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CONVITE

Lançamento de livros
de José María Cumbreño
e Casimiro de Brito


Quarta-feira, 11 de Novembro, às 18:15, no auditório do Instituto Cervantes de Lisboa (Rua de Santa Marta, 43), será feita uma apresentação de dois livros de poesia bilingues.

Um deles, editado pelas Edições Sempre-em-Pé, intitula-se TEORIAS DA ORDEM, sendo o autor José María Cumbreño, que reside em Cáceres, Extremadura. A apresentação será feita por Ruy Ventura, que traduziu para português o original castelhano.

Será igualmente apresentado pelo Poeta espanhol Ángel Guinda um livro de poemas de Casimiro de Brito, também em versão bilingue, em que o texto original português é acompanhado de tradução em espanhol.

Estarão igualmente presentes os autores, José Maria Cumbreño e Casimiro de Brito.
A sessão é organizada por Edições Sempre-em-Pé e pelo Instituto Cervantes de Lisboa.
Agradecemos o seu interesse e a sua presença, bem como a eventual divulgação.


Edições Sempre-em-Pé

http://www.sempreempe.pt/

Lucilio Santoni

CORPO DE GUERRA

1 (até ao fundo)

Sobretudo de noite, os reflexos prateados excluíam a necessidade de uma conclusão, a iminência de uma conclusão. Mas os olhos rapidamente se dissolvem, se perdem nas cavidades do firmamento num atormentado abraço com a terra.
A luz deste dia não deixa imaginar um poder ser, nem um ser presente, nem um ter sido. Resta tão só um deslizar para o fundo, para buscar quem ainda não se transformou em sombra, silêncio puro.


2 (em exposição)

Se alguém viu a história dos vivos
separados da carne
transformados em ar
água terra e fogo
transformados no sal do mundo,
se alguém viu a história
pela primeira vez,
então pode encontrar também um corpo
exposto aos confins,
em exposição
para dar testemunho da própria vida infame.


3 (fogem)

É um ódio
que vem de outro tempo;
é um desejo que deriva dos séculos.
E agora mesmo eles se perderam,
Perderam a sua própria cidade sem nunca a possuírem.
Por todo o lado, a chuva, os camiões que viajam lentos,
o cansaço, o casaco pesado como um sudário.
Fogem.


4 (quatro)

E não fala
nada diz do seu tormento,
fechada numa língua cheia, pela metade,
de consoantes, confiando-se
à voz dos vingadores e enquanto sonha
delira no final da tarde
chama os mortos, para que venham
à sua festa. A sua respiração leve
é daquelas que deixam imaginar
a perda de tudo.


5 (o ódio)

Quando o sangue e a memória são uma única coisa
não faz falta cumprir a nudez, não faz falta
evitar a tortura, não faz falta salvar a alma.
Basta gritar “odeio todos esses rostos, odeio-os”.


6 (vós)

Fostes chamados
fostes chamados para produzir escombros
para viver o tempo da mentira e das sentinelas.
Assisti agora à corrida dos uniformes
na direcção do mar
também corrompido pelas cidades de areia.
Oh, as fugas… os regressos
as ruínas da primavera, o vidro
opaco que se quebra na mão do viajante antes de chegar à terra prometida.
Os vossos olhos voltarão ao horizonte, para não o verem,
numa inútil dor submersa pela etnia do pó.


7 (pai)


Não é justo que as coisas durem demasiado,
pensou enquanto olhava o desertor que não queria cair.
A claridade seca debaixo da ponte era quase acolhedora
e aquele corpo agitava-se, talvez pela primavera
ou talvez pelas balas que o preenchiam sob a pele.
Imaginou os milénios e os povos, e notava um doce langor
como se a matéria das estrelas lhe entrasse nas artérias.
Pai, recordo que também a ti te custava estar de pé…
Por que não se cai?


8 (oito)


Queimar-se no corpo de outro,
assim sem dar nas vistas
haverá decerto um motivo, um critério, uma razão
e no entanto sustenho a respiração para não chorar
quando a toda a volta não há mais do que aquele corpo imerso no furor
dos soluços. Os documentos queimados, oriente ocidente imenso
desorientado por um corpo e uma voz
que nunca soube de quem fosse ou que razão a mantinha calada.


9 (a brisa entre as oliveiras)

Recordais certamente quanto era triste a brisa entre as oliveiras
naquela hora precisa daquela tarde.
Afirmo, contudo, que a desejei
como por vezes se deseja um coágulo de sangue e de esperança,
Deus que fizeste deste reino um jardim
faz que chegue quanto antes a ressurreição da carne.
A minha boca empastada de palavras irá em procissão, todos os dias até ela
e fá-lo-ei de tal forma que as tuas obras venham em procissão até mim, ao meu corpo
que quer ressuscitar e nada lhe importa, nada mais.


10 (esgotada)

Não haveis visto nada da minha cidade.
Viestes, trouxestes comida e medicamentos, trouxestes armas,
mas nada haveis visto. Tentastes aliviar a nossa via sacra,
experimentastes o fel e a amargura, viestes dar-nos uma oferta régia,
mas não vistes nada.
Eu, senhores, reclinada sobre o flanco, esgotada
ao ponto de não me reconhecer, rogo-vos que não queirais cobrir
que não queirais esconder o meu corpo, para que todos possam ver, finalmente,
a cidade que me dá a alegria, a agonia e a páscoa dentro deste silêncio.


11 (noutro lugar)

Diz que vê, ali, debaixo daquela ponte, que vê os seus semelhantes
em caravana. Abandonam a cidade, seguindo as grandes estradas para norte
até ao norte do mundo. Diz que também ela queria partir
do que lhe resta, deixar aquele corpo, aquela memória imensa
não mais sentir o bafo dos sobreviventes. Diz que vê…
mas enquanto não observa, tem os olhos fechados sobre o tempo
que se esfarela. As perguntas da existência estão todas ali, com calma
se juntam para além do novelo dos sentimentos. Diz que vê
que intui o milénio que está lá fora, mas fora está a história
jogada nas barricadas, cheia de névoas e lendas;
há outro lugar infinito.


12 (doze)

Aqui se cumpre a minha história, ainda que a vida não queira partir, não possa partir. Começa agora o gotejar das palavras vazias, das horas sem sentido. Sinto-me a cair nas cavidades do ser, onde não há voz, onde a escuridão se abriu à escuridão e a terra à terra.


13 (nada mais)

No fim, nada mais. Continuo, porém, a viver, num tempo imprevisível, tão misterioso quanto o passado, nas carícias, e o futuro em que perco o sangue.



NOTA: Estes treze poemas de Lucilio Santoni, primeira parte de Corpo di guerra, livro publicado em Grottammare (Stamperia Dell’ Arancio), na Itália, em Outubro de 2002, serviram de base a uma obra musical homónima, divulgada pela “I CD del Manifesto”,

QUATRO POEMAS
DE ÁLVARO VALVERDE



Então, a morte


1

Na cabeça, palavras amargas;
palavras dolorosas
pelo seu peso de morte.
Nos olhos, tristeza.
E de súbito, ali,
numa esquina apertada da terra,
algo te reconcilia com o tempo.
Uma árvore devolveu-te a esperança.
Com ela regressou essa verdade,
para o resto sempre precária,
com que se pode justificar até a vida.
Com a visão humilde de um marmeleiro.


2

Junto desta cama de hospital,
utilitária e branca, em que agora
descansa o corpo doente do meu pai,
neste mesmo sítio onde agora
eu mesmo estou sentado,
esteve um dia ele
velando o seu.
Recorda-mo às vezes, lá pela noite,
quando apagam as luzes do corredor
e se ouvem os passos silenciosos
do pessoal de vigia
e a tosse do vizinho e o gemido longínquo
de alguém que sofre alheio
no quarto do fundo.
Em voz baixa, conta outras noites de insónia
semelhantes a esta,
ainda que ele não fosse então
o sujeito passivo dos meus inábeis cuidados
e somente o representante dessa força
que sem dúvida tiramos da fraqueza
para poder estar à altura
de tão penoso acontecimento.
Entre duas luzes,
com a respiração forçada do oxigénio,
enquanto altera as doses no conta-gotas,
penso em mim por momentos
e, sem querer,
vejo-me a mim mesmo
estendido nesta cama,
e, ao meu lado, sentado, como eu,
na mesma cadeira,
um dos meus filhos segurando
com muita força a minha mão.


3

Na realidade, não sei
se vamos ao encontro da morte
ou se provimos já da sua certeza.
Não me recordo, de qualquer modo, alheio
à sua larga sombra sigilosa.
Ali estava, no escuro, na enfermaria,
ao fundo do corredor, na penumbra
daquele mesmo canto em que agora
estou encolhido contra o tempo.
Estava nas palavras sussurradas
e estava nos silêncios clamorosos
e nos olhos tristíssimos e húmidos
dos meus pais voltando da igreja
sem outras explicações para além das naturais.
Estava ali, sem dúvida,
e sempre estivera
fazendo-me a mesma companhia
e sei perfeitamente como cheira
e a formas que adopta e reconheço,
como se fossem minhas, as suas mentiras.
Por isso tenho dúvidas se vamos morrer
ou de uma vez por todas deixaremos
de estar já nesta vida mortos.


4

Tudo me leva a ti; assim, esta tarde
aberta ao céu azul que sucedeu
ao irado negrume da tormenta,
sob esta luz que, mais do que vespertina,
me parece ofuscante e matinal,
quando atravesso o vale
e volto a Jerte, sem conhecer a razão,
seguindo não sei bem que raro impulso,
curva a curva, bem sabes, leito acima,
até às mesmas nascentes da vida.
É tudo igual, porém também diferente,
e me remete para ti. E as cascatas,
e os talhões e o rio e as cerejeiras
parecem ser olhados pelos teus olhos
e através deles ainda me falas
e voltas a explicar-me o importante:
sentir-se aqui feliz e rodeado
de quanto qualquer homem necessita:
a luz, o campo, a árvore, a montanha,
coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas
mas que nos confortam e nos salvam;
os seres e as forças desse mundo
solar onde vivias;
onde, para meu bem, comigo vives.


Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959) é autor de livros de poesia (Las aguas detenidas; Una oculta razón; Ensayando círculos; Mecánica terrestre), de ficção (Las murallas del mundo e Alguién que no existe) e de relatos de viagem (recolhidos em Lejos de aqui) – sendo considerado em Espanha um dos poetas mais importantes da sua geração. Os poemas aqui traduzidos pertencem à sua colectânea mais recente, Desde fuera, editada em 2008 pela Tusquets Editores (Barcelona) na sua colecção “Nuevos textos sagrados”.


Uma conversa entre poetas


por Pedro Maciel



Gerard Manley Hopkins (1844-1889) foi um inventor que revolucionou a linguagem poética, um dos precursores das rebeldias estéticas dos modernistas. O poeta-jesuíta não conheceu a fama em vida e nem esperou por reconhecimento, já que vivia em plena era vitoriana. Poems of G. M. Hopkins só foi publicado em 1918, vinte e nove anos após o falecimento do autor. O amigo e leitor-crítico Robert Bridges considerou estranha a linguagem de Hopkins e, por não compreender as inovações estilísticas do seu interlocutor, decidiu ignorar vários poemas.
Hopkins escreveu para Bridges alertando-o: “Se o poema lhe parece obscuro, não se atormente muito com o sentido, mas preste atenção às estrofes melhores e mais inteligíveis, como as duas últimas de cada uma das partes e as que narram o naufrágio...” O poeta se referia ao célebre poema “O Naufrágio do Deustschland” (poema místico de 35 estrofes), que narra um fato real, o desastre marítimo do navio “Deutschland”, ocorrido em dezembro de 1875, fazendo muitas vítimas, entre as quais cinco freiras da Ordem de São Francisco, exiladas na Alemanha. O poeta também insistia com seus leitores-críticos que o verso era “menos para ser lido que para ser ouvido”, e prossegue, “ler alto, pausadamente, numa recitação poética (não retórica), com largas pausas, ênfase nas rimas e sílabas marcadas...
Apenas em 1930, uma edição revista organizada por Charles Williams despertou interesse de críticos. Hopkins se importava apenas com seus escritos filosóficos. Determinou que estes fossem publicados na íntegra, temendo que as suas idéias filosóficas fossem distorcidas. Em relação à sua poesia, escreveu que “poderia fazer algum bem, mas se permanecesse desconhecida, nem por isso faria mal”.
Hopkins antecipa Joyce. Reinventa o idioma inglês, dando preferência ao vocabulário anglo-saxão em detrimento ao de origem latina; recupera a poesia celta, anterior ao início do Renascimento e da influência francesa decorrente da invasão normanda de 1066. Recria termos arcaicos e usa palavras germânicas. Inventa neologismos e redescobre a aliteração, a paronomásia e a assonância. A métrica e o ritmo são absurdamente modernos em Hopkins. “Sprugn rhythm” é o termo cunhado pelo poeta para designar seu novo ritmo. É um ritmo de pés variáveis e mesmo número de acentos. Na poesia inglesa contam-se pés e não sílabas. O pé varia de uma a quatro sílabas, cada um deles com apenas uma sílaba acentuada.
Segundo W. H. Gardner, o “sprung rhthm” de Hopkins revela “uma nova e eficaz fusão de ritmo e textura fônica”. As rimas internas e externas, as vogais, os ecos, as repetições fônicas criam uma orquestração de sons. Em carta de 1878 a Bridges, o poeta diz que “não há dúvida de que minha poesia vagueia sobre o plano da excentricidade... Mas tal como a ária, a melodia, é o que me atrai mais que tudo em música, e o desenho em pintura, assim o desenho, a estrutura ou o que estou acostumado a chamar inscape é o que acima de tudo busco em poesia...
A Beleza Difícil (Ed. Perspectiva), com introdução e tradução de Augusto de Campos, é um texto musical, composto como uma sinfonia. O que impressiona em Hopkins é a força do ritmo, os sons verbais e as imagens sonoras que criam uma linguagem sintaticamente criativa.
O universo poético de Hopkins desperta a empatia do leitor não só por se tratar de uma revolução estética, mas também por revelar um espírito sensível, aberto às angústias e tormentos dos homens. A poesia de Hopkins é uma fusão incomum de “espiritualidade e sensualidade”. O padre-poeta tinha preocupações sociais, como em sua poesia, e numa carta a Robert Bridges declarou que estava sempre pensando no futuro comunista: “de certo modo eu sou um comunista”.
Segundo o poeta e tradutor Augusto de Campos, os sons e ruídos do seu conflito interno fizeram com que Hopkins desafinasse “o coro do decoro vitoriano para ingressar na modernidade”. Augusto em sua tradução exemplar recupera a alma de Hopkins. Executa uma “tradução-arte”. Para a felicidade dos leitores, A Beleza Difícil apresenta uma afinada conversa entre poetas.

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To R. B.

The fine delight that fathers thought; the strong
Spur, live and lancing like the blowpipe flame,
Breathes once and, quenchèd faster than it came,
Leaves yet the mind a mother of immortal song.

Nine months she then, nay years, nine years she long
Within her wears, bears, cares and combs the same:
The widow of an insight she lives, with aim
Now known and hand at work now never wrong.

Sweet fire the sire of muse, my soul needs this;
I want the one rapture of an inspiration.
O then if in my lagging lines you miss

The roll, the rise, the carol, the creation,
My winter world, that scarcely breathers that bliss
Now, yields you, with some sighs, our explanation.

( G. M . Hopkins, 1889)


A R. B.

A alegre luz que gera a idéia, a força pura,
Viva e voraz, como uma chama de estopim,
Brilha uma vez mas dura pouco, e ainda assim
À mente muda em mãe de um canto que perdura.

Nove meses, ou mais, nove anos ela o apura
E dentro o gesta, gasta, gosta e alenta, enfim:
Viúva de uma visão perdida, vive; com seu fim
Sabido, a mão perfaz, nunca mais insegura.

Fogo maior, senhor da musa _ uma só graça
Pede meu ser: o arroubo de uma inspiração.
Mas, se por minhas lentas linhas já não passa

A vaga, o vôo, a voz, o canto, a criação,
Meu mundo-inverno, onde esse júbilo não grassa,
É, com alguns suspiros, nossa explicação.



Publicado no caderno “Idéias/Livros”, Jornal do Brasil.



Pedro Maciel é autor do romance A Hora dos Náufragos, Ed. Bertrand Brasil
Jules Morot

COMOÇÃO DE NATAL

Sou um espião mais do que perfeito
os meus olhos as minhas mãos a minha silhueta
tudo o que aprendi tudo o que esqueci
tudo quanto vi Senhor depois da vossa morte
até as colheres de madeira e o prato rude
ao jantar
no começo da noite
mesmo as peúgas com buracos do meu primo
mesmo a camisa esfarrapada do meu pai
e os alegres tristes olhos da minha mãe
e quanto compramos sem pagarmos
e sem que alguém o pague

Tudo isso guardo no meu coração.

Nas noites nos dias da minha adolescência
quando me sentava a meditar
na pedra pintada de branco
no meio da horta da pequena Armandine
que me oferecia castanhas cozinhas no tempo de Outono
e me limpava a cara com um lenço de linho
olhando o meu suor de sangue.

Tudo isso é o meu tesouro
para si caro Senhor para os vossos anjos
para os vossos assistentes na floresta celestial
para os notários do vosso augusto Pai
sem esquecer o pequeno que vós fostes
e mesmo o mendigo que vos ajudou
a subir para o burrinho
que vos transportou até à porta Susa
naquele dia da Páscoa.

Perdoai-me assim, Senhor,
as minhas faltas
as minhas súbitas alegrias
os meus estranhos silêncios

e todos os poemas que ficaram só no pensamento.

(Tradução de RV)

BRIAN STRANG


número oito

começar de novo de outro ponto sem qualquer controlo
sobre as forças que te rodeiam

rostos carregados encostam à tua cápsula uma espécie de lágrima
no tecido da tua existência diária encontra um lugar

para ti natural acolhe os factos tal como são vê que por detrás
dos rostos estão pessoas esfoladas até aos ossos como tu

enquanto nos aproximarmos do último palco procura ligar-te
com os outros nos olhos esperando encontrar alguém como

aquele tabuado branco ao sol e uma árvore oscilante
cedros ou ponderosas tornados monumentos ou

tectos ladrilhados o brilho dos carris do eléctrico trabalha
sozinho uma ficção fica mas mente nos tijolos suspira

mencionando apenas as oportunidades arrancadas e não te deixarás
subir numa bolha de ganância ou cair numa exausta queda

de poentes ou afogar no fundo do oceano coberto
por um enleio de obsessão e as censuras ficam tão libertas

e perguntam se a tua sorte será perdoada comendo ou recusando comer
dando crédito às figuras transparentes que atravessam

a luz duma vela no teu espaço vital sentindo o medo
a atravessar pela porta aberta

tatuando vitalidade na tua pele não conseguirás
mover de lado os enleados e trepadores ossos perdidos

(In Incretion, Spuyten Duyvil, New York, 2003; tradução de RV. Brian Strang, autor também da ilustração, coordena o blogue Sorry Nature.)

ÁNGEL GONZÁLEZ (1925-2008)

Soube da sua morte ontem, através do blogue do poeta Álvaro Valverde, que assim escreveu:
"Ha muerto uno de nuestros mejores poetas del XX. Como mi amigo Josemari, lo tuve como uno de mis maestros, aunque con el tiempo dejara de ser uno de mis autores de cabecera. Con todo, libros como Tratado de urbanismo o Muestra... siempre formarán parte de la biblioteca de mi vida. Tampoco puedo olvidar sus textos sobre Machado y Juan Ramón.Me encontré con él en algunas ocasiones pero sólo llegamos a saludarnos. La primera, en presencia de Luis Muñoz, en la fiesta del Loewe del 92, en el Círculo de Bellas Artes de Madrid. De su biografía, destacaría su paso por la escuela, entre las nieves de sus montañas asturianas, con la enfermedad y la postguerra a cuestas. Aníbal Núñez me contó que la poesía de González fue una referencia fundamental en sus comienzos. En el libro que le dedicara Debicki (en la memorable colección Los Poetas, de Júcar), me encuentro un recorte de El País donde se anunciaba su boda con Susana Rivera. Entre los asistentes, Dulce Chacón. Era, según creo, el año 90."
Foi com tristeza que recebi a notícia. Era um dos poetas de Espanha que me apetecia ler com frequência. Aqui ficam, em jeito de homenagem, três poemas que dele traduzi:



Para que eu me chame Ángel González

Para que eu me chame Ángel González,
para que a minha existência pese sobre a terra,
foi necessário um largo espaço
e um longo tempo:
homens de todo o mar e toda a terra,
férteis ventres de mulher, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
noutro corpo novo.
Solstícios e equinócios alumiaram
com sua cambiante luz, seu variado céu,
a viagem milenária da minha carne
escalando pelos séculos e pelos ossos.
Da sua passagem lenta e dolorosa
da sua fuga até ao fim, sobrevivendo
a naufrágios, aferrando-se
ao último suspiro dos mortos,
já não sou mais do que o resultado, o fruto,
o que fica, apodrecido, entre os restos:
isto que vedes aqui,
apenas isto:
um escombro tenaz, que resiste
à sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a sítio algum. O êxito
de todos os fracassos. A enlouquecida
força do desalento...

(in Áspero mundo, 1956)



Cidade zero

Uma revolução.

Depois, uma guerra.

Naqueles dois anos – que eram
a quinta parte de toda a minha vida –
eu havia experimentado sensações distintas.

Imaginei mais tarde
o que é a luta na qualidade de homem.
Mas para mim, criança,
a guerra era apenas:

suspensão das aulas na escola,
Isabelita em cuecas na cave,
cemitérios de automóveis, andares
abandonados, fome indescritível,
sangue descoberto
na terra ou nas pedras da calçada,
um terror que durava
o mesmo que o frágil rumor dos vidros
depois da explosão,
e a quase incompreensível
dor dos adultos,
suas lágrimas, seu medo,
sua ira sufocada,
que, por alguma ponta,
entrava na minha alma
para desvanecer-se logo, rapidamente,
perante um dos muitos
prodígios quotidianos: descobrir
uma bala ainda quente,
um incêndio
de um edifício próximo,
os restos de um saque
– papéis e retratos
no meio da rua...

Tudo passou,
é tudo confuso agora, tudo
menos aquilo que apenas entendia
naquele tempo
e que, anos mais tarde,
ressurgiu dentro de mim, então para sempre:

este medo difuso,
esta ira repentina,
estas imprevisíveis
e verdadeiras vontades de chorar.

(in Tratado de urbanismo, 1967)



Velho tapete

Toda a gente era pobre naquele tempo,
todos entreteciam
sem o saber
– e às vezes sorriam –
os fios de tristeza
que formavam a trama da vida
(inconsistente tela, mas
que fio teimoso, a esperança).
Umas linhas
de amor douravam
uma ponta daquele tapete sombrio
na qual eu era um menino que corria
não sabendo de quê ou para onde,
talvez para o espaço luminoso
que urdiam incansáveis
as obstinadas mãos amorosas.

Nunca cheguei a essa luz.
Quando ia alcaná-la,
o tempo, mais veloz,
já a tinha apagado, com a sua pátina.

(in Otoños y otras luces, 2001)


Nota: Qualquer das três traduções apresentadas foi publicada inicialmente na antologia 20 Poetas Espanhóis do Século XX, organizada por Antonio Sáez Delgado e por mim vertida para a nossa língua (Coimbra, Alma Azul, 2003), na qual se incluem ainda poemas de Miguel de Unamuno, Antonio Machado, Juan Ramón Jiménez, Pedro Salinas, Jorge Guillén, Vicente Aleixandre, Federico García Lorca, Luis Cernuda, Rafael Alberti, Miguel Hernández, Blas de Otero, José Hierro, José Ángel Valente, Jaime Gil de Biedma, Francisco Brines, Claudio Rodríguez, Pere Gimferrer, Antonio Colinas e Leopoldo Maria Panero.
NOUTRA LÍNGUA

É estranho encontrarmo-nos noutra língua. Mesmo assim, nessa duplicação poética, vislumbramos uma imagem que não nos é completamente estranha.
Cada vez que estabeleço ligação com este número (o sexto) da Alice Blue Review sei que encontro outro (transfigurado no inglês de Brian Strang) e que, simultaneamente, me encontro a mim mesmo.
ARTURO PÉREZ-REVERTE


Azeite, cultura e memória


Acabo de receber o primeiro azeite do ano, que me enviaram uns amigos: óleo de azeitona virgem, decantado e limpo, depois da sua colheita há um mês ou dois. Chegam-me sempre por estas alturas alguns litros engarrafados e enlatados que entesouro na despensa, e que irei gastando, a pouco e pouco, durante os próximos meses, com muita mesura e respeito. E é curioso. Sou exactamente o contrário de um gourmet. Como e bebo o que é preciso. Mas antes, com a juventude e as pressas do trabalho e de outras realidades, ainda dava menor valor às coisas da gastronomia. Tomava azeite com torradas, ou colocando-o numa salada, ou com ovos fritos, sem reparar demasiado nele. Quem, como eu, come quase de pé, sabe do que falo. O que se passou, a pouco e pouco, com o tempo e com a calma, quando olhar em volta e para trás começa a ser proveitoso, é que comecei a estar a atento a certos matizes. A valorizar coisas que antes me passavam completamente ao lado. No que ao azeite diz respeito, foi decisiva a intervenção do meu amigo e compadre Juan Eslava Galán, que é uma autoridade azeiteira – no bom sentido da palavra –. Isto não significa que me tenha tornado num perito; mas é verdade que agora, quando abro uma garrafa ou uma lata e ponho a correr um fio desse líquido aromático, dourado e transparente, sei muito bem o que tenho por diante. E encanta-me.
Não se trata apenas de azeite, nem de comida, nem de cozinha. O óleo de azeitona faz parte não somente da nossa mesa, mas da memória, da cultura e até da verdadeira pátria, se entendermos assim esse lugar antigo, generoso, chamado Mediterrâneo: essa buliçosa praça pública onde tudo nasceu, em torno de águas azuis pelas quais já viajavam, há uns dez mil anos, naves negras com um olho pintado na proa. Falo do lago interior que nos trouxe deuses, heróis, palavra, razão e democracia. Do mar de entardeceres cor de vinho e de margens salpicadas por templos e oliveiras, onde se fundiram, para iluminar a Europa e o melhor pensamento do Ocidente, as línguas grega, latina e árabe. O cadinho de onde sairá o espanhol que hoje falam quatrocentos milhões de pessoas no mundo. Falo do mar próprio, nosso, que nunca foi obstáculo, mas caminho por onde se espalharam, fundindo-se para criar o que somos, Talmude, Cristianismo e Islão. Não é por acaso que ainda hoje os povos bárbaros – filósofos, escritores e cientistas não alteram o conceito histórico, pois nunca o teriam sido sem a mãe alimentícia – continuem a fritar em banha ou margarina.
Julgo que aqueles que qualificam, sem qualquer matiz, o acto de comer como um acto cultural equiparável à visita a um museu, são uns calhaus e uns simplórios. Sobretudo se observarmos certos comensais: a sua conversa, as suas maneiras e até a sua forma de se refastelarem na cadeira. A cultura nada tem que ver com eles, engulam carne do lombo ou mastiguem uma página dos diálogos de Platão. Mas é verdade que alguns aspectos da gastronomia têm muito a ver com a cultura. Saúde e cozinha à parte, consumir azeite não é um acto banal. É, também, participar num rito e numa tradição seculares, formosos. O currículo desse belo líquido dourado é impressionante: sumo do fruto da oliveira – a seitún árabe – e do trabalho honrado e antigo do homem, já fazia parte dos dízimos que o Livro dos Números recomendava reservar para Deus. Também se utilizava na consagração dos sacerdotes e dos reis de Israel, e mais tarde ungiu os imperadores do Sacro Império e os monarcas europeus antes da sua coroação. E em sociedades com origem cristã, como a nossa, o azeite esteve presente durante séculos tanto na unção do nascimento como na extrema-unção da morte. A costa mediterrânea está pejada de ânforas oleárias de inumeráveis naufrágios, e nos velhos textos abundam alusões: o Deuteronómio chama à Palestina terra de azeite e mel, Homero menciona o azeite na Ilíada e na Odisseia, Aristóteles aponta o seu preço em Atenas, e Marcial, que era romano e hispano – essa Hispânia que alguns imbecis negam que alguma vez tenha existido –, põe nas nuvens o azeite da Bética. Assim, por uma vez, permitam-me um conselho: se querem desfrutar melhor do azeite em cada dia, pensem um instante, quando o utilizem, em tudo o que significa e em tudo quanto é. Vertam-no então com muito cuidado e com muito respeito, procurando não derramar uma gota. Seria malbaratar a nossa própria história.

(in No me cogéreis vivo, 2005; tradução de RV)