FALECEU MATILDE ROSA ARAÚJO

A escritora Matilde Rosa Araújo morreu hoje de madrugada, em casa, em Lisboa, aos 89 anos, disse à agência Lusa fonte da família.
Nascida em Lisboa em 1921, Matilde Rosa Araújo licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, e foi professora do ensino técnico profissional em várias cidades do país. Foi também professora do primeiro curso de Literatura para a Infância, na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Foi autora de livros de contos e poesia para adultos e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças - como O Sol e o Menino dos Pés Frios, História de uma Flor e O Reino das Sete Pontas. Dedicou-se intensamente à defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF em Portugal.
De acordo com fonte da Editorial Caminho, o corpo de Matilde Rosa Araújo será velado hoje na sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa.

(A seu tempo darei o meu testemunho sobre a escritora com que tive o privilégio de privar. Paz à sua alma!)

POEMAS

DE MÁRCIO-ANDRÉ





OS PLANETAS



3 batimentos
2 céus do lado esquerdo – malcolados



um campo de parabólicas
para azeite de antenas
e o mar com sedimento de planetas



[o mar fez-se a si mesmo de seu celofane verde
tirou das tripas o ocidente
traçou na pele um autómato de estrelas
– iluminuras no dorso de um dromedário]



no princípio foi o giro
e sua sinfonia de esferas



[só é verdade a parte que se desconhece]



a partitura do architeto
sua planta fotogramétrica







A SOMBRA



teu olho é vidro de morder



e o dorso improvável soprado no gás
queimado a sais de prata
nascido do primeiro sonho
não termina e não começa codificado nos objectos



ainda não existia encaixe entre as coisas
nem as formas nem as cores
                  siemens
                 designers for life



tirando tua sombra sobra o mundo inteiro









AS LIBAÇÕES



e depois de orar e polvilhar farinha
degolam e destroncam bois
esfolam touros
coxas cortam pernis apartam
envolvendo em gordura de dupla camada
e talhos crus lançados sobre



velhos queimam a carne na brasa
derramam por cima o vinho agridoce
com garfos moços manejando bifes



pernis tostados
saborear filetes degustar entranhas



o resto retalham em tiras e assam no espeto
peritos



ao fim do trabalho o banchete:
cada um a seu gosto: ancas e nacos
homens se nutrem em farta festa
vertem plenas crateras de vinho
delibam lambendo boca
graxa de tripa nos dedos



e assim pelo dia com cantos e danças
dânaos aplacam Apolo – péã para o guardião



que alegra-se no coração ao ouvi-los







Poemas retirados de Intradoxos, livro publicado por Márcio-André (Rio de Janeiro, Brasil, 1978) em 2007. A sua poesia foi considerada por Boaventura de Sousa Santos (para além de sociólogo, um poeta que Portugal deveria ler com outros olhos mais esclarecidos) como “uma das mais notáveis da sua geração”: “[…] é uma luta permanente com a língua. O seu experimentalismo não é abstracto (ou seja, concretista), é antes a sua maneira de interpelar uma tradição asfixiante e ao mesmo tempo vazia.
AMADEU BAPTISTA




DOZE CANTOS DO MUNDO

(alguns excertos)







WILLIAM BLAKE: NIGHT THOUGHTS (1797)



Não há síntese,



mas só mundos paralelos
onde a graça e a desgraça
se encontram
para delimitar o inferno
e o acrescentarem



com a essência e o erro,
a tontura e o desequilíbrio.
[…]







GOYA: A FAMÍLIA DE D. CARLOS IV (1801)



[…]
Preciso de água forte para dessedentar
o rumo a que o desespero obriga,
pincéis de cerdas duras,
espátulas cortantes,
paletas invisíveis
onde as cores, fortíssimas, latejem.



Preciso de fulgores
e circunstâncias
onde uma ardência nos olhos possa ser
um sinal de redenção,
[…]







GUSTAVE COURBET: A ORIGEM DO MUNDO (1866)



[…]
Eu crio:



estrume,
ou esterco,



crio,



para que o meu testemunho,
sob o efémero,
possa aguilhoar as almas
e consumar
a união entre o diverso e o transitório,
e não haja mais escândalo
que o escândalo
de ser a soberba a nossa ignorância



e a nossa ignorância a desventura.
[…]







FRANCIS BACON: STUDY FOR CROUCHING NUDE (1952)



[…]
No osso inciso,
na grande obra incompleta,
sou uma válvula de vácuo
e um transístor,
a desfragmentação
e o cromatismo
que resiste à vileza
e vê no crime
o imparável modo de estar vivo,
a aprofundar a refrega dos subúrbios,
como arte,
dissipação,
incandescência.
[…]



[…]
[…] os cães estão em todo o lado,
e devoram as casas,
e sobem aos telhados para devorar
os livros,
e, nas jaulas,
amontoam cadáveres,
instantes peregrinos
com cabeça de rádio
e desorbitados olhos
pelo terror do urânio,
as múltiplas engrenagens.
[…]









MARK ROTHKO: NUMBER 207 – RED OVER DARK BLUE ON DARK GRAY (1961)



[…]



Coube-nos viver num tempo de assassinos,
mas é a claridade que almejamos,



não a que veio ao quadro convocar-nos,
mas a que, pelo poder da pintura,
se instala em nós,
a modular a noite
e a apaziguar-nos.



É essa claridade que procuro,
– e o silêncio.



O silêncio das cores e o seu apelo
irrevogável,
de que nada há a temer,
mesmo que atemorize.



A vida é isso mesmo:



o medo à nossa frente,
imóvel como a esfinge,



e nós sempre a enfrentá-lo,



transparentes,
aflitos,
condenados,



mas prontos para ver



as cores do infinito.





Doze Cantos do Mundo está entre os melhores livros de Amadeu Baptista. Foi galardoado com o Prémio Oliva Guerra, na edição de 2008. A colectânea foi publicada em Setembro de 2009 pela Câmara Municipal de Sintra (organizadora do concurso), numa tiragem infelizmente restrita.
EDMAR GUIMARÃES




Massa Corrida



Ele, encostado agora na parede, perde a janela, mira outras imagens da sala. As mãos espalmadas parecem buscar fendas. O corpo se cola ao concreto, sente a respiração úmida dos tijolos, gosto de tinta. Líquidos se vertem em cimento. Ele sua.

A boca engole o reboco pela nuca; um pouco mais de esforço e postura de homo-sapiens, os calcanhares; as nádegas encostam-se noutro corpo duro; as mãos totalmente enterradas na parede, e, aos poucos, também o abdómen; com um leve tremor de músculos, os úmeros e as omoplatas.

Linhas do rosto fundem-se à superfície, mínimas trincaduras, caminhos de formigas deformam a espessura da massa corrida. Ele tenta dizer… Há uma pastilha de pedra sobre a língua. Os olhos imprensados nas pálpebras só veem arestas do recinto.

Tudo o que via, respirava, o espaço buscado além dos terraços do mundo… uma mácula na parede, uma marca de mofo mais encorpada. – A sombra mais escura lembra restos do esôfago, os dois furos amarrotados, talvez as pálpebras –.

A presença toda de um homem se traduz numa marca de gordura na parede, alguém jogará cal em cima, repintará como se cobre uma nódoa renitente do tempo.







As Coisas



Exaustas de ser, todas as coisas. Não pela natureza intrínseca, sentido o sopro das estações, mas por olhá-las da carne, o homem lhes deu superfície, quis a brisa no laboratório; o aroma dos primeiros instantes do mundo, num punhado de pedras.

O que se passou entre pirâmides, juntas e operários repetem. Do carpete de ouro e ácaros do corpo do faraó, o fugo acende o incenso, espectros do que um dia sonharam acordar de novo na carne que nunca cicatriza, vestida à gala, digo, gaza.

O que se revela é ponta de osso, iceberg que, escavado, expõe o riso de nós mesmos.

Nas escavações de antigos passos, nas grutas do âmago, nuns palimpsestos de desejos, desenhos rupestres, ou no chão mesmo rude do tempo aberto em sítio, o fóssil, punhado de peças, isso só, e fácil.

Tudo está exausto de ser pedra e lâmina cega de laboratório, de ser escavado até sua porção mais severa e insuficiente.

O que se busca traz no bojo algo mais denso que osso.



Textos retirados do mais recente livro do escritor goiano/brasileiro Edmar Guimarães, Cápsulas dos Dias (Editora KELPS / Editora da UCG, 2009). O volume tem um prefácio da ensaísta Wania Majadas e um posfácio do poeta e ficcionista Miguel Jorge, reproduzindo na capa um óleo de José Amaury de Menezes. Micro-contos ou contopoesia? “Em cada nova cápsula deste livro existe um tempo de um dia que enseja códigos de disfarçada loucura e que corre em idas e vindas pelo universo que vai além do real ao imaginário, como se o autor quisesse captar os olhos de seus inúmeros personagens” (Miguel Jorge).
MEMÓRIA D' ALVA
Contributos para uma biografia
da igreja matriz de Aljezur


Terminei há poucos dias o meu mais recente livro, um estudo sobre a história da igreja matriz de Aljezur. Aqui ficam as primeiras linhas da introdução:


Os edifícios são como as pessoas. Todos têm biografia. Sendo o prolongamento das mãos humanas que lhes deram forma e dos corpos que neles existiram e viveram, transportam nos seus materiais de construção a recordação do seu nascimento, do seu crescimento, das suas vicissitudes e, até, da sua morte. Mesmo quando se resumem a escassos vestígios arqueológicos, a relíquias guardadas ou reutilizadas noutros lugares ou à lembrança difusa registada nos documentos escritos ou na oralidade colectiva.


Sendo como pessoas – ou parcelas inalienáveis dessa Pessoa que é uma comunidade quase sempre milenar – possuem ainda uma genealogia e um código genético. Não existem gerações espontâneas. Se a matéria de uma casa, de uma igreja ou de um castelo surgiu de novo – numa parcela do espaço antes ocupada apenas pelo crescimento das espécies vegetais e pelo povoamento da fauna –, trouxe sempre consigo um património que orientou a génese. Nesse código genético vindo do passado estarão decerto as estratégias e as técnicas inerentes à selecção e ocupação do território, a espiritualidade das formas, a sabedoria com que se distinguiram e trabalharam os materiais, a religação desse microcosmos ao macrocosmos universal, a religiosidade que presidiu a escolhas e afirmações, a experiência que definiu funcionalidades, os diálogos inevitáveis entre a paisagem e o povoamento.


[...]


Tendo partido do registo histórico da construção da “igreja nova” de Nossa Senhora d’ Alva, entre 1795 e 1809, este trabalho que apresento nunca poderia prescindir de um conhecimento minimamente aprofundado do que fora a existência material do templo antecedente, arruinado em 1755. Mesmo assim, sendo embora cómodo iniciá-lo com a narrativa da edificação de um primitivo espaço cultual no século XIII, não seria aceitável que se relegasse para as calendas gregas uma leitura integrada do elemento religioso que justificara a existência qualquer dos edifícios – a veneração de Nossa Senhora d’ Alva –, possuindo toda uma envolvência mítica e onomástica que o revestiam de interesse e até de alguma estranheza.

[...]