Mostrar mensagens com a etiqueta Vozes de Espanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vozes de Espanha. Mostrar todas as mensagens
QUATRO POEMAS
DE LUIS ARTURO GUICHARD






Contrários que se tocam

Estou do lado da névoa.
Primeiro, porque cai.
Sempre é menos pretencioso do que elevar-se.
Depois, porque faz truques de magia, como nas festas das crianças:
põe o lenço, oculta as coisas por momentos
e logo as deixa como estavam.
Faz com que os campos mais comuns
se convertam em bosques artúricos,
permite que o dedo escreva na vidraça.
É simples e não serve para nada.
Chega e parte por si mesma.

Estou do lado da névoa,
ainda que ganhem sempre os adoradores do fumo.

(in Nadie puede tocar la realidad, 2008)





Já não há caminhos

Só existiram caminhos
enquanto a terra foi plana.
Avançavam rectos, decididos,
senhores da realidade da linha,
sem se cruzarem antes de chegarem ao abismo
e caírem, ainda mais longos, em busca de outra terra.
Só nesse tempo existiram os viajantes,
os que tinham os olhos habituados
a um horizonte imóvel,
os que sabiam onde dormir apenas nessa noite,
os que não conheciam a debilidade do círculo
nem o consolo de voltarem ao ponto de partida
se iam caminhando perdidos.
Agora todos os caminhos têm indicações
e já não podemos perder-nos
a não ser dentro de nós mesmos.

(in Nadie puede tocar la realidad, 2008)




Os sinos do lugar onde nascemos
Estão sempre a tocar. Não os ouvimos
Mas nunca nos deixam. Medem
As badaladas que nos sobram com a precisão
Que só o pêndulo tem. Soam
Naquele lugar de casas brancas
Com longos passeios sem saída
Onde a mesma criança continua
A correr sem encontrar a saída
Com o mesmo olhar do velho
Que ensina ao menino um ponto para além
Do poente.
                A despedida soa
Nos ouvidos como um pêndulo. Comecemos
A desempenhar o ofício de crer e de esperar.
Entre estas doze badaladas devem estar
Os sons verdadeiros.

(in Los Sonidos Verdaderos, 2000)



Serei matéria

… la bibliothèque était le point de réunion d’une secte pythagorienne…
JACQUES ROUBAUD – La bibliothèque de Warburg

A biblioteca tem quatro pisos:
Palavra, Imagem, Acção e Fundamento.
Ordenados os livros do banqueiro
como um exército disposto em círculo
o seu general é a oliveira plantada no pátio.
Os livros sabem que os persas nunca ganham.
Os livros sabem como se constrói a barca de Ulisses.
Os livros sabem qual é o caminho para cima e para baixo.
Por isso, os livros têm um escudo.
Por isso, os livros têm piedade dos seus donos mortos.
De súbito, recordo Simónides:
Sou um morto, e um morto é merda, e a merda é terra
e se sou terra, então não sou um morto: sou uma divindade.
Todos os donos estão mortos.
São vaidade os seus nomes nas capas.
Um dia li o que um poeta dissera aos seus amigos:
Serei esse copo de água que estou bebendo.
Serei matéria.”
Não me comove a matéria, mesmo sabendo
que através dela pode haver uma saída,
nem a água, o que mais luz sobre a terra,
mas este “serei”, escrito por Quevedo
há quinhentos anos
e que não tem peso nem medida.

Todos temos um galo para Asclépio
já curados da vida.
E o livreiro a meu lado é todo Metamorfosis.

Antes de entrar nesta biblioteca
eu não sabia que era pagão.

(in Nadie puede tocar la realidad, 2008)



LUIS ARTURO GUICHARD (Tuxtla Gutiérrez, Chiapas, México, 1973) é professor na Universidade de Salamanca, onde lecciona Filologia Clássica. É autor dos livros de poesia Los Sonidos Verdaderos (México, 2000) e Nadie puede tocar la realidad (Villanueva de la Serena, 2008). Para além de várias publicações científicas da sua especialidade, é ainda autor de Hacia el equilibrio. Lecturas de poesía española reciente (México, 2006). [Tradução de RV]

CUMBREÑO EM LISBOA

Ocorreu ontem, na sede do Instituto Cervantes em Lisboa, o lançamento de Teorias da Ordem, do poeta espanhol José María Cumbreño, obra editada pelas edições Sempre-em-Pé, com tradução minha para a língua portuguesa. Foram momentos de grande interesse, compartilhados com a apresentação de um livro de Casimiro de Brito, a partir de intervenção de Ángel Guinda.
Entre as palavras que proferi, já como leitor da antologia, talvez sejam uma síntese aceitável aquelas com que terminei:

"Nascido em 1972 na cidade de Cáceres, onde ainda hoje reside, com textos espalhados por várias revistas e poesia (em verso ou em prosa) publicada em livros como Las ciudades de la llanura (2000), Árboles sin sombra (2003), De los espacios cerrados (2006), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (2008) e Diccionario de dudas (2009) ou na antologia Teorias da Ordem (2009), José María Cumbreño é uma das vozes que mais me interessam na poesia espanhola dos nossos dias. Feita de fragmentos de seres, de espaços e de memórias, que se combinam de forma por vezes inusitada, sem esconder o seu carácter de estilhaços e de escombros provenientes de uma catástrofe verbal, logo existencial, a sua poesia interpela-nos e inquieta-nos com uma ironia discreta, matizada pela nostalgia de quem vê o mundo por um espelho retrovisor. Porque, num mundo como o nosso, é preciso ter a coragem de “Beber de um copo partido. / Acalmar a sede, mesmo com o risco de conhecer a ferida”. Porque, mais tarde ou mais cedo, os estilhaços provocados pela catástrofe chegarão ao coração."


[Da esquerda para a direita: RV, José María Cumbreño, Casimiro de Brito, Ángel Guinda e José Carlos Marques.]
JOSÉ Mª CUMBREÑO
(entrevista publicada aqui)

El poema como fracaso


Ángel Gómez Espada

José Mª Cumbreño (Cáceres, 1972) es uno de los poetas jóvenes de voz más personal en el actual panorama literario extremeño. Hasta ahora ha publicado Las ciudades de la llanura (Editora Regional, 2000), Árbol sin sombra (Algaida, 2003), Estrategias y métodos para la composición de rompecabezas (El Bardo, 2008), Diccionario de dudas (Calambur, 2009), así como el libro de relatos De los espacios cerrados (Fundación José Manuel Lara, 2006) y la antología bilingüe española-portuguesa Teorias da ordem (Ediçoes Sempre-em-Pé, 2008) [a lançar no próximo dia 11 de Novembro no Instituto Cervantes de Lisboa, pelas 18.15]. Poemas suyos han aparecido en revistas como Turia, El extramundi, Reloj de arena, Müsu, Diversos o Espacio / Espaço Escrito.
En la actualidad dirige la colección Litteratos de la editorial Littera libros y tiene en prensa la segunda edición (revisada) de Las ciudades de la llanura (Ediciones Trashumantes) y el poemario Breve biografía apócrifa de Walt Disney (Algaida)..
Viejo amigo de esta revista nuestra, hemos tenido la oportunidad de hablar con él de sus últimos logros, tanto en su faceta de editor como en la de excelente poeta.

—EL COLOQUIO DE LOS PERROS: ¿En estos tiempos que corren, meterse a editor de poesía se puede considerar un deporte extremo?
—JOSÉ MARÍA CUMBREÑO: Seguramente. Sobre todo si lo que se pretende es vivir de ello. En nuestro caso, a lo único a lo que aspiramos es a publicar libros que creemos necesarios. Por tanto, practicamos el equilibrismo con red. Vamos, que no vivimos de esto, lo que nos permite apostar por autores en función únicamente de su talento. Sin depender de premios ni de otras servidumbres. Los casos de Luis Arturo Guichard, Omar Pimienta, Elena Román o David Yáñez (escritores magníficos de los que oiremos hablar en el futuro) creo que son el ejemplo.
—ECP: Pero entonces, usted es de los que opinan que la poesía vive un momento de salud envidiable.
—JMC: Sí y no. Sí porque nunca ha habido tanta gente escribiendo poemas. No porque encontrar en medio de esa legión a artistas de verdad ya es muchísimo más complicado. En literatura actúa un ingrediente muy peligroso: la vanidad. Y es la vanidad (el hecho de ver el nombre de uno en la portada de un libro) la que empuja a la mayoría a no ser críticos con la obra propia. No parece saludable que el cajón de un escritor se encuentre vacío.
—ECP: ¿Convertir un poema en un rompecabezas es reconocer que se ha fallado con ese poema? O, muy al contrario, ¿es un signo de esa búsqueda de la esencialidad que alguna vez se le ha argumentado a sus poemarios?
—JMC: Todo poema es la constatación de un fracaso. La idea no es mía, por supuesto, pero me parece que describe con precisión lo que cualquier escritor debería sentir al terminar una obra. Precisamente será esa insatisfacción la que lo empujará a iniciar el poema siguiente.
—ECP: En una poética, usted dice que un poema es una casa que se construye con ausencias y presencias. ¿También con dudas, podríamos añadir ahora?
—JMC: Con dudas, recortes, retales, caminos sólo de ida, verdades a medias y mentiras piadosas. Es la asimetría lo que me parece que define la naturaleza humana.
—ECP: Esa metáfora de las puertas como vía por donde entra el poema y por donde comienza la búsqueda es una constante en sus poemarios, creo entender. Entonces, ¿su poesía se nutre más de las puertas que ha ido cerrando o de las puertas que gusta de abrir para observar?
—JMC: En cualquier caso, de huecos por los que pasar o colarse. Las puertas (incluso las que se tapian) son seres misteriosos que cambian a quien los atraviesa.
—ECP: Usted ha afirmado que un poema ha de aspirar a ser pura tensión. ¿Eso es lo que José Mª Cumbreño le pide al poema, por tanto?
—JMC: Es que la poesía debe tensar el idioma hasta llevarlo a decir cosas que habitualmente no dice.
—ECP: Un árbol sin sombra, un diccionario de dudas, una estrategia para componer un rompecabezas… ¿Es así como ve José Mª Cumbreño el poema antes de llevarlo al papel?
—JMC: Supongo que siento debilidad por lo imperfecto.
—ECP: De sus cuentos, tan vinculados a su forma de entender el poema y la poesía dice que son espacios cerrados. ¿No hay, por tanto, en el cuento posibilidad de puertas?
—JMC: Al contrario. Las cárceles se construyeron para huir de ellas. Como los cuentos a los que se refiere. Porque se supone que los textos que componen De los espacios cerrados son cuentos, aunque yo no lo tengo tan claro. La narrativa breve y la poesía comparten su debilidad por el escapismo.
—ECP: ¿Cómo se siente al ver su obra trasvasada a una lengua tan amiga de los extremeños como es el portugués?
—JMC: Como un privilegiado. La consideración que en Portugal se tiene de la poesía no tiene nada que ver con lo que ocurre en España. Pensemos que un autor como Peixoto ha vendido de su último poemario nada menos que 12.000 ejemplares. Eso en nuestro país no lo logra ni el poeta más consagrado [...] A ello hay que unir que la traducción de Teorias da ordem la ha realizado uno de los mejores poetas portugueses, Ruy Ventura, quien estoy seguro de que ha mejorado el original.
—ECP: Con la desaparición, triste para todos, de Ángel Campos Pámpano, ¿ha perdido más la literatura extremeña o la literatura portuguesa?
—JMC: La ibérica.
—ECP: ¿Qué deberían aprender los jóvenes poetas extremeños —por extensión pongamos también a los españoles— de la poesía hecha hoy en Portugal?
—JMC: Su curiosidad por buscar nuevos caminos para la poesía.
—ECP: ¿Qué poemarios de los que han aparecido en los tres últimos años le hubiera gustado incluir en su colección Litteratos?
—JMC: Más que libros en concreto, citaré algunos autores cuyos nombres me encantaría ver en el catálogo Litteratos. Porque sería magnífico contar con algún título de escritores como Déborah Vúkusic, Benito del Pliego, Víctor M. Díez, Susana Medina o Miriam Reyes.
ÁLVARO VALVERDE
(entrevista publicada no jornal "Hoy")

«Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje de paisajes»

EL PERFIL DE LA FRONTERA
Álvaro Valverde (Plasencia, 1959) da clases en un colegio de su ciudad natal. Ha sido coordinador del Plan Regional de Fomento de la Lectura y ha dirigido la Editora Regional de Extremadura. Fue presidente de la Asociación de Escritores Extremeños y comisario del expotren Marca Extremadura. Es autor de libros de poemas como Una oculta razón (Premio Loewe), A debida distancia, Ensayando círculos, Mecánica terrestre y Desde fuera, de las novelas Las murallas del mundo y Alguien que no existe y de los libros de ensayo literario El lector invisible y Lejos de aquí. Su relación con Portugal viene de antiguo. Fue cofundador de la revista hispano-lusa, en dos lenguas, Espacio/Espaço escrito, a su paso por la Editora Regional abrió una línea, Letras Portuguesas, para dar a conocer libros publicados originalmente en el país vecino. Reconoce haber leído con fervor la poesía portuguesa contemporánea, gracias a las excelentes traducciones, entre otras, de su amigo Ángel Campos Pámpano.


- ¿Qué significa para usted Portugal?
-Quizá porque no lo conozco como debiera, por no haber nacido o vivir allí, un país ideal. Quiero decir que para uno es algo más imaginario que real, más mítico que otra cosa. Portugal es, sobre todo, una literatura y, desde ahí, un paisaje. Un paisaje, cabe precisar, de paisajes. Una suma de, pongo por caso, el Tras-Os-Montes de Torga y el Alentejo de Andrade; la Lisboa de Cesário Verde o Pessoa y el Algarve de Teresa Rita Lopes, etc. A estas alturas de mi vida no sé si quiero conocer el país concreto o si prefiero quedarme a vivir en el entrevisto a través de unos cuantos viajes y, por encima de todo, en el leído. Por ejemplo, acabo de recorrer, de la mano de António Cândido Franco, los lugares de Pascoaes, en el «noroeste galaico de la Península Ibérica», en torno a la quinta familiar de São João de Gãtao, Amarante y Travassos. En lo esencial, me gusta ver a Portugal como una Extremadura extensa y, lo que no es poco, con mar. Además, y por aquello de la saudade, uno diría que tiene un carácter portugués. Ruy Ventura ha traducido unos poemas míos que bien podrían haber sido escritos en esa lengua: la de la melancolía.
- ¿Qué ha sido lo mejor y lo peor de su contacto con Portugal?
- Lo mejor, todo. No tengo ningún mal recuerdo de esos pocos pero intensos viajes y, menos aún, de lo visto desde fuera o lo leído. No he dejado de ir y venir, primero cruzando la frontera y luego ya sin ella. Por cierto, nunca me pareció menos necesaria. Según creo, el espíritu rayano no sólo afecta a las localidades limítrofes sino a Extremadura entera. Al menos de un tiempo a esta parte y para no pocos extremeños. Lo peor de Portugal, casi para cualquiera que no sea ciudadano portugués, es un conjunto de tópicos que el tiempo se ha encargado de desgastar. Esa hora menos es una bonita metáfora.
-¿Cuál cree que debe ser el papel de Extremadura como región fronteriza?
-El que ha venido jugando. El normal en una relación de favorable vecindad. Como es lógico, a uno le interesa, ante todo, el papel cultural. Espacio/Espaço escrito se encargó de definirlo hace muchos años: dar a conocer lo de aquí allá y viceversa. Respetando, por encima de todo, las lenguas respectivas, que es tanto como decir los correspondientes territorios artísticos, musicales y literarios. De igual a igual. Al fondo, por qué no, puede subyacer un viejo anhelo que sigue siendo tabú: el del iberismo. Pero esa es otra utópica historia.
- ¿Cuáles son sus principales proyectos y retos, de cara al futuro, en su relación con Portugal?
-Ya decía que quizá uno debería conocer Portugal mejor, viajando más por el país. Hay zonas que no conozco; a veces, muy cercanas. No me cabe duda de que seguiré leyendo a los poetas portugueses con la misma pasión de siempre. Por suerte, cuento para ello con excelentes traductores, a pesar de pérdidas tan dolorosas como las de Campos y Merlino.


Esta é, em português, a primeira edição de um livro do escritor espanhol José María Cumbreño. A antologia poética intitula-se Teorias da Ordem e é traduzida do espanhol por Ruy Ventura. A obra é publicada pelas Edições Sempre-em-Pé, na sua colecção UniVersos. (Quem carregar na imagem da contracapa poderá ler um dos poemas do livro; brevemente serão divulgados outros neste espaço.)

QUATRO POEMAS
DE ÁLVARO VALVERDE



Então, a morte


1

Na cabeça, palavras amargas;
palavras dolorosas
pelo seu peso de morte.
Nos olhos, tristeza.
E de súbito, ali,
numa esquina apertada da terra,
algo te reconcilia com o tempo.
Uma árvore devolveu-te a esperança.
Com ela regressou essa verdade,
para o resto sempre precária,
com que se pode justificar até a vida.
Com a visão humilde de um marmeleiro.


2

Junto desta cama de hospital,
utilitária e branca, em que agora
descansa o corpo doente do meu pai,
neste mesmo sítio onde agora
eu mesmo estou sentado,
esteve um dia ele
velando o seu.
Recorda-mo às vezes, lá pela noite,
quando apagam as luzes do corredor
e se ouvem os passos silenciosos
do pessoal de vigia
e a tosse do vizinho e o gemido longínquo
de alguém que sofre alheio
no quarto do fundo.
Em voz baixa, conta outras noites de insónia
semelhantes a esta,
ainda que ele não fosse então
o sujeito passivo dos meus inábeis cuidados
e somente o representante dessa força
que sem dúvida tiramos da fraqueza
para poder estar à altura
de tão penoso acontecimento.
Entre duas luzes,
com a respiração forçada do oxigénio,
enquanto altera as doses no conta-gotas,
penso em mim por momentos
e, sem querer,
vejo-me a mim mesmo
estendido nesta cama,
e, ao meu lado, sentado, como eu,
na mesma cadeira,
um dos meus filhos segurando
com muita força a minha mão.


3

Na realidade, não sei
se vamos ao encontro da morte
ou se provimos já da sua certeza.
Não me recordo, de qualquer modo, alheio
à sua larga sombra sigilosa.
Ali estava, no escuro, na enfermaria,
ao fundo do corredor, na penumbra
daquele mesmo canto em que agora
estou encolhido contra o tempo.
Estava nas palavras sussurradas
e estava nos silêncios clamorosos
e nos olhos tristíssimos e húmidos
dos meus pais voltando da igreja
sem outras explicações para além das naturais.
Estava ali, sem dúvida,
e sempre estivera
fazendo-me a mesma companhia
e sei perfeitamente como cheira
e a formas que adopta e reconheço,
como se fossem minhas, as suas mentiras.
Por isso tenho dúvidas se vamos morrer
ou de uma vez por todas deixaremos
de estar já nesta vida mortos.


4

Tudo me leva a ti; assim, esta tarde
aberta ao céu azul que sucedeu
ao irado negrume da tormenta,
sob esta luz que, mais do que vespertina,
me parece ofuscante e matinal,
quando atravesso o vale
e volto a Jerte, sem conhecer a razão,
seguindo não sei bem que raro impulso,
curva a curva, bem sabes, leito acima,
até às mesmas nascentes da vida.
É tudo igual, porém também diferente,
e me remete para ti. E as cascatas,
e os talhões e o rio e as cerejeiras
parecem ser olhados pelos teus olhos
e através deles ainda me falas
e voltas a explicar-me o importante:
sentir-se aqui feliz e rodeado
de quanto qualquer homem necessita:
a luz, o campo, a árvore, a montanha,
coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas
mas que nos confortam e nos salvam;
os seres e as forças desse mundo
solar onde vivias;
onde, para meu bem, comigo vives.


Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959) é autor de livros de poesia (Las aguas detenidas; Una oculta razón; Ensayando círculos; Mecánica terrestre), de ficção (Las murallas del mundo e Alguién que no existe) e de relatos de viagem (recolhidos em Lejos de aqui) – sendo considerado em Espanha um dos poetas mais importantes da sua geração. Os poemas aqui traduzidos pertencem à sua colectânea mais recente, Desde fuera, editada em 2008 pela Tusquets Editores (Barcelona) na sua colecção “Nuevos textos sagrados”.


LUIS ARTURO GUICHARD


Las campanas del sitio en que nacimos
Están sonando siempre. No las oímos
Pero ellas nos están siguiendo. Miden
Los golpes que nos quedan con la precisión
Que sólo aprende el péndulo. Suenan
En aquel lugar de casas blancas
De larguísimos pasillos ciegos
En los que el mismo niño sigue
Corriendo sin encontrar la salida
Con la misma mirada del anciano
Que señala al niño un punto mas allá
del ocaso.
La despedida suena
el los oídos como un péndulo. Empecemos
a cumplir el oficio de creer y de esperar.
Entre estos doce golpes deben estar
los sonidos verdaderos.

(in Los sonidos verdaderos, México, 2000)
REDENÇÃO

Só um bom poema pode apagar da memória os vestígios de um poema mau ou lamentável.
Depois de ter lido, numa antologia oferecida com um jornal, um punhado de versos de José Saramago que dificilmente seriam reivindicados pelos mais assolapado e coxo poeta do parnaso oitocentista, eis que a repulsa se apagou ao receber - vindo de Espanha - o novo livro de poemas de Luis Arturo Guichard, Nadie Puede Tocar la Realidad, editado pela colecção Litteratos, na muito digna Littera Libros.





É realmente oposto: um volume que nos oferece uma poesia forte, situada - como é necessário - nos limites entre o tangível e o intangível. Sinto-me privilegiado ao ser um dos (poucos) leitores portugueses deste belo livro... Embora tencione traduzir alguns dos seus textos, não quero deixar-vos sem algo deste livro. Aqui fica um dos poemas, no original:


SERÉ MATERIA

... la bibliothèque était le point de réunion d'une secte pythagorienne...
JACQUES ROUBAUD, La bibliothèque de Warburg

La biblioteca tiene cuatro plantas:
Palabra, Imagen, Acción y Fundamento.
Ordenados los libros del banquero
como un ejército dispuesto en círculo
su general es el olivo plantado en el patio.
Los libros saben que los persas nunca ganan.
Los libros saben cómo se construye la balsa de Ulises.
Los libros saben cuál es el camino hacia arriba y hacia abajo.
Por eso los libros tienen un escudo.
Por eso los libros se apiadan de sus dueños muertos.
De pronto recuerdo a Simónides:
"Soy un muerto, y un muerto es mierda, y la mierda es tierra
y si soy tierra, entonces no soy un muerto: soy una divindad."
Todos los dueños están muertos.
Son vanidad sus nombres en las portadas.
Ayer leí que dijo un poeta a sus amigos:
"Seré ese vaso de agua que estoy bebiendo.
Seré materia."
No me conmueve la materia, aunque sé
que a través de ella puede haber una salida,
ni el agua, lo que más brilla sobre la tierra,
sino este "seré", escrito por Quevedo
hace quinientos años
y que no tiene peso ni medida.

Todos tenemos un gallo para Asclepio
ya curados de la vida
Y el librero a mi lado es todo Metamorfosis

Antes de entrar en esta biblioteca
Yo no sabía que soy pagano.

ÁNGEL CAMPOS PÁMPANO

(1957-2008)



Faleceu ontem, no hospital de Badajoz, o poeta e amigo de Portugal Ángel Campos Pámpano, meu vizinho de San Vicente de Alcántara, onde nasceu em 1957. Sem ter convivido muito com ele, guardava-lhe estima pela sua poesia, pela difusão da cultura portuguesa em Espanha e pela sua postura fraternal. Tinha algumas dívidas para com ele: convites seus levaram-me a escrever na revista ibérica Espacio / Espaço Escrito, a participar em sessões de poesia em terras da Extremadura e a ter em mãos a grata tarefa de traduzir para a nossa língua o seu belo livro chamado Jola (nome de uma aldeia das terras de Alcántara, onde também haviam vivido alguns antepassados meus e seus).

Prémio Eduardo Lourenço, reunira recentemente a sua poesia em La vida de otro modo (Poesía, 1983 - 2008). O seu funeral acontecerá hoje pelo meio-dia, na sua terra natal. As condolências pode ser encaminhadas para a Biblioteca de Extremadura: Plaza de Ibn Marwan, s/n - 06001 Badajoz ou pelo email biex@juntaextremadura.net

"Las mejores palabras en el mejor orden"

JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS

(El País, Babelia, 22/11/2008)

García Baena, Gamoneda, Segovia, Brines, Sánchez Robayna, Atencia ... reflexionan sobre cómo la poesía trasciende los géneros literarios y, aunque está lejos de tener los lectores de la narrativa, ha conseguido salir de su propio gueto

El lugar en el que se cruzan la eternidad y el tiempo. La energía que nace de la contradicción. Una emoción reconstruida... Todo eso, dice la tradición, puede ser la poesía, esa manera de usar el lenguaje que, como quería Percy B. Shelley, "levanta el velo que cubre la belleza oculta del mundo y hace aparecer los objetos familiares como si no lo fueran". Mucho más escueto y siguiendo a sus propios clásicos, Luis Cernuda lo dijo así: "Las mejores palabras en el mejor orden".
La búsqueda de una definición para su propio oficio es una de las ocupaciones más antiguas de los poetas. Otra es discutir el carácter minoritario de ese oficio. ¿Malos tiempos para la lírica? Lo dijo Bertolt Brecht hace medio siglo, lo cantó Golpes Bajos hace dos décadas y el año pasado lo certificaron las estadísticas. La encuesta sobre hábitos de lectura en 2007 promovida por la Federación de Gremios de Editores de España es rotunda. El 94,2% de lectores habituales lo son de novela y cuento. El porcentaje restante se lo reparten el ensayo (3,6%), el teatro (0,9%) y la poesía (1,3%). Comparados con los de narrativa, en efecto, los lectores de poesía son un bien escaso. Comparados con los que había hace 50 años, la escasez no es tanta. Fruto de una demanda limitada pero creciente es también una mayor oferta. "Antes dependías de las bibliotecas de los amigos, porque ni se editaba tanto ni los libros llegaban a las librerías. Por no hablar de Internet, que ha revolucionado la difusión de la poesía", recuerda María Victoria Atencia, premio de la Crítica en 1998 por Las contemplaciones (Tusquets) y, a sus 77 años, uno de los grandes nombres de la generación de los cincuenta. Para Atencia, no obstante, es difícil que la poesía pierda su carácter minoritario: "Pero no es un género residual". Así pues, un 1,3% de pura intensidad. En palabras de Francisco Brines: "La poesía no tiene público, tiene lectores".
Por otro lado, hace ya tiempo que los poetas le retorcieron el cuello al cisne de la cursilería. Hermética o prosaica, la poesía moderna ha elevado su nivel de exigencia hasta romper con los clichés que la habían disecado como un desahogo rimado para gente con la cabeza en las nubes. Pablo García Baena, que acaba de publicar la antología Rama fiel (Universidad de Salamanca) y de recibir el Premio Reina Sofía de Poesía, el más prestigioso de Iberoamérica, recuerda los tiempos en los que empezó a publicar: "La verdadera poesía estaba ausente. Abundaban los recitadores folclóricos que imitaban a Lorca". Con todo, el autor cordobés, de 85 años, no pierde de vista la famosa dedicatoria de Juan Ramon Jiménez -"A la inmensa minoría"- al señalar que la poesía necesita un determinado contexto -"No creo en la poesía para campos de fútbol"-, es decir, soledad y silencio, otros dos bienes escasos. "Mientras una novela te entretiene y te hace tomar distancia, un poema te hace pensar y revivir cosas que son tuyas. Los poetas se meten en tu vida. Y eso es duro".
En esa distinción entre la lectura de poesía y la de narrativa coincide también Antonio Gamoneda. Para el premio Cervantes de 2006, la poesía no es literatura: "La literatura descansa en la ficción. La poesía, sea clara u oscura, no. Manifiesta hechos existenciales (sufrimientos, gozos, temores), es una emanación de la vida". En opinión del autor leonés, de 77 años, la poesía trasciende los géneros literarios -"Hay mucha poesía en Kafka"- pero en medio del ruido de la modernidad ha perdido su función primitiva: "Empezó siendo el único medio de comunicación. Era uno de sus grandes valores en la Edad Media. Ese espacio lo ocupa ahora la televisión. Si ésta ocupa todo el cerebro de la gente, será el triunfo del consumo sobre la reflexión".
"Lo que dicen los poetas sigue siendo importante", afirma Carlos Pardo, de 33 años y ganador del Premio de la Generación del 27 con Echado a perder (Visor). "Hay un margen que sólo puede llenar la poesía: el de la reflexión sobre el lenguaje, el de la música de las palabras. Esto último algunos lo encuentran también en las canciones, pero tampoco hay tanta diferencia", continúa Pardo, que además de escritor es coordinador de Cosmopoética, el festival de poesía de Córdoba -que este año celebró su quinto aniversario, con los premios Nobel Seamus Heaney y Dario Fo entre 200 autores-, uno de los referentes del género al lado de la Semana de Poesía de Barcelona y del Festival de Poesía de Medellín en Colombia. Los festivales, de hecho, se han convertido en la mejor prueba de que la poesía puede salir del gueto. "Lo bueno es que a las lecturas", cuenta Pardo, "viene gente desprejuiciada a escuchar a poetas a veces muy arriesgados. Y funciona". Eso sí, hay más espectadores que lectores. Superventas aparte, si vale la palabra, y atendiendo a las tiradas medias, Pardo calcula que hay en España alrededor de mil lectores-compradores puros de poesía: "A un festival va gente que no compra libros de poemas, pero el pesimismo no está justificado. Cada vez hay más lectores. Además, se ha roto el provincianismo. Cada vez se publica más poesía extranjera, y más latinoamericana".
La industria editorial española, en efecto, se está poniendo al día respecto a la lírica escrita en América Latina. Un fenómeno reciente. "Yo hice un curso en una universidad de Madrid en los años noventa y algunos profesores decían directamente que no les interesaba. Eso ha cambiado", recuerda la colombiana Piedad Bonnett, de 57 años, que en el transcurso del pasado festival VivAmérica presentó en España su libro Las herencias (Visor). Los herederos de César Vallejo y Pablo Neruda no son ya aves raras en el catálogo de las editoriales españolas. Algunos, no obstante, no son tan optimistas. Es el caso del poeta canario Andrés Sánchez Robayna, coautor junto a José Ángel Valente, el uruguayo Eduardo Milán y la peruana Blanca Varela de la antología Las ínsulas extrañas (Galaxia Gutenberg / Círculo de Lectores), en la que Miguel Hernández convivía con Lezama Lima y Gil de Biedma con Ida Vitale porque el criterio de selección era la lengua española y no la nacionalidad: "Se edita, es cierto, pero dudo que los libros tengan incidencia real. Eso sí, estamos lejos de afianzar un espacio cultural hispánico al modo en que lo está, con una lengua menos fuerte hoy, la francofonía".
Uno de los incluidos en aquella antología, Tomás Segovia, es un buen exponente de esa cultura transatlántica. Nacido en Valencia hace 81 años, vivió en México durante décadas y ahora lo hace en España, donde acaba de recibir el Premio Internacional García Lorca. Según Segovia, el franquismo detuvo la poesía latinoamericana en los alrededores del modernismo para el lector español. "Hay mucho que recuperar", explica, "pero los nombres de poetas como Juan Gelman, Gonzalo Rojas o Eugenio Montejo empiezan ya a estar en boca de la gente". Respecto al futuro de la poesía, el autor de Siempre todavía (Pre-Textos) tampoco es pesimista: "Su valor numérico no se corresponde con su prestigio, que es enorme. ¿Que no la leen? Ya la leerán dentro de 200 años. La influencia de la poesía se extiende por contagio, cuerpo a cuerpo". -

Álvaro Valverde

fala sobre o seu mais recente livro...
e não só.
(Brevemente publicaremos aqui poemas de AV traduzidos para português.)
José do Carmo Francisco

Os labirintos do esquecimento
(para uma leitura de De sombras y sombreros olvidados)


Os poemas deste livro de Marta López Vilar que recebeu o Prémio Blas de Otero de Poesia oscilam a sua respiração poética entre a Arte e a Natureza.
Alguns poemas denunciam no seu articulado um convívio permanente com a literatura. Por exemplo: «Como siempre, se acostumbra la luz / hasta muy tarde. / También yo, que espero tu voz / com el dolor cumplido / y un poema de Montale / Nel fumo / a punto de decirme donde estás.»
Entre a vida chamada «real» e a vida povoada por símbolos, imagens e metáforas, o poema testemunha uma expectativa: «Hace tiempo que abandonamos / la pátria de los símbolos / Ni noches ni poemas. / Sólo el olvido / y la certeza de que no estarás / al otro lado de la cama.»
Depois do encontro vem o esquecimento em «El después»: «Entre tu y yo la vida se ha perdido
O segundo capítulo instala os poemas na Natureza. Vejamos «Los motivos de la aurora»: «Como si hubiera tenido tu cuerpo / acorralado entre la espuma / deambula la luz. / Puedo escribir sus pasos / sus cuchillos, hogueras, caracolas…»
Mas instala não só os poemas mas também os protagonistas como em «Víctimas de la aurora»: «?Qué esperamos tú y yo / en esta esquina helada de la aurora? / Todos los encuentros ya llegaran / Ahora, palomas muertas y las palabras / contemplando todos nuestros cuerpos.» Subtilmente a autora liga as duas realidades (Arte e Natureza) num poema: «Es la aurora quien nos observa com los cien / ojos de Argos, quien recorre / uno a uno tus cuerpos fatigados y dormidos / tu brillo constelado entre la cama / Dentro de ti se despierta un cauce / de olvido y de memoria / del que yo bebería cada amanecer / si no durmieras.» Refiro subtilmente porque a autora conjuga com toda a naturalidade uma realidade geográfica («aurora») com um valor cultural que radica na mitologia grega («Argos») e no seu conhecimento.
De novo a Arte surge num conjunto de poemas a partir de motivos poéticos (Carles Riba, Jorge Luís Borges, Lizardi e Stratos Marino/Georgios Seferis) e a Natureza a partir de memórias de cidades como Granada e Atenas. A primeira porque é uma cidade repleta «de fuentes y de flores»; a segunda porque há cidades necessárias para apagar a obscuridade: «Al igual de los dioses, hay ciudades necesarias / para borrar lo oscuro / la tiniebla poderosa de la palabra rota / o esse no querer despertar outra vez / de la caverna del olvido y de la muerte.»
Um dos problemas que se colocam à escrita (e à leitura) dos poemas de alguém que domina a história e a teoria da literatura, os conceitos e os meios de tradução poéticas de várias línguas, é o perigo real de haver um excesso de cultura, um luxo verbal, uma certa ostentação. Os poemas deste livro desviam-se convictamente desse perigo. Bastam pequenas citações de um poema para se perceber a capacidade da autora para surpreender os leitores com versos inesperados, insólitos e felizes.
Vejamos quatro curtas citações de um poema intitulado «Apuntes sobre tema de Noviembre»:
«Qué lluvia, qué amor de paraguas tan extraño
Cruzo la madrugada com nosotros dentro
Para que nunca nos salvara.
»

«Recuerdo que no estabas o que nunca habías llegado

«Noviembre. Tú buscabas la muerte como quien explica
la llegada de un tren vacio desde la lejanía del invierno


«Morir o vivir / forman parte de la misma mentira. /
Cada dolor tiene su ángel hermoso / custodiando los cuchillos


Entre o precário ostensivo do Amor e o inevitável misterioso da Morte, o poema de Marta López Vilar lembra que só se pode olhar para o esquecimento com prudência quando caminhamos nos seus enormes labirintos.
Vejamos o poema «Las sombras y los olvidos»:
«Ni el amor ni la muerte a ti me une / solo la desolación de marcharnos / sin cordura hacia el olvido / yo no regresar nunca y no saber / qué hemos vivido ni com quién

(Editora: Ediciones Amargord, Capa: René Magritte, Foto: Luiz Pablo Nuñez, Prefácio: José Cereijo)
José do Carmo Francisco

Marta López Vilar ou a terrível solidão do tempo

A «terrível solidão do tempo» surge na página 50 do livro La palabra esperada de Marta López Vilar. É o outro nome da solidão da vida: nascemos sozinhos, morremos sozinhos e dormimos todos os dias sozinhos – mesmo quando nos deitamos numa cama de casal.
A poesia de Marta López Vilar faz oscilar a sua respiração entre a Natureza e a Cultura. É uma poesia moderna não porque a autora é jovem (nascem em Madrid em 1978) mas porque a sua construção se organiza também no exercício da intertextualidade.
Trata-se sem dúvida de um lugar-comum mas, tal como na agricultura, «a enxertia só se realiza numa árvore que já existe», o mesmo é dizer que é impossível começar uma poesia a partir do zero, a partir do nado ou a partir do vazio.
Chegam até aos leitores deste livro as vozes dos trovadores que andavam de terra em terra a cantar os seus poemas – ainda não havia a palavra literatura porque não havia ainda sequer os livros. É a esses antigos trovadores que a poesia de Marta López Vilar foi buscar referências e pontos de partida para a sua própria, única e pessoal aventura poética.
Dizer que «esta poesia faz oscilar a sua respiração entre a Natureza e a Cultura» é o mesmo que afirmar «esta poesia é uma viagem entre a Natureza e a Cultura». A vida é, ela mesma, uma viagem entre o nascimento e a morte. Mas a viagem não tem aqui um sentido único, uma única direcção.


Pode viajar-se na proximidade do outro, no encontro marcado:
"De muy lejos vengo, como el viento claro / que abandoné en tu voz / para protegerme de la muerte. / No me despedí de ti. / Por eso ven a mí / y sálvame como tantas otras noches / de mis sueños. "
Pode viajar-se no sentido turístico do termo – Dresden, Esmirna, Alexandria, Roma. Ou Lisboa, por exemplo:
"Lisboa no existe. Es la herida desnuda / que contempla el Tajo, la frágil / presencia de la lluvia que florece / en las calles, el vacio que nombro en los secretos. / Ninguna imagem evoqué en esta ciudad. "
Mas também noutro sentido. Pode ser o diálogo inventado com uma estátua:
"Cierras los ojos en busca de ese mar / que a otros cuerpos se llevó de tu lado / vuelto en ceniza e vejez, siendo calor / prematuro de la muerte."
Pode ser o diálogo inventado entre Adriano e Antínoo:
"Ya nada persigo, nada se presenta ante mi puerta. / Ninguna juventud senti sino la tuya / ninguna ciudad, ningún otoño desbordó / por mis manos el cabello de la luz / los misterios del aire."
Grande parte destes poemas faz um convívio com a água. É uma maneira hábil de lembrar que só há vida na água e não por acaso de diz que «rebentaram as águas» quando uma criança está prestes a nascer. Vejamos o poema «Maresia»:
"Me quedo aqui, hermosa e alegre como me hiciste / esperando que regreses del mar / y com tu olor me traigas tu presencia y tu comienzo / tu principio sin fin que me conmueve."
O mar é uma oposição à terra, mapa da secura e da morte. Como no poema final do livro:
"Te marchas para siempre / y ya no sé donde se abre el mundo / donde está mi corazón y tantas flores. / Me vuelvo tierra profunda y desierta / cuerpo joven, sin rostro, enraizado a la muerte."
Um corpo enraizado na morte. Sim, enraizado porque, desde sempre se sabe, é inevitável essa morte, para todos e para o poeta também. Dessa morte só se salva o amor e a poesia. A Poesia. A Poesia. Que é a outra maneira de dizer Amor.


La palabra esperada, de Marta López Vilar
Ediciones Hiperión Madrid
78 páginas – 2007 – capa: uma figura a Acrópole de Atenas
XI Premio de Arte Joven – Poesia – de la Comunidad de Madrid

Entrevista
ANTONIO SÁEZ DELGADO

Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970), poeta e ensaísta, é um dos mais discretos e eficazes divulgadores da cultura portuguesa em Espanha. De há vários anos a esta parte - ao mesmo tempo que lecciona a sua língua materna na Universidade de Évora - tem trabalhado na sementeira da nossa poesia e da nossa arte verbal no território hispânico de além-Guadiana, vertendo livros de, entre outros, Fialho de Almeida, Teixeira de Pascoaes, Almeida Faria, Manuel António Pina ou José Luís Peixoto. Recentemente, como noticiámos, foi-lhe atribuído um prémio importante pela sua acção como tradutor. É apenas uma etapa do reconhecimento que todos os portugueses lhe devem. Tendo como pretexto essa distinção, coloquei-lhe algumas perguntas sobre a sua actividade e sobre a poesia. Aqui ficam as respostas.

Como se iniciou e se tem construído o teu interesse pela cultura portuguesa contemporânea?
Através do gosto pela literatura portuguesa e do estudo dela. Comecei em 1993 uma tese de doutoramento sobre as relações de Pessoa com os poetas vanguardistas espanhóis [Órficos y Ultraístas. Portugal y España en el dialogo de las primeras vanguardias literárias (1915-1925), Mérida, ERE, 2000], e essa linha de trabalho levou-me a muitos outros caminhos, todos eles fonte de grandes satisfações para mim.

De que maneira se integra nesse interesse a tua actividade como tradutor? Qual as suas alavancas?
Eu quero acreditar que tudo o que eu faço (escrever, investigar, traduzir) faz parte do mesmo projecto. Porque traduzir é uma forma privilegiada de ler, julgo que o trabalho da tradução faz parte do meu interesse pela cultura portuguesa e pelo conhecimento desta em Espanha.

Um tradutor pode ser um contrabandista?
Um tradutor é, antes de mais, um leitor. Um leitor privilegiado, como já disse, por um lado; e, também, em certo modo, um leitor que se transforma em crítico, porque a sua leitura serve de filtragem para os leitores.

Que balanço fazes da divulgação da cultura / literatura portuguesas na Espanha nos últimos tempos?
Assistimos a um período de expansão, sem dúvida. Junto com “clássicos modernos” como Eça de Queirós ou Pessoa, que aparecem todos os anos, há um relevo especial de autores novos no mercado espanhol, como Inês Pedrosa, José Luís Peixoto, valter hugo mãe, Gonçalo M. Tavares, Possidónio Cachapa, Ruy Ventura... Um leque variado e muito atractivo para o leitor espanhol.

A tua actividade como tradutor tem contribuído de alguma forma para o teu fazer poético?
Para mim ambos os projectos (o da tradução e o da escrita) fazem parte do mesmo espírito e, logicamente, são caminhos complementares em permanente contacto e diálogo.

Que texto te deu até hoje maior prazer a traduzir? Que projectos para o futuro?
Talvez La Pelirroja, de Fialho de Almeida tenha sido o maior desafio, um texto complexo e que precisava duma leitura “neutral”, que limpasse com cuidado a passagem do tempo sobre alguns aspectos do texto. Entre os projectos actuais estou a fazer e traduzir uma antologia da poesia de Fernando Pinto do Amaral, a sair nos próximos meses.