ARTE POÉTICA
A minha tentativa de arte poética pode ser lida aqui:
http://ruyventura.blogspot.com/2010/10/tentativa-de-arte-poetica-sendo-poesia.html
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OS SETE EPÍGONOS DE TEBAS
de José Carlos Barros
“[…] as mulheres dos montes / viravam os estrados / para o lado de dentro / dos teatros / […]”
“Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa – / […] / a libertar-se da âncora genealógica / pela destruição do livro / dos exemplos. […]”
“[…] mudava / os parágrafos / e depois procurava no forno do povo / ou no tanque do largo / ou na lenha de bétula arrumada nos telheiros / o eco da frase inaugural /[…]”
Escolho, mais ou menos ao acaso, alguns versos de um livro de José Carlos Barros, ainda inédito. Quanto mais o leio, mais se aproxima de mim a sua estrutura, os pilares e lintéis de um edifício a que o autor empírico resolveu chamar Os Sete Epígonos de Tebas. Não estou perante uma colectânea de poemas; tenho nas mãos um livro de poesia. E, como qualquer objecto digno dessa classificação (isto é, que não seja apenas uma reportagem ou muita verborreia, empilhadas em linhas que não chegam ao final da folha impressa), escolhe – seguindo a frase de Herberto Helder colocada na obra como epígrafe – a arte “de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água”. Ou seja: arrisca assistir ao movimento descendente, violento, de corpos ígneos, cuja matéria entra em contacto explosivo com terra, purificando-a pelo fogo e, depois, pela expansão rápida de um líquido cuja passagem lava o espaço, os seres nele viventes e a sua memória. Terminado o maremoto, o contacto do fogo com a água – que José Carlos Barros parece desejar ver e registar – produz ainda uma matéria volátil: essa “nuvem” ou “névoa” que (segundo um poema do mexicano Luis Arturo Guichard) transforma os campos mais comuns em bosques plenos de mistério, embora quase sempre se veja apagada pelo fumo. E são os adoradores do fumo que vencem a primeira de duas batalhas pela sobrevivência de Tebas. Tebas – uma cidade contaminada por contínuas lutas pelo poder absoluto, condenada à desagregação por ter destruído dessa forma a herança civilizadora de Cadmo, o seu fundador –, que só pelo fogo poderá talvez ser conservada. É essa tentativa de preservação que, na minha leitura, se vê reflectida no livro de José Carlos Barros.
Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo, sobre o seu registo num texto escrito feito poesia e sobre as circunstâncias adversas que este tem de vencer para atingir a sua melhor realização estética e ética. Quem lê “Tebas” nesta obra deve pensar na “escrita” ou na “poesia” (aí renascida pela mão dos gregos ou de fenícios chegados à Grécia), sendo a luta dos “epígonos” (ou seja, dos descendentes) um processo de revitalização – dura e violenta – do texto artístico. É preciso destruir toda a escrita mergulhada no caos dos interesses e do poder temporal para que algo nasça de novo a partir dos alicerces – ainda que os vencedores finais (após a destruição da cidade) sejam sempre acompanhados pelo “opróbio da emulação”, porque “Os heróis” derrotados na primeira refrega “[pereceram] nos campos / de batalha / com a lança dos desastres”.
A vitória contra a erosão dos poderes literários consegue-se através da interioridade (virando “os estrados / para o lado de dentro / dos teatros”) e do espírito (procurando com ironia e desprendimento a “energia eólica” nascida nas “vagarosas pás / dos aerogeradores”), porque – segundo afirma o livro – “há um momento / em que a heresia e a coragem se confundem / e a baixa densidade dos núcleos / remove / por intuição / a desmesura / das memórias / descritivas / dos interesses”. Não esquecendo que é a memória da derrota dos antepassados (esse desenho nos “subterrâneos labirintos” da “cartografia pretérita dos desastres”) que conduz à vitória na guerra pela vertical dignidade da escrita e do texto, contra os seus hábeis manipuladores e niveladores que se servem deles para conseguirem honrarias jornalísticas, académicas e sociais. Porque só essa vitória permite que nunca se quebre, mesmo na humilhação, “esse / fio de novelo / que levava ao ouro e à água subtraída das nascentes: / ao rumor da pedra volátil / do volfrâmio”.
A mensagem de José Carlos Barros neste livro (cujo mérito, muito saliente, João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e o autor destas linhas – como membros do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – resolveram premiar) é clara e muito importante nestes tempos de alheamento e de confusão: “[…] / ninguém diz uma palavra. / E ninguém se move em redor do lume / com medo / da repercussão / dos desastres”, mas quando alguém procura água que purifique esse silêncio cúmplice e criminoso, “O vedor / [sente] que a vara / [aponta] ao céu: / a nuvem / em vez / das nascentes”. É então que o cometa de Herberto Helder produz o seu incêndio e a sua redenção: “[…] a nuvem das palavras [desce] sobre as tendas / e as dunas da península: / duas mãos” – o passado e o presente?, pergunto – “[tocam-se] / por um instante breve / e [ergue-se] no ar irrespirável / o rumor incandescente / dos incêndios / das florestas”.
Azeitão, 16 de Maio de 2009
Lido por RV na sessão de entrega do Prémio “Sebastião da Gama”
de José Carlos Barros
“[…] as mulheres dos montes / viravam os estrados / para o lado de dentro / dos teatros / […]”
“Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa – / […] / a libertar-se da âncora genealógica / pela destruição do livro / dos exemplos. […]”
“[…] mudava / os parágrafos / e depois procurava no forno do povo / ou no tanque do largo / ou na lenha de bétula arrumada nos telheiros / o eco da frase inaugural /[…]”
Escolho, mais ou menos ao acaso, alguns versos de um livro de José Carlos Barros, ainda inédito. Quanto mais o leio, mais se aproxima de mim a sua estrutura, os pilares e lintéis de um edifício a que o autor empírico resolveu chamar Os Sete Epígonos de Tebas. Não estou perante uma colectânea de poemas; tenho nas mãos um livro de poesia. E, como qualquer objecto digno dessa classificação (isto é, que não seja apenas uma reportagem ou muita verborreia, empilhadas em linhas que não chegam ao final da folha impressa), escolhe – seguindo a frase de Herberto Helder colocada na obra como epígrafe – a arte “de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água”. Ou seja: arrisca assistir ao movimento descendente, violento, de corpos ígneos, cuja matéria entra em contacto explosivo com terra, purificando-a pelo fogo e, depois, pela expansão rápida de um líquido cuja passagem lava o espaço, os seres nele viventes e a sua memória. Terminado o maremoto, o contacto do fogo com a água – que José Carlos Barros parece desejar ver e registar – produz ainda uma matéria volátil: essa “nuvem” ou “névoa” que (segundo um poema do mexicano Luis Arturo Guichard) transforma os campos mais comuns em bosques plenos de mistério, embora quase sempre se veja apagada pelo fumo. E são os adoradores do fumo que vencem a primeira de duas batalhas pela sobrevivência de Tebas. Tebas – uma cidade contaminada por contínuas lutas pelo poder absoluto, condenada à desagregação por ter destruído dessa forma a herança civilizadora de Cadmo, o seu fundador –, que só pelo fogo poderá talvez ser conservada. É essa tentativa de preservação que, na minha leitura, se vê reflectida no livro de José Carlos Barros.
Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo, sobre o seu registo num texto escrito feito poesia e sobre as circunstâncias adversas que este tem de vencer para atingir a sua melhor realização estética e ética. Quem lê “Tebas” nesta obra deve pensar na “escrita” ou na “poesia” (aí renascida pela mão dos gregos ou de fenícios chegados à Grécia), sendo a luta dos “epígonos” (ou seja, dos descendentes) um processo de revitalização – dura e violenta – do texto artístico. É preciso destruir toda a escrita mergulhada no caos dos interesses e do poder temporal para que algo nasça de novo a partir dos alicerces – ainda que os vencedores finais (após a destruição da cidade) sejam sempre acompanhados pelo “opróbio da emulação”, porque “Os heróis” derrotados na primeira refrega “[pereceram] nos campos / de batalha / com a lança dos desastres”.
A vitória contra a erosão dos poderes literários consegue-se através da interioridade (virando “os estrados / para o lado de dentro / dos teatros”) e do espírito (procurando com ironia e desprendimento a “energia eólica” nascida nas “vagarosas pás / dos aerogeradores”), porque – segundo afirma o livro – “há um momento / em que a heresia e a coragem se confundem / e a baixa densidade dos núcleos / remove / por intuição / a desmesura / das memórias / descritivas / dos interesses”. Não esquecendo que é a memória da derrota dos antepassados (esse desenho nos “subterrâneos labirintos” da “cartografia pretérita dos desastres”) que conduz à vitória na guerra pela vertical dignidade da escrita e do texto, contra os seus hábeis manipuladores e niveladores que se servem deles para conseguirem honrarias jornalísticas, académicas e sociais. Porque só essa vitória permite que nunca se quebre, mesmo na humilhação, “esse / fio de novelo / que levava ao ouro e à água subtraída das nascentes: / ao rumor da pedra volátil / do volfrâmio”.
A mensagem de José Carlos Barros neste livro (cujo mérito, muito saliente, João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e o autor destas linhas – como membros do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – resolveram premiar) é clara e muito importante nestes tempos de alheamento e de confusão: “[…] / ninguém diz uma palavra. / E ninguém se move em redor do lume / com medo / da repercussão / dos desastres”, mas quando alguém procura água que purifique esse silêncio cúmplice e criminoso, “O vedor / [sente] que a vara / [aponta] ao céu: / a nuvem / em vez / das nascentes”. É então que o cometa de Herberto Helder produz o seu incêndio e a sua redenção: “[…] a nuvem das palavras [desce] sobre as tendas / e as dunas da península: / duas mãos” – o passado e o presente?, pergunto – “[tocam-se] / por um instante breve / e [ergue-se] no ar irrespirável / o rumor incandescente / dos incêndios / das florestas”.
Azeitão, 16 de Maio de 2009
Lido por RV na sessão de entrega do Prémio “Sebastião da Gama”

Uma conversa entre poetas
por Pedro Maciel
Gerard Manley Hopkins (1844-1889) foi um inventor que revolucionou a linguagem poética, um dos precursores das rebeldias estéticas dos modernistas. O poeta-jesuíta não conheceu a fama em vida e nem esperou por reconhecimento, já que vivia em plena era vitoriana. Poems of G. M. Hopkins só foi publicado em 1918, vinte e nove anos após o falecimento do autor. O amigo e leitor-crítico Robert Bridges considerou estranha a linguagem de Hopkins e, por não compreender as inovações estilísticas do seu interlocutor, decidiu ignorar vários poemas.
Hopkins escreveu para Bridges alertando-o: “Se o poema lhe parece obscuro, não se atormente muito com o sentido, mas preste atenção às estrofes melhores e mais inteligíveis, como as duas últimas de cada uma das partes e as que narram o naufrágio...” O poeta se referia ao célebre poema “O Naufrágio do Deustschland” (poema místico de 35 estrofes), que narra um fato real, o desastre marítimo do navio “Deutschland”, ocorrido em dezembro de 1875, fazendo muitas vítimas, entre as quais cinco freiras da Ordem de São Francisco, exiladas na Alemanha. O poeta também insistia com seus leitores-críticos que o verso era “menos para ser lido que para ser ouvido”, e prossegue, “ler alto, pausadamente, numa recitação poética (não retórica), com largas pausas, ênfase nas rimas e sílabas marcadas...”
Apenas em 1930, uma edição revista organizada por Charles Williams despertou interesse de críticos. Hopkins se importava apenas com seus escritos filosóficos. Determinou que estes fossem publicados na íntegra, temendo que as suas idéias filosóficas fossem distorcidas. Em relação à sua poesia, escreveu que “poderia fazer algum bem, mas se permanecesse desconhecida, nem por isso faria mal”.
Hopkins antecipa Joyce. Reinventa o idioma inglês, dando preferência ao vocabulário anglo-saxão em detrimento ao de origem latina; recupera a poesia celta, anterior ao início do Renascimento e da influência francesa decorrente da invasão normanda de 1066. Recria termos arcaicos e usa palavras germânicas. Inventa neologismos e redescobre a aliteração, a paronomásia e a assonância. A métrica e o ritmo são absurdamente modernos em Hopkins. “Sprugn rhythm” é o termo cunhado pelo poeta para designar seu novo ritmo. É um ritmo de pés variáveis e mesmo número de acentos. Na poesia inglesa contam-se pés e não sílabas. O pé varia de uma a quatro sílabas, cada um deles com apenas uma sílaba acentuada.
Segundo W. H. Gardner, o “sprung rhthm” de Hopkins revela “uma nova e eficaz fusão de ritmo e textura fônica”. As rimas internas e externas, as vogais, os ecos, as repetições fônicas criam uma orquestração de sons. Em carta de 1878 a Bridges, o poeta diz que “não há dúvida de que minha poesia vagueia sobre o plano da excentricidade... Mas tal como a ária, a melodia, é o que me atrai mais que tudo em música, e o desenho em pintura, assim o desenho, a estrutura ou o que estou acostumado a chamar inscape é o que acima de tudo busco em poesia...”
A Beleza Difícil (Ed. Perspectiva), com introdução e tradução de Augusto de Campos, é um texto musical, composto como uma sinfonia. O que impressiona em Hopkins é a força do ritmo, os sons verbais e as imagens sonoras que criam uma linguagem sintaticamente criativa.
O universo poético de Hopkins desperta a empatia do leitor não só por se tratar de uma revolução estética, mas também por revelar um espírito sensível, aberto às angústias e tormentos dos homens. A poesia de Hopkins é uma fusão incomum de “espiritualidade e sensualidade”. O padre-poeta tinha preocupações sociais, como em sua poesia, e numa carta a Robert Bridges declarou que estava sempre pensando no futuro comunista: “de certo modo eu sou um comunista”.
Segundo o poeta e tradutor Augusto de Campos, os sons e ruídos do seu conflito interno fizeram com que Hopkins desafinasse “o coro do decoro vitoriano para ingressar na modernidade”. Augusto em sua tradução exemplar recupera a alma de Hopkins. Executa uma “tradução-arte”. Para a felicidade dos leitores, A Beleza Difícil apresenta uma afinada conversa entre poetas.
___________________________________________
To R. B.
The fine delight that fathers thought; the strong
Spur, live and lancing like the blowpipe flame,
Breathes once and, quenchèd faster than it came,
Leaves yet the mind a mother of immortal song.
Nine months she then, nay years, nine years she long
Within her wears, bears, cares and combs the same:
The widow of an insight she lives, with aim
Now known and hand at work now never wrong.
Sweet fire the sire of muse, my soul needs this;
I want the one rapture of an inspiration.
O then if in my lagging lines you miss
The roll, the rise, the carol, the creation,
My winter world, that scarcely breathers that bliss
Now, yields you, with some sighs, our explanation.
( G. M . Hopkins, 1889)
A R. B.
A alegre luz que gera a idéia, a força pura,
Viva e voraz, como uma chama de estopim,
Brilha uma vez mas dura pouco, e ainda assim
À mente muda em mãe de um canto que perdura.
Nove meses, ou mais, nove anos ela o apura
E dentro o gesta, gasta, gosta e alenta, enfim:
Viúva de uma visão perdida, vive; com seu fim
Sabido, a mão perfaz, nunca mais insegura.
Fogo maior, senhor da musa _ uma só graça
Pede meu ser: o arroubo de uma inspiração.
Mas, se por minhas lentas linhas já não passa
A vaga, o vôo, a voz, o canto, a criação,
Meu mundo-inverno, onde esse júbilo não grassa,
É, com alguns suspiros, nossa explicação.
Publicado no caderno “Idéias/Livros”, Jornal do Brasil.
Pedro Maciel é autor do romance A Hora dos Náufragos, Ed. Bertrand Brasil
por Pedro Maciel
Gerard Manley Hopkins (1844-1889) foi um inventor que revolucionou a linguagem poética, um dos precursores das rebeldias estéticas dos modernistas. O poeta-jesuíta não conheceu a fama em vida e nem esperou por reconhecimento, já que vivia em plena era vitoriana. Poems of G. M. Hopkins só foi publicado em 1918, vinte e nove anos após o falecimento do autor. O amigo e leitor-crítico Robert Bridges considerou estranha a linguagem de Hopkins e, por não compreender as inovações estilísticas do seu interlocutor, decidiu ignorar vários poemas.
Hopkins escreveu para Bridges alertando-o: “Se o poema lhe parece obscuro, não se atormente muito com o sentido, mas preste atenção às estrofes melhores e mais inteligíveis, como as duas últimas de cada uma das partes e as que narram o naufrágio...” O poeta se referia ao célebre poema “O Naufrágio do Deustschland” (poema místico de 35 estrofes), que narra um fato real, o desastre marítimo do navio “Deutschland”, ocorrido em dezembro de 1875, fazendo muitas vítimas, entre as quais cinco freiras da Ordem de São Francisco, exiladas na Alemanha. O poeta também insistia com seus leitores-críticos que o verso era “menos para ser lido que para ser ouvido”, e prossegue, “ler alto, pausadamente, numa recitação poética (não retórica), com largas pausas, ênfase nas rimas e sílabas marcadas...”
Apenas em 1930, uma edição revista organizada por Charles Williams despertou interesse de críticos. Hopkins se importava apenas com seus escritos filosóficos. Determinou que estes fossem publicados na íntegra, temendo que as suas idéias filosóficas fossem distorcidas. Em relação à sua poesia, escreveu que “poderia fazer algum bem, mas se permanecesse desconhecida, nem por isso faria mal”.
Hopkins antecipa Joyce. Reinventa o idioma inglês, dando preferência ao vocabulário anglo-saxão em detrimento ao de origem latina; recupera a poesia celta, anterior ao início do Renascimento e da influência francesa decorrente da invasão normanda de 1066. Recria termos arcaicos e usa palavras germânicas. Inventa neologismos e redescobre a aliteração, a paronomásia e a assonância. A métrica e o ritmo são absurdamente modernos em Hopkins. “Sprugn rhythm” é o termo cunhado pelo poeta para designar seu novo ritmo. É um ritmo de pés variáveis e mesmo número de acentos. Na poesia inglesa contam-se pés e não sílabas. O pé varia de uma a quatro sílabas, cada um deles com apenas uma sílaba acentuada.
Segundo W. H. Gardner, o “sprung rhthm” de Hopkins revela “uma nova e eficaz fusão de ritmo e textura fônica”. As rimas internas e externas, as vogais, os ecos, as repetições fônicas criam uma orquestração de sons. Em carta de 1878 a Bridges, o poeta diz que “não há dúvida de que minha poesia vagueia sobre o plano da excentricidade... Mas tal como a ária, a melodia, é o que me atrai mais que tudo em música, e o desenho em pintura, assim o desenho, a estrutura ou o que estou acostumado a chamar inscape é o que acima de tudo busco em poesia...”
A Beleza Difícil (Ed. Perspectiva), com introdução e tradução de Augusto de Campos, é um texto musical, composto como uma sinfonia. O que impressiona em Hopkins é a força do ritmo, os sons verbais e as imagens sonoras que criam uma linguagem sintaticamente criativa.
O universo poético de Hopkins desperta a empatia do leitor não só por se tratar de uma revolução estética, mas também por revelar um espírito sensível, aberto às angústias e tormentos dos homens. A poesia de Hopkins é uma fusão incomum de “espiritualidade e sensualidade”. O padre-poeta tinha preocupações sociais, como em sua poesia, e numa carta a Robert Bridges declarou que estava sempre pensando no futuro comunista: “de certo modo eu sou um comunista”.
Segundo o poeta e tradutor Augusto de Campos, os sons e ruídos do seu conflito interno fizeram com que Hopkins desafinasse “o coro do decoro vitoriano para ingressar na modernidade”. Augusto em sua tradução exemplar recupera a alma de Hopkins. Executa uma “tradução-arte”. Para a felicidade dos leitores, A Beleza Difícil apresenta uma afinada conversa entre poetas.
___________________________________________
To R. B.
The fine delight that fathers thought; the strong
Spur, live and lancing like the blowpipe flame,
Breathes once and, quenchèd faster than it came,
Leaves yet the mind a mother of immortal song.
Nine months she then, nay years, nine years she long
Within her wears, bears, cares and combs the same:
The widow of an insight she lives, with aim
Now known and hand at work now never wrong.
Sweet fire the sire of muse, my soul needs this;
I want the one rapture of an inspiration.
O then if in my lagging lines you miss
The roll, the rise, the carol, the creation,
My winter world, that scarcely breathers that bliss
Now, yields you, with some sighs, our explanation.
( G. M . Hopkins, 1889)
A R. B.
A alegre luz que gera a idéia, a força pura,
Viva e voraz, como uma chama de estopim,
Brilha uma vez mas dura pouco, e ainda assim
À mente muda em mãe de um canto que perdura.
Nove meses, ou mais, nove anos ela o apura
E dentro o gesta, gasta, gosta e alenta, enfim:
Viúva de uma visão perdida, vive; com seu fim
Sabido, a mão perfaz, nunca mais insegura.
Fogo maior, senhor da musa _ uma só graça
Pede meu ser: o arroubo de uma inspiração.
Mas, se por minhas lentas linhas já não passa
A vaga, o vôo, a voz, o canto, a criação,
Meu mundo-inverno, onde esse júbilo não grassa,
É, com alguns suspiros, nossa explicação.
Publicado no caderno “Idéias/Livros”, Jornal do Brasil.
Pedro Maciel é autor do romance A Hora dos Náufragos, Ed. Bertrand Brasil
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