WILMAR SILVA





arranjo de gaivotas e pampulha, dia 31


eu-menino-do-campo, te faço conviva
e digo que a palavra que escrevo é
origem, invento gaivotas no sertão
ilha é meu corpo de encontro ao teu
aqui, longe, após o inverno da tempestade
verto o amálgama da pampulha veleiro
arco-íris que choram de solidão, eu
agora impávido e celeste, anjo de fogo
eu-espelho d' agua, narciso e orfeu
flautas e flores, eu-pássaro cais e flora -



Creio que este poema é a chave que nos permite entrar na poesia de Wilmar Silva, recentemente publicada em Portugal num volume intitulado Yguarani (Edições Cosmorama). Autor de uma obra invulgar e inclassificável no espaço lusófono, Joaquim Palmeira (outro dos nomes com que assina os seus textos) nasceu a 30 de Abril de 1965 em Rio Paranaíba (Minas Gerais, Brasil) e coordena o projecto Portuguesia, cuja primeira contrantologia foi lançada no passado mês de Julho em Seide, no Centro de Estudos Camilianos. Conhecer melhor o seu trabalho é possível através do seu blogue Cachaprego.
“Cultura no Centro”
sábado, dia 26 de Setembro, às 17 horas
Novos caminhos da poesia portuguesa em análise
Poetas, críticos e livreiros
debatem o rumo da poesia portuguesa contemporânea

O Dolce Vita Porto vai receber, no dia 26, às 17h, os poetas Manuel António Pina, Fernando Guimarães, Rosa Alice Branco, Catarina Nunes de Almeida e Emílio Remelhe para um debate inteiramente dedicado à poesia portuguesa. A livreira Dina Ferreira, proprietária da Poetria, também participa neste encontro que, durante hora e meia, se propõe analisar a "expressão máxima do génio literário português", na opinião de vários especialistas.Organizado pelo jornalista Sérgio Almeida nos últimos sábados de cada mês, o ciclo “Cultura no Centro” debate temas relacionados com as artes, reunindo um naipe alargado de criadores e responsáveis.
A literatura infanto-juvenil, a banda desenhada e a edição foram os temas inaugurais do ciclo.
O encontro tem lugar no piso 2 de descanso do Shopping.


Esta é, em português, a primeira edição de um livro do escritor espanhol José María Cumbreño. A antologia poética intitula-se Teorias da Ordem e é traduzida do espanhol por Ruy Ventura. A obra é publicada pelas Edições Sempre-em-Pé, na sua colecção UniVersos. (Quem carregar na imagem da contracapa poderá ler um dos poemas do livro; brevemente serão divulgados outros neste espaço.)

ALGUNS POEMAS
DE RUI ALMEIDA

O brilho da névoa
Uma febre luminosa arrastada adiante
Todos os pés de quem passa sem ruído
Sempre longe o mínimo tremor
E o vento, uma toalha solta agitada
Há os que dizem coisas por não as saberem
E os que olham passam suspensos
Os dias são sinais, são tardes inteiras
Corrosão que pode ser dita
Actualizada a cada momento
Tentativas sem sucesso para avançar
A destreza dos barcos nos dias de chuva
Ou a lentidão observada à distância.


*


1.
A nitidez da folha rasgada
Da falha corroída no centro
Sugere o movimento de quem caminha
De quem não sabe aonde ir

Mas que não espera, mas que não se esconde


2.
Quando se projecta no vidro a sombra
De um ser que voa e voando surge
Nunca pássaro, nunca anjo, sempre sombra
Que se ausenta sendo visível e certo

Então de luz o olho de repente arde


3.
Da deslocação para a margem se envolve
A presença da minúcia, o reflexo
Raro a sedução pela distância ou
Qualquer tentativa de aumentar a queda

Porém de novo se alimenta o sopro da pobreza


Saídos do seu primeiro livro, Lábio Cortado (uma estreia que não envergonharia ninguém – tanto mais que recebeu o Prémio Manuel Alegre – 2008, instituído pela Câmara Municipal de Águeda), estes poemas de Rui Almeida são, quanto a mim, os pontos mais luminosos da colectânea. Não dispensam contudo a visitação da obra inteira – editada pela Livro do Dia Editores, sediada em Torres Vedras –, a qual conta com o posfácio de Paulo Sucena, um dos membros do júri que decidiu galardoá-la.

ALGUNS POEMAS DE
JOÃO MIGUEL HENRIQUES



A ideia


e no momento exacto da compreensão
no preciso fulgor do entendimento
esse fugaz instante gasoso
entre a apreensão da língua
e a ideia consagrada
decidi fechar os olhos
apertar os punhos com força
retorcido sobre mim mesmo

era para ver apenas
se poderia suceder
a palavra ser só palavra
nada mais que linguagem
nada mais que um som despido
liberto de todo o sentido
matéria sem peso violento

a ausência da ideia
essa puta opressora



P. M.

eles vão sobreviver-te, tu sabes disso

por isso odeia-os profundamente
desprezas os membros ágeis
os olhos com dúvida e tempo

sabes que as tuas palavras sábias
não ecoarão para além da morte

e eles vão sobreviver-te, naturalmente
sem a tua linguagem
e esquecidos da tua memória



A erva alta

teria podido escrever os outros versos
soubesse eu da erva alta lá por fora
a que cresce nociva
junto ao muro da casa
e a mais distante, junto à estrada,
rasteira e inútil

teria alcançado a estância mais pura
soubesse ainda dizer as verdades
da erva a roçar-me pelos flancos



Poemas publicados em Também a memória é algum conhecimento, recentemente editado no Brasil na Lumme Editor, sediada em São Paulo. João Miguel Henriques (Cascais, 1978) estreou-se com O Sopro da Tartaruga, tendo divulgado desde aí textos seus em várias revistas e páginas em linha. É autor do blogue Quartos Escuros (www.quartosescuros.blogspot.com).
Este livro, para além das suas linhas de sentido e de fuga (que me dispenso de comentar, incitando o leitor à descoberta e à sua silenciosa indagação), deveria obrigar-nos a reflectir seriamente sobre as razões que levam cada vez mais poetas portugueses a verem publicados no estrangeiro os seus escritos, quando dentro de casa são relegados para um lugar que não merecem.