Vai decorrer na Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Azeitão o primeiro acto de apresentação de Instrumentos de Sopro, de Ruy Ventura, recentemente publicado pelas Edições Sempre-em-Pé. Em data a anunciar ocorrerá uma apresentação em Lisboa.


Quinta-feira, 15 de Abril de 2010, por volta das 18 horas.
Biblioteca da Escola Básica 2, 3 de Azeitão.
Seminário Internacional em Alvito


Integrar o Alentejo no Caminho de Santiago,


um desafio para o Ano Santo de 2010





Segundo a tradição, quando o dia de Santiago Maior (25 de Julho) cai num domingo, este passa a ser Ano Santo Jacobeu, assinalado por particulares bênçãos e privilégios espirituais para os peregrinos. É o caso de 2010, um ano marcado, na Galiza e fora dela, pelo intenso programa religioso e cultural que se destina a tornar patente o fenómeno, cada vez mais popular, da peregrinação a Compostela. Só na capital galega são esperados mais de oito milhões de visitantes.

A ocasião mostra-se propícia para a redescoberta de diversos segmentos do Caminho de Santiago, outrora famosos, que caíram quase no esquecimento e começam a voltar à luz do dia. Algo extremamente significativo, tanto mais que o próximo Jubileu Compostelano só ocorrerá em 2021. Onze anos são muito tempo e podem fazer toda a diferença para que os itinerários menos divulgados se imponham, ou não, em termos internacionais, junto da UNESCO e dos organismos galegos a quem cabe o seu reconhecimento.

Um destes percursos, o Caminho Português, não se limitou, ao contrário do que muitos pensam, apenas às zonas do nosso país mais próximas da Galiza. Pelo contrário, sulcou todo o território nacional, tendo alcançado grande expressão também no Alentejo. O seu progressivo abandono a partir do século XVII votou-o a uma certa obscuridade. Hoje, porém, quando os itinerários para Santiago de Compostela estão a ser descobertos de novo por toda a Europa, assiste-se à revitalização do Caminho no Sul. O número de peregrinos é ainda modesto, mas vai em crescendo.

Eis um domínio em que não se pode improvisar nem actuar isoladamente, fomentando percursos um pouco ao sabor das circunstâncias. A organização é a chave do sucesso. De facto, torna-se necessário um esforço concertado, ao nível nacional e internacional, para determinar as vias mais praticáveis e conseguir a sua homologação pelas entidades religiosas e civis, para criar albergues e pontos de apoio (uma das grandes lacunas com que se deparam os peregrinos) e para recuperar e tornar acessíveis os monumentos e outros valores culturais e naturais associados ao Caminho.

No Baixo Alentejo, a recuperação dos antigos itinerários de peregrinação tem vindo a ser promovida pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja. Esta iniciativa, levada a cabo em parceria com os municípios e outras entidades da região, obteve já o reconhecimento da União Europeia, sendo um dos eixos de “Loci Iacobi – Lugares de Santiago, Lieux de Saint Jacques”, projecto-piloto que abrange Portugal, Espanha e França. O seu principal intuito é contribuir para a dinamização dos itinerários utilizados ao longo dos séculos pelos peregrinos.

A apresentação pública do projecto realiza-se em Alvito, a 25 de Março, no Seminário Internacional “O Caminho de Santiago e a Identidade Europeia”, destinado a assinalar o Ano Santo Jacobeu de 2010. Tendo como fio condutor a análise da peregrinação compostelana no contexto da Europa do século XXI, o encontro parte de uma reflexão sobre o passado, o presente e o futuro do Caminho para dar a conhecer a experiência e as perspectivas das três instituições responsáveis por “Loci Iacobi”: a Xunta de Galicia, governo autonómico da Galiza, com papel decisivo na gestão do Caminho; a Communauté d’Agglomération (comunidade urbana) de Le Puy-en-Velay, cidade património mundial, ponto de partida da “Via Podiensis”, um dos percursos mais destacados em solo francês; e a Diocese de Beja.





Uma realidade transversal à Europa

O Caminho de Santiago é constituído pelos diferentes itinerários utilizados, ao longo dos séculos, pelos peregrinos a Santiago de Compostela, sulcando praticamente toda a Europa, de Norte a Sul e de Este a Oeste. A peregrinação ao túmulo de Santiago marcou, logo a partir dos seus primórdios, no século IX, a identidade europeia. Atingiu o apogeu na transição da Idade Média para a época moderna. Após alguns momentos de crise, voltou a ganhar vigor na segunda metade do século XX. Hoje permanece bem presente no quotidiano do velho continente, adquirindo uma dimensão internacional cada vez mais notória e sendo percorrido por milhões de pessoas todos os anos.

Declarado Primeiro Itinerário Cultural Europeu (1987) e Património da Humanidade em Espanha (1993) e França (1998), o Caminho de Santiago, embora fiel a raízes plurisseculares, não deixa de ser uma realidade em constante evolução. O avanço da pesquisa científica e o entusiasmo dos peregrinos trouxeram à luz do dia, no decurso das últimas décadas, segmentos esquecidos das antigas vias. Em muitas regiões estão em curso actividades de revalorização dos percursos históricos. Aliás, o próprio fenómeno da peregrinação ganhou novos contornos, à luz da cultura e da espiritualidade dos nossos dias. Tudo isto tem enriquecido o Caminho, abrindo horizontes e criando novos desafios, como os que unem agora a Galiza, o Haute-Loire e o Alentejo.



Potenciar o património comum

A redescoberta de pontos-chaves do Caminho, a interpretação do património cultural e natural a ele associado e a qualificação do acolhimento dos peregrinos são algumas das prioridades do projecto “Loci Iacobi – Lugares de Santiago, Lieux de Saint Jacques”, assente na abordagem transversal dos fenómenos históricos, religiosos e turísticos que favorece o seu entendimento a uma escala mais alargada, visando distintas zonas do velho continente. Esta acção resulta de uma parceria formada em 2009 no âmbito do Programa de Cooperação Territorial do Espaço Sudoeste Europeu (SUDOE), apoiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

O território correspondente à Diocese de Beja, a segunda mais extensa de Portugal, é um exemplo de como o Caminho de Santiago tem vindo a ser redescoberto nos últimos anos pelos investigadores e pelos peregrinos. Ao longo deste vasto espaço distribuem-se alguns dos principais itinerários do Caminho no Sudoeste Peninsular. Entre as vias que ligam a Andaluzia à Galiza merece destaque o que entra por Serpa, passa por Beja e, ao inflectir para o Norte, em direcção a Évora e depois a Santarém, tem uma referência primordial em Alvito, outrora ponto de paragem obrigatória para os viandantes. Por aqui passaram figuras de renome, como o médico e humanista Hyeronimus Münzer, cidadão de Nuremberga, enviado do imperador Maximiliano ao rei D. João II em 1494.

Elevada a vila em 1280, Alvito ocupou posição de relevo na zona entre Beja e Évora, sobressaindo pelos seus monumentos e obras de arte. O acolhimento dos peregrinos efectuava-se no hospital do Espírito Santo, fundação de D. Estêvão Anes (+ 1279), chanceler-mor de D. Afonso III. Em meados de Quinhentos, esta instituição ficou integrada na Santa Casa da Misericórdia, adoptando mais tarde o título de Nossa Senhora das Candeias. A igreja matriz, sob a invocação de Santa Maria (depois Nossa Senhora da Assunção), foi reconstruída na transição do século XV para o XVI e fez parte da rede dos santuários secundários do Caminho. Uma pintura mural “a secco”, de finais de Quatrocentos, representa Santiago, ladeado por São Sebastião e Santo André, com a túnica e o livro dos discípulos de Cristo e a capa, o bordão e o chapéu dos peregrinos, evocando a devoção ao apóstolo.

O Seminário Internacional, organizado pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja em colaboração com o Município de Alvito, decorre no Centro Cultural desta vila durante a manhã do dia 25. Conta com a participação de peritos no estudo, identificação e promoção do Caminho de Santiago, como Carmen Pardo, Corinne Gonçalves, José António Falcão, Géraldine Dabrigeon e Pedro Canavarro. A inscrição é gratuita (formulário em anexo ou www.cm-alvito.pt). Da parte da tarde efectua-se uma visita ao concelho.


Sinceramente, repugna-me a ideia de "melhores poemas" porque é impossível a alguém saber quais são os melhores, se não os leu todos. O costume, enfim. Uma estratégia semelhante à do "Omo", lavar mais branco... A iniciativa tem contudo algum mérito, nem que seja pela contribuição para as actividades da AMI.
DOIS POEMAS
DE INSTRUMENTOS DE SOPRO






criámos este mundo. e outro mundo ainda.
a voz e o sangue. este corpo a dançar na escuridão.
a sombra da cerejeira nesta tarde sem vento.

retiro, sem calor, o barro com que rebocámos a nossa alma.
assim, despida, a pedra esboroa-se.
somos apenas terra sem estrume que nos fertilize.
guardamos nos olhos a semente – e alguns grãos de areia
na alvenaria com que desenhámos esta ponte.

recriámos esse mundo. e outro mundo ainda.
os pilares rodeiam esta dança –
os mortos descendo ao centro da noite.

a água destrói o vinho e as videiras.
a janela guarda no poço uma língua estranha
que nesta face podemos decifrar.

destruímos este mundo. e outro mundo ainda.
amassámos sobre a eira a distância
com a fértil viagem ao poente.

a lama regenera a nossa sede. a água desfaz esses carvalhos
que um dia regressaram à nascente.

destruímos este mundo. e outro mundo ainda.
voz e sangue. corpo e dança.
na escuridão.







matéria



sangue ou tinta? nada substitui o corte
na paisagem. pedra ou tinta? não interessam
as formas nem as figuras dispostas no paramento
que rompe a linha das casas. os vitrais escondem

a passagem de um navio por entre os dedos.
não existem imagens que os olhos reconheçam.
na memória avultam movimentos mínimos –
lábios recebendo no negro esplendor

a torre inteira, arquitectura de sangue.
pedra ou sangue? esqueço o horizonte.
contemplo os vitrais. gritos explodem
como sinos num dia de nevoeiro.

ou tocarão os sinos como gritos nesta torre
que permanece sobre o livro?



*



sangue, tinta, pedra. a inexistência
sobre o espaço, substituindo a existência sobre a terra.
a pedra como símbolo do sangue – o sangue
como tinta, elevando na superfície
da carne outra torre feita de vulcões e de memória.

nada resiste contudo ao efémero das raízes.
a erosão e a humidade desfazem e apodrecem
o corpo, a torre, a paisagem.

os átomos subsistem. mas no fim dos tempos
ninguém poderá distinguir no deserto
a torre do corpo, o corpo da tinta e do papel
que um dia registaram a transfiguração

da pedra, do sangue – nas palavras.



In Instrumentos de Sopro, Águas Santas, 2010