O bisneto de Frankenstein

Aquele senhor de olhar alucinado, de conspícuas barbaças na face, o cómico-trágico que as “eleições” iranianas deixaram presidente da “pobre Pérsia” como dizia Nostradamus, alegrou novamente os cretinos com outra cházada (passe o termo) perfeitamente à altura doutras tiradas anteriores suas.
Desta vez quer que os judeus se mudem para o Alaska ou, caso sofram, acho eu, de reumatismo e constipação, pelo menos para a Europa – lugar onde aliás, segundo o mesmo fulano, nunca ninguém lhes fez mal. De caminho informou os mais distraídos que sim senhor, visa arranjar um punhado de bombas nucleares (o que não será decerto para ir aos pardais).
Para minha tranquilidade psicológica, urge dizer que na blogsfera os comentadores mais sensatos e capazes, de Eduardo Pitta (“da literatura”) a José Cartaxo (“Viagens em terra alheia”) souberam articular o tom apropriado para efectivarem textos adequados à situação.
Há que, a exemplo de Michel Houllebecq, não ceder a chantagens de asseclas ou familiares do “politicamente correcto” e dizer com galhardia: “Quem anda a provocar um choque de civilizações, ou pelo menos a pôr-se a jeito para uma bela trepa, são os ulemas e seus discípulos, escorados por fora em jeito de ‘criados do médico louco’ pelo rebanho de ‘revolucionários profissionais’ que esperam que eles os vinguem do tombo que deram a Leste”.
Já se percebeu que os apaniguados dos mullahs mais tarde ou mais cedo vão ter de levar com a bombita nas narinas. Fingir que isto é ficção-científica é levar de facto a cegueira demasiado longe.
Mas esta rapaziada simultaneamente sinistra e inquietante ainda não percebeu que com gente daquele perfil não se pode jogar a feijões? Hein?

Nicolau Saião
(c/ ilustração de Manuel Huerta, Chile)

Vozes do Brasil

FLORIANO MARTINS


Por trás da memória


Resplenda um mito, seu nome vago.
Manchas do ser, fuligem, contemplação.
Reino fugaz de formas, fulgor mutante.
A sombra concentrada na memória
define a cartografia do abismo, queda
abismada pelo equívoco da matéria.
Arquivo de sombras, zelos e fraudes,
a imagem duplica-lhe a horda de vultos,
errância fantasmagórica de conceitos.
Não importa Klee ou Bacon, anotações
sutis do assombro. Da própria cauda
cuida a memória, Uroboros regurgitada
a cada confronto com a matéria do ser.



(Ilustração de Hélio Rôla)
POETAS NOVOS DE PORTUGAL

PEDRO GIL-PEDRO


Pendem
nas leiras – um arado que cega

à cabeça.

no fulcro
da ira
fecundam os crivos da manhã.

e:
ganchos de pureza –

as mulheres
levantam-se como um dedo aberto

nas traves do silêncio.


*****


uma corola de obscuridade

o semeador entrelaça as mãos e o corpo
nos instrumentos da ira e propõe-se

enfim

a lascar o silêncio
por fora

e por dentro

até à fulguração da pedra.


*****


o semeador levantou alto a mão
e respirou a pedra como se a semeasse

as mulheres olhavam-no em sobressalto
como animais de silêncio nos prumos do estio.

e só então
o ciclo da chuva nos teares.


Pedro Gil-Pedro (Sesimbra, 1973) é o pseudónimo de José Pedro Francisco. Trabalha em Lisboa e publicou Animais Cheios de Movimento no Inverno (Quasi, 2000), de onde se retiraram os três poemas que aqui divulgamos.

As mortes exemplares
(texto de Nicolau Saião)

Os números aí estão, insofismáveis, com a dureza e a naturalidade próprias da amarga verdade: o distrito de Portalegre é a segunda região da Europa com mais elevada percentagem de suicídios. Só é ultrapassada por Beja, essoutra região desprotegida de Portugal.
Números divulgados pela Associação de Estudos Estatísticos, corroborados por organismos da União Europeia, abrem o pano de um triste cenário para quem tem o hábito de ler periódicos daquém e dalém mar.
E aí está a região chave do nordeste alentejano, mais uma vez, a ter o lamentável privilégio de se ver citada por razões negativas.
Razões? São muitas, desde o recalcamento psicológico-sexual propiciado pela pressão duma religião mal-assimilada e nos limites da medievalidade até aos preconceitos provindos duma vida de relação atabafante e mesquinha, com o espectro da debilidade económica e da falta de meios sempre no horizonte: onde o comércio e a indústria não conseguem ir além da ronceirice requentada, só quebrada pela prosperidade das grandes superfícies, onde se encara frequentemente como cultura a efectivação de acções para entreter e lançar poeira nos olhos; e se tenta colonizar os espíritos mediante sessões que não deixam resíduo, que nada criam e nada proporcionam de durável, buscando transfigurar medíocres boas-bocas em “génios por via administrativa”…
Onde os que se rebelam contra a impostura são em geral marginalizados e substituídos por gente sem talento e frequentemente sem ética.
Onde o turismo, apesar das encenações a que alguns se entregam para “deitar milho aos pombos”, alcandorando-se quiçá a prebendas, não anda nem desanda. Ou antes, sarabanda…
Que o perímetro desta região está de facto doente, eivado de neuroses sociais onde aflora o “discreto” desprezo pelo cidadão por parte de organismos de segurança, violências oficiais subterrâneas e desvigamentos socio-económicos, infelizmente já o sabíamos. Agora aí está preto-no-branco, para nosso desgosto, nossa vergonha - e falta dela nuns tantos.
Mas que fazer quando os organismos médicos são entidades persistentemente anquilosadas, nalguns casos até com gritantes fracturas no seu existir? Quando as "forças vivas" olham mais para o umbigo que para o bem-estar dos cidadãos a quem por vezes hostilizam quando não vergam o pescoço à canga com que habitualmente tentam jungi-los? Quando certas entidades espirituais-clericais avalizam a ignorância e substituem o esclarecimento e a autêntica vivência religiosa por actuações visando a permanência de teimas e de escleroses mais de cunho beato-falso que filho do legítimo cristianismo digno do século em que estamos?
Diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Mas o pior mesmo, segundo creio, é o que tenta que os outros não vejam.
Pela minha parte acrescentarei que, mais que aos obstinados, a culpa de situações assim cabe aos que tentam substituir-se à vida clara, ao interesse dos concidadãos - para continuarem a seroar nas suas confortáveis posições extáticas, oportunistas e sectárias ainda que à custa de um ambiente ilegítimo e suicidário.
Que o “Deus das pequenas coisas”, como dizia Arundhati Roy, nos ajude neste período pré-natalício…
MEMÓRIAS
DE UM POETA COMOVIDO

Artur Domingos Garcia era um poeta humilde. Humilde porque durante a sua existência esteve sempre próximo do húmus, da terra; humilde porque escreveu sem quaisquer pretensões. Desejou apenas deixar aos seus descendentes o registo simples de alguns factos da sua vida, das vidas que presenciou, da sua maneira de olhar o mundo.
Foi através de uma sua bisneta que tomei contacto com o caderninho onde registou os seus textos. Alexandra Costa, então minha aluna na ESE de Portalegre na cadeira de Literatura Oral e Tradicional, trouxe um dia para uma das sessões o pequeno volume onde Artur Domingos Garcia registou ao longo dos anos o que ia escrevendo. Constituído por vinte e oito folhas azuis pautadas, intitula-se (corrijo a ortografia) Dicionário de uma Família Pobre de Pai Para Filhos. O autor, nascido a 27 de Fevereiro de 1901 em Gáfete (Crato), passou grande parte da sua vida em Benavila (Avis), localidade onde veio a falecer no dia 22 de Julho de 1992. Sabia escrever, mas com muitas dificuldades, compreensíveis, tratando-se de um trabalhador rural. Não obstante, devemos integrá-lo no domínio da Poesia Oral ou Tradicionalista (a que alguns erradamente chamam “popular”).
Emprestado o caderninho, fotocopiei-o com autorização da família. Li-o, depois, com alguma emoção – sentimento que não pude evitar perante a conservação de memórias e de visões do mundo, levada a cabo por um homem simples que tão pouco desejou para si. A dado passo, Artur Domingos Garcia auto-intitula-se “poeta comovido”. Comovido guardo eu agora esta verdadeira relíquia – que aqui trago ao conhecimento dos leitores.
As primeiras páginas do manuscrito estão escritas em prosa. Relatam alguns episódios da vida pessoal e conjugal do poeta e, ainda, acontecimentos memoráveis da época em que viveu, como o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941. Dirigindo-se à filha, sua destinatária, escreve: “Este ano [...] foi um ano terrível para os que se encontravam vivos; não nos bastava uma Guerra Europeia prestes a ser mundial se não agora mais uma guerra natural”. O último registo foi escrito em 25/11/1982, data em que chora a morte de sua mulher.
A parte poética apresenta temas variados. Desde os “Frutos dos 25 de Abril”, a relatos de mortes e suicídios, passando por factos da história de Benavila, pela enumeração dos heróis e anti-heróis de Portugal, por críticas aos que instrumentalizam a figura de Cristo, etc.. – tudo vertido em modelos versificatórios tradicionais. De entre os poemas deste autor que se apresenta sempre como um democrata (situação perigosa numa época em que estes eram perseguidos), revestem especial interesse as suas reflexões sobre a II Guerra Mundial, que apresentou em duas composições (“artes de poesia”, como lhes chamava). Numa delas, ainda actual, afirma (e assim termino):
Com repúblicas e monarquias, / Assim vamos passando os dias, / Vivendo assim iludidos. / Em guerra vamos passando, / Por baixo do fogo chorando, / Uns já mortos, outros feridos. // Essas grandes democracias / Combatem todos os dias / Contra esses ditadores, / Porque na verdade porém / Deles só guerra nos vem, / Fome, lágrimas e dores. // [...] // Mal empregada Ciência / A custo e com paciência / Que hoje se está cultivando. / Só se emprega em maquinismo / Pra nos trazer o terrorismo / Para os inocentes ir matando. // Essas grandes construções / Tanto em barco como aviões, / Não tem fim o seu limite. / Afinal o que é que fazem [?] / A morte à gente nos trazem, / Construção de dinamite. // Maldita guerra afinal, / Que se torna universal. / Achando pouco a Europa, / Por toda a parte se grita, / Só se vê gente aflita, / Tanto civis como tropa. // [...] // Acabai com o armamento / Todas as nações ao mesmo tempo, / Sejam iguais as bandeiras. / Tenham-nos uma amizade, / Com tanta solidariedade / Com os irmãos de Além Fronteiras. // Esse grupo de vilões, / Ministros e patrões, / Esses que nada produzem. / Com a sua instituição, / Sem alma nem coração, / À miséria nos conduzem. // [...]