser lidas e vistas aqui.

EDSON CRUZ

palimpsesto

toda poesia já
escrita
não se equipara
a toda poesia
inscrita
a poesia jaz


esmero

retocar a canção
chegar até
à imperfeição
de mero José
a impossível João


abulia

quando os homens
se abatem
todo o universo
— misteriosa simbiose —
se esbate
melancolia é soberana
sobre as lápides


samsara

pois tudo se transforma
mesmo o nada que não quer
ser algo vira alguma coisa
que logo vem a ser outra
do feitio que ela vida
quando se desativa
e a chama passa a se
chamar morte naquele des
equilíbrio tênue de quem
precisa e quer renascer



EDSON CRUZ (Brasil, 1959). Editor do sítio web de literatura Cronópios e da revista literária Mnemozine. Entrevistador do programa BITNIKS voltado para literatura na internet. Escritor, editor, revisor e preparador de textos. Revisor pela Ateliê Editorial, Editora Unicamp, Sapienza Editora e Novo Século. Curador do evento Cartografia Web Literária, em parceria com o SESC-Consolação (2008).