ÀS VEZES CHEGAM CARTAS
Umas trazidas pelos velhos CTT (velhos são os trapos...), outras pela Rede, a Net, a netezinha que, se nos irrita com tanta publicidade relativamente tola ou definitivamente palonça, também nos empolga com notícias de longe ou de perto. De perto do coração, digamos, ou da mente forjadora de conceitos e reflexões assaz fecundas.
Esta chegou-me de um amigo que há muito tempo não vejo mas que, volta e meia, me remete coisas de ponderar. Por vezes da sua própria lavra, outras vezes deste, daquele, daqueloutro publicista...
Ontem, já tarde na noite, mandou-me o texto que segue – e aqui partilho convosco a sua leitura:
Está bem...
façamos de conta
Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.
Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja.
Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.
Mário Crespo
"O terrorismo está a vencer a batalha"
CARTA A UM CONFRADE
“O terrorismo é a acção de imprimir, mediante métodos cruentos ou outros o medo, o desespero e o abandono da decisão de resistência no adversário ou oponente” - General Belisário
Caro Xis
Como lhe prometi, apanho uns minutos para lhe enviar estas breves reflexões, que são efectuadas com estima e, também, muita preocupação, uma vez que como referiu num seu escrito Jacques Bergier, que foi membro da Resistencia Francesa e um resistente importante, "o terrorismo pode ganhar, caso aqueles que o enfrentam não o façam com determinação e lucidez".
No caso do terrorismo actual, verbi gratia o mais perigoso e actuante, o terrorismo muçulmano, infelizmente e depois de análises profundas e preocupadas a que tenho procedido, verifico que ele está a ganhar a batalha. E isto é assustador. Passo a explicar-me:
a) Talvez no terreno operacional a sociedade democrática e as forças oficiais que têm o dever de a proteger, tenham conseguido vitórias pontuais. Mas noutro plano, o plano da propaganda e da conquista interior, pela manha e aproveitando o laxismo que vai grassando nessas sociedades, eles estão a conseguir inegáveis vitórias, cujas causas e efeitos devem ser ponderados para se poder efectivar uma defesa eficaz. Caso contrário, a médio prazo - e já nem falo em longo prazo - eles vencerão.
b) O terrorismo, como é óbvio, não actua só no plano imediato, que se contrabalança mediante a preparação de boas e experientes, bem organizadas e bem equipadas forças de segurança. Ele actua num outro, que se diria secundário mas que é fundamental: na preparação do terreno, através de uma prática insidiosa levada a cabo por partidários seus que escavam a determinação do adversário: e eis que aparecem, com grande insistência, exigências absurdas - "direitos" que eles exigem nas universidades, na profissão, nos costumes quotidianos, mesmo já nos hábitos dos países que recebem a sua emigração por exemplo. E às quais a sociedade (onde buscam formar verdadeiros ghettos de privilégio) ou por cegueira produzida por uma falsa concepção de direitos democráticos, ou por laxismo proveniente de um "politicamente correcto" e um "multiculturalismo" mal entendidos, dá cobertura sem verificar que está, paulatinamente, a colocar a corda ao próprio pescoço.
Ou seja: numa sociedade democrática, saudável e real, deve haver CIDADÃOS que podem ser cristãos, judeus, budistas ou muçulmanos; e não cristãos, judeus, budistas ou muçulmanos que, se lhes apetecer, podem ser cidadãos...
Aqui reside o fulcro do problema. Esta é que é a fraqueza de base da nossa sociedade. E por isso ela está a perder a batalha.
Que dizer, por exemplo, ao deixar-se que (e neste caso falo dos muçulmanos, que são o perigo real e mais urgente) sempre sob a ameaça velada de que podem ser seduzidos pelos "extremistas", ou no mínimo ficar ofendidos (e daí?), se consente que em inúmeros casos eles reivindiquem ofender os Direitos Humanos mais elementares, com o pretexto que a sua religião lhes dá cobertura e acolhimento?
Esta é, por exemplo, a forma "pacífica" e realmente insidiosa, porque ardilosa, de criar pouco a pouco um terreno favorável a um domínio inegável e que NÃO DEVE CONSENTIR-SE. Pois, no fundo, o terrorismo não é mais que a fórmula violenta e expressa que assume o desejo de domínio mundial do Islão, QUE É COMUM E MESMO INSCRITA NO LIVRO SAGRADO, assim dito.
Não é democrática, porque visa suprimir e ultrapassar os direitos dos outros.
É assim que já se censuram, de forma ainda "cordata" de momento, mas bem real e efectiva, por exemplo as palavras de um cardeal, que no seu múnus tem o direito de alertar os cidadãos para os problemas que o islamismo está a pouco e pouco a INCREMENTAR (é disto que se trata). Claro, por enquanto mostram-se apenas magoados...Têm pouca força. Se fôsse por exemplo em França ou Inglaterra, basta ler-se a grande imprensa, haveríamos de ver...! (Vê-se a cada passo!).
E neste quadro não podemos esquecer (se o fizéssemos não passaríamos de simples tolos ou, no limite, pior que isso) o papel importantíssimo que têm tido as chamadas "quintas-colunas", em geral integradas por antigos partidários do Leste implodido, que levados pelo seu ódio ao Ocidente democrático transferiram a sua fidelidade para os Estados ou grupos islâmicos que, a seu ver, vão liquidar o "mundo burguês"...
c) Para se compreender o fenómeno crescente do terrorismo islâmico, tem de compreender-se o facto histórico que lhe está subjacente: a imposição do Califado.
Este é o cerne da questão. O terrorismo expresso, para o qual há ainda Leis, pode combater-se e está a combater-se, mais acertada ou inábilmente. Mas como combater a avançada insidiosa e que, bem vistas as coisas, consegue de maneira "pacífica" o que os outros buscam de forma mais brutal?
Mediante leis equilibradas, o Mundo Democrático e livre, sem ceder a chantagens, tem de dizer firmemente: "Pratiquem a vossa religião. Há liberdade para isso. Mas a sua prática não vos dá o direito de ultrapassarem os direitos humanos que tanto custaram a conquistar. A prática da vossa religião não pode consistir, nem consentiremos que se sobreponha, numa forma de obviar à prática da cidadania democrática. De contrário, é apenas um instrumento de pressão e subversão inadmissível!".
Caso não haja - e o tempo começa a esgotar-se - esta determinação inscrita em Leis sensatas, é só uma questão de tempo até ao domínio do Islão, de forma total e totalitária. Que é o que o terrorismo visa.
Pensar-se que vamos ser depois "suavemente tratados" pelos "moderados", é pura ilusão. Veja-se o que realmente sucedeu historicamente - e não através de contos de fadas - no domínio muçulmano...A bibliografia é abundante.
E porque - não me dirão? - haveremos nós de ter existir sob o calcanhar (que já se desenha em certos lugares) do ímpeto e leis islamitas?
Com que direito nos querem obrigar a viver no Império de Mafoma? Com o mesmo "direito" que, cá, lhes permite todo o proselitismo e, lá, condena praticantes da fé cristã a mortes ignominiosas?
Caso o Ocidente democrático não abra os olhos com sensatez, acabará mal. Em Byzancio sucedeu isso. Não queiramos repetir o erro. Pois é disto que se trata.
Confio em que leve a quem o puder ouvir a sua palavra clara e profícua. Lúcida e democrática.
Remeto-lhe o velho abraço do seu, de sempre
ns
(Também no Triplov)
Mais uma vez se cumpre a data que, para além de tudo o resto por dentro ou por fora, é uma saborosa pausa num quotidiano quantas vezes bichoso, inquietante ou imediatista.
Este ano o panorama, creio, não é de molde a fazer-nos sonhar amavelmente.
Não se trata só da violencia camuflada ou insolitamente nua que em tanto lugar se exibe contra indivíduos ou comunidades. Essa infelizmente já a conhecemos. O caso é um pouco mais complexo: as gloriosas certezas que percorriam esta parte do planeta, depois do apagamento por implosão da outra, começaram a dar de si, como se dum caixotão excessivamente repleto se tratasse. Mas o realmente grave – daí a inquietação – é que os seus próceres, alheios às terapêuticas eficazes, têm afixado uma estratégia de recurso que mais se parece com uma táctica de adiar para as calendas gregas o estrépito que já perspectivaram. E que é muitíssimo evidente.
Creio que nos cabe a nós todos aconselhar esses cavalheiros sobre a melhor actuação cidadã: abandonarem de uma vez por todas as prestidigitações e as habilidades de circo, tanto mais que não parecem estar a conseguir tirar coelhos de dentro da cartola...
Enfim, mais um período de Natal, essa quadra encantadora para a nossa não perdida inocência, chegou até nós. Como se usa dizer, parece que foi ontem a outra – e já trezentos e tal dias abalaram para o antigamente.
Mas calo-me já. Deixando-vos, com vossa licença e espero que por vossa estima, com o poema natalino que segue, cuja ilustração é de H.Mourato.
Boas Festas!
*
Quem fala de Natal perde palavras
à entrada do Inverno, na secura dos dias
no vasto frio das noites, tão lúcidas e antigas
tão de infância e de Agosto. O fogo
misturado: árvores, luzes, fantasmas
e as doces mãos das Avós. E ainda
um postal velho velho cheio de vento e de memórias.
Quem fala de Natal perde palavras, ganha
e perde as demais coisas que as palavras edificam.
“Quem grita no Natal? E Deus
não os fulmina? “. Quem mergulha os seus pulsos
na fria água do rio? Com seus chapéus à banda
em barcos engalanados
os anjos vão passando, dizendo amores esquecidos
dizendo estranhas frases, assombrando as moradas
onde afinal não nasce o tal de Nazareh. O sal e o
pão terrenal dos que ainda não foram
pelo ar, pela vida, pelos túmulos vazios.
Sim, pelo Natal as pobres casas em ruínas.
Para ser do Natal é preciso possuir
uma lembrança ardente, um brinquedo estripado
e muita tristeza feita nos anos em leilão
dos retratos tombando com um nó na garganta.
Para ser do Natal é preciso morrer
e viver de seguida com o sangue nos braços
esperando a estrela fixa do brusco espanto nocturno
junto à porta perdida dum milagre adiado.
Ah falar de Natal! Quem o consente?
O pão e o sal
talvez
de toda a gente. E um olho de animal
pairando no poente. Decisivo, visceral. E Deus, pobre dele
abrindo a água lustral (no bem, no mal)
frente ao horror da morte
terrena e inocente.
Por isso, no Natal
os segredos demoram
e tudo muda e tudo se envolve num pano branco barato
para que ninguém esqueça um corpo ferido que por debaixo jaz
- uma nova e desconhecida espécie de cadáver achado na ilha
dos animais inominados
e outras diversas coisas que por desespero se não apontam.
No Natal treme a casa, a casa
sempre caiada, como um sepulcro sem número e sem nome.
E o inventário dá, se estiver certo:
um coração ardido todo azul
uma recordação minúscula que se guardou num bolso
um riso salutar ensanguentado
uma pequena ironia desenhada a tinta de colegial
uma apenas esboçada mão posta sobre um antebraço
o lenço de cabeça duma tia que desapareceu na manhã
um gato tranquilamente dormindo ao cimo das escadas
uma rosa e uma palavra que a si mesmas se julgaram
duas mãos de pedra tremendo atravessadas por uma ferida
numa cruz de polo a polo
um hálito que soprado no peito nos enlouquece
um arrepio, uma agonia
uma tarde a fechar-se repleta de amargura e de alegria.
Talvez o Natal seja um rosto
ou uma madrugada de outono
ou um avião nocturno
ou um verão por detrás das coisas aparentes
ou um combatente jazendo de borco numa pia baptismal
ou os bramidos de dois seres abandonados encarando-se de súbito
numa rua da cidade
no escuro muito escuro de uma cidade do universo
quer dizer – luminosa e aterrada. E talvez
que tudo afinal esteja a mais, que tudo afinal
se resuma a filhós e azevias de um outrora
a canecas de café familiar
algures num horizonte, numa idade, num momento
no imenso murmúrio de uma voz sulcando o tempo.
E a chuva que diabo irá cobrindo tudo
no infinito Natal dos mundos desaparecidos.
ÀS VEZES CHEGAM CARTAS
Maria Estela
Cá estou de novo no Alentejo – que fica no extremo sudeste de Portugal, como é sabido - aonde cheguei ontem sob um intensíssimo frio que mais me fez sentir o contraste com o calor natural que nesta época do ano envolve Fortaleza, o Ceará e o Brasil por extenso.
Refiro-me agora ao calor do tempo e do espaço, não ao do ambiente pessoal e humano. Esse pôde a Maria Estela senti-lo, como eu o senti, como todos os participantes o sentiram – fôssem de Quito ou de Caracas, de Madrid, de Bogotá ou da Cidade do México...
Creio não me enganar, nem exagerar – como exilado que sou e de asa meio-ferida que ando – se disser que o clima de cordial fraternidade que pude sentir naquele hotel que por dias nos foi lugar de acolhimento, e nos entrepostos de bom tamanho onde decorreu fisicamente a Bienal, me gratificou, me espantou e finalmente me comoveu um bocado, pois fômos tratados com apreço e mesmo estima desde o princípio até ao fim.
Poderá a Maria Estela, que tem experiência destes eventos no estrangeiro, dizer com alguma surpresa ao lusitano/alentejano que sou: ”Mas é habitual ser assim, valha-o Deus!”. De acordo. Mas o que a minha experiência me diz, do que tenho participado dentro de portas, é que lá pelo último dia, perceptivelmente, se começa a sentir um ambiente estilo “já debitaste tua parlenga, agora vai pela sombra e adeusinho...”. Creio que me faço entender.
Não é preciso recordar-lhe a estruturação competente – e o Curador geral decerto se congratulou - que se sentia naqueles enormes salões, nas áreas e jardins de acesso, nos lugares circundantes. Na organização dos diversos lugares de palestra, de colóquio, de debate, de repouso. Até na própria forma como o transporte dos participantes foi congeminado. Coisas simples, está de ver, mas que têm uma importancia que não deve subalternizar-se.
A presença das muitas centenas de milhares de visitantes sentia-se fluir de maneira vivaz e interessada. Talvez seja por ingenuidade da minha visão, mas nas deambulações que tive ocasião de efectuar, nos minutos em que me pude “escapulir” das acções em que participei ou a que assisti, aliás com muito gosto, fiquei com a sensação de que havia nas pessoas – crianças, adolescentes, adultos de várias idades – um genuíno interesse pela leitura, pela presença física dos livros, do eventual saber e da eventual maravilha que neles reside e que deles parte. E aquele salão da literatura de cordel, Maria Estela, com centenas e centenas de títulos mesclando a imaginação e a proverbial vivacidade de um povo pronto para todas as viagens como dizia Ungaretti e que, sim senhora, merece um futuro de luminosidade a construir, como luminosas são as praias de Fortaleza!
Termino epigrafando – em jeito de relembrança aqui entre nós – a comunicabilidade que se estabeleceu entre os confrades que ali iam efectuar seus trabalhos específicos: era boa, era espontânea, era verdadeira. Funcionava como uma leve cooptação. Nos locais das sessões, bem como naquela sala de repastos, no hotel que nos serviu de guarida, radicaram-se momentos de estima fraternal que, para além de tudo, nos garantiram a ideia, que creio apropriada, de que gente diversa, de diversa formação e nacionalidades, podem sentir um leve ou mais marcado frémito de amizade entre seres que passam ao mesmo tempo pelo tempo da Terra. E certos nomes e rostos e vozes ficaram, ficam em mim: o boliviano Gabriel, a quem por ironia amiga eu chamava “anjo gabriel” em vista da sua permanente boa-disposição e simpatia humana; o mexicano Eduardo, cavalheiro-poeta bem digno dos velhos tempos, como dizia Eugène Canseliet; o poeta José Santiago, que eu lia há tanto tempo e ali achei em pessoa de ser bem humano; e tantos, tantos outros e outras que não refiro aqui para não ser redundante e eventualmente maçador...
E pois cá estou de novo no país e na província transtagana, satisfeito mas inquieto. Pois logo que saí do aeroporto e entrei num cafézito para uma bica retemperadora, olhei e vi que, na televisão... Mas cala-te boca, que não vou agora, ainda que ao de leve, linguajar sobre tristezas e caquexias nacionais!
O triplo beijinho de estima do
n.
OS VERBOS IRREGULARES
COMO TOUPEIRAS
Em certas alturas, um irreprimível cansaço vai-se apoderando do cronista. Tal como do simples cidadão.
É que não dá, não dá mesmo para subsistir em termos interiores, em vista da catadupa de caquexias, tramelgas, piruetas e outras coisas estranhas que percorrem o quotidiano deste pátria que já foi mãe (de alguns...) e é hoje madrasta (de muitos mais!) ante a irredutível cavalgada de membros da res publica que deviam levar a nação a bom porto e andam a fazer navegar o navio como se de um inquietante pré-Trafalgar se tratasse.
Senão, vejamos: tempos atrás, aí coisa de 2 meses, veio o primeiro-ministro, numa cerimónia luzida e muito propagandeado, garantir in loco aos mineiros de Aljustrel que a empresa da qual dependem estava ali para as curvas, que coisas daquelas é que eram/são necessárias ao país! Pois bem: anteontem, a dita empresa encerrou a laboração nas minas, votando umas centenas de trabalhadores ao desemprego...
E ontem mesmo, após a grande manifestação inequívoca de milhares de professores, que sem escaramuças ou alarme popular disseram de suas razões em Lisboa, como todo o país viu, veio o prof. Cavaco Silva, que como se saberá está presidente – dizer com unção que os portugueses devem ter calma e serenidade. Ao invés de dizer ao chefe do governo que aja de maneira a não despoletar a necessidade de eventos assim – aconselha serenidade. Ou seja, busca colocar nos professores o ónus do tremor social, pois nenhum alarme social se verifica – o que há é natural em democracia.
É o que também fazia (“deixem-se de lamúrias”, lembram-se?) o benquisto Jorge Sampaio, felizmente já passado à Estória, quando presidente. Se algum português aventava, sensatamente, que as coisas andavam mal!
Ante os desmandos duma ministra ao serviço dum chefe de governo, pede-se calma - a quem anda a ser prejudicado. Respeitinho é que é preciso, já lá dizia O'Neill...
E, como corolário referido em todos os jornais e rádios, vem um notório antigo ministro do regime derrubado pelo 25 de Abril, Veiga Simão, apresentado e muito bem pelos mídias como “antigo ministro socialista”, propor aos intervenientes na contestação do Ensino “um pacto de silencio”!... Pois, segundo ele, o diferendo devia ser resolvido entremuros, entre a gente do meio...
É bem a palavra avisada dum antigo ministro do antigo regime. A opacidade e o negrume como método, de preferência tudo tratadinho no interior da Terra!
Como se todos fôssem, conceptualmente, mineiros – andando no interior da terra e afastados da luz do sol e da clareza
Ou, melhor ainda – como se tivéssemos todos perfil interior de toupeiras!
UMA MINISTRA PARA MANTER
Em certos círculos, tem sido pedido que a inadequada senhora que está ministra do eensino no governo Sócrates, provavelmente o pior depois de cimentada a democracia tendencial em que Portugal vegeta, seja demitida ou, num arroubo de sensatez ou de pudor intelectual, saia ela mesma por decisão própria.
Peço aos professores, fautores primeiros duma humanização inicial dos alunos enquanto crianças e, mais tarde, enquanto adolescentes, que não alinhem nessa facilidade.
Por consideração minha pela actividade da senhora em causa? De forma alguma.
Por uma razão muito diferente e, arriscaria dizer, de senso comum. Ou, então, de justa estratégia pedagógica e verdadeiramente democrática.
Sigam-me durante um par de minutos e todos entenderemos o porquê do meu alvitre.
Em primeiro lugar, devido ao cinismo político do homem que neste momento é primeiro-ministro. Em segundo lugar, pela sua insensibilidade ante o interesse mais alto da Nação, pervertido que está o seu senso das realidades e do quotidiano. Sócrates, enquanto ser de pensamento societário, é um sujeito que não consegue pensar o múnus político sem ser pela sua bitola conceptual de pequeno líder que, por um bambúrrio de sorte em que por vezes o destino é fértil, chegou alto.
Nesta conformidade, apenas consegue raciocinar a realidade política, enquanto factor de progresso e desejável bem-estar do país, pelos binóculos do interesse partidário e, muito particularmente, pelo óculo de longo alcance da sua carreira pública e dos áulicos que o rodeiam.
Assim sendo, a ministra (“ajudanta”, para empregarmos a expressão vivaz dum antigo manipulador do poder), não passa de uma cera moldável nas suas mãos hábeis enquanto governante.
Se Lurdes Rodrigues fôr alijada, tal como se fez na “jogada” Correia de Campos (ex-titular da Saúde, lembram-se?), isso permitirá que a cégada, mas mais disfarçada e eficaz, continue – para tudo dizer, que a miséria do ensino em Portugal siga em frente mas já camuflada com a sua habilidade de “animal feroz da política”, para citarmos os mídias que o bajulam.
Como na frase famosa do livro de Lampedusa, “O Leopardo”, “é preciso que tudo mude para que tudo continue na mesma”.
Seria fácil para o ardiloso primeiro-ministro correr com a inadequada senhora que, durante o tempo que lhe fez falta, o serviu como aia veneradora e agradecida.
O que é preciso é que a política de remancho termine. E isso só se conseguirá se Sócrates largar o lugar, democrática e popularmente mandado embora pelos cidadãos.
Neste momento, o maior factor de iluminação e esclarecimento é a acção prejudicial da inadequada ministra.
Mantenhamo-la no cargo como se de uma obra-prima de cristal se tratasse!

Os amigos que estão
no seu pé de página
como em caixão florido
pelos tempos futuros
têm de nós o gesto mais perfeito -
um sorriso transido mas mesmo assim
verdadeiro
e muitas mãos para afagar lembranças
e muitos dentes luzindo para criar o verão
e muitos olhos em repouso para dizer que é tarde
e muitos gritos para dizer que é cedo
e que é a hora de acordar
e de dormir porventura
e de bailar entre as árvores
e de correr entre as sombras
e a luz que elas provocam
e de sofrer um pouco
um pouco ainda
como crianças sem remorso sem dor sem amargura
de novo em viagem
sem efígie sonhada
e já desaparecida.
in “Le mardi-gras”
(Original em linha no TriploV)
Tempos de Novo Apólogo
“Fátima Felgueiras absolvida de 22 crimes de que vinha acusada e condenada em 3 anos e 3 meses de pena suspensa por apropriação de 177 Euros de ajudas de custo e utilização por diversas vezes de um carro da autarquia” - Dos jornais
SE NÃO FOSTE TU FOI O TEU FILHO
Durante anos, a pretexto de diversas razões intimidatórias, foram feitas contra Fátima Felgueiras verdadeiras campanhas de difamação e de calúnia.
Nomeadamente em órgãos de informação que deviam ser responsáveis e alinharam naquilo a que Unamuno chamou "a solidariedade dos crápulas".
Uma monstruosidade, sim, porque o enquadramento real é este: como é que esta sanha foi possível num país civilizado ou que tem foros de o dever ser?
Para camuflar outros casos, esses sim vergonhosos e gritantes?
Durante anos segui este caso e escrevi sobre ele em Portugal e no estrangeiro. Muitas vezes, sabendo o que sabia de todo este assunto, me perguntei: como é que Fátima Felgueiras aguenta tanta pressão? De tentarem compará-la a um Al Capone, quando eu via olhos nos olhos que era apenas uma mulher determinada a não se deixar esmagar?
Condenada por umas ajudas de custo...por utilização de um carro...
Tenho a certeza de que em recurso se provará a sua completa inocência.
Mas o ódio contra ela, pelos vistos continua.
Não é ela o vosso inimigo, portugueses. Esse - são sim outros!
Em breve virei a lume num jornal estrangeiro, de maneira mais aprofundada, tratar este assunto de forma alongada e com pormenores como por exemplo este: por diversas vezes me foram feitos telefonemas anónimos injuriando-me, ameaçando-me de me “limparem o sarampo” (textual).
Mas porquê, perguntar-se-á? É muito simples: porque o meu filho mais velho, pessoa que como não é covarde nem gosta de sangue na praça pública, que é o que os caluniadores, os falsos moralistas e os difamadores gostam (eles “sabiam” que Fátima Felgueiras tinha roubado milhões, assim como “sabiam” que um carro que comprei com muito custo e continuo a pagar tinha sido outorgado para me taparem a boca - chegaram a esta infâmia) dizia, porque esse filho, de nome João Garção, revoltado com as calúnias concorreu e foi eleito por maioria absoluta como vereador na equipa camarária da “criminosa”. A ele ofertaram-lhe o mimo de difundirem que tinha fugido com o cofre da Escola Superior onde era director; mas não tinha fugido sózinho e sim com duas espanholas de Vigo... Depois, quando tal enxovalho foi desmascarado, fizeram soar que como era de famílias ricas, sempre que se sentia em apertos refugiava-se na paterna herdade de Évora...
Como qualquer ser medianamente culto saberá, a minha herdade é sim em Arronches. E, provavelmente por causa do calor alentejano, ou do frio alentejano, encolheu – e é hoje um simples quintal nas traseiras duma simples casa que uma tia me deixou e que com custo mandei recuperar e ando a pagar – porque, ao contrário do Estado português, que deve mil milhões aos militares além de outros pequenos trocos por aqui e por ali, pago as minhas contas e por isso todos os dias almoço sem ser de cara rebaixada!
Mas o mais vergonhoso é que a sanha odienta de Torquemadas de pacotilha não foi apenas propalada por primários e por gente sem gabarito. Gente houve (lembram-se de comentadores da nossa santa TV, etc?) que, eivados de santíssima sabença (conheciam o processo...sem nunca o terem lido!) deblateravam, deblateraram – e não davam direito de resposta – como aquele conhecido santarrão das letras que disse que as pessoas que concorriam com a autarca eram apenas lixo.
Ou seja: sou, com muita honra e assumidamente, pai dum bocado de lixo. Um bocado de lixo que, todavia, demonstrou de outras formas, publicamente, que é menos lixo e tem mais talento e vergonha numa mão do que o conspícuo indivíduo tem no corpo todo.
Foi esta, durante dez anos, a democracia de tais senhores. A da cobarde injúria. E não me refiro a quem, como era seu direito, analisava e comentava ponderadamente o caso!
Mas sim a essa récua de gente que, como dizia Cesariny, vê os argueiros dos outros sem ver as esguelhas próprias...
Simplesmente.
na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil
Os escritores Fernando Aguiar, Maria Estela Guedes, Joana Ruas, Nicolau Saião, Rosa Alice Branco e José do Carmo Francisco vão participar em Novembro na Oitava Bienal do Livro do Ceará, Brasil, que este ano tem como tema "A aventura cultural da mestiçagem".
A Bienal, que decorre entre 12 e 21 de Novembro em Fortaleza (Ceará), contará com a presença de agentes culturais (autores e editores) de 30 países de quatro continentes - África, América, Ásia e Europa.
A organização do encontro é da responsabilidade da secretaria da Cultura do Estado do Ceará.
O escritor Floriano Martins, curador do evento, esclareceu que este se destina a "revelar as diversas culturas envolvidas, reconhecendo os seus hábitos, costumes e literatura e comprometer-se com a democratização e mobilização do acesso universal ao livro, à leitura e à produção literária".
Numa entrevista recente a um jornal cearense, o curador declarou ter escolhido os autores - brasileiros e estrangeiros - para o encontro, tendo em conta a "qualidade da obra" e a "diversidade estética e geracional".
"A estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural em relação a esses países", disse.
Do lote de autores convidados fazem parte, segundo o mesmo responsável, os peruanos Carlos Garayar de Lillo e Carlos Germán Belli, o galego Carlos Quiroga, o cubano Abel Prieto, o argentino Rodolfo Alonso, o colombiano Jotamario Arbeláez, o mexicano Carlos Montemayor e a paraguaia Susy Delgado.
No tocante a brasileiros, citou os nomes de Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico Anysio (cearenses), Lêdo Ivo, Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz (não-cearenses).
(A partir de RMM, comunicado da Lusa, 27/10/2008)

Dizia o célebre inquisidor-mor de Richelieu, com um cinismo não isento de senso de humor, “Dai-me uma frase qualquer e conseguirei que ela ponha um baraço ao pescoço do seu autor”. E embora se trate aqui de poesia e de um poeta, talvez faça sentido suspender a respiração por uns segundos.
Porque, com efeito, a poesia é um perigoso ofício. E se não pelas partes de fora, pelo menos pelas partes de dentro.
Será verdade que os poetas são sobreviventes? Talvez sejam - sobreviventes do tal lugar onde se acoita a verdadeira vida a que aludia, entre outros, o sobrevivente de Charleville (Rimbaud). A poesia será também, assim, uma certa arte das retiradas, a forma mais pessoal de combater a adversidade. Quem diz pessoal diz eficaz. Eficaz, na verdade, porque nisto de coisas de dentro temos de nos haver com presenças muito mais perigosas que os habituais fantasmas do quotidiano. Daí que, por vezes, como (não) queria Cristovam Pavia, só possa haver “saída pelo fundo”. Pelo fundo, pelo meio, por cima, em suma e afinal: pelo lugar onde, no encalço de Flamel, “os touros encantados que deitam fumo e fogo pelas narinas” encontram finalmente a brancura da verdade perseguida.
De Cristovam sei muito pouco. Quer dizer, talvez saiba relativamente muito – porque vou a ele inteiramente pelo coração. Como fascinado leitor, primeiro, de uns raros poemas inseridos numa pequena antologia algo precária e, depois, dum livro muito pundonorosamente feito, com os seus poemas completos - publicados, esparsos e inéditos – que li inteirinha num pedaço de tarde de verão, sentado sob uma das nogueiras citadinas em frente do edifício barroco do antigo Hospital da Misericórdia portalegrense.
Cristovam falava (fala) de pequenas coisas, o que é indício de que o fazia de grandes coisas: da morte do seu cão, da luz difusa batendo na parede da casa da velha quinta alentejana dos ancestros, da recordação que sua mãe teria na noite do seu hipotético e afinal sucedido funeral. Coisas assim leves para quem julga que o poeta é uma espécie de artilharia pesada.
E porque o tom em que o fazia é dos mais belos (e estou a lembrar-me da emoção em Rilke, em Hesse, mas também em Marie-Noel), há-de encontrar sempre quem através dele possa olhar as tardes de negrume e, simultaneamente, de inteira claridade onde se vão reflectindo ora um rosto, ora um ombro, ora uma mão escapando ao nevoeiro...
Nos 15 anos deOS OBJECTOS INQUIETANTES
de Nicolau Saião
Por um acaso em que o destino e os meios editoriais são férteis, para a saída dos meus livros de poesia foi-me oferecida de bandeja uma sucessão de datas como que numa graça temporal. Assim, fez agora 15 anos que o primeiro veio a lume, 5 anos depois sairia o segundo (Flauta de Pan), um lustro depois o terceiro (Os olhares perdidos) e à guisa de irónico “gran finale” que, querendo os deuses, terei por provisório, o quarto – o qual em parte antologiou os outros (Olhares perdidos, antologia - Brasil).
Não houve nisto nenhuma premeditação - tanto mais que na aventura de editar sou uma espécie de “prima da província” como dizia Balzac: nunca tive o que se chama editor, aquele cidadão empenhado ou interessado que, olhando para a fila de autores no largo principal da vila, aponta este, escolhe aquele, toca no ombro de outro...Na verdade, com excepção da Ed. Caminho e da Ed. Escrituras, até fui poupado ao acto de assinar contrato... O que, dizem-me, costuma ser usual em certos meios.
Ou seja: as minhas andanças enquanto objecto de edição partiram apenas de um enfoque fortuito, bilateral é certo mas sem sequência que desse para me permitir pensar que, elaborada uma obra, esta indubitavelmente veria a seguir as luzes dos prelos.
Aliás, tal facto talvez me tenha permitido um maior à-vontade ao cruzar os mares e continentes da versejação não obrigada a mote ou a prazos.
E permite agora, digamos desta maneira, que numa sequência que espero vos quadre eu vá apresentando a livralhada em causa no decorrer dos tempos a vir. - NS
OS “OBJECTOS” E O SEU SUJEITO
por Levi Condinho
1. Sendo-me o seu nome já familiar, foi só na Feira do Livro de 1994, em Lisboa, que me encontrei com NS, que me foi apresentado pelo comum amigo, o escritor José do Carmo Francisco. A dedicatória que inscreveu no livro (e que me dirigiu) reza assim: ”Para o meu Amigo imediato Levi Condinho, poeta e pessoa de bem. N.Saião, 94. Assina também Flora Garção”. Poeta e pessoa de bem – retribuo o “galhardete” - é, isso sim, NS, cuja simpatia me cativou. Um intelectual, um artista, homem cheio de imaginação e de sereno humor, mas dessa estirpe dos simples que, em substância profunda, navegam na boa nau da fraternidade e da generosidade universais.
Pouco depois, escrevi sobre Os objectos inquietantes um texto que só passados 9 anos publiquei e dei a conhecer nas páginas respeitáveis e valiosas do suplemento alentejano Fanal.
Como disse Pilatos, de acordo com “A paixão segundo São João”, “o que escrevi, está escrito”. Terei acertado, mesmo a alguma distância do centro do alvo? Tarefa difícil para um texto tão exíguo e sem pretensões. Mas os leitores do livro – e que tenham sido ou venham a ser muitos – ajuizarão.
2. NS, pintor e poeta, não esconde a sua filiação, embora não exclusiva, na área do surrealismo. Por vezes, este aparece na sua escrita de forma deliberadamente “ortodoxa” funcionando aí, em pleno, a consagrada fórmula de “automatismo psíquico” verbalizado ou figurado plasticamente, em que a síntese obtida pela fricção ou embate de forças/signos antitéticos aparentemente desconexos não nos surge como produto simbólico e evidente, pronto à digestão, mas como uma “outra coisa”. Coisa essa que despertará em nós energias e formas outras de reconhecimento, nem sempre traduzíveis pela racionalidade da linguagem corriqueira. Aí, “isto” não significa “aquilo”, antes se detendo radicalmente no próprio “isto”, que possuirá, entretanto, uma força tão poderosa que dispensará o comentário absolutista da razão lógica. O que, é certo, exige as necessárias disponibilidade e cumplicidade do imaginário e de alguma “vocação” por parte do receptor. E, quanto mais rico esse imaginário, mais perspicaz será o funcionamento da “leitura”...(“Um indivíduo não é a sombra de outro indivíduo/ a não ser que o asfalto permita cogitações quotidianas.”).
Julgo, e penso não estar só neste juízo, que raramente no surrealismo (literário) português o automatismo total, o abandono “desumanizado” como sistema de destruição da razão e do(s) sentidos, funcionou como estaria previsto nos programas do “líder” André Breton e seus cúmplices. Com poucas excepções, o nosso surrealismo agiu sobretudo como uso de técnicas, de possibilidades metodológicas, arsenal de energias, ou até como instrumento ou “arma” de múltiplos combates ideológicos. Uma das excepções, talvez a mais notória, radicará em António Maria Lisboa, autor de textos como, nomeadamente, “Isso ontem único”. Mas, curiosamente, essa quase impossibilidade de automatismo total, constituindo-se, quiçá, de um utópico voluntarismo, conduziu a uma maior humanização e ao enriquecimento das conhecidas tendencias líricas da poesia portuguesa, pelo reforço de uma mais poderosa expressividade, mais agressiva, mais incandescente. E aqui encontramos o verdadeiro terreno de implantação da “casa” de NS.
Humanização. Tónica dominante de um livro que de “objectos” se ocupa. Sucede que esses objectos, pelo uso, aproximação, contiguidade, complementaridade ou sobreposição, constituem-se sempre em entidades antropófilas...(mesa, cadeira, janela, chapéu, garfo, prato, penico, pente) corpóreas (pé, molar, mão) ou justapostas no ente/ser humano (homem, ferreiro, poeta, pintor, defunto, futebolista, árbitro, etc, etc).
Mas essas entidades, na sua relação de empatia, funcionalidade e comunhão histórica com o homem, são também objectos de “inquietação” - suspeita, temor – não só pela reminiscencia de ancestrais lendas e conjecturas metafísicas que, a todos ou a alguns em particular, sempre atribuíram propriedades enigmáticas, mágicas, maléficas ou sofredoras (os tachos e panelas no livro ameríndio Popol Vuh) mas principalmente, aqui, por outros motivos. É que, em Saião, os objectos entendem-se como coisas familiares que nos podem comover, como nos comovem a cadeira ou o par de botas de Van Gogh ou do Charlot, ainda que nos possam atingir por alguns súbitos e inesperados calafrios de estranheza, e de algum terror. Inquietantes até pela má consciência que podem despertar em nós, pela utilização que deles fazemos, quantas vezes de forma distraída, alienada, desprovida de afecto, “injusto” uso de coisas que julgaremos inanimadas. Sê-lo-ão? (“As coisas// nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito/ nesse universo que é o nosso resumido encontro/ com a sua// eternidade acontecida.”).
Poesia onde o cosmopolitismo se conjuga com a sobranceira implantação telúrica na rus alentejana, onde o humor fino e certeiro, por vezes dramático, nunca exalta o grotesco em detrimento do Belo (veja-se a segunda parte do poema “O pão”, constante na antologia anexa).

Resta referir que Os objectos inquietantes foram publicados pela Editorial Caminho (92) e pela mesma distribuídos (93), uma vez que o livro recebeu o Prémio Revelação APE/IPLL de Poesia-1990, tendo uma nota introdutória de M. Pons, foto do autor e apontamentos críticos e biográficos, nas badanas, de António Luís Moita e João Garção, que efectuou também a ilustração sobre a qual foi construída a capa.
ANTOLOGIA
A JANELA
Às vezes o poeta tira
coisas da cidade: um muro, a sombra
dum morto, cores que o obrigam
a ficar ligeiramente envergonhado. Dizem
que é operação vulgar esta pesquisa
de memória rendida em geografia
adormecida. Mas o poeta insiste: tira
por exemplo uma janela. Tira três ou quatro
belíssimas pernas de mulher, um sentimento
um cheiro, endomingadas recordações
em suma: elementares presenças
comunicadas entre os anos. Tira a janela. E coloca
a janela em diversos pontos
do Universo: aqui vê um rio
acolá sente através da janela gritos e risos
e depois a janela esvoaça
com as mãos e a cabeça do poeta enrodilhadas
como que perdidas
solenemente atentas
na noite ardida. A janela reparte-se
por países e por rostos. O poeta perde
a janela de vista. A janela desapareceu.
A janela repousa nas paredes
a janela cola-se-lhe à roupa, a janela
obriga o poeta a pestanejar. A janela talvez
seja menos ou mais que um simulacro
de animais que viajam no triângulo dos tectos
no impenetrável reflexo das madrugadas
na palma da mão de alguém que já não pode
abrir ou fechar uma janela.
A janela constrói-se
pouco a pouco, a janela diz
milhares de palavras inventadas
e nuas, é uma imagem
em equilíbrio subtil. A janela é agora
quase porta, parece feita de
altas meditações familiares. Nem precisa de ser
ausência, como um retrato
que sai de nós para todas as ruas
onde irrompe um perfil enegrecido
onde alguma outra vida se acolheu.
O PÉ
Em todos os lugares, é
sempre pé: pé de mundo
pé de mando, pé de mar. Sem par
é pé de coxo. Pé
parado. Morto em pé.
Por vezes
os pés desaparecem
durante anos: esconderam-nos
em claustros, chaminés, prisões.
O pé no fundo
é estranho: de noite
parece um ser solar. Um pé
sem perna já foi mais frequente do que pensam.
Um pé de casa é uma vírgula posta
entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco
é um pé a cavalo. E um pé que se preza
ama a liberdade. De contrário é pé chato
pé de planeta aziago.
Um pé sem suor é pé desafinado.
Lagosta, pé carregado
O pé costuma ver (o pé tem sorte)
o começo da vida, ou o fim do corpo:
ir de pés para a frente
fazendo finca-pé
à própria morte.
O pé de flor vive em todo o lado.
Planta de pé é um silêncio vegetal.
Pé de cabra é bom na magia oculta.
O pé de cão tem horror aos polícias.
O pé de amor é um bicho esquisito: mede
os outros pelo seu tamanho – pé universal
Pé ou mão? Doce animal
dentro do coração.
O PENICO
Perdoa-se o mal que nos fazem
pela beleza do que se contempla. Maganão
que não quis ser caneca ou bilha d’água
preso ao sonho erótico de ter
outros horizontes a conhecer: fagulha
imaginária
levemente odorífera
sempre provocante
ou incómoda.
Lumpen-proletário abismado
num Universo de águas e fezes lustrais.
O PÃO
1.
Eis o pão sobre a toalha:
não se agita, não grita
- está ali, simplesmente
como uma ilha a descobrir
pelo sabor e o cheiro.
Um pão morto, um pão vivo
o cortado ou o inteiro?
O pão por vezes geme
como uma égua louca
e cresce, cresce ardendo
no sangrento e lavrado
triste e desabitado
nevoento, esfomeado
céu da boca.
O pão é a substância
dum bicho transformado:
o tempo e a terra
onde foi criado.
2.
Tronco de paz, tronco de escuridão
erguendo o cadafalso para todos
Suavíssimo, cercado de claridade
um avião gelou o sonho e a aurora
Uma flor crepuscular desafia o delírio
litania de fome destruindo o desejo
e uma cidade, angustiada, afoga-se
na sua própria imagem
sem que lembrada seja
como o sabor do pão
para ninguém.

CRISTOVAM PAVIA
a António Luís Moita
Entre mim e as casas estão as árvores e a ribeira
e milhões de anos feitos para a Lua e as estevas.
Essa ribeira que corre sabe-se lá para onde
talvez p'ra São Mamede, talvez p'ra esses campos
de Espanha - vida minha! - que jamais conhecerei.
Dionísio teria olhado o vale e a montanha
quando neles se ocultava o rasto de animais
depois desaparecidos. Pensamentos e memórias
entre um olhar e um silêncio, como o odor
do fumo dos lares ao fim da tarde.
Serena é a madrugada, despertando
um vôo de coruja sobre os ombros de quem vela
- pastor ou aguadeiro
homem que na terra coloca a semente do tempo
ou do trigo fremente para os sonhos e os minutos.
Algures, junto a uma parede devastada
onde a cal cristaliza a inocência e a perfídia
as abelhas são mais que uma simples razão
do Universo gerando recordação e inquietude
de anos e anos a vir: são o retrato
multiplicado da vida que fugiu
quando a nossa voz íntima se cala. Na terra
marco os dedos e os vestígios
de avós e bisavós, do solitário
cão que me adorou na infância:
o contorno das palavras que escrevi e que despertam
as sombras do futuro e do passado. E lá entre segredos
de amigos, de quimeras, das ofertas
que nem ousamos preferir
- gramínea, barco, gazela, primavera -
e que por isso são nossas
mais que tudo o que foi
o nosso quinhão misericordioso
hei-de lembrá-las sempre, como puras
e felizes sombras sobre o rio
Sobre as casas que vi como as imagens
que tive e que inventei.
(in Os Olhares Perdidos, Universitária Editora)
"Porque quem merece deferência e respeito é o povo, não esses sujeitos que continuamente, baseados no poder de que disfrutam, tripudiam sobre os cidadãos e fazem pouco de todos nós!
Creio que é notório que a Nação, senhor Presidente, espera de V.Exa. mais que simples paliativos...
Ainda não percebeu que o tempo começa a esgotar-se?”.
Todos deveríamos escrever ao senhor Presidente Cavaco uma carta como esta. Nicolau Saião fê-lo no Triplov. Ler o texto completo aqui.

ELE E O CHANDLER E OUTROS PARCEIROS
Há textos que custam a escrever. Mas ainda custaria mais se não escrevêssemos nada. Porque o silencio é, na verdade, o pior de tudo. E, assim, impõe-se ao menos, como homenagem e derradeiro aceno fraternal, o pequeno ruído de umas palavras escritas.
Sim. E congemino que a estas horas estarão eles já em amena cavaqueira, possívelmente degustando um “on the rocks” de excelente qualidade. Em jeito de recepção, pelo menos, ao novel companheiro de situação...
O Dashiell Hammet chegara primeiro, vai p'ra meio século, colhido pela tísica e por uns cheirinhos de ópio com todos. A seguir foi o Chandler, que não gastava do triste fumo mas se deixara cilindrar pelo generoso “bourbon” dos “saloons” de Santa Mónica ou de Hollywood e pela amargura que o estorvava, sem que o Marlowe lhe pudesse valer.
E agora, há poucas horas como me elucidou o José do Carmo Francisco, foi o Machado. O Dinis Machado. Sim, o do Molero, mas também a almaviva do Tintim, essa nave para viajar na imaginação onde emparceirava com o Vasco Granja. O Dennis Mc Shade dos policiais a caracter mas com sabor a Bairro Alto, português dos quatro costados com pseudónimo estrangeiro – para dar mais sustância à intriga de mistérios e tiros a granel como não houvera ainda daquela maneira no país dos brandos costumes... Ceifado, no seu caso, pelo tal de nome impronunciável alojado num pulmão, ajudado pelo excessivo apego – mais diria gosto, ainda que letal – às cigarrilhas Mercator, “as melhores do mundo” como ele dizia e explicou a um dos meus filhos fumadores, na altura, na noite (inesquecível, yep) em que o fômos levar do Alentejo a Lisboa após estarmos num programa de rádio precisamente dedicado aos segredos da novela policiária.
Recordei, com o JCF, em jeito de necrológio apreciativo e saudoso, os textos em que na Ler evocámos a “Barateira”, essa instituição de encartados cultores do alfarrabismo. E algumas jornadas nos entrepostos duma Lisboa de bairro popular que ele tanto apreciava (o seu pai fôra o dono de um arqui-conhecido restaurante de meia-desfeita, o famoso “Farta-Brutos”) e que lhe dera o tom do seu justamente apreciado (pese a alguns neófitos da escrita obrigada a mote) O que diz Molero, que por muitos e bons anos se me afigura que não o esquecerá o lote de gente que por cá sabe ler.
Era um homem de facto bom e leal. E fraternal. E amigo com os olhos e o coração bem abertos.
Este, que segue, foi o poema que um dia lhe dediquei, juntando num ramalhete a sua personagem detectivesca preferida e os mitos de que se reivindicava uma certa rapaziada boa, prenhe de imaginação e dignidade que decerto irá durando pelos tempos.
MARLOWE
a Dinis Machado
Aos deuses, que o sereno céu sustenta
entre Amarillo Road ou Canyon Drive
ou em em esquinas de ruas indiscretas
como luzes num bosque além dos montes
ofereço as minhas horas de amargura
e muitas meias-noites em meu rumo.
Acresce que
fui sempre muito pouco metafísico
mau grado a nostalgia que me punge
ao longo de não poucos boulevards.
Morenas tive algumas, mas não foram
mais que pistas abertas p'lo destino
como louras que rápido olvidamos
- fios de música correndo pelo tempo
e uns sopapos ao norte da figura.
Fiz de conta que os anos eram flores
numa campa de amigos ou de amores
sonhos que o vento leva quando calha
como folhas das árvores de Los Angeles.
Saber de mais é obra que não chega
p'ra ti, p'ra mim, p'ra todos os que sofrem
em vernáculo ou calão.
Dizer da vida o pouco que nos dá?
Prefiro um highball bem fornecido
um disco de hot jazz a meio da tarde
(solarenga ou chuvosa)
- até as convenções nos são propícias
se a carne é fraca, posto que perspicaz.
Nos meus arquivos guardo alguma 'sperança
mesmo que o tempo venha e me devore.
in Os olhares perdidos

CONTRA OS PACTOS DE OMERTÁ, CORAGEM E BOM SENSO
«É mais fácil contratar gangsters do que ir a tribunal», declarou Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados (dos jornais)
O Bastonário Marinho Pinto, a meu ver, possui duas características de verdadeiro homem de bem - coragem e bom senso.
Vou explicitar, ainda que sucintamente e com vossa licença, estas duas afirmações:
- coragem porque num universo social em que certos membros de topo do Sistema Judicial se julgam acima de qualquer crítica (recorde-se o verdadeiro "pacto de omertá", para que MP não desse certas opiniões em público, referido pelo sindicalista líder dos magistrados) o Bastonário tem a lucidez para perceber o estado de revolta e de indignação que vai nos cidadãos, em função da desqualificação ética, do desleixo e da incapacidade do Sistema Judicial em corresponder a uma Justiça equânime.
Bom senso, porque num quadro destes o verdadeiro bom-senso não é calar, não é ser "politicamente correcto" ou ceder a corporativismos, não ser cínico ou oportunista para manter uma aparente bonomia - e sim dizer a verdade doa a quem doer, pois os direitos dos cidadãos estão acima dos interesses duma clique que se apoderou dos cinzentos corredores dos Tribunais.
A nudez forte da verdade é que é legítima, não o manto diáfano e aparentemente manso da fantasia.
Pois, na verdade, e como já se tem afirmado em textos apropriados, "O Sistema Judicial é o cancro que está a destruir a Democracia portuguesa".
Ou o que resta dela.
in PORTUGAL DIÁRIO


ompreensíveis se a elas ligarmos o sinal do Homem, o seu rosto luminoso. Porque o Mundo existe. E o Homem existe. E existe a Terra, o firmamento, tudo o que está ou pode vir a estar ao alcance do nosso deslumbramento.E
DUAS FOTOS RECORDADAS
ÁFRICA, FEVEREIRO DE 70
Entre mim e as janelas há o rio e as árvores
e milhões de anos feitos para a gazela e a marabunta.
Dionísio teria percorrido a savana e a montanha
quando ainda não havia rastos de camião
nem o mar sepultava pensamentos e memórias
entre um olhar e um silencio.
Serena era a madrugada, subitamente despertando
um vôo de coruja sobre os ombros de quem velava
- pastor e aguadeiro -
homem que na terra colocava a semente do tempo
ou do milho fremente para os sonhos e os minutos.
Algures, junto a uma parede devastada
onde a cal cristalizara a inocencia e a perfídia
as abelhas eram a equivalencia perfeita
do universo gerando a carne negra e branca
que dos livros guardara a misericórdia e o temor
de anos e anos a vir.
Há um grande e perpétuo rumor que faz pensar
em Orion e no Cruzeiro do Sul
mesmo quando o sol ainda risca a figura
incontusa dos sete pontos cardeais.
Qual o fulgor
que viaja entre oriente e ocidente
- os campos do mamute e da zebra primaveril -
mesmo quando a época das gramíneas refloresce
entre lua e penumbra?
Na terra
marco os dedos e os vestígios
de avós e bisavós
mas o contorno das palavras que escrevo e que despertam
as sombras do passado e do futuro
hei-de lembrá-las sempre
impolutas sobre o rio, sobre as casas, sobre os homens
que vi e que inventei.

Há palavras que nunca ninguém pronunciará.
Palavras de esquecimento, emocionadas palavras.
Palavras de mistério, apenas entrevistas
pairando entre a figueira e o computador
Palavras assombradas, iluminadas, nocturnas
palavras incontusas, breves, imarcescíveis.
Palavras encontradas num súbito combóio
palavras navegando no coração da chuva.
A palavra memória para a infância das estrelas.
A palavra planície, a palavra mamute.
Uma chaminé-palavra no alfabeto oculto
para a morte saudosa de todas as designações.
E também as palavras de todos os hemisférios afundados.
A palavra solstício e a palavra suicídio
e todas as palavras em que a sombra encontrou
o inquieto horizonte de uma ânfora de oiro.
A palavra das cidades vazias, dos espigões erguidos
pelos olhos do medo
as palavras de todos e as palavras sem ninguém.
O abeto-palavra, gelado e milimétrico
invadindo os espelhos nos mais escondidos quartos.
O salto, o golpe a palavra absoluta.
Uma palavra simples como uma boina basca
subtil como um navio, límpida como um rato
uma palavra desvendada e solene como um leito.
O natural do escuro, palavra negra e sangrenta.
A palavra completa
dos muros transfigurados
ou da casa doente abandonada aos chacais.
A palavra do peixe
do animal
do homem
a palavra habitante de todos os séculos martirizados.

Nota - Os poemas supra deste poeta apátrida de origem portuguesa foram recentemente encontrados por José Soares da Veiga numa gravação do programa radiofónico “Mapa de Viagens”. Aqui se dão a lume colmatando o extravio de 18 anos.
Foi lançado no dia 3 de Julho o mais recente número da DiVersos, revista de poesia e tradução publicada pelas edições Sempre-em-Pé de há dez anos a esta parte.
Conta, desta feita, com textos de - entre outros - Brian Strang, Hugo Claus, José Ángel Valente, Lotta Olsson, Martín López-Vega, Miguel Ângelo, Pedro Tamen e Wladimir Saldanha. Entre as diferentes colaborações, permito-me destacar ainda um bloco com poemas de António Cabrita e a tradução, por Nicolau Saião, de produções de Louis Scutenaire - a quem pertence o poema que de seguida transcrevo.

PLUMAS PERDIDAS
Beethoven não ri nunca.
Os seus cabelos, os seus vestuários
são negros e os seus filhos mal amados.
Beethoven, velho de dois séculos
não abandona a minha bigorna
a minha bigorna de simples poeta.
Os seus olhos velados brilham
como a taínha nadando na lama.

