LUIS ARTURO GUICHARD


Las campanas del sitio en que nacimos
Están sonando siempre. No las oímos
Pero ellas nos están siguiendo. Miden
Los golpes que nos quedan con la precisión
Que sólo aprende el péndulo. Suenan
En aquel lugar de casas blancas
De larguísimos pasillos ciegos
En los que el mismo niño sigue
Corriendo sin encontrar la salida
Con la misma mirada del anciano
Que señala al niño un punto mas allá
del ocaso.
La despedida suena
el los oídos como un péndulo. Empecemos
a cumplir el oficio de creer y de esperar.
Entre estos doce golpes deben estar
los sonidos verdaderos.

(in Los sonidos verdaderos, México, 2000)

CASÉ LONTRA MARQUES


Alguns poemas
de
Mares inacabados
(2008)


O corpo ultrapassa a parede de argamassa, mas continua
estreito, concreto, como um pulmão trancado
em crise de asma. A liberdade
vendeu as asas em troca de paisagem.
Encontro um detrito
entre as pernas, apesar da velocidade dos afetos.
O pássaro
que inventamos era só mais um pássaro.


*


Através da vidraça trincada, dá pra ver a cara calma
da calçada. Prédios em vez de asas.
Quando escurecer, o corpo edificará sua cota
de argamassa. Algo branco
seduz a cidade com solidez de fumaça.
Depois de respirar, aceito
o sol na medida exata do furo de uma bala.


*


Lá está a esquina prevista, a cidade evidente. Mares inacabados
que o sol do sarcasmo
infeccionou. Dois desempregados cruzam o asfalto, equilibrando pássaros
dentro dos sapatos. Cultivar o corpo como pedras
que o sol do sarcasmo
infeccionou. A violência também exercita nem tão sutil melodia.


*


Móveis novos há tanto depredados. Setembro quase de todo
vertical. Uma gaveta que ninguém ousaria
comparar a um pulmão. Apesar de desfalcar o tórax
do armário. Outubro não virá
até que se abra outro janeiro no colo desta hora.


*


Pouco importa se o fogo voltará. Alguma cabeça
no mais alto degrau da escada. Ainda
o martelar daquele prego
incomodamente mudo. Resta agora a camisa pra lavar.
LIVRO DE RUY VENTURA
TRADUZIDO NOS ESTADOS UNIDOS

Acaba de ser publicada nos Estados Unidos da América, em San Francisco (Califórnia), uma tradução do livro de poesia de Ruy Ventura intitulado Assim se deixa uma casa. A obra agora dada a lume com o título How to leave a house surge no âmbito do projecto “Second Mind”, contando com uma versão inglesa da responsabilidade de Brian Strang, que já antes publicara nessa língua poemas do autor de Arquitectura do Silêncio, nomeadamente na revista 26: A Journal of Poetry and Poetics, editada também na cidade californiana, e em publicações electrónicas.
Brian Strang vive em Oakland, sendo professor na San Francisco State University e no Merritt College. Publicou, entre outros, os livros Incretion e machinations. Tem traduzido, em conjunto com Elisa Brasil, poemas de vários autores contemporâneos de língua portuguesa. Pintor, tem quadros que podem ser vistos na sua página on-line, “Sorry Nature” (http://sorrynature.blogspot.com/).
Assim deixa uma casa, cuja tradução agora se publica, teve a sua primeira edição em Portugal no ano de 2003, pelas edições Alma Azul, de Coimbra. Tratou-se de uma edição bilingue, em português e espanhol, com versão e prefácio de Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970), um dos mais importantes estudiosos e divulgadores da literatura portuguesa dos séculos XX e XXI em Espanha. Sobre esta obra, escreveu Pedro Sena-Lino em 26 de Janeiro de 2004 na página “Canal de Livros” (http://www.canaldelivros.com/data/Novidades/640.htm):
Desde o seu primeiro livro, [...] Arquitectura do Silêncio, que a poesia de Ruy Ventura se constrói numa tensão obsessional pelas coordenadas de espaço e tempo, pelos seus limites e capacidades. A inscrição, através do poema, visa simultaneamente reconciliar o visível e o invisível, o tempo anterior, o presente e o passado, e criar no lugar-tempo do poema um espaço fixo de imutabilidade, uma estrutura do eu em sintonia e coerência. / Donde que neste seu quarto livro, Assim se deixa uma casa, esta temática se manifeste em tonalidade diferente da do primeiro livro, ou mesmo de Sete Capítulos do Mundo, recentemente editado pela Black Sun. A Casa, baluarte identitário e veículo do espaço absoluto do poema, é uma entidade simultaneamente materna e protectora; abandona-lá significa um corte, com qualquer coisa de injusto: / […] / Porém, o valor espiritual da casa é desenvolvido com larga perspectiva pela pena de Ruy Ventura: / […] / Mais um aspecto da inscrição do natural (outro tema caro a esta poesia), ou seja, da identidade da natureza face ao tempo, que Ruy Ventura tem levado a cabo, com assinalável coerência, num processo de escrita que cada vez mais se condensa numa sucessão de imagens estranhantes, perturbadoras, misteriosas.”
José Mário Silva, por seu lado, referiu no “Diário de Notícias” de 8 de Janeiro de 2004:
Este é um universo fechado, somatório de enumerações e enquadramentos fotográficos. Os versos são degraus por onde sobem imagens duma despedida, de uma ausência em curso. A casa esvazia-se mas permanece de pé – “estátua de areia / num jardim de inverno”. Há um cântaro que guarda o “caminho entre a fonte / e a alegria”. O texto, esse, arde na sua opacidade. Porque é “ao mesmo tempo / luz e interpretação da luz”.”



Artigo de Patrícia Monteiro
sobre pinturas murais da Idade Média
encontradas no castelo de Amieira do Tejo (Nisa)
pode ser lido aqui.

REVERTE


Ando a ler mais um volume de Arturo Pérez-Reverte, Con ánimo de ofender, que reúne artigos editados no El Semanal nos anos que estabeleceram a transição entre o século XX e o século XXI.
Ler os textos de opinião e de observação deste autor espanhol traz-me à memória uma força verbal que, em Portugal, só pode ser encontrada nas páginas de crónica assinadas por Fialho de Almeida ou por Camilo Castelo-Branco.
Nos últimos cem anos, tirando Luiz Pacheco e pouco mais (e mesmo assim...), nada surgiu de comparável. Nos nossos dias, então, não há testículos como os do criador de Alatriste - ou, se os há, estão devidamente ocultados, arredados da grande imprensa que lhes poderia dar justo eco alargado.
Na nossa "imprensa de referência", tanto quanto me parece, o que mais há são teclados com problemas de erecção e de coluna vertebral, ilusionistas de feira sem a menor dignidade, a soldo dos mais diversos interesses, mesmo quando parecem mostrar o contrário. Uns e outros, quando parecem escarrar nas fuças de quem merece, apenas dão beijinhos velados, não fique abalado o edifício do status quo, a que pertencem.
Ler algumas crónicas de Arturo Pérez-Reverte injecta-nos coragem. Obriga-nos a continuar a luta pela sobrevivência digna neste mundo de trampa. Não esqueçamos: aqui, onde vivemos, haverá sempre homúnculos à espera do momento exacto para proceder à nossa castração, seres que, discretamente, com diabólica rapidez e eficácia, procuram sodomizar a nossa verticalidade.