Casé Lontra Marques


Avesso ao monumento, isto que ainda sinto ser esforço dedica seu artesanato à confecção de um instante que, apesar de precário, recusa cair nas engrenagens do espetáculo.

(in A densidade do céu sobre a demolição, 2009)


*


Compartilhamos, como poucos, ligações de rara reprodução:
nossos laços varam veias dos circuitos que
sustentam o combate
à comunicação. Parecemos seres de palavra
fraca, sintaxe
faminta; ruminando rumores,
no entanto, inauguramos
pactos de fala
que consagramos
à inutilidade. Movimentamos - quase digo -
signos sem
função. Não saudamos
nenhuma autoridade,
contudo
celebramos qualquer insuficiência.

(id.)


*


confrontar-se com o real faz trepidar o mundo duplicado que se enuncia como superação da realidade? não perguntar sobre a sua incidência permite que se suspenda o confronto com o real? seria a suspensão um circuito de atrocidades? a ficção construída como recusa constitui tanto um afastamento quanto uma proteção contra a dúvida?

(in Saber o sol do esquecimento, 2010)


*


CONTRACANTO

Não esperamos em vão porque não construímos
o que esperar (porque não
arriscamos
uma mediocridade maior): acreditamos

numa dor sem sofrimento: podemos
confessar
nossas insônias, às vezes com

entusiasmada autoridade, mas calamos
sobre o nosso sono;
calamos
sobre as vozes arrastadas pelos

cômodos que exigimos
cada
vez mais calmos, cada vez

mais nítidos, penso que habito
este corpo; meus músculos, no entanto,
continuam
despovoados: movimento
algum
lábio; digo que

habito este corpo: meus braços,
no
entanto, continuam

abandonados: preciso
falecer para falar: sem morrer

as mortes que me amordaçam,
não
conseguirei tocar
a
palavra com
que
aprenderei a me despreparar

(id.)


Casé Lontra Marques nasceu no Brasil em 13 de novembro de 1985. Vive no estado do Espírito Santo.





Foi no dia 7 de Maio. A foto, contudo, só agora chega. Documenta a leitura de poemas ocorrida na Casa Fernando Pessoa no âmbito do Festival de Poesia "Tordesilhas". Da esquerda para a direita: Ruy Ventura, Eduardo Jorge, Virna Teixeira e João Miguel Henriques.

DISCURSO DE BENTO XVI no
ENCONTRO COM O MUNDO DA CULTURA


Centro Cultural de Belém -
Lisboa, 12 de Maio de 2010



Venerados Irmãos
Venerados Irmãos no Episcopado, Distintas Autoridades, Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte, Queridos amigos,


Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino

no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.
 
Fonte: http://www.bentoxviportugal.pt/ficheiros/file/Bentoxvi_cultura_portugues.pdf
Convite à Poesia:

Ruy Ventura - Novo Livro


. . . ... INSTRUMENTOS DE SOPRO ... . . .



As Edições Sempre-em-Pé e o Autor, Ruy Ventura, têm o prazer de convidar à apresentação do livro Instrumentos de Sopro, que será feita pelo artista plástico Fernando Aguiar.


Data: Terça-feira, 1 de Junho, 18:00


Local: em Lisboa, no Ginásio Body-Plaza (entrada pela recepção), no Centro Comercial Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, 65, loja C.1.15, Metro de Picoas.
Mapa: http://www.bodyplaza.pt/clinica-estetica/contactos.html
Estacionamento disponível no Centro Comercial, na garagem, entrada pela Rua Viriato.

Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos (Edições Sempre-em-Pé, responsáveis pela revista de poesia DiVersos e outras edições de poesia). Inclui um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald. Capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
As Edições Sempre-em-Pé agradecem o apoio da empresa Body Plaza (http://www.bodyplaza.pt/)
RESPONSABILIDADE, INTEGRAÇÃO E CIDADANIA



Sou professor há quinze anos. Nesta década e meia, circunstâncias voluntárias e involuntárias foram diversificando a minha experiência. Tendo começado o percurso numa escola rural de Trás-os-Montes, logo em 1996 fui colocado numa localidade problemática do concelho de Almada. Desde essa data – tirando três anos em que trabalhei como docente numa instituição de Ensino Superior – toda a minha carreira tem decorrido na Península de Setúbal, tendo a meu cargo turmas heterogéneas, dentro das quais se incluíram alunos em risco de exclusão social, vários caminhando para a marginalidade ou mesmo para uma vida envolvida pela actividade criminosa.

Como a maioria dos docentes deste país, durante os quatro anos que durou a minha formação inicial, fui alvo de uma autêntica lavagem cerebral. Os autores da barrela – psicólogos, sociólogos, metodólogos e pedagogos bem intencionados, mas com pouca experiência prática – tentaram convencer-me da inocência de todas as crianças, pré-adolescentes e adolescentes, de que o sistema educativo se deve submeter às “necessidades” e “características” do aluno, de que a aprendizagem deve ser lúdica e brincalhona, de que os valores e o conhecimento são relativos, etc., etc., etc..

Só quando entrei no sistema como professor me apercebi de que a ladainha não correspondia apenas a teorias ultrapassadas pregadas por gente ingénua e pouco responsável. Comecei a ter consciência de que tudo aquilo era a pregação oficiosa da doutrina defendida pelos burocratas que governavam e governam o Ministério da Educação – na sua maioria rapaziada nova quando ocorreu o 25 de Abril, isto é, cidadãos cuja melhor reacção ao cinzentismo da Instrução Pública salazarista foi a da importação de filosofias educativas que, nos seus locais de nascimento, já haviam sido colocadas nas prateleiras empoeiradas da História da Educação. Entrei no Sistema Educativo português, confesso, com a vista enublada por toda esta lavagem. Mas, como é bom de ver, cirros e nimbos foram-se dissipando, à medida que a realidade do quotidiano escolar se foi sobrepondo às teorias paradisíacas em que fora mergulhado. A experiência obrigou-me a produzir uma síntese entre um olhar realista sobre o processo de ensino-aprendizagem e a doutrina oficial ou oficiosa defendida por pessoas que nunca lidaram de perto (ou não quiseram lidar) com uma turma.

Nessa altura tomei ainda contacto com outra dimensão da educação: a relação das famílias com a aprendizagem das suas crianças. Tudo me foi dado observar: pais interessadíssimos e saudáveis no seu relacionamento com a escola, com os professores e com os seus filhos; gente humilde que se dedicava aos filhos, apesar de dificuldades sociais, culturais ou económicas; cidadãos conscientes de que educar implica disciplina, rigor, responsabilidade e exigência; encarregados de educação sobranceiros que abominavam qualquer esforço imposto aos seus filhos; familiares que nos levavam a canonizar os filhos; figuras repugnantes que – se Portugal fosse um país justo – há muito teriam os seus filhos entregues a famílias de acolhimento.

Ao longo de quinze anos de serviço, infelizmente, vi também crescer a promoção da irresponsabilidade e da impunidade entre os alunos. Tomei consciência de quanto o sistema protege os prevaricadores e desprotege as vítimas de insultos, de chantagens, de agressões físicas. (Sei do que falo, pois durante vários anos trabalhei voluntariamente com turmas de Currículo Alternativo, com rapazes e raparigas à beira da marginalidade.) Assisti à irresponsabilidade promovida por alguns colegas ingénuos ou medrosos, pelas direcções de muitas escolas que achincalham os seus professores, caucionando a pequena e grande indisciplina de alunos sem motivação intrínseca e com muita preguiça, desautorizando-os quando desculpabilizam comportamentos graves, recusando a merecida acção disciplinar, por simples incúria ou miopia ou para que as estatísticas não sejam maculadas.

“Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. As palavras de São Paulo sublinham que a assunção da cidadania requer uma escolha consciente. A sociedade, através da escola, deve integrar todos os seus membros. Mas os seus membros também devem integrar-se, respeitando a liberdade dos seus semelhantes e as regras mínimas de convivência, assumindo com responsabilidade todos os seus actos e as reacções que possam suscitar. Não é possível instruir sem que a educação esteja consolidada. Não é possível educar enquanto a recusa de integração nas estruturas micro e macrossociais não tiver consequências exemplares.

Esta observação com quinze anos tem reforçado a minha convicção de que o relativismo militante, mesmo que se chame “multiculturalismo”, nunca trará bons frutos nem à instrução nem à educação das nossas crianças. Se é impossível o exercício da cidadania sem integração social, essa integração nunca acontecerá sem uma ética de responsabilidade e de exigência. O percurso (perigoso) do sistema educativo português tem sido, quanto a mim, o inverso. Estamos contudo a tempo de mudar a direcção. Se o não fizermos, corremos o risco de mergulhar as nossas escolas num clima de insustentável violência física e psicológica, em que a aprendizagem será de todo impossível. Não sou de todo catastrofista. Estou apenas convicto de que, na ausência de um quadro estável de valores (entre os quais deverão estar o esforço, a responsabilidade, o livre arbítrio, o usufruto da crítica fundamentada, a promoção do conhecimento esclarecido), nunca existirá uma justa democracia. Tudo permitir é também autorizar a tirania e a barbárie.

(Publicado no número 42 da revista Transformar, Janeiro/Junho 2010)
http://www.forumavarzim.org.pt/site/index.php?option=com_content&view=section&id=4&Itemid=30
UM APONTAMENTO DE JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
sobre Instrumentos de Sopro:

FEIRA MURCHA

Fui ontem à tarde com a família à Feira do Livro. Achei-a murcha, como as azeitonas sapateiras. Tirando um encontro com uma família de escritores amigos (Zé do Carmo, Ana e Filipe Francisco), a compra de volumes novos de Maria Filomena Molder, Orwell e Luís Marques, a alegria dos cachopos a comerem uma fartura ("massa frita", em Portalegre) e o sublime Tejo ao fundo - nada mais se aproveitou.

MARTA LÓPEZ VILAR

MARTINE BRODA
(estudo e antologia)



Queridos amigos,

os adjunto el enlace de la publicación cultural Ojos de papel donde ha salido un artículo y una breve antología bilingüe en homenaje a una de las mayores poetas francesas de todos los tiempos: Martine Broda (Nancy, 17 de marzo de 1947- París, 23 de abril de 2009). El autor del artículo es su traductor oficial, el también poeta: Miguel Veyrat. La antología la he realizado yo. Os recomiendo que lo leáis y disfrutéis de una de las voces místicas más estremecedoras de la lírica contemporánea.
El filósofo Theodor W. Adorno afirmaba que no se podía escribir poesía después de Auschwitz, que era un acto de barbarie, pero se equivocaba: está la obra de Broda o de Celan (a quien ella tradujo por primera vez al francés), lo insoportable del silencio, su tragedia, también su amor.
Espero que os guste.

http://www.ojosdepapel.com/Index.aspx?article=3555
Um poema em espanhol, aqui:

http://lo-bueno-si-breve.blogspot.com/search?q=Ruy+Ventura
A MORTE DUM MORIBUNDO




A morte é triste nem que seja num gato - costuma dizer-se na minha aldeia. Mais triste se torna a notícia quando diz respeito a alguém ou a algo que faz parte da nossa história pessoal.

A morte do jornal O Distrito de Portalegre, após 126 anos de publicação, não me deixou indiferente. Foi nas suas páginas que publiquei o meu primeiro texto (tinha 16 anos), foi nas suas páginas que dei à estampa inúmeras crónicas e textos sobre o património regional, foi no seu espaço que coordenei com Nicolau Saião o suplemento cultural Fanal, que editou centenas de textos, alguns de nomes importantes da cultura luso-brasileira, como João de Melo, António Cândido Franco, C. Ronald, Carlos Reis, Dinis Machado, José Manuel Anes, Matilde Rosa Araújo, Manuel Poppe, Miguel Jorge, etc..

O anúncio da extinção do jornal não foi no entanto uma surpresa para mim. Apesar de o pretexto serem as suas dificuldades financeira, de há uns tempos a esta parte vira completamente adulterada a sua matriz genuinamente cristã, de abertura do mundo e à liberdade de expressão. Tirando o tempo em que foi dirigido pelos padres João Mendonça e João Coelho, os períodos em que foi dirigido pelos presbíteros José Patrão e Nuno Folgado (o seu coveiro) tornaram-no num órgão sem qualquer pudor no exercício discreto da censura e da manipulação informativa (nisso não divergindo muito doutros colegas editados na cidade que acolheu José Régio). Custa-me escrevê-lo, mas mais vale assim; mais vale uma morte do que a sua sobrevivência por caminhos que nada têm a ver com a estrutura da dignidade cristã (que nunca dispensará a liberdade).
POEMAS DA MONTANHA
de Frei Agostinho da Cruz



Fosse Portugal um país com consciência  e dignidade cultural - e a publicação de uma antologia do poeta Frei Agostinho da Cruz seria um acontecimento relevante. Jacobinos e incultos como vamos sendo cada vez mais, ignoramos (ou fazemos por ignorar) tudo quanto não entre no campo da celebridade bacoca ou influente. Por isso participei - como quem praticou um acto de justiça - na apresentação de Poemas da Montanha, publicado pelas Edições Serra d' Ossa. Um caminho para me encontrar com um dos mais significativos poetas de língua portuguesa.
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão


Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.



A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.




Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.





Festival Tordesilhas
— Poetas de Língua Portuguesa




O Festival Tordesilhas — Poetas de Língua Portuguesa, que acontecerá entre os dias 5 e 7 de maio de 2010, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, é um encontro internacional que reunirá poetas do Brasil, Portugal e África para um ciclo de palestras, debates, recitais e performances, com o objetivo de ampliar o diálogo entre os autores dos países de língua portuguesa. Entre os temas abordados no encontro estão os seguintes: "A poesia de língua portuguesa na era da globalização", sobre a repercussão das literaturas escritas em nosso idioma na nova ordem internacional; "O diálogo literário entre Brasil e Portugal", e "A poesia contemporânea de língua portuguesa em países africanos". O evento, que tem a curadoria dos poetas brasileiros Virna Teixeira e Claudio Daniel, contará também com recitais, performances, lançamentos de livros e revistas de editoras brasileiras e portuguesas.

A primeira edição do Festival Tordesilhas foi realizada em 2007, em São Paulo, também com curadoria de Virna Teixeira e Claudio Daniel, e contou com cerca de 25 convidados estrangeiros ibero-americanos, entre eles o uruguaio Roberto Echavarren, a argentina Tamara Kamenszain, os espanhóis Adolpho Montejo Navas e Joan Navarro e a mexicana Coral Bracho, para citar alguns. O festival reuniu também poetas de vários estados do Brasil.



PROGRAMAÇÃO



Data: 5 a 7 de maio de 2010
Apoio: Embaixada do Brasil em Portugal, Casa Fernando Pessoa



Curadoria: Virna Teixeira e Claudio Daniel



Dia 5 de maio:
19h Abertura - O diálogo literário entre Brasil e Portugal, com Horácio Costa (Brasil), Casimiro de Brito (Portugal) e Claudio Daniel (Brasil). Moderadora: Virna Teixeira
20h Recital - Ana Marques Gastão (Portugal), Simone Homem de Mello (Brasil), Horácio Costa (Brasil), Nuno Júdice (Portugal), Jorge Velhote (Portugal).
21h Apresentação do livro Amo Agora e da plaquete Amor Cego & outros poemas de amor, com Casimiro de Brito e Marina Cedro. Exposição de revistas literárias e livros de poesia de língua portuguesa.



Dia 6 de maio:
19h Debate - A poesia contemporânea de língua portuguesa na África, com Jorge Arrimar (Angola), Jorge Viegas (Moçambique) e Delmar Maia Gonçalves (Moçambique). Moderador: Claudio Daniel (Brasil).
20h Recital - com Jorge Arrimar (Angola), Catarina Nunes de Almeida (Portugal), Jorge Viegas (Moçambique), Aurelino Costa (Portugal), Delmar Maia Gonçalves (Moçambique).
21h Apresentação do livro Escrito em Osso, do poeta Claudio Daniel, publicado pela editora Cosmorama. Video-corpo-poema, com Eduardo Jorge (Brasil).



Dia 7 de maio:
19h Debate - A poesia de língua portuguesa na era da globalização. Com João Miguel Henriques (Portugal) e Virna Teixeira (Brasil). Moderador: Eduardo Jorge (Brasil)
20h Recital - Jorge Velhote (Portugal), Eduardo Jorge (Brasil), João Miguel Henriques (Portugal), Ruy Ventura (Portugal), Virna Teixeira (Brasil).
21h Apresentação do livro Ravenalas, de Horácio Costa (editora Demônio Negro) Apresentação da plaquete "Entulho", de João Miguel Henriques, pela Arqueria Editorial



POETAS CONVIDADOS



Portugal:
Ana Marques Gastão
Aurelino Costa
Casimiro de Brito
Catarina Nunes de Almeida
João Miguel Henriques
Jorge Melícias
Jorge Velhote
Nuno Júdice
Ruy Ventura



Brasil:
Claudio Daniel
Eduardo Jorge
Horácio Costa
Simone Homem de Melo
Virna Teixeira



Angola:
Jorge Arrimar



Moçambique:
Delmar Maia Gonçalves
Jorge Viegas

UM POEMA DE
"INSTRUMENTOS DE SOPRO"




1.
nascente








há objectos dentro do nevoeiro
sob o local do nascimento.
nenhuma arquitectura. algumas palavras.
um prenúncio de morte
ao contemplar a fechadura desta porta.
com nitidez, um lugar (interrompido) –
uma voz vinda de longe, do fundo
dos tempos.



*



uma árvore cresceu.
afasta as raízes. atravessa
uma estrada tantas vezes percorrida.
não há caminhos semelhantes.
apenas veredas.
entre a raiz e o tronco da árvore –
uma presença. um lugar
sem espaço, ainda sem memória.
este nascimento – sem tempo
nem lugar.



*



o espaço consegue estender-se.
torna-se memória.
as imagens misturam-se.
o som prolonga-se
sem que consiga separar-me
do seu voo.
os fotogramas dividem-se.
alicerces e pilares
vislumbram o edifício
onde guardámos
uma lápide quebrada.



*



o texto desaparece.
foi escrito a sépia, muito claro.
o mundo emerge. revela
imagens, uma data
impressa sobre a pele,
alicerces, estilhaços
que ficaram no cabelo.
para sempre.



*



sob a estrada, junto das águas –
vestígios de sangue.
consolidam
(fazem oscilar)
todo o edifício.
procurámos uma cidade.
encontrámos a ruína:
um lugar – pedaço de pele
arrancado à superfície
do nosso corpo.



*



um livro
prestes a regressar
à forma da origem?
um texto
sem legenda?
a eloquência permanece
apesar da água.
o mundo avança.
espera, entre a sombra e a ruína,
chuva lavando a tarde
e esta ferida.



*



algumas palavras
traçam a sangue
um caminho diferente.
nenhum isolamento nos protege.
as telhas estalam. o tecto
é desenhado pela água.
o vento e o granizo quebram
a vidraça.



*



a rapidez da erosão desfaz
o terreno, a rocha, a estrada.
tudo.
o tronco da árvore estala.
as perguntas ficam.
o incêndio separou dois mundos
sem que possível fosse
analisar o sangue (ou a água).



*



o corpo desaparece
dentro da cidade.
as raízes rebentam
a calçada.
uma casa cresceu.
uma casa cresceu
mas só aqui a posso encontrar.




"INSTRUMENTOS DE SOPRO" PODE SER COMPRADO AQUI:
http://www.wook.pt/ficha/instrumentos-de-sopro/a/id/5788924/filter/
(e com desconto...)

Sublime esta fotografia de Joaquim Cardoso Dias, como sublimes são os quadros e Caspar David:
NOVA DATA
PARA APRESENTAÇÃO DE "INSTRUMENTOS DE SOPRO"
EM AZEITÃO


Era para acontecer mas não aconteceu. Por motivos alheios ao autor, ao livro, aos participantes na sessão e à própria biblioteca. Sucedeu uma daquelas brincadeiras de mau gosto que costumam animar as escolas com grande aparato canino e policial. É já a segunda neste ano.

Sendo assim a apresentação do livro de poemas "Instrumentos de Sopro", da autoria de quem lhe escreve, foi adiada para a próxima 5ª feira, 22 de Abril, pelas 19 horas, no mesmo local: Biblioteca da Escola Básica 2, 3 de Azeitão.
Será uma honra contar consigo!

Ruy Ventura