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JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
 DE A A Z

Estranhamente (?), o silêncio caiu sobre uma antologia de homenagem ao poeta José Agostinho Baptista. Editou-se no Funchal em 2009, como nº. 27 da revista Margem. A iniciativa deveu-se à organização de António Fournier e contou com a colaboração de, entre outros, Oliverio Macías Álvarez, Francisco Belard, João David Pinto Correia, Joaquim Cardoso Dias, António Lampreia, José Alberto Oliveira, Patrícia Reis, Francisco José Viegas, José Manuel Vasconcelos e João Rui de Sousa. Na prática, é muito mais do que um livro de louvor. Quem queira conhecer a obra de Baptista e quem a assina tem aqui um instrumento indispensável. Os 500 exemplares da edição madeirense mereceriam uma publicação mais ampla em território continental.
Estranhamente, contudo, o silêncio caiu sobre este livro. Estranhamente? Talvez estas palavras de José Agostinho Baptista numa entrevista notável pela sua verticalidade justifiquem a omissão da tropa literária:

"[...] Se se está conforme ao sistema, se se tem um lobby, é-se reconhecido, e é-se reconhecido porque se é uma figura mediática via política por exemplo, sobretudo política. Para chegar aí temos de ter uma carreira, temos que trabalhar para essa carreira. Agora diga-me, como é que se traduz esse reconhecimento? Qual o preço a pagar? Não, vender a alma, nunca.
[...]
Não tenho tempo nem feitio para tal, sinceramente. Qualquer boneco apresentador de televisão pode ser hoje em dia um escritor. Ainda que medíocre, mas quem se importa? A verdade é que esses rostos da televisão vendem muito, ali todos catitas, emoldurados no ecrã. Meu Deus, eu não quero. Eu não quero esse reconhecimento. Sabe para mim o que importa?  Que haja algumas pessoas neste mundo que me respeitem. E que haja algumas a quem dou qualquer coisa, alguma beleza, algum sonho. Através da poesia, obviamente. Isto para mim é que é reconhecimento. [...] Como é que se pode ser contra o sistema e estar à espera que o sistema nos reconheça e divulgue? [...] O sistema não perdoa. Nunca perdoou em todo o mundo. [...]
[...] O sistema perdoa até aos assassinos desde que eles lhe façam uma vénia. O sistema não perdoa é a quem lhe volta as costas, a quem o afronta, a quem o questiona, a quem o despreza."
JOSÉ MARÍA CUMBREÑO

Os poetas-professores

"[...] Tengo varios amigos que son profesores en distintos institutos de España. Y la mayoría me cuenta lo mismo: que todo son pegas cuando los invitan a leer a alguna parte (aunque se trate de otro instituto), que nadie les agradece que lleven la revista del centro, que no se tiene en cuenta que la tele y los periódicos hayan sacado de paso al instituto al ir a entrevistarlos a ellos, que sus alumnos disfrutan del conocimiento de otros escritores por mediación suya ...


Etcétera, etcétera, etcétera.

Imagino que este desprecio por el arte y los artistas responde al espíritu de este tiempo en que las humanidades no constituyen sino un mero adorno. Lo que ocurre es que resulta triste que ni siquiera en los centros educativos pintar o escribir se considere un mérito. A pesar de que, se pongan como se pongan, objetivamente, contar con un escritor de cierto nombre en el claustro represente un beneficio para el instituto o colegio de turno.
 
[...]"
 
 
Embora, pessoalmente, tenha sido muito bem tratado na escola onde dou aulas por alturas da apresentação de um livro meu na biblioteca do Agrupamento, subscrevo as palavras do José María Cumbreño.
 
http://liliputcontrablefescu.blogspot.com/2010/09/acerca-de-los-poetas-profesores.html
NA COMPANHIA DE CAMUS


Na passada sexta-feira foi lançado no Teatro da Trindade, em Lisboa, o mais recente livro do poeta e jornalista José do Carmo Francisco. Tal como noticiei há uns tempos, trata-se de um conjunto de entrevistas em torno do desporto, reunidas sob o título As Palavras em Jogo, num volume editado pela Padrões Culturais. Estruturadas a partir de um alicerce forte - as palavras de Albert Camus sobre a importância do desporto na sua formação humana e cultural -, traçam, além das opiniões veiculadas, perfis reveladores dos entrevistados, todos figuras conhecidas e/ou importantes na nossa vida cultural e cívica.
Nem todas as entrevistas revelam a mesma qualidade e profundidade; algumas delas mostram mesmo o quanto José do Carmo Francisco deve ter suado para que a destilação produzisse um álcool aceitável e bebível ou para retirar as declarações do expectável. Na minha opinião, revelam um enorme interesse os diálogos com Américo Guerreiro de Sousa, Dinis Machado, Ernesto Melo e Castro e Eduardo Nery. São francamente boas a entrevistas de Eduardo Guerra Carneiro, Fausto Bordalo Dias, Francisco José Viegas, José Quitério e Luís Filipe Maçarico. A de Álvaro Cunhal confirma apenas a cassete já histórica na nossa memória; o político comunista não desejou sair dos carris e conseguiu-o. Francamente fracas são as respostas de Urbano Tavares Rodrigues, Carlos Mendes e Clara Pinto Correia. Infelizmente, por motivos que sei alheios ao autor de Transporte Sentimental, as entrevistas de José Fernandes Fafe, José Nuno Martins, Mia Couto e Nicolau Saião não passam de perfis, ainda assim atraentes e suscitadores de curiosidade. Junta-se a este painel a memória de Francisco dos Santos, que vem ajudar o leitor deste interessante livro a entender o jogo das palavras e da vida, afinal uma "eterna luta entre o pó e a posteridade" - como intitulou José do Carmo Francisco o texto lido no lançamento.





A eterna luta entre o pó e a posteridade


Há 32 anos, quando comecei no Diário Popular, não imaginava como tudo isto é efémero. Os jornais são como as pessoas; também morrem. De repente lembro-me de alguns onde colaborei desde 1978 e que deixaram de se publicar: Diário Popular, Diário de Lisboa, Gazeta dos Desportos, A Capital, República. Mas se recuarmos 70 anos vemos nove jornais diários que não resistiram: Jornal do Comércio, O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, O Século, Novidades, República, Diário de Lisboa, A Voz, Diário da Manhã. Só ficaram o Diário de Noticias e o Jornal de Noticias. A Bola Magazine, de onde foram recuperadas para o meu livro As palavras em Jogo estas entrevistas e a memória, também só vive hoje na memória afectiva de quem a guarda e nas prateleiras das hemerotecas. Há 370 anos nasceu a primeira Gazeta que dentro de meses pode dar origem a algumas efemérides. Somos os bisnetos desses obscuros redactores e somos os remadores dessa barca onde se procura vencer o pó do silêncio e alcançar a posteridade possível. O Mundo é uma terrível fábrica de esquecimento; compete a todos e a cada um de nós fazer com que o esquecimento seja uma injustiça. Ao procurar saber mais do jornalismo de há 70 anos apareceu em O Século de 1941 uma referência a José Bento Pessoa. Pois o nosso figueirense foi em 1897 o vencedor do I Campeonato de Espanha em bicicleta disputado em Ávila na distância de 100 quilómetros que fez em 3h 42m e 31s. Ele é uma relíquia do Desporto Português. Este livro não aspira a tanto; pede apenas um pouco de atenção ao leitor comum e um lugar no futuro Museu do Desporto.



Despedimos Febrero con dolor

Miguel Angel Gómez Naharro




Los más de 150 chilenos muertos por un seísmo nos producen un nuevo encogimiento cardiaco. Mientras todavía tenemos presente las desgracias de Haití, el continente hermano nos envía una nueva daga procedente de territorios sureños. Un nuevo responso austral.
Nuestro paisano Santiago Castelo escribió un poema titulado ‘Oración por Cuba’. Hoy con la muerte de Orlando Zapata tenemos que convertirlo en responso, incluso en reprimenda. Esta situación es suficientemente grave como para esperar que los ancianos hermanos Castro mueran detentando el poder hasta su muerte. Cuba auspiciada por la Unión Europea ha de encontrar el camino de una transición donde se respete la libertad de expresión.
Los más de 150 chilenos muertos por un seísmo nos producen un nuevo encogimiento cardiaco. Mientras todavía tenemos presente las desgracias de Haití, el continente hermano nos envía una nueva daga procedente de territorios sureños. Un nuevo responso austral.
De la tormenta perfecta nos hemos casi librado aunque también ha habido víctimas desde la Península Ibérica hasta Bélgica. No soltamos el hisopo.
En fin amigos, Marzo comienza sin alegría.

Publicado aqui: http://digitalextremadura.com/not/403/_despedimos_febrero_con_dolor/
COMO FOI A PRIMEIRA REPÚBLICA
Opiniões de uma testemunha ocular republicana:
Fialho de Almeida in Saibam quantos...




"Este Portugal republicano é aquele mesmo [...] que crê parvamente em Messias políticos e bruxas, que vive d' indústrias fictícias e agriculturas rutinárias, e com um jornalismo pedante de reporters, uma ciência de copistas e uma literatura de decalcos [...]." (1/11/1910, p. 15)


*



"[...] Para implantar no país essas reformas, não vale a pena derribar o monarca para assentar no trono o presidente.
O que é preciso é ter confiança na capacidade mental e moral do cidadão. O que é preciso é ter fé na sinceridade e honra política dos chefes. O que é preciso é curar da disciplina austera dos grupos. E tudo isto não é a forma de governo que o dá, mas uma instrução e uma educação singularmente perfeitas e solícitas. [...]" (pp. 17-18)


*





"[...]
Políticos, politicantes, peste!...
Em toda a parte a política é uma ocupação subalterna que só tenta os faladores e os intrigantes, e em geral se abandona às gentes de pequena virtude que a exploram como uma alquilaria ou uma tenda.
[…] E o resultado é este! Corrupção, ignorância, anarquia geral e marcado retrocesso em todas as representações da vida pública e privada.
Partidos recrutados por senhas de bónus pulverizando-os em patrulhas que inviabilizam o parlamento, tornando a queda de ministérios num sport d’ aventureiros e bravucões. Uma burocracia cleptómana que açambarcou os cargos, com mote de não deixar medrar na vida pública ninguém que não seja do can-can. Meses e meses d’ assembleia onde os deputados fazem lutas d’ apaches, ou exploram narizes de cera, abandonando o terreno quando algum assunto sério vem à fala. Uma imprensa que, aparte três ou quatro jornais, sintomatiza bem o descalabro da terra, tão desorientada e ignorante como o parlamento, vivendo de bagatelas e difamações injuriosas, ou reportagens tão reles que por elas se aquilata a complacência estúpida e a degradação moral de quem na lê. Nem literatura, nem ciência, nem arte, nem marinha, nem exército, nem agricultura bastante ao sustento da gente, nem indústria capaz de resgatar as dezenas de milhões em que, com importações estrangeiras e juros da dívida se esgotam os recursos da mesquinha epargne nacional!... (pp. 191-192)
LIVROS DE 2009

Ninguém espere de mim uma lista dos melhores livros publicados em 2009. Quem quer que a apresente nunca será intelectualmente sério, uma vez que é impossível ter lido todos os volumes editados num ano no nosso país e/ou no mundo. Logo, a escolha será (consciente ou inconscientemente) viciada e manipuladora, sobretudo se divulgada num grande meio de comunicação.
Não deixo no entanto de partilhar a lista dos livros que mais me recompensaram no ano passado. Como será fácil de verificar, têm anos de publicação muito díspares, estando vinculados a um leitor que gosta de caminhar por estradas e veredas muito diferentes, muitas vezes pouco frequentadas.
Na apresentação, optei por listar as obras pela ordem de leitura, prescidindo da ordem alfabética ou cronológica.


GONÇALO M. TAVARES - "O Senhor Breton" (2008)
CLAUDE ROY - "Diário de Viagens" (1962)
ROBERT MUSIL - "L' homme sans qualités" (trad. francesa)
MIGUEL JORGE - "O deus da hora e da morte" (2008)
HORÁCIO - "Odes"
LUIS ARTURO GUICHARD - "Nadie puede tocar la realidad" (2008)
ARTURO PÉREZ-REVERTE - "Con ánimo de ofender (artículos 1998 - 2001)"
FERNANDO PESSOA - "Poesia 1918-1930"
TEIXEIRA DE PASCOAES - "Vida Etérea" (1906)
TEIXEIRA DE PASCOAES - "Para a Luz" (1904)
ELIO PECORA - "Simetrias" (2007)
NUNO DEMPSTER - "Dispersão" (2008)
J. M. G. LE CLÉZIO - "A Febre" (1965)
PEDRO SINDE - "O Canto dos Seres - saudade da natureza" (2008)
JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS - "Aforismos e Desaforismos de Aparício"
BRITO CAMACHO - "Matéria Vaga" (1934)
MARIA GABRIELA LLANSOL - "Onde vais, drama-poesia?" (2000)
JOÃO CANDEIAS - "O Narrador / O Mar" (1989)
HELENO GODOY - "Fábula Fingida" (1985)
RUI KNOPFLI - "O escriba acocorado" (1978)
MICHEL GRAS - "O Mediterrâneo Arcaico" (1995)
JOSEP M. RODRÍGUEZ - "La Caja Negra" (2004)
THOMAS BERNARD - "Na terra e no inferno" (1957)
LUIZ PACHECO - "Pacheco versus Cesariny" (1974)
LUIZA NETO JORGE - "Terra Imóvel" (1964)
WILMAR SILVA (org.) - "Portuguesia" (2009)
CAMILO CASTELO BRANCO - "Vinte Horas de Liteira" (1864)
MICHEL VOLKOVITCH (org.) - "Anthologie de la Poésie Grecque Contemporaine"
GEORGE STEINER - "Os livros que não escrevi" (2008)
RAINER MARIA RILKE - "O Livro de Horas"
G. K. CHESTERTON - "O Homem Eterno" (1925)
HEINER MULLER - "O Anjo do Desespero" (1992)
PAUL AUSTER - "Inventar a Solidão" (1982)
CHARLES PÉGUY - "Le Porche du mystère de la deuxième vertu" (1929)
FERNANDO SAVATER - "O Valor de Educar" (1997)
WILMAR SILVA - "Yguarani" (2009)
ANTONIO SÁEZ DELGADO - "Espíritus Contemporáneos" (2009)
CRISTINA CAMPO - "Sob um falso nome"
STÉPHANE MALLARMÉ - "Igitur"
EDMOND JABÈS - "Le Livre des Ressemblances" (1976)
JOSÉ MARÍA CUMBREÑO - "Teorías del Orden" (2008)
FIALHO DE ALMEIDA - "Figuras de Destaque" (1923)
MARIA GABRIELA LLANSOL - "Uma data em cada mão - Livro de Horas I"
TEIXEIRA DE PASCOAES - "O Penitente" (1942)
LUIS MANUEL PÉREZ-BOITEL - "Conversaciones con máscara" (2009)
ETTY HILLESUM - "Cartas 1941-1943"

VIRNA TEIXEIRA



Detox


Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.

Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.

Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.

A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.

No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.



Titan


contava histórias
nos desenhos
da pele


mensageiro do submundo
mercúrio


um vulto
de mãos velozes
na poeira lunar


em trânsito
visões onde


se escondeu
das crateras
sulcos - mofados


na outra
superfície


Virna Teixeira nasceu em 1972 na cidade de Fortaleza, mas vive desde há vários anos em São Paulo (Brasil). Os dois poemas publicados são retirados do seu livro Trânsitos, recentemente publicado na Lumme Editor. Gostei da sua maneira de escrever logo na primeira leitura, acontecida numa antologia da nova poesia brasileira publicada entre nós. Da maneira como lida com uma linguagem elíptica, criadora de segredos e de um mundo suspenso, prestes a acontecer ou ainda acontecendo. Do "quase", do não-dito ou por-dizer. Corpos, os poemas não se abrem; deixam que sejamos nós a abri-los lentamente. Ou permitem a construção de uma relação interactiva, sempre inacabada e, por isso, incessante.

PORTUGUESIA
– AO SERVIÇO DO VERBO


Não é com ingenuidade que se coloca num volume com cerca de 500 páginas o subtítulo “Contraantologia”. Nem é com inocência que um dos primeiros poemas incluídos nesse tomo afirma que “ou se gosta / ou não se gosta”, concluindo – antes dum peremptório “eu” – ser “impossível determinar o conteúdo deste livro” e acabando por sugerir: “podes chamar-lhe poesia, podes chamar-lhe nevoeiro”. Os ágrafos – a quem este trabalho monumental do poeta mineiro Wilmar Silva é dedicado – terão certamente uma palavra a dizer, agentes de um trabalho de dissolução da autoria, que (num mais ou menos longo e mais ou menos complexo processo de produtransmissão) conduziu sempre ao desaparecimento da paternidade/maternidade do texto e ao seu anonimato. Também não será inconsciente a colocação na capa do primeiro volume da Portuguesia uma reminiscência do primeiro símbolo nacional dos falantes de língua portuguesa – cruz azul sobre prata –, a lembrar talvez os propósitos deste projecto: descer às raízes da língua e da sua palavra para aí descobrir a autenticidade poética de um vasto mundo, transversal a vários continentes.

*

Afirmar que uma antologia é o seu contrário exige resultados consequentes. Contrariar hábitos instalados – quase nunca justificados e nem sempre justificáveis – obriga a uma responsabilidade acrescida.
Convenhamos. Há antologias de poemas e há antologias de poetas. Às primeiras interessa a palavra, servida estética e/ou filosoficamente – os poemas, tornados quase anónimos, neles buscando e apresentando valores intrínsecos. Nas segundas, são os autores que determinam tudo ou quase tudo – mais como ícones do que como índices, para utilizar os termos felizes de E. M. Melo e Castro –, enquanto figuras históricas, localizadas no espaço e/ou no tempo, rodeadas ou não de notoriedade pública. São olhares completamente diferentes sobre o texto: num caso, interessa a Poesia; no outro, a Literatura, a sua História e/ou a sua Sociologia. As primeiras (independentemente do seu nível de conseguimento estético e da capacidade de organização do antologiador) serão sempre obras de arte, na sua composição entrelaçada, entrançada. As segundas só terão interesse enquanto objectos de estudo histórico, quando a elas preside um desejo de registo, de homenagem ou de afirmação, a vontade recuperar uma memória perdida ou o propósito de analisar o tratamento dado a um determinado tema num tempo mais ou menos alargado; a consideração artística da antologia dificilmente terá em conta o livro inteiro, mas cada um dos poemas, enquanto objecto de Arte individual.
Wilmar Silva, ao organizar a sua Portuguesia, escolheu – quanto a mim – o melhor caminho. Deixando para o final do livro a indicação da autoria dos poemas irmanados ao longo de mais de quatro centenas de páginas, colocou-se ao serviço da palavra – logo, da Poesia – transformando o seu trabalho numa obra de Arte que nos obriga a uma aproximação global da sequência, seja qual for a nossa opinião sobre cada um dos textos escolhidos. Colocados como estão, os 484 poemas apresentam mesmo uma linha que tem tanto de narrativa quanto de ensaio – a requerer uma leitura múltipla, unificada e unificante.
Esta “contraantologia” corresponde, portanto, a uma abordagem conceptual da poesia que se faz hoje em Portugal, no Brasil (Minas Gerais), em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Valorizando a palavra, opõe-se à valorização do autor enquanto ícone de fama e de notoriedade, quantas vezes sem capacidade fazedora correspondente, não conseguindo sair da mera produção epigonal, inofensiva.

*

Um livro como este tem a vantagem da surpresa, se nos deixarmos levar pela proposta do seu edificador. O jogo estruturado por Wilmar Silva não facilita a identificação do autor do poema lido, embora a permita. É essa organização que, no entanto, valoriza a obra. Deslumbramo-nos com poemas de autores que desconhecíamos, desgostamo-nos com textos de poetas estimados, confirmamos adesões ou exclusões, percebemos quanto trabalhou o poeta de Yguarani para encontrar na produção de um determinado nome algo que não fosse indigno.

*

Ao ler uma e outra vez este grosso volume – acompanhado por um dvd em que os poemas surgem ditos pelos seus autores empíricos – tentei não falsear a proposta desta obra de Arte. Fui lendo e apontando os códigos alfanuméricos que ladeiam cada poema, para no final estabelecer a minha lista de preferências – não de poetas, mas de poemas. Não me custa afirmar que li com muito gosto os textos de Adolfo Maurício Pereira, Adriano Menezes, Alexandre Nave, Ana B., Ana Viana, André Sebastião, Arménio Vieira, Daniel Bilac, E. M. Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Fabrício Marques, Fernando Aguiar, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Guido Bilharinho, Iacyr Anderson Freitas, João Miguel Henriques, João Rasteiro, Joaquim Palmeira, Jorge Melícias, José Luís Peixoto, José Rui Teixeira, Luiz Edmundo Alves, Márcio Almeida, Márcio Catunda, Milton César Pontes, Narciso Durães, Nuno Rebocho, Pedro Mexia, Prisca Agustoni, Rui Costa, Rui Lage, Tânia Alice, Valter Hugo Mãe, Wagner Moreira – entre outros que não menciono aqui para não alongar a lista.
Nuns casos confirmei preferências antigas; noutros, surpreendi-me a apreciar poemas de autores cuja obra pouco considero; especialmente saborosas foram as descobertas de poéticas completamente desconhecidas, inclusive de autores residentes dentro do rectângulo ibérico que é Portugal.

*

Há exclusões “lamentáveis” – como diria um crítico sem boas intenções ou um poeta despeitado? Ausências, sim. Exclusões, não, muito menos “lamentáveis”. Wilmar Silva pretende editar outros volumes da sua Portuguesia em que muitos ausentes se farão presentes, numa demanda que lhe ocupará a vida inteira – conforme confidenciou no encontro ocorrido em Julho passado, no Centro de Estudos Camilianos, em Seide. Quanta gente precisa de cartografar no oceano da poesia escrita em língua portuguesa! O esforço valerá a pena, certos estando de que continuará a contrantologiar, isto é, a valorizar os poemas – porque a Poesia se faz com eles, como afirmou Ruy Belo –, relegando os poetas para o lugar discreto que lhes compete.


NOTA: Portuguesia é editada pela Anome Livros, sediada em Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil). Página: www.anomelivros.com.br Endereço electrónico: anomelivros@anomelivros.com.br


Publicado aqui:
http://www.triplov.com/poesia/ruy_ventura/2009/portuguesia.htm a 2/10/2009

OS SETE EPÍGONOS DE TEBAS
de José Carlos Barros




“[…] as mulheres dos montes / viravam os estrados / para o lado de dentro / dos teatros / […]”
“Em vez dos panos nos bastidores: a narrativa – / […] / a libertar-se da âncora genealógica / pela destruição do livro / dos exemplos. […]”
“[…] mudava / os parágrafos / e depois procurava no forno do povo / ou no tanque do largo / ou na lenha de bétula arrumada nos telheiros / o eco da frase inaugural /[…]”

Escolho, mais ou menos ao acaso, alguns versos de um livro de José Carlos Barros, ainda inédito. Quanto mais o leio, mais se aproxima de mim a sua estrutura, os pilares e lintéis de um edifício a que o autor empírico resolveu chamar Os Sete Epígonos de Tebas. Não estou perante uma colectânea de poemas; tenho nas mãos um livro de poesia. E, como qualquer objecto digno dessa classificação (isto é, que não seja apenas uma reportagem ou muita verborreia, empilhadas em linhas que não chegam ao final da folha impressa), escolhe – seguindo a frase de Herberto Helder colocada na obra como epígrafe – a arte “de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água”. Ou seja: arrisca assistir ao movimento descendente, violento, de corpos ígneos, cuja matéria entra em contacto explosivo com terra, purificando-a pelo fogo e, depois, pela expansão rápida de um líquido cuja passagem lava o espaço, os seres nele viventes e a sua memória. Terminado o maremoto, o contacto do fogo com a água – que José Carlos Barros parece desejar ver e registar – produz ainda uma matéria volátil: essa “nuvem” ou “névoa” que (segundo um poema do mexicano Luis Arturo Guichard) transforma os campos mais comuns em bosques plenos de mistério, embora quase sempre se veja apagada pelo fumo. E são os adoradores do fumo que vencem a primeira de duas batalhas pela sobrevivência de Tebas. Tebas – uma cidade contaminada por contínuas lutas pelo poder absoluto, condenada à desagregação por ter destruído dessa forma a herança civilizadora de Cadmo, o seu fundador –, que só pelo fogo poderá talvez ser conservada. É essa tentativa de preservação que, na minha leitura, se vê reflectida no livro de José Carlos Barros.
Nos seus poemas contidos, meditativos, este livro tem contudo raros vestígios da narrativa mitológica dos “sete epígonos de Tebas” – da história dos sete chefes militares que vingaram a derrota dos seus ascendentes conquistando, em vez deles, a urbe fundada pelo introdutor mítico do alfabeto fenício no território grego. É, antes, uma reflexão alargada sobre a memória, sobre a passagem do tempo, sobre o seu registo num texto escrito feito poesia e sobre as circunstâncias adversas que este tem de vencer para atingir a sua melhor realização estética e ética. Quem lê “Tebas” nesta obra deve pensar na “escrita” ou na “poesia” (aí renascida pela mão dos gregos ou de fenícios chegados à Grécia), sendo a luta dos “epígonos” (ou seja, dos descendentes) um processo de revitalização – dura e violenta – do texto artístico. É preciso destruir toda a escrita mergulhada no caos dos interesses e do poder temporal para que algo nasça de novo a partir dos alicerces – ainda que os vencedores finais (após a destruição da cidade) sejam sempre acompanhados pelo “opróbio da emulação”, porque “Os heróis” derrotados na primeira refrega “[pereceram] nos campos / de batalha / com a lança dos desastres”.
A vitória contra a erosão dos poderes literários consegue-se através da interioridade (virando “os estrados / para o lado de dentro / dos teatros”) e do espírito (procurando com ironia e desprendimento a “energia eólica” nascida nas “vagarosas pás / dos aerogeradores”), porque – segundo afirma o livro – “há um momento / em que a heresia e a coragem se confundem / e a baixa densidade dos núcleos / remove / por intuição / a desmesura / das memórias / descritivas / dos interesses”. Não esquecendo que é a memória da derrota dos antepassados (esse desenho nos “subterrâneos labirintos” da “cartografia pretérita dos desastres”) que conduz à vitória na guerra pela vertical dignidade da escrita e do texto, contra os seus hábeis manipuladores e niveladores que se servem deles para conseguirem honrarias jornalísticas, académicas e sociais. Porque só essa vitória permite que nunca se quebre, mesmo na humilhação, “esse / fio de novelo / que levava ao ouro e à água subtraída das nascentes: / ao rumor da pedra volátil / do volfrâmio”.
A mensagem de José Carlos Barros neste livro (cujo mérito, muito saliente, João Candeias, Joaquim Cardoso Dias e o autor destas linhas – como membros do júri do Prémio Nacional de Poesia “Sebastião da Gama” – resolveram premiar) é clara e muito importante nestes tempos de alheamento e de confusão: “[…] / ninguém diz uma palavra. / E ninguém se move em redor do lume / com medo / da repercussão / dos desastres”, mas quando alguém procura água que purifique esse silêncio cúmplice e criminoso, “O vedor / [sente] que a vara / [aponta] ao céu: / a nuvem / em vez / das nascentes”. É então que o cometa de Herberto Helder produz o seu incêndio e a sua redenção: “[…] a nuvem das palavras [desce] sobre as tendas / e as dunas da península: / duas mãos” – o passado e o presente?, pergunto – “[tocam-se] / por um instante breve / e [ergue-se] no ar irrespirável / o rumor incandescente / dos incêndios / das florestas”.

Azeitão, 16 de Maio de 2009
Lido por RV na sessão de entrega do Prémio “Sebastião da Gama”
José María Cumbreño

Los poetas inventados
o el traje nuevo del emperador

Sé de algunos poetas que no existen, poetas que no han sido creados por dios, sino por su editor. La jugada es sencilla. No hay más que seguir los siguientes pasos.
- Primero. Debe elegirse a un escritor (o escritora) joven y de provincias, preferiblemente con aire lánguido, mirada perdida y gafas de pasta.
- Segundo. A continuación se le concede uno de los premios que publica la propia editorial (aquí interesa darle mucho bombo a la noticia, asegurar que se trata de la nueva promesa de la poesía española o algo así).
- Tercero. Seguidamente el editor omnisciente se encargará de ir publicando los sucesivos libros que el escritor (o escritora, no lo olvidemos) vaya produciendo.
- Cuarto. Los poemarios de marras se distribuirán por todo el país y se regalarán a cuanto crítico habite los principales suplementos literarios.
- Quinto. Aprovechar el efecto el traje nuevo del emperador para volver a afirmar que, sin duda, nos encontramos ante una de las voces más intensas (a pesar de sus silencios) de la poesía patria. Dejar que tales cantinelas corran de boca en boca.
- Sexto. Lograr que, como prueba de su talento, vuelva a ganar otro premio publicado por la misma editorial de siempre.
- Séptimo. Por último, publicar una antología del citado escritor (o escritora) como confirmación de que prácticamente es un clásico vivo y, mediante encendidos elogios en la solapa o la contraportada, animar a los indecisos lectores que aún no lo hayan hecho a comprar de inmediato su obra completa.Y asunto concluido.

(E em Portugal? Será diferente?)

REVERTE


Ando a ler mais um volume de Arturo Pérez-Reverte, Con ánimo de ofender, que reúne artigos editados no El Semanal nos anos que estabeleceram a transição entre o século XX e o século XXI.
Ler os textos de opinião e de observação deste autor espanhol traz-me à memória uma força verbal que, em Portugal, só pode ser encontrada nas páginas de crónica assinadas por Fialho de Almeida ou por Camilo Castelo-Branco.
Nos últimos cem anos, tirando Luiz Pacheco e pouco mais (e mesmo assim...), nada surgiu de comparável. Nos nossos dias, então, não há testículos como os do criador de Alatriste - ou, se os há, estão devidamente ocultados, arredados da grande imprensa que lhes poderia dar justo eco alargado.
Na nossa "imprensa de referência", tanto quanto me parece, o que mais há são teclados com problemas de erecção e de coluna vertebral, ilusionistas de feira sem a menor dignidade, a soldo dos mais diversos interesses, mesmo quando parecem mostrar o contrário. Uns e outros, quando parecem escarrar nas fuças de quem merece, apenas dão beijinhos velados, não fique abalado o edifício do status quo, a que pertencem.
Ler algumas crónicas de Arturo Pérez-Reverte injecta-nos coragem. Obriga-nos a continuar a luta pela sobrevivência digna neste mundo de trampa. Não esqueçamos: aqui, onde vivemos, haverá sempre homúnculos à espera do momento exacto para proceder à nossa castração, seres que, discretamente, com diabólica rapidez e eficácia, procuram sodomizar a nossa verticalidade.
Nicolau Saião oferece texto de Mário Crespo

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Umas trazidas pelos velhos CTT (velhos são os trapos...), outras pela Rede, a Net, a netezinha que, se nos irrita com tanta publicidade relativamente tola ou definitivamente palonça, também nos empolga com notícias de longe ou de perto. De perto do coração, digamos, ou da mente forjadora de conceitos e reflexões assaz fecundas.
Esta chegou-me de um amigo que há muito tempo não vejo mas que, volta e meia, me remete coisas de ponderar. Por vezes da sua própria lavra, outras vezes deste, daquele, daqueloutro publicista...
Ontem, já tarde na noite, mandou-me o texto que segue – e aqui partilho convosco a sua leitura:


Está bem...
façamos de conta


Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja.

Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

Mário Crespo

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO

Três poemas

ESCREVER POR AGULHAS

E se o menino, na urgência de longes,
do trem separa, aparta-se da gare
para embarcar num tandem de horizontes,
não descura do carvão, mesmo lápis,
com que escreve dias-mapa, cartas-ponte,
como a palavra fosse o desembarque
no qual reúne porquês, quandos e ondes,
enquanto a infância manobra e parte.

Nesta escrita, difícil operar
senão ao modo de, como por agulhas,
sejam as que, entre a hora e o lugar,
decidem se a linha míngua ou demuda
(ao foguista cumpre apenas queimar),
sejam aquelas que emprega a costura
e de viés ensinam a mão a chulear
onde nos punge o poema, suas rasuras.


LINHAS RIVAIS

Trem é texto quando encontra desvio
ou nos surpreende em meio ao pontilhão,
e da origem as pernas se desdão
para o mundo acomodar neste livro.
Mas texto é menos trem que o enguiço
de saber que no verso desembarca
apenas a prosa dessas coisas arcas
com que o menino se salva do olvido.

Seja a prosa como dormir num trem
e a poesia quando a aduana sobrevém:
naquela, até o sonho encontra sua reta,
enquanto nesta, nos sacode e espera
uma voz de si mesma estrangeira
- e como fosse toda ela suspeita,
a bagagem uma outra mão desfaz,
mão que vacila entre linhas rivais.


A MORTE COMO METÁFORA

Talvez outra metáfora ainda possa
antes deste texto descarrilar-se
- ou enfim estacar no livro-gare,
à espera de uma voz que, sendo oposta,
o conduza por avessas passagens
(passagens sem número, sem sintaxe),
para assim desfazer-se na manobra
que realiza entre o desvio e o desastre.

Análoga àquela que assombra o pai
quando dele o trem a altura subtrai,
uma outra morte o poema epiloga.
E se digo tratar-se de metáfora,
é porque, com seus modos e manobras,
nela a palavra desvia e me ultrapassa,
tal fosse menos termo do que o mote
o que do autor é um corpo discorde.

Um dia, o trem, livro de poemas publicado recentemente pela Nankin Editorial em parceria com a Funalfa, confirma Fernando Fábio Fiorese Furtado com um dos mais interessantes autores que, neste momento, escrevem poesia no espaço de Língua Portuguesa. Depois de Corpo portátil (2002), este comboio transporta-nos até um verbo que convida à meditação e à viagem, em linhas que tanto levam à catábase quanto à ascensão dos seres que povoam este mundo.
"Las mejores palabras en el mejor orden"

JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

(El País, Babelia, 22/11/2008)

García Baena, Gamoneda, Segovia, Brines, Sánchez Robayna, Atencia ... reflexionan sobre cómo la poesía trasciende los géneros literarios y, aunque está lejos de tener los lectores de la narrativa, ha conseguido salir de su propio gueto

El lugar en el que se cruzan la eternidad y el tiempo. La energía que nace de la contradicción. Una emoción reconstruida... Todo eso, dice la tradición, puede ser la poesía, esa manera de usar el lenguaje que, como quería Percy B. Shelley, "levanta el velo que cubre la belleza oculta del mundo y hace aparecer los objetos familiares como si no lo fueran". Mucho más escueto y siguiendo a sus propios clásicos, Luis Cernuda lo dijo así: "Las mejores palabras en el mejor orden".
La búsqueda de una definición para su propio oficio es una de las ocupaciones más antiguas de los poetas. Otra es discutir el carácter minoritario de ese oficio. ¿Malos tiempos para la lírica? Lo dijo Bertolt Brecht hace medio siglo, lo cantó Golpes Bajos hace dos décadas y el año pasado lo certificaron las estadísticas. La encuesta sobre hábitos de lectura en 2007 promovida por la Federación de Gremios de Editores de España es rotunda. El 94,2% de lectores habituales lo son de novela y cuento. El porcentaje restante se lo reparten el ensayo (3,6%), el teatro (0,9%) y la poesía (1,3%). Comparados con los de narrativa, en efecto, los lectores de poesía son un bien escaso. Comparados con los que había hace 50 años, la escasez no es tanta. Fruto de una demanda limitada pero creciente es también una mayor oferta. "Antes dependías de las bibliotecas de los amigos, porque ni se editaba tanto ni los libros llegaban a las librerías. Por no hablar de Internet, que ha revolucionado la difusión de la poesía", recuerda María Victoria Atencia, premio de la Crítica en 1998 por Las contemplaciones (Tusquets) y, a sus 77 años, uno de los grandes nombres de la generación de los cincuenta. Para Atencia, no obstante, es difícil que la poesía pierda su carácter minoritario: "Pero no es un género residual". Así pues, un 1,3% de pura intensidad. En palabras de Francisco Brines: "La poesía no tiene público, tiene lectores".
Por otro lado, hace ya tiempo que los poetas le retorcieron el cuello al cisne de la cursilería. Hermética o prosaica, la poesía moderna ha elevado su nivel de exigencia hasta romper con los clichés que la habían disecado como un desahogo rimado para gente con la cabeza en las nubes. Pablo García Baena, que acaba de publicar la antología Rama fiel (Universidad de Salamanca) y de recibir el Premio Reina Sofía de Poesía, el más prestigioso de Iberoamérica, recuerda los tiempos en los que empezó a publicar: "La verdadera poesía estaba ausente. Abundaban los recitadores folclóricos que imitaban a Lorca". Con todo, el autor cordobés, de 85 años, no pierde de vista la famosa dedicatoria de Juan Ramon Jiménez -"A la inmensa minoría"- al señalar que la poesía necesita un determinado contexto -"No creo en la poesía para campos de fútbol"-, es decir, soledad y silencio, otros dos bienes escasos. "Mientras una novela te entretiene y te hace tomar distancia, un poema te hace pensar y revivir cosas que son tuyas. Los poetas se meten en tu vida. Y eso es duro".
En esa distinción entre la lectura de poesía y la de narrativa coincide también Antonio Gamoneda. Para el premio Cervantes de 2006, la poesía no es literatura: "La literatura descansa en la ficción. La poesía, sea clara u oscura, no. Manifiesta hechos existenciales (sufrimientos, gozos, temores), es una emanación de la vida". En opinión del autor leonés, de 77 años, la poesía trasciende los géneros literarios -"Hay mucha poesía en Kafka"- pero en medio del ruido de la modernidad ha perdido su función primitiva: "Empezó siendo el único medio de comunicación. Era uno de sus grandes valores en la Edad Media. Ese espacio lo ocupa ahora la televisión. Si ésta ocupa todo el cerebro de la gente, será el triunfo del consumo sobre la reflexión".
"Lo que dicen los poetas sigue siendo importante", afirma Carlos Pardo, de 33 años y ganador del Premio de la Generación del 27 con Echado a perder (Visor). "Hay un margen que sólo puede llenar la poesía: el de la reflexión sobre el lenguaje, el de la música de las palabras. Esto último algunos lo encuentran también en las canciones, pero tampoco hay tanta diferencia", continúa Pardo, que además de escritor es coordinador de Cosmopoética, el festival de poesía de Córdoba -que este año celebró su quinto aniversario, con los premios Nobel Seamus Heaney y Dario Fo entre 200 autores-, uno de los referentes del género al lado de la Semana de Poesía de Barcelona y del Festival de Poesía de Medellín en Colombia. Los festivales, de hecho, se han convertido en la mejor prueba de que la poesía puede salir del gueto. "Lo bueno es que a las lecturas", cuenta Pardo, "viene gente desprejuiciada a escuchar a poetas a veces muy arriesgados. Y funciona". Eso sí, hay más espectadores que lectores. Superventas aparte, si vale la palabra, y atendiendo a las tiradas medias, Pardo calcula que hay en España alrededor de mil lectores-compradores puros de poesía: "A un festival va gente que no compra libros de poemas, pero el pesimismo no está justificado. Cada vez hay más lectores. Además, se ha roto el provincianismo. Cada vez se publica más poesía extranjera, y más latinoamericana".
La industria editorial española, en efecto, se está poniendo al día respecto a la lírica escrita en América Latina. Un fenómeno reciente. "Yo hice un curso en una universidad de Madrid en los años noventa y algunos profesores decían directamente que no les interesaba. Eso ha cambiado", recuerda la colombiana Piedad Bonnett, de 57 años, que en el transcurso del pasado festival VivAmérica presentó en España su libro Las herencias (Visor). Los herederos de César Vallejo y Pablo Neruda no son ya aves raras en el catálogo de las editoriales españolas. Algunos, no obstante, no son tan optimistas. Es el caso del poeta canario Andrés Sánchez Robayna, coautor junto a José Ángel Valente, el uruguayo Eduardo Milán y la peruana Blanca Varela de la antología Las ínsulas extrañas (Galaxia Gutenberg / Círculo de Lectores), en la que Miguel Hernández convivía con Lezama Lima y Gil de Biedma con Ida Vitale porque el criterio de selección era la lengua española y no la nacionalidad: "Se edita, es cierto, pero dudo que los libros tengan incidencia real. Eso sí, estamos lejos de afianzar un espacio cultural hispánico al modo en que lo está, con una lengua menos fuerte hoy, la francofonía".
Uno de los incluidos en aquella antología, Tomás Segovia, es un buen exponente de esa cultura transatlántica. Nacido en Valencia hace 81 años, vivió en México durante décadas y ahora lo hace en España, donde acaba de recibir el Premio Internacional García Lorca. Según Segovia, el franquismo detuvo la poesía latinoamericana en los alrededores del modernismo para el lector español. "Hay mucho que recuperar", explica, "pero los nombres de poetas como Juan Gelman, Gonzalo Rojas o Eugenio Montejo empiezan ya a estar en boca de la gente". Respecto al futuro de la poesía, el autor de Siempre todavía (Pre-Textos) tampoco es pesimista: "Su valor numérico no se corresponde con su prestigio, que es enorme. ¿Que no la leen? Ya la leerán dentro de 200 años. La influencia de la poesía se extiende por contagio, cuerpo a cuerpo". -
EM FINAIS DO SÉCULO XVI
havia juízo

Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).

Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.

Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.

Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.

"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.
"


Ratio Studiorum
da Companhia de Jesus (1599).

Parece-me sensato este artigo
de Vasco Pulido Valente,
saído no Público, a 15 de Novembro.



(Carregue na imagem para aumentar.)
AS PALAVRAS DE MANUEL ALEGRE
sobre o que se passa na política educativa do Governo

"Confesso que me chocou profundamente a inflexibilidade da Ministra e o modo como se referiu à manifestação, por ela considerada como forma de intimidação ou chantagem, numa linguagem imprópria de um titular da pasta da educação e incompatível com uma cultura democrática.
Confesso ainda que, tendo nascido em 1936 e tendo passado a vida a lutar pela liberdade de expressão e contra o medo, estou farto de pulsões e tiques autoritários, assim como de aqueles que não têm dúvidas, nunca se enganam, e pensam que podem tudo contra todos.
O Governo redefiniu a reforma da educação como uma prioridade estratégica. Mas como reformar a educação, sem ou contra os professores? Em meu entender, não é possível passar do laxismo anterior a um excesso de burocracia conjugada com facilitismo. Governar para as estatísticas não é reformar. A falta da exigência da Escola Pública põe em causa a igualdade de oportunidades. Por outro lado, tudo se discute menos o essencial: os programas e os conteúdos do ensino. A Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros para as necessidades empresariais. No momento em que começa a assistir-se no mundo a uma mudança de paradigma, esta é a questão essencial. É preciso apostar na qualificação como um recurso estratégico na economia do conhecimento, através da aquisição de níveis de preparação e competências alargados e diversificados. Não é possível avançar na democratização e na qualificação do sistema escolar se não se valorizar a Escola Pública, o enraizamento local de cada escola, a participação de todos os interessados na sua administração, a autonomia e responsabilidade de cada escola na aplicação do currículo nacional, a educação dos adultos, a autonomia das universidades e politécnicos.
Não aceito a tentativa de secundarizar e diminuir o papel do Estado no desenvolvimento educacional do nosso país. Sou a favor da gestão democrática das escolas, com participação dos professores, dos estudantes, dos pais, das autarquias. Defendo um forte financiamento público e um razoável valor de propinas, no ensino superior, acompanhado de apoio social correctivo sempre que necessário. E sou a favor do aumento da escolaridade obrigatória para doze anos. Devem ser criadas condições universais de acesso à escolaridade obrigatória, nomeadamente através de transporte público gratuito e fornecimento de alimentação. O abandono escolar precoce deve ser combatido nas suas causas sociais, culturais e materiais.Não se pode reformar a educação tapando os ouvidos aos protestos e às críticas. É preciso saber ouvir e dialogar. É preciso perceber que, mesmo que se tenha uma parte da razão, não é possível ter a razão toda contra tudo e contra todos. Tal não é possível em Democracia."

Publicadas no editorial da revista OPS - Opinião Socialista.

José do Carmo Francisco


Quarteto para as próximas chuvas

de João Rui de Sousa

João Rui de Sousa, um dos mais importantes poetas portugueses, publica regularmente desde 1960. Este Quarteto é o seu 17º título de poesia editado.
Os poemas deste livro partem do lugar do Poeta: «O rosto. A escrita. A escrita / do rosto. O rosto da escrita. / Para além de tudo isso / sou um animal desaquietado / pela fragilidade dos cômoros / pela inclemência das chuvas / pelo fugidio dos pássaros / pelo inacessível das penedias / pelo íngreme e sinuosos dos caminhos / e, sobretudo, pelo sabor sempre inebriante / e sempre inesperado / da escrita e do rosto.»
Mas não deixam de chegar ao lugar do Mundo: «Os poetas são pontes / para numerosos recados. / Em certos momentos eles poderão crescer / bem por dentro das sua próprias prateleiras / e armários, no porão mais obscuro de um navio / muito íntimo; noutros instantes, todavia, / eles podem com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.»
Entre o Poeta e o Mundo, a ameaça da Morte só pode ter resposta no Amor: «É bom que sejas tu e não a morte / o sumo do calor destas viagens: / as dos lábios mais rentes na cintura / as dos beijos que ardem nas espáduas. / É bom que sejas tu e não o vil ensejo / de alguém a destruir as nossas bodas: / colados bem na pele seremos deuses / e os anjos sorrirão porque não sabem».
Nega-se a Morte no acto de Nascer («Nascer é já galgar (ou destroçar) / esses muros que exortam à vitória da inércia / à rasoura da morte, à aridez do nada»), nega-se a Morte ma força da palavra: «Estreitos são, afinal, todos os caminhos. / Por eles terá de viajar a carne dos poemas. / Quase sempre as palavras serão sombras / de puras circunstâncias, acidentes fortuitos / pedaços de papel caídos na berma dos passeios… / Mas é por elas que se recortará o rosto do real.»


(Editora: Publicações Dom Quixote)
Nos 15 anos de
OS OBJECTOS INQUIETANTES

de Nicolau Saião

Por um acaso em que o destino e os meios editoriais são férteis, para a saída dos meus livros de poesia foi-me oferecida de bandeja uma sucessão de datas como que numa graça temporal. Assim, fez agora 15 anos que o primeiro veio a lume, 5 anos depois sairia o segundo (Flauta de Pan), um lustro depois o terceiro (Os olhares perdidos) e à guisa de irónico “gran finale” que, querendo os deuses, terei por provisório, o quarto – o qual em parte antologiou os outros (Olhares perdidos, antologia - Brasil).
Não houve nisto nenhuma premeditação - tanto mais que na aventura de editar sou uma espécie de “
prima da província” como dizia Balzac: nunca tive o que se chama editor, aquele cidadão empenhado ou interessado que, olhando para a fila de autores no largo principal da vila, aponta este, escolhe aquele, toca no ombro de outro...Na verdade, com excepção da Ed. Caminho e da Ed. Escrituras, até fui poupado ao acto de assinar contrato... O que, dizem-me, costuma ser usual em certos meios.
Ou seja: as minhas andanças enquanto objecto de edição partiram apenas de um enfoque fortuito, bilateral é certo mas sem sequência que desse para me permitir pensar que, elaborada uma obra, esta indubitavelmente veria a seguir as luzes dos prelos.
Aliás, tal facto talvez me tenha permitido um maior à-vontade ao cruzar os mares e continentes da versejação não obrigada a mote ou a prazos.
E permite agora, digamos desta maneira, que numa sequência que espero vos quadre eu vá apresentando a livralhada em causa no decorrer dos tempos a vir. -
NS






OS “OBJECTOS” E O SEU SUJEITO
por Levi Condinho


1. Sendo-me o seu nome já familiar, foi só na Feira do Livro de 1994, em Lisboa, que me encontrei com NS, que me foi apresentado pelo comum amigo, o escritor José do Carmo Francisco. A dedicatória que inscreveu no livro (e que me dirigiu) reza assim: ”Para o meu Amigo imediato Levi Condinho, poeta e pessoa de bem. N.Saião, 94. Assina também Flora Garção”. Poeta e pessoa de bem – retribuo o “galhardete” - é, isso sim, NS, cuja simpatia me cativou. Um intelectual, um artista, homem cheio de imaginação e de sereno humor, mas dessa estirpe dos simples que, em substância profunda, navegam na boa nau da fraternidade e da generosidade universais.
Pouco depois, escrevi sobre Os objectos inquietantes um texto que só passados 9 anos publiquei e dei a conhecer nas páginas respeitáveis e valiosas do suplemento alentejano Fanal.
Como disse Pilatos, de acordo com “A paixão segundo São João”, “o que escrevi, está escrito”. Terei acertado, mesmo a alguma distância do centro do alvo? Tarefa difícil para um texto tão exíguo e sem pretensões. Mas os leitores do livro – e que tenham sido ou venham a ser muitos – ajuizarão.


2. NS, pintor e poeta, não esconde a sua filiação, embora não exclusiva, na área do surrealismo. Por vezes, este aparece na sua escrita de forma deliberadamente “ortodoxa” funcionando aí, em pleno, a consagrada fórmula de “automatismo psíquico” verbalizado ou figurado plasticamente, em que a síntese obtida pela fricção ou embate de forças/signos antitéticos aparentemente desconexos não nos surge como produto simbólico e evidente, pronto à digestão, mas como uma “outra coisa”. Coisa essa que despertará em nós energias e formas outras de reconhecimento, nem sempre traduzíveis pela racionalidade da linguagem corriqueira. Aí, “isto” não significa “aquilo”, antes se detendo radicalmente no próprio “isto”, que possuirá, entretanto, uma força tão poderosa que dispensará o comentário absolutista da razão lógica. O que, é certo, exige as necessárias disponibilidade e cumplicidade do imaginário e de alguma “vocação” por parte do receptor. E, quanto mais rico esse imaginário, mais perspicaz será o funcionamento da “leitura”...(“Um indivíduo não é a sombra de outro indivíduo/ a não ser que o asfalto permita cogitações quotidianas.”).
Julgo, e penso não estar só neste juízo, que raramente no surrealismo (literário) português o automatismo total, o abandono “desumanizado” como sistema de destruição da razão e do(s) sentidos, funcionou como estaria previsto nos programas do “líder” André Breton e seus cúmplices. Com poucas excepções, o nosso surrealismo agiu sobretudo como uso de técnicas, de possibilidades metodológicas, arsenal de energias, ou até como instrumento ou “arma” de múltiplos combates ideológicos. Uma das excepções, talvez a mais notória, radicará em António Maria Lisboa, autor de textos como, nomeadamente, “Isso ontem único”. Mas, curiosamente, essa quase impossibilidade de automatismo total, constituindo-se, quiçá, de um utópico voluntarismo, conduziu a uma maior humanização e ao enriquecimento das conhecidas tendencias líricas da poesia portuguesa, pelo reforço de uma mais poderosa expressividade, mais agressiva, mais incandescente. E aqui encontramos o verdadeiro terreno de implantação da “casa” de NS.
Humanização. Tónica dominante de um livro que de “objectos” se ocupa. Sucede que esses objectos, pelo uso, aproximação, contiguidade, complementaridade ou sobreposição, constituem-se sempre em entidades antropófilas...(mesa, cadeira, janela, chapéu, garfo, prato, penico, pente) corpóreas (pé, molar, mão) ou justapostas no ente/ser humano (homem, ferreiro, poeta, pintor, defunto, futebolista, árbitro, etc, etc).
Mas essas entidades, na sua relação de empatia, funcionalidade e comunhão histórica com o homem, são também objectos de “inquietação” - suspeita, temor – não só pela reminiscencia de ancestrais lendas e conjecturas metafísicas que, a todos ou a alguns em particular, sempre atribuíram propriedades enigmáticas, mágicas, maléficas ou sofredoras (os tachos e panelas no livro ameríndio Popol Vuh) mas principalmente, aqui, por outros motivos. É que, em Saião, os objectos entendem-se como coisas familiares que nos podem comover, como nos comovem a cadeira ou o par de botas de Van Gogh ou do Charlot, ainda que nos possam atingir por alguns súbitos e inesperados calafrios de estranheza, e de algum terror. Inquietantes até pela má consciência que podem despertar em nós, pela utilização que deles fazemos, quantas vezes de forma distraída, alienada, desprovida de afecto, “injusto” uso de coisas que julgaremos inanimadas. Sê-lo-ão? (“As coisas// nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito/ nesse universo que é o nosso resumido encontro/ com a sua// eternidade acontecida.”).
Poesia onde o cosmopolitismo se conjuga com a sobranceira implantação telúrica na rus alentejana, onde o humor fino e certeiro, por vezes dramático, nunca exalta o grotesco em detrimento do Belo (veja-se a segunda parte do poema “O pão”, constante na antologia anexa).



Resta referir que Os objectos inquietantes foram publicados pela Editorial Caminho (92) e pela mesma distribuídos (93), uma vez que o livro recebeu o Prémio Revelação APE/IPLL de Poesia-1990, tendo uma nota introdutória de M. Pons, foto do autor e apontamentos críticos e biográficos, nas badanas, de António Luís Moita e João Garção, que efectuou também a ilustração sobre a qual foi construída a capa.




ANTOLOGIA


A JANELA

Às vezes o poeta tira
coisas da cidade: um muro, a sombra
dum morto, cores que o obrigam
a ficar ligeiramente envergonhado. Dizem
que é operação vulgar esta pesquisa
de memória rendida em geografia
adormecida. Mas o poeta insiste: tira
por exemplo uma janela. Tira três ou quatro
belíssimas pernas de mulher, um sentimento
um cheiro, endomingadas recordações
em suma: elementares presenças
comunicadas entre os anos. Tira a janela. E coloca
a janela em diversos pontos
do Universo: aqui vê um rio
acolá sente através da janela gritos e risos
e depois a janela esvoaça
com as mãos e a cabeça do poeta enrodilhadas
como que perdidas
solenemente atentas
na noite ardida. A janela reparte-se
por países e por rostos. O poeta perde
a janela de vista. A janela desapareceu.
A janela repousa nas paredes
a janela cola-se-lhe à roupa, a janela
obriga o poeta a pestanejar. A janela talvez
seja menos ou mais que um simulacro
de animais que viajam no triângulo dos tectos
no impenetrável reflexo das madrugadas
na palma da mão de alguém que já não pode
abrir ou fechar uma janela.

A janela constrói-se
pouco a pouco, a janela diz
milhares de palavras inventadas
e nuas, é uma imagem
em equilíbrio subtil. A janela é agora
quase porta, parece feita de
altas meditações familiares. Nem precisa de ser
ausência, como um retrato

que sai de nós para todas as ruas
onde irrompe um perfil enegrecido
onde alguma outra vida se acolheu.


O PÉ

Em todos os lugares, é
sempre pé: pé de mundo
pé de mando, pé de mar. Sem par
é pé de coxo. Pé
parado. Morto em pé.
Por vezes
os pés desaparecem
durante anos: esconderam-nos
em claustros, chaminés, prisões.

O pé no fundo
é estranho: de noite
parece um ser solar. Um pé
sem perna já foi mais frequente do que pensam.
Um pé de casa é uma vírgula posta
entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco
é um pé a cavalo. E um pé que se preza
ama a liberdade. De contrário é pé chato
pé de planeta aziago.
Um pé sem suor é pé desafinado.
Lagosta, pé carregado
O pé costuma ver (o pé tem sorte)
o começo da vida, ou o fim do corpo:
ir de pés para a frente
fazendo finca-pé
à própria morte.

O pé de flor vive em todo o lado.
Planta de pé é um silêncio vegetal.
Pé de cabra é bom na magia oculta.
O pé de cão tem horror aos polícias.
O pé de amor é um bicho esquisito: mede
os outros pelo seu tamanho – pé universal

Pé ou mão? Doce animal
dentro do coração.


O PENICO

Perdoa-se o mal que nos fazem
pela beleza do que se contempla. Maganão
que não quis ser caneca ou bilha d’água
preso ao sonho erótico de ter
outros horizontes a conhecer: fagulha
imaginária
levemente odorífera
sempre provocante
ou incómoda.

Lumpen-proletário abismado
num Universo de águas e fezes lustrais.


O PÃO

1.

Eis o pão sobre a toalha:
não se agita, não grita
- está ali, simplesmente
como uma ilha a descobrir
pelo sabor e o cheiro.

Um pão morto, um pão vivo
o cortado ou o inteiro?

O pão por vezes geme
como uma égua louca
e cresce, cresce ardendo
no sangrento e lavrado
triste e desabitado
nevoento, esfomeado
céu da boca.

O pão é a substância
dum bicho transformado:
o tempo e a terra
onde foi criado.

2.

Tronco de paz, tronco de escuridão
erguendo o cadafalso para todos

Suavíssimo, cercado de claridade
um avião gelou o sonho e a aurora

Uma flor crepuscular desafia o delírio
litania de fome destruindo o desejo

e uma cidade, angustiada, afoga-se
na sua própria imagem
sem que lembrada seja
como o sabor do pão

para ninguém.

DiVersos 14

Saiu o número 14 da DiVersos, revista de poesia e de tradução. Lançado na passada quinta-feira na Livraria Italiana (Rua do Salitre, Lisboa), com intervenções do coordenador (José Carlos Marques), de Gonçalo M. Tavares e dos poetas Francesca Tini Brunozzi e Tiziano Fratus. Inteligente e oportuna a apresentação do autor de Investigações. Novalis - com penetração pelos domínios da relação entre a poesia e a violência, com relevo dado à capacidade purificadora da poesia, que não teme agarrar em palavras "sujas" ou "porcas" para lhes dar novo brilho num texto transfigurador.
A presente edição destaca quatro poetas italianos da nova geração, integrados no grupo Torino Poesia: para além dos presentes na sessão de divulgação, Valentina Diana e um muitíssimo interessante Luca Ragagnin. Para além deles, temos traduções de autores estrangeiros (Alain Grandbois, Alfredo Pérez Alencart, Antonio Colinas, Gonzalo Navaza, Robert Penn Warren e Vera Pavlova) e originais de alguns portugueses (Amadeu Baptista, Francisco Vinhas, Jorge Vilhena Mesquita, Maria Azenha, Norberto do Vale Cardoso e Sónia Oliveira).
De Renato Suttana, poeta brasileiro nascido em 1966, a revista oferece-nos uma belíssima série de sonetos intitulada "Frutos". A ela pertence o texto que aqui divulgamos:

II

Maçãs: não vos cantei como devia,
quando, lento de espera e pensamento,
me dispersei entre os sinais do dia,
a procurar um rastro no amplo vento.

Não me aqueci ao sol que em vós havia,
nem de ser vosso espelho tive o intento,
bastando-me a penumbra da porfia
e o jogo sem sentido do momento.

Indiferente ao que de vós o imenso
incêndio do verão testemunhava,
sobre o meu olho pávido suspenso,

busquei na sombra a sombra em que se dava
a comédia imprecisa do que penso,
onde o meu sonho em neutro se inflamava.