Tradição Oral
[ESTA NOITE QUE HÁ-DE VIR]
Esta noite que há-de vir
Foram-me os ladrões ao monte
Roubaram-me o que eu não tinha
Deitaram-me fogo à fonte
Tenho tosse nas orelhas
Dor-de-dentes no cachaço
Amargam-me as sobrancelhas
Não vejo nada de um braço
(recolha de RV em Carreiras, Portalegre)
NOVOS COMPANHEIROS
Neste início de ano, resolvi incluir na lista de links alguns companheiros de blogosfera a que vale a pena estar atento. Podem clicar ao lado, no respectivo nome:
Sesimbra e Ventos (de Pedro Martins)
Poesia & Lda. (de João Luís Barreto Guimarães)
A Grolha e Nenhuma Palavra nos Salva (de Rui Almeida e Rute Mota)
Neste início de ano, resolvi incluir na lista de links alguns companheiros de blogosfera a que vale a pena estar atento. Podem clicar ao lado, no respectivo nome:
Sesimbra e Ventos (de Pedro Martins)
Poesia & Lda. (de João Luís Barreto Guimarães)
A Grolha e Nenhuma Palavra nos Salva (de Rui Almeida e Rute Mota)

Palavras que chegam com o vento…
(texto de Nicolau Saião)
No século passado – tão perto…mas onde isso já vai! – André Breton e outros poetas deram a lume uma espécie de sondagem sobre o estado de vida sexual da rapaziada do seu tempo. Escusado será dizer que tal facto provocou uma bela ventania no país da pornográfica burguesia francesa. Habituados a bordéis (falemos claro: habituados a uma mentalidade em estilo “maison de dames”) a intelectualidade francesa mais engravatada ficou algo enxofrada devido à opinião do autor de “Claire de Terre”, que sem papas na língua afirmou: “Sonho com o seu encerramento. É um lugar de hipocrisia e submissão onde tudo se paga!”.
Daí para cá, a coisa incrementou-se: as casas de putas (vai à portuguesa, para ter um sabor mais adequadamente rasca, os leitores/as mais pudibundos que me perdoem) tornaram-se um dos negócios mais propiciados pelo capitalismo selvagem, que tudo vê pela óptica do lucro e cuja hipocrisia permite, por exemplo, que se marginalizem e persigam homossexuais ou outras pessoas de orientação sexual menos académica mas, por outro lado, se incentive o “amor” mercantilizado.
Então não se está na economia de mercado?
Junto se dá, com relativo divertimento, uma visão cristalina do ambiente que os surrealistas nunca se atreveram a imaginar – mesmo nos seus sonhos mais esvoaçantes…

CARTA (ABERTA)
AO MENINO DEUS
(com pintura de Josefa d' Óbidos)
Senhor,
Como sabes, por mais voltas que dê à minha memória, não consigo encontrar um momento em que tenha acreditado no “Pai Natal”. A minha infância pertence àquele tempo em que os nossos pais ainda nos diziam que eras Tu quem punha junto do presépio as poucas ofertas que recebíamos. É certo, só mais tarde soube o quão pouco valia aquele velho barbudo, inventado por uma empresa americana de refrigerantes, a partir da boa memória de Nicolau, esse Teu servo generoso que deve dar voltas no seu túmulo em Bari quando observa o boneco ridículo em que o transformaram.
Não acreditando nele, só poderia dirigir esta carta a Alguém em quem creio cada vez mais. Deves estranhar epístola tão tardia... Mas para mim a comemoração do Teu nascimento só termina com o dia da Tua epifania, que nós, por comodidade, chamámos “Dia de Reis”. Além disto, qualquer hora é adequada para falar Contigo – embora, por vezes, preferisse ouvir mais o que tens para me dizer (mas o ruído à minha volta é tanto, certos dias...).
Estamos no primeiro dia do ano. O que passou não foi famoso – mas, ainda assim, tenho a agradecer-Te o muito de bom que me/nos foi concedido. Neste recomeço do tempo, não resisto a deixar na Tua mão alguns pedidos. Sei que não precisaria de fazê-los. Melhor do que qualquer um de nós, conheces as necessidades do Teu povo, que tão surdo anda às Tuas palavras... Mas, sabendo que abraças toda a humanidade, com o carinho de Criança Divina que nos ajuda a levar o peso da vida, sobretudo quando não a compreendemos, ouso expressá-los aqui.
Peço-te, antes de mais, que ilumines o espírito dos Homens (entre eles, especialmente quantos acreditam em Ti, com maiores ou menores responsabilidades na Igreja) para entendam e ponham em prática a mensagem que inspiraste ao nosso papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz: “A busca autêntica da paz deve partir da consciência de que o problema da verdade e da mentira diz respeito a cada homem e mulher e aparece como decisivo para um futuro pacífico do nosso planeta”.
Depois, gostaria que nos ajudasses a entender a diferença entre o acessório e o essencial. Como sabes, à conta de um materialismo que ninguém tem conseguido travar (seja na sua expressão capitalista selvagem, seja dentro de sistemas ditos “alternativos”, que se revelam tanto ou mais perigosos do que o primeiro), estamos mergulhados numa civilização que promove o gozo egoísta, mas se esquece de edificar seres humanos dignos e, sobretudo, felizes. Todos temos culpa: uns por cegueira, outros por maldade, outros por passividade... Lembra-Te de nós, sobretudo daqueles que andam mais perdidos, desesperando ou procurando outros caminhos que apenas conduzem à morte corporal ou espiritual.
Português que sou, não posso deixar de solicitar a Tua atenção para que nossa caminhada possa mudar de rumo. Por causa da nossa desorganização e teimosia (miopia?) na leitura dos sinais dos tempos, andamos meio perdidos. Tentamos arranjar alegrias momentâneas (o futebol e outras realidades), “salvadores da Pátria” que nem a si próprios se salvam, mas a felicidade anda arredada das nossas portas. Para começar, se puderes, faz com que nas próximas eleições não ocorra uma espécie de amnésia colectiva. Depois, ilumina aqueles que nos governam (desde os ministros aos presidentes de Junta) para que façam obra em benefício dos seus semelhantes e não em benefício próprio ou da sua carreira política. Desejo ainda que a nossa Escola promova a responsabilidade e a exigência – para que o conhecimento e a ética sejam instrumentos ao serviço da dignidade e da felicidade humanas – e que a Justiça seja justa para todos (todos, mesmo...).
Perdoa-me por chamar assim a Tua atenção, expressando aquilo que anda há muito no meu pensamento. Mais do que tudo, desejo que seja feita a Tua vontade, pois já nos ensinaste que os Teus caminhos são por vezes insondáveis. É que há sempre duas hipóteses: conservar a árvore que vai crescendo, mesmo doente; ou deixar que ela arda, para que a sua cinza fertilize uma nova planta.
Humildemente,
Ruy
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