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Foi no dia 7 de Maio. A foto, contudo, só agora chega. Documenta a leitura de poemas ocorrida na Casa Fernando Pessoa no âmbito do Festival de Poesia "Tordesilhas". Da esquerda para a direita: Ruy Ventura, Eduardo Jorge, Virna Teixeira e João Miguel Henriques.

Um comentário de João Miguel Henriques sobre Chave de ignição pode ser lido aqui. Obrigado pela vossa leitura!

ALGUNS POEMAS DE
JOÃO MIGUEL HENRIQUES



A ideia


e no momento exacto da compreensão
no preciso fulgor do entendimento
esse fugaz instante gasoso
entre a apreensão da língua
e a ideia consagrada
decidi fechar os olhos
apertar os punhos com força
retorcido sobre mim mesmo

era para ver apenas
se poderia suceder
a palavra ser só palavra
nada mais que linguagem
nada mais que um som despido
liberto de todo o sentido
matéria sem peso violento

a ausência da ideia
essa puta opressora



P. M.

eles vão sobreviver-te, tu sabes disso

por isso odeia-os profundamente
desprezas os membros ágeis
os olhos com dúvida e tempo

sabes que as tuas palavras sábias
não ecoarão para além da morte

e eles vão sobreviver-te, naturalmente
sem a tua linguagem
e esquecidos da tua memória



A erva alta

teria podido escrever os outros versos
soubesse eu da erva alta lá por fora
a que cresce nociva
junto ao muro da casa
e a mais distante, junto à estrada,
rasteira e inútil

teria alcançado a estância mais pura
soubesse ainda dizer as verdades
da erva a roçar-me pelos flancos



Poemas publicados em Também a memória é algum conhecimento, recentemente editado no Brasil na Lumme Editor, sediada em São Paulo. João Miguel Henriques (Cascais, 1978) estreou-se com O Sopro da Tartaruga, tendo divulgado desde aí textos seus em várias revistas e páginas em linha. É autor do blogue Quartos Escuros (www.quartosescuros.blogspot.com).
Este livro, para além das suas linhas de sentido e de fuga (que me dispenso de comentar, incitando o leitor à descoberta e à sua silenciosa indagação), deveria obrigar-nos a reflectir seriamente sobre as razões que levam cada vez mais poetas portugueses a verem publicados no estrangeiro os seus escritos, quando dentro de casa são relegados para um lugar que não merecem.
JOÃO MIGUEL HENRIQUES

Dois poemas


HOCHGOBERNITZ
(SEGUNDO THOMAS BERNHARD)


os primeiros assomos de loucura
trazem a destruição dos campos todos.
no traço inculto das coutadas
mingua a vida
repousam as alfaias

dos quartos vazios de gente
das terras vazias de tudo
sobram apenas muralhas
(ninguém se lembra)

há um prenuncio de tragédia
capaz de vergar os dias
aos trabalhos dolorosos

é o triunfo das gerações
sobre a antiga casa paterna
somente um reflexo de luz
um declínio inteiro

quando saio do quarto onde moro
e venho às muralhas
lembrar-me das coisas
reparo que as chuvas de inverno
vieram aqui para ficar


HORTELÃO


o hortelão arrebata à terra
os frutos e as pedras pequenas.
desenha com as unhas
a marca do seu turno
em redor dos frutos.
exibe nas mãos o machado.
dilui-se nas oliveiras
a cortar os pés de burro

a manhã derrama pelo céu
uma poça de nuvens densas
e só a terra colhida de pedras
é razão apenas
para as minhas amarguras.

In
O Sopro da Tartaruga, edição de autor, 2005


Blogue do autor:
www.quartosescuros.blogspot.com