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Estátuas

Largo das Duas Igrejas, em Lisboa. Do alto do seu pedestal, Camões não põe os olhos nos transeuntes, mas nos dois confrades que, ao longe, mal se distinguem. Sentado, com o braço esticado e ar galhofeiro, António Ribeiro Chiado aponta Fernando Pessoa. "A quanto chegaste, meu velho! Só falta animarem o bronze e porem-te, bem-mandado, a servir cafés na esplanada da Brasileira..."
DA OSTENTAÇÃO


Pessoa - longe da imortalidade que hoje ninguém lhe nega - escreveu mais ou menos isto (cito de memória): "Tenho feito passar como meus vários poemas de autores famosos; todos lhe torcem o nariz. Tenho feito passar como de autores conhecidos poemas escritos por mim; são elogiadíssimos."


Só saberemos avaliar devidamente o valor da obra de um autor - separando-a da fama (justa ou injusta) de quem a criou - quando os livros forem publicados sob anonimato. Certa gente ostenta gostos literários como quem exibe sapatos de marca (mesmo que não prestem).

Se penso mais que um momento


Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,

Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,

Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.

(Poema de Fernando Pessoa c/ pintura de Maria Helena Vieira da Silva - no dia do seu aniversário.)