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Estátuas

Largo das Duas Igrejas, em Lisboa. Do alto do seu pedestal, Camões não põe os olhos nos transeuntes, mas nos dois confrades que, ao longe, mal se distinguem. Sentado, com o braço esticado e ar galhofeiro, António Ribeiro Chiado aponta Fernando Pessoa. "A quanto chegaste, meu velho! Só falta animarem o bronze e porem-te, bem-mandado, a servir cafés na esplanada da Brasileira..."
JOSÉ MARÍA CUMBREÑO

Os poetas-professores

"[...] Tengo varios amigos que son profesores en distintos institutos de España. Y la mayoría me cuenta lo mismo: que todo son pegas cuando los invitan a leer a alguna parte (aunque se trate de otro instituto), que nadie les agradece que lleven la revista del centro, que no se tiene en cuenta que la tele y los periódicos hayan sacado de paso al instituto al ir a entrevistarlos a ellos, que sus alumnos disfrutan del conocimiento de otros escritores por mediación suya ...


Etcétera, etcétera, etcétera.

Imagino que este desprecio por el arte y los artistas responde al espíritu de este tiempo en que las humanidades no constituyen sino un mero adorno. Lo que ocurre es que resulta triste que ni siquiera en los centros educativos pintar o escribir se considere un mérito. A pesar de que, se pongan como se pongan, objetivamente, contar con un escritor de cierto nombre en el claustro represente un beneficio para el instituto o colegio de turno.
 
[...]"
 
 
Embora, pessoalmente, tenha sido muito bem tratado na escola onde dou aulas por alturas da apresentação de um livro meu na biblioteca do Agrupamento, subscrevo as palavras do José María Cumbreño.
 
http://liliputcontrablefescu.blogspot.com/2010/09/acerca-de-los-poetas-profesores.html
MEMÓRIA D' ALVA
Contributos para uma biografia
da igreja matriz de Aljezur


Terminei há poucos dias o meu mais recente livro, um estudo sobre a história da igreja matriz de Aljezur. Aqui ficam as primeiras linhas da introdução:


Os edifícios são como as pessoas. Todos têm biografia. Sendo o prolongamento das mãos humanas que lhes deram forma e dos corpos que neles existiram e viveram, transportam nos seus materiais de construção a recordação do seu nascimento, do seu crescimento, das suas vicissitudes e, até, da sua morte. Mesmo quando se resumem a escassos vestígios arqueológicos, a relíquias guardadas ou reutilizadas noutros lugares ou à lembrança difusa registada nos documentos escritos ou na oralidade colectiva.


Sendo como pessoas – ou parcelas inalienáveis dessa Pessoa que é uma comunidade quase sempre milenar – possuem ainda uma genealogia e um código genético. Não existem gerações espontâneas. Se a matéria de uma casa, de uma igreja ou de um castelo surgiu de novo – numa parcela do espaço antes ocupada apenas pelo crescimento das espécies vegetais e pelo povoamento da fauna –, trouxe sempre consigo um património que orientou a génese. Nesse código genético vindo do passado estarão decerto as estratégias e as técnicas inerentes à selecção e ocupação do território, a espiritualidade das formas, a sabedoria com que se distinguiram e trabalharam os materiais, a religação desse microcosmos ao macrocosmos universal, a religiosidade que presidiu a escolhas e afirmações, a experiência que definiu funcionalidades, os diálogos inevitáveis entre a paisagem e o povoamento.


[...]


Tendo partido do registo histórico da construção da “igreja nova” de Nossa Senhora d’ Alva, entre 1795 e 1809, este trabalho que apresento nunca poderia prescindir de um conhecimento minimamente aprofundado do que fora a existência material do templo antecedente, arruinado em 1755. Mesmo assim, sendo embora cómodo iniciá-lo com a narrativa da edificação de um primitivo espaço cultual no século XIII, não seria aceitável que se relegasse para as calendas gregas uma leitura integrada do elemento religioso que justificara a existência qualquer dos edifícios – a veneração de Nossa Senhora d’ Alva –, possuindo toda uma envolvência mítica e onomástica que o revestiam de interesse e até de alguma estranheza.

[...]




DA OSTENTAÇÃO


Pessoa - longe da imortalidade que hoje ninguém lhe nega - escreveu mais ou menos isto (cito de memória): "Tenho feito passar como meus vários poemas de autores famosos; todos lhe torcem o nariz. Tenho feito passar como de autores conhecidos poemas escritos por mim; são elogiadíssimos."


Só saberemos avaliar devidamente o valor da obra de um autor - separando-a da fama (justa ou injusta) de quem a criou - quando os livros forem publicados sob anonimato. Certa gente ostenta gostos literários como quem exibe sapatos de marca (mesmo que não prestem).


A autora deste livro - Maria do Carmo Vieira - deveria receber a homenagem de todos os portugueses que ainda amam a sua dignidade cultural. A sua denúncia da situação do ensino da Língua Materna - fomentada por técnicos do absurdo que vêm consagrando o império da facilidade para melhor acabar com a democracia verdadeira em Portugal - deveria ser de leitura obrigatória. Por lá se encontra, até, uma senhora escritora que - antes de ser comissária de um tal Plano Nacional de Leitura e ministra da Educação - era radicalmente contra quaisquer listas com sugestões literárias... logo abdicando das suas convicções quando alguns rectângulos de papel-moeda lhe foram postos na mão. O cenário é aterrador. Mas vale a pena o tempo ganho na sua leitura.
RESPONSABILIDADE, INTEGRAÇÃO E CIDADANIA



Sou professor há quinze anos. Nesta década e meia, circunstâncias voluntárias e involuntárias foram diversificando a minha experiência. Tendo começado o percurso numa escola rural de Trás-os-Montes, logo em 1996 fui colocado numa localidade problemática do concelho de Almada. Desde essa data – tirando três anos em que trabalhei como docente numa instituição de Ensino Superior – toda a minha carreira tem decorrido na Península de Setúbal, tendo a meu cargo turmas heterogéneas, dentro das quais se incluíram alunos em risco de exclusão social, vários caminhando para a marginalidade ou mesmo para uma vida envolvida pela actividade criminosa.

Como a maioria dos docentes deste país, durante os quatro anos que durou a minha formação inicial, fui alvo de uma autêntica lavagem cerebral. Os autores da barrela – psicólogos, sociólogos, metodólogos e pedagogos bem intencionados, mas com pouca experiência prática – tentaram convencer-me da inocência de todas as crianças, pré-adolescentes e adolescentes, de que o sistema educativo se deve submeter às “necessidades” e “características” do aluno, de que a aprendizagem deve ser lúdica e brincalhona, de que os valores e o conhecimento são relativos, etc., etc., etc..

Só quando entrei no sistema como professor me apercebi de que a ladainha não correspondia apenas a teorias ultrapassadas pregadas por gente ingénua e pouco responsável. Comecei a ter consciência de que tudo aquilo era a pregação oficiosa da doutrina defendida pelos burocratas que governavam e governam o Ministério da Educação – na sua maioria rapaziada nova quando ocorreu o 25 de Abril, isto é, cidadãos cuja melhor reacção ao cinzentismo da Instrução Pública salazarista foi a da importação de filosofias educativas que, nos seus locais de nascimento, já haviam sido colocadas nas prateleiras empoeiradas da História da Educação. Entrei no Sistema Educativo português, confesso, com a vista enublada por toda esta lavagem. Mas, como é bom de ver, cirros e nimbos foram-se dissipando, à medida que a realidade do quotidiano escolar se foi sobrepondo às teorias paradisíacas em que fora mergulhado. A experiência obrigou-me a produzir uma síntese entre um olhar realista sobre o processo de ensino-aprendizagem e a doutrina oficial ou oficiosa defendida por pessoas que nunca lidaram de perto (ou não quiseram lidar) com uma turma.

Nessa altura tomei ainda contacto com outra dimensão da educação: a relação das famílias com a aprendizagem das suas crianças. Tudo me foi dado observar: pais interessadíssimos e saudáveis no seu relacionamento com a escola, com os professores e com os seus filhos; gente humilde que se dedicava aos filhos, apesar de dificuldades sociais, culturais ou económicas; cidadãos conscientes de que educar implica disciplina, rigor, responsabilidade e exigência; encarregados de educação sobranceiros que abominavam qualquer esforço imposto aos seus filhos; familiares que nos levavam a canonizar os filhos; figuras repugnantes que – se Portugal fosse um país justo – há muito teriam os seus filhos entregues a famílias de acolhimento.

Ao longo de quinze anos de serviço, infelizmente, vi também crescer a promoção da irresponsabilidade e da impunidade entre os alunos. Tomei consciência de quanto o sistema protege os prevaricadores e desprotege as vítimas de insultos, de chantagens, de agressões físicas. (Sei do que falo, pois durante vários anos trabalhei voluntariamente com turmas de Currículo Alternativo, com rapazes e raparigas à beira da marginalidade.) Assisti à irresponsabilidade promovida por alguns colegas ingénuos ou medrosos, pelas direcções de muitas escolas que achincalham os seus professores, caucionando a pequena e grande indisciplina de alunos sem motivação intrínseca e com muita preguiça, desautorizando-os quando desculpabilizam comportamentos graves, recusando a merecida acção disciplinar, por simples incúria ou miopia ou para que as estatísticas não sejam maculadas.

“Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. As palavras de São Paulo sublinham que a assunção da cidadania requer uma escolha consciente. A sociedade, através da escola, deve integrar todos os seus membros. Mas os seus membros também devem integrar-se, respeitando a liberdade dos seus semelhantes e as regras mínimas de convivência, assumindo com responsabilidade todos os seus actos e as reacções que possam suscitar. Não é possível instruir sem que a educação esteja consolidada. Não é possível educar enquanto a recusa de integração nas estruturas micro e macrossociais não tiver consequências exemplares.

Esta observação com quinze anos tem reforçado a minha convicção de que o relativismo militante, mesmo que se chame “multiculturalismo”, nunca trará bons frutos nem à instrução nem à educação das nossas crianças. Se é impossível o exercício da cidadania sem integração social, essa integração nunca acontecerá sem uma ética de responsabilidade e de exigência. O percurso (perigoso) do sistema educativo português tem sido, quanto a mim, o inverso. Estamos contudo a tempo de mudar a direcção. Se o não fizermos, corremos o risco de mergulhar as nossas escolas num clima de insustentável violência física e psicológica, em que a aprendizagem será de todo impossível. Não sou de todo catastrofista. Estou apenas convicto de que, na ausência de um quadro estável de valores (entre os quais deverão estar o esforço, a responsabilidade, o livre arbítrio, o usufruto da crítica fundamentada, a promoção do conhecimento esclarecido), nunca existirá uma justa democracia. Tudo permitir é também autorizar a tirania e a barbárie.

(Publicado no número 42 da revista Transformar, Janeiro/Junho 2010)
http://www.forumavarzim.org.pt/site/index.php?option=com_content&view=section&id=4&Itemid=30
FEIRA MURCHA

Fui ontem à tarde com a família à Feira do Livro. Achei-a murcha, como as azeitonas sapateiras. Tirando um encontro com uma família de escritores amigos (Zé do Carmo, Ana e Filipe Francisco), a compra de volumes novos de Maria Filomena Molder, Orwell e Luís Marques, a alegria dos cachopos a comerem uma fartura ("massa frita", em Portalegre) e o sublime Tejo ao fundo - nada mais se aproveitou.
A MORTE DUM MORIBUNDO




A morte é triste nem que seja num gato - costuma dizer-se na minha aldeia. Mais triste se torna a notícia quando diz respeito a alguém ou a algo que faz parte da nossa história pessoal.

A morte do jornal O Distrito de Portalegre, após 126 anos de publicação, não me deixou indiferente. Foi nas suas páginas que publiquei o meu primeiro texto (tinha 16 anos), foi nas suas páginas que dei à estampa inúmeras crónicas e textos sobre o património regional, foi no seu espaço que coordenei com Nicolau Saião o suplemento cultural Fanal, que editou centenas de textos, alguns de nomes importantes da cultura luso-brasileira, como João de Melo, António Cândido Franco, C. Ronald, Carlos Reis, Dinis Machado, José Manuel Anes, Matilde Rosa Araújo, Manuel Poppe, Miguel Jorge, etc..

O anúncio da extinção do jornal não foi no entanto uma surpresa para mim. Apesar de o pretexto serem as suas dificuldades financeira, de há uns tempos a esta parte vira completamente adulterada a sua matriz genuinamente cristã, de abertura do mundo e à liberdade de expressão. Tirando o tempo em que foi dirigido pelos padres João Mendonça e João Coelho, os períodos em que foi dirigido pelos presbíteros José Patrão e Nuno Folgado (o seu coveiro) tornaram-no num órgão sem qualquer pudor no exercício discreto da censura e da manipulação informativa (nisso não divergindo muito doutros colegas editados na cidade que acolheu José Régio). Custa-me escrevê-lo, mas mais vale assim; mais vale uma morte do que a sua sobrevivência por caminhos que nada têm a ver com a estrutura da dignidade cristã (que nunca dispensará a liberdade).
POEMAS DA MONTANHA
de Frei Agostinho da Cruz



Fosse Portugal um país com consciência  e dignidade cultural - e a publicação de uma antologia do poeta Frei Agostinho da Cruz seria um acontecimento relevante. Jacobinos e incultos como vamos sendo cada vez mais, ignoramos (ou fazemos por ignorar) tudo quanto não entre no campo da celebridade bacoca ou influente. Por isso participei - como quem praticou um acto de justiça - na apresentação de Poemas da Montanha, publicado pelas Edições Serra d' Ossa. Um caminho para me encontrar com um dos mais significativos poetas de língua portuguesa.


Sinceramente, repugna-me a ideia de "melhores poemas" porque é impossível a alguém saber quais são os melhores, se não os leu todos. O costume, enfim. Uma estratégia semelhante à do "Omo", lavar mais branco... A iniciativa tem contudo algum mérito, nem que seja pela contribuição para as actividades da AMI.
ALBERTO VELHO NOGUEIRA
ENTREVISTADO PELA "LER"


Ao decidirem avançar com a publicação na revista LER de uma entrevista do escritor Alberto Velho Nogueira, Francisco José Viegas (director) e José Riço Direitinho (entrevistador) praticaram um acto de justiça.
Num período de grande confusão e rebaixamento na nossa literatura (em que dia a dia se confirma a promoção de génios de papelão e a ocultação de todos quantos servem a palavra com uma arte exigente e questionadora, sem se vergarem a modas, facilidades ou regras de mercado), ler as palavras de alguém como Nogueira confirma que são as veredas e outros caminhos escondidos que levam ao lugar do tesouro. Não estamos condenados a comer apenas sopa literária (por mais saborosa que ela seja); há outros manjares mais substanciais nesta mesa com vários séculos de criação e de frequência.
A escrita de Alberto Velho Nogueira (com as obras de Maria Gabriela Llansol, Fernando Echevarría, C. Ronald, Carlos S. C. Couto, Wilmar Silva e muitos outros) poderá exigir uma caminhada iniciática e uma digestão lenta - mas alimentar-nos-á muito mais do que certos acepipes pseudo-realistas que nunca passarão de comida rápida comprada nos supermercados de uma literatura sem ousadia nem experimentação.

(A partir de uma carta enviada a Francisco José Viegas.)

A GRANDE BARRELA

Começou ontem oficialmente a grande barrela chamada "Comemorações do Centenário da República". Ora dizendo que apenas devemos comemorar a revolução de 1910 olhando para o futuro (para esquecermos o triste passado). Ora afirmando que a má imagem da Primeira República foi uma criação propagandística da ditadura do Estado Novo. Ora lançando para os olhos dos portugueses a poeira dos "pequenos erros" do período compreendido entre 1910 e 1926, de forma a ocultar os desmandos graves do jacobinismo sectário e anti-democrático que foram, de facto, os principais responsáveis pelos 48 anos de ditadura vividos pelo nosso país no século XX.
Basta lermos os textos de vários republicanos desinteressados e clarividentes que acompanharam os acontecimentos como testemunhas oculares (como por exemplo Fialho de Almeida) para chegarmos à conclusão de que estas comemorações são um erro e uma imensa campanha de propaganda destinada a manipular a consciência história de todos nós, de maneira a não vermos com olhos limpos o que se passa neste momento em Portugal.
Voltarei ao assunto, eu, republicano que não se revê em nenhuma das três repúblicas que dominaram a história nacional a partir de 1910, republicano que não confunde regime com forma de governo (no fundo o importante não é a república, regime político, mas uma forma de governo, a democracia - de que estamos ainda muito distantes).


Imagem: Bandeira nacional a partir da opinião do poeta republicano Guerra Junqueiro, que afirmou: "O Campo azul e branco permanece indelével. É o firmamento o mar o luar, o sonho dos nossos olhos o êxtase eterno das nossas almas. Os castelos continuam em pé inabaláveis, de ouro de glória, num fundo de sangue ardente e generoso ... A cruz do calvário, as das cinco chagas essa não morre, é o abraço divino, o abraço imortal... A coroa do Rei, coroa de vergonhas, já o não envilece, o não vislumbra. No brasão dos sete castelos e das quinas erga-se de novo a esfera armilar da nossa glória... E ao símbolo augusto do nosso génio ardente e aventuroso, coroemo-lo enfim de cinco estrelas em diadema dos cinco astros de luz vermelha e verde [ ...] dessa manhã heróica da rotunda." - Guerra Junqueiro, citado em "Do Azul-Branco ao Verde-Rubro. A Simbólica da Bandeira Nacional", de Nuno Severiano Teixeira, 1991
NO VELÓRIO DE SARAMAGO

Saramago disse o que disse. Já todos conhecemos o génio comercial desse "mau escritor talentoso" (como o definiu um europeu galardoado com o Nobel da Literatura), geralmente associado ao disparate. Muito se tem comentado. Ateus, católicos, judeus, protestantes e outros mais indefinidos vêm dizendo de sua justiça. Uns bem e outros mal, uns com demasiada fartura, outros com infeliz magreza.
Quanto a mim - perdoem-me... -, não quero gastar velas com ruins defuntos. Sinceramente, não vale a pena comentar as palavras de alguém com tão pouca autoridade moral e ética.

A MAIS RAIANA DAS VILAS PORTUGUESAS
(texto publicado em espanhol no nº. 13 da revista Imagen de Extremadura)

Muito pouco conhecem os portugueses da vila de Barrancos, uma das mais remotas do território nacional, sede de concelho apenas com uma única freguesia. A maior parte de nós recorda esse pequeno pedaço de Portugal apenas pelos touros de morte e pelos excelentes enchidos de porco preto, associados a vagos ecos de um português diferente que por lá se fala.
Durante anos e anos o conhecimento foi mesmo mais restrito, limitando-se à acesa polémica entre os chamados “defensores dos direitos dos animais” e a população local, tendo como centro a realização anual de corridas de touros em que o animal morria, contrariando o estabelecido na lei portuguesa. Era já uma tradição lusa assistir na televisão ao folclore das forças policiais tentando impedir sem sucesso o acontecimento festivo, aos garridos e (por vezes) descabelados protestos dos protectores dos bichos e ao manguito contumaz dos barranquenhos que – depois de muita resistência – lá conseguiram que a Assembleia da República do seu país consagrasse no Diário do Governo a sua excepção cultural. Fizeram bem os políticos? Fizeram mal? Matar os touros no meio da arena em vez de abatê-los no matadouro será pior ou melhor? Cada um responda na sua consciência.
Cessada a refrega, resta aos portugueses mais distraídos, como lembrança de Barrancos, o sabor dos seus chouriços – delicioso como o de poucos. Reconheçamos que é injusto. A pequena vila com escassos milhares de habitantes merece que a lembrem de uma forma mais poliédrica. Nomeadamente como a mais raiana de todas as vilas portuguesas. Ao seu lado talvez, apenas, a cidade de Miranda do Douro, com o seu mirandês descendente do leonês, agora também língua oficial com direito a ensino público.
Em Barrancos, aos touros de morte e a uma ligação umbilical com os seus vizinhos espanhóis, associa-se um falar em que se misturam marcas do português falado no Baixo Alentejo com as do castelhano falado para além da fronteira. Estudado com sabedoria (embora com limitações) pelo investigador José Leite de Vasconcellos no seu livro Filologia Barranquenha, editado postumamente em 1955, não pode considerar-se – segundo afirma Luís Filipe Lindley Cintra – um dialecto autónomo, mas é ainda assim uma das mais concretas manifestações da cultura raiana (tecido muito matizado, no qual os séculos e os homens que os povoaram foram entrançando fios diversos, com cores diferentes, mas complementares e (hoje) indissociáveis).
Será a peculiar – e polémica – tauromaquia barranquenha outra coisa para além de uma das faces dessa manta colorida, feita de muitos tecidos recortados e recompostos? Se a praça onde decorre o espectáculo, edificada no efémero com barrotes de madeira no largo principal da vila, faz lembrar aquelas onde decorrem por esse Alentejo fora as “ferras” ou “touradas à vara larga”, a largada das reses e a sua lide a pé lembram algumas das mais conhecidas tradições de Espanha. Quer apreciemos ou não o ritual sangrento, traz-nos à memória raízes muitíssimo antigas, milenares, de uma época em que não existiam nem “Alentejo” nem “Extremadura”, mas havia uma cultura agrária com touros e deuses ctónicos que era preciso vencer para afirmar a força da humanidade, uma cultura cujos vestígios correm hoje o sério risco de desaparecer enquanto manifestações autênticas.
Por muitos motivos (uns positivos, outros nem tanto) podemos afirmar que essa cunha portuguesa em território extremenho, vigiada pelo abandonado castelo de Noudar e protegida por uma santa com resplendor à castelhana, não é nem de Portugal nem de Espanha. Apenas uma das eminências desse território peninsular agreste mas misterioso chamado “Raia”.

REVERTE


Ando a ler mais um volume de Arturo Pérez-Reverte, Con ánimo de ofender, que reúne artigos editados no El Semanal nos anos que estabeleceram a transição entre o século XX e o século XXI.
Ler os textos de opinião e de observação deste autor espanhol traz-me à memória uma força verbal que, em Portugal, só pode ser encontrada nas páginas de crónica assinadas por Fialho de Almeida ou por Camilo Castelo-Branco.
Nos últimos cem anos, tirando Luiz Pacheco e pouco mais (e mesmo assim...), nada surgiu de comparável. Nos nossos dias, então, não há testículos como os do criador de Alatriste - ou, se os há, estão devidamente ocultados, arredados da grande imprensa que lhes poderia dar justo eco alargado.
Na nossa "imprensa de referência", tanto quanto me parece, o que mais há são teclados com problemas de erecção e de coluna vertebral, ilusionistas de feira sem a menor dignidade, a soldo dos mais diversos interesses, mesmo quando parecem mostrar o contrário. Uns e outros, quando parecem escarrar nas fuças de quem merece, apenas dão beijinhos velados, não fique abalado o edifício do status quo, a que pertencem.
Ler algumas crónicas de Arturo Pérez-Reverte injecta-nos coragem. Obriga-nos a continuar a luta pela sobrevivência digna neste mundo de trampa. Não esqueçamos: aqui, onde vivemos, haverá sempre homúnculos à espera do momento exacto para proceder à nossa castração, seres que, discretamente, com diabólica rapidez e eficácia, procuram sodomizar a nossa verticalidade.
OU NÓS, OU O DILÚVIO

No domingo passado, enquanto me ia chegando a casa para almoçar, ouvi um provecto militante do pê-ésse afirmar que é absolutamente necessária uma maioria absoluta do seu partido nas próximas legislativas para que se evite a ingovernabilidade do país.
Há algumas semanas (ou meses?) atrás outro sénior senhor da mesma agremiação partidária teceu palavras com um teor parecido. Terão combinado?
Para que não restassem dúvidas da heterodoxia destes "senadores da república" (como sói dizer-se), acrescentaram críticas mansinhas ao gerente-mor deste país, para que não parecessem cópias encarquilhadas dum tal Augusto que de santo nada tem, mas cuja silvar propaganda a favor da canonização do filósofo da Covilhã pica como uma coroa de espinhos.
Curioso... Com os mesmos agrumentos ou argumentos muito parecidos conseguiu, pelos anos 30 do século passado, António de Oliveira aprovar a constituição corporativa num plebiscito. Com a mesma versão politicorra e descabelada do "ou nós ou o dilúvio" lavou Hugo Chávez a moleira de 55% dos venezuelanos, convencendo-os do que o melhor para o bolivariano país da América do Sul será tê-lo no poder até que Deus nosso senhor o faça dar o peido-mestre...
Lembrei-me, nessa altura, do meu estimado Popper: não vale a pena pensarmos muito em quem nos irá governar, mas nos métodos mais eficazes para nos livrarmos de quem nos gere os destinos com arrogância e incompetência.
Nicolau Saião oferece texto de Mário Crespo

ÀS VEZES CHEGAM CARTAS

Umas trazidas pelos velhos CTT (velhos são os trapos...), outras pela Rede, a Net, a netezinha que, se nos irrita com tanta publicidade relativamente tola ou definitivamente palonça, também nos empolga com notícias de longe ou de perto. De perto do coração, digamos, ou da mente forjadora de conceitos e reflexões assaz fecundas.
Esta chegou-me de um amigo que há muito tempo não vejo mas que, volta e meia, me remete coisas de ponderar. Por vezes da sua própria lavra, outras vezes deste, daquele, daqueloutro publicista...
Ontem, já tarde na noite, mandou-me o texto que segue – e aqui partilho convosco a sua leitura:


Está bem...
façamos de conta


Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja.

Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

Mário Crespo
ENCRUZILHADA

Com o crescente descrédito dos três pilares do regime - o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial -, Portugal aproxima-se de uma encruzilhada.
Chegado esse momento (e o tempo está próximo), os portugueses - como comunidade - deverão escolher um de três caminhos:
1. Pressionar (seja de que forma for) as classes dirigentes no sentido da reforma radical do nosso regime e da nossa forma de governação, para que se instaure uma verdadeira Democracia;
2. Permitir que os corruptos e traficantes gestores da causa pública instaurem por aqui um Estado definitivamente "pós-democrático", autoritário e desrespeitador dos direitos e dos deveres dos cidadãos, tenha ele a face que tiver;
3. Entregar as chaves do país a quem nos queira governar, ou seja, consentir no suicídio da nossa independência política.
Continuar como estamos levar-nos-á a qualquer coisa parecida com a indiferença, primeiro passo na escada da anarquia.
Nicolau Saião

"O terrorismo está a vencer a batalha"


CARTA A UM CONFRADE

“O terrorismo é a acção de imprimir, mediante métodos cruentos ou outros o medo, o desespero e o abandono da decisão de resistência no adversário ou oponente” - General Belisário

Caro Xis

Como lhe prometi, apanho uns minutos para lhe enviar estas breves reflexões, que são efectuadas com estima e, também, muita preocupação, uma vez que como referiu num seu escrito Jacques Bergier, que foi membro da Resistencia Francesa e um resistente importante, "o terrorismo pode ganhar, caso aqueles que o enfrentam não o façam com determinação e lucidez".
No caso do terrorismo actual, verbi gratia o mais perigoso e actuante, o terrorismo muçulmano, infelizmente e depois de análises profundas e preocupadas a que tenho procedido, verifico que ele está a ganhar a batalha. E isto é assustador. Passo a explicar-me:

a) Talvez no terreno operacional a sociedade democrática e as forças oficiais que têm o dever de a proteger, tenham conseguido vitórias pontuais. Mas noutro plano, o plano da propaganda e da conquista interior, pela manha e aproveitando o laxismo que vai grassando nessas sociedades, eles estão a conseguir inegáveis vitórias, cujas causas e efeitos devem ser ponderados para se poder efectivar uma defesa eficaz. Caso contrário, a médio prazo - e já nem falo em longo prazo - eles vencerão.

b) O terrorismo, como é óbvio, não actua só no plano imediato, que se contrabalança mediante a preparação de boas e experientes, bem organizadas e bem equipadas forças de segurança. Ele actua num outro, que se diria secundário mas que é fundamental: na preparação do terreno, através de uma prática insidiosa levada a cabo por partidários seus que escavam a determinação do adversário: e eis que aparecem, com grande insistência, exigências absurdas - "direitos" que eles exigem nas universidades, na profissão, nos costumes quotidianos, mesmo já nos hábitos dos países que recebem a sua emigração por exemplo. E às quais a sociedade (onde buscam formar verdadeiros ghettos de privilégio) ou por cegueira produzida por uma falsa concepção de direitos democráticos, ou por laxismo proveniente de um "politicamente correcto" e um "multiculturalismo" mal entendidos, dá cobertura sem verificar que está, paulatinamente, a colocar a corda ao próprio pescoço.
Ou seja: numa sociedade democrática, saudável e real, deve haver CIDADÃOS que podem ser cristãos, judeus, budistas ou muçulmanos; e não cristãos, judeus, budistas ou muçulmanos que, se lhes apetecer, podem ser cidadãos...
Aqui reside o fulcro do problema. Esta é que é a fraqueza de base da nossa sociedade. E por isso ela está a perder a batalha.
Que dizer, por exemplo, ao deixar-se que (e neste caso falo dos muçulmanos, que são o perigo real e mais urgente) sempre sob a ameaça velada de que podem ser seduzidos pelos "extremistas", ou no mínimo ficar ofendidos (e daí?), se consente que em inúmeros casos eles reivindiquem ofender os Direitos Humanos mais elementares, com o pretexto que a sua religião lhes dá cobertura e acolhimento?
Esta é, por exemplo, a forma "pacífica" e realmente insidiosa, porque ardilosa, de criar pouco a pouco um terreno favorável a um domínio inegável e que NÃO DEVE CONSENTIR-SE. Pois, no fundo, o terrorismo não é mais que a fórmula violenta e expressa que assume o desejo de domínio mundial do Islão, QUE É COMUM E MESMO INSCRITA NO LIVRO SAGRADO, assim dito.
Não é democrática, porque visa suprimir e ultrapassar os direitos dos outros.
É assim que já se censuram, de forma ainda "cordata" de momento, mas bem real e efectiva, por exemplo as palavras de um cardeal, que no seu múnus tem o direito de alertar os cidadãos para os problemas que o islamismo está a pouco e pouco a INCREMENTAR (é disto que se trata). Claro, por enquanto mostram-se apenas magoados...Têm pouca força. Se fôsse por exemplo em França ou Inglaterra, basta ler-se a grande imprensa, haveríamos de ver...! (Vê-se a cada passo!).
E neste quadro não podemos esquecer (se o fizéssemos não passaríamos de simples tolos ou, no limite, pior que isso) o papel importantíssimo que têm tido as chamadas "quintas-colunas", em geral integradas por antigos partidários do Leste implodido, que levados pelo seu ódio ao Ocidente democrático transferiram a sua fidelidade para os Estados ou grupos islâmicos que, a seu ver, vão liquidar o "mundo burguês"...

c) Para se compreender o fenómeno crescente do terrorismo islâmico, tem de compreender-se o facto histórico que lhe está subjacente: a imposição do Califado.
Este é o cerne da questão. O terrorismo expresso, para o qual há ainda Leis, pode combater-se e está a combater-se, mais acertada ou inábilmente. Mas como combater a avançada insidiosa e que, bem vistas as coisas, consegue de maneira "pacífica" o que os outros buscam de forma mais brutal?
Mediante leis equilibradas, o Mundo Democrático e livre, sem ceder a chantagens, tem de dizer firmemente: "Pratiquem a vossa religião. Há liberdade para isso. Mas a sua prática não vos dá o direito de ultrapassarem os direitos humanos que tanto custaram a conquistar. A prática da vossa religião não pode consistir, nem consentiremos que se sobreponha, numa forma de obviar à prática da cidadania democrática. De contrário, é apenas um instrumento de pressão e subversão inadmissível!".
Caso não haja - e o tempo começa a esgotar-se - esta determinação inscrita em Leis sensatas, é só uma questão de tempo até ao domínio do Islão, de forma total e totalitária. Que é o que o terrorismo visa.
Pensar-se que vamos ser depois "suavemente tratados" pelos "moderados", é pura ilusão. Veja-se o que realmente sucedeu historicamente - e não através de contos de fadas - no domínio muçulmano...A bibliografia é abundante.
E porque - não me dirão? - haveremos nós de ter existir sob o calcanhar (que já se desenha em certos lugares) do ímpeto e leis islamitas?
Com que direito nos querem obrigar a viver no Império de Mafoma? Com o mesmo "direito" que, cá, lhes permite todo o proselitismo e, lá, condena praticantes da fé cristã a mortes ignominiosas?
Caso o Ocidente democrático não abra os olhos com sensatez, acabará mal. Em Byzancio sucedeu isso. Não queiramos repetir o erro. Pois é disto que se trata.
Confio em que leve a quem o puder ouvir a sua palavra clara e profícua. Lúcida e democrática.

Remeto-lhe o velho abraço do seu, de sempre
ns

(Também no Triplov)

Há visões que, sendo localizadas, podem servir como arquétipos ou como histórias de proveito e exemplo. "A arquitectura e o seu uso" e "Um comércio moribundo", publicados por mim no Arquivo do Norte Alentejano, entram quanto a mim nesta categoria. Por isso agradeço desde já a vossa leitura.