OS MELHORES LIVROS DE 2005

Desculpem-me aqueles que empinaram as suas listas de preferências com carinho legítimo pelos livros, mas - com o devido respeito - esta coisa de andarmos a publicar coisas como "Os Melhores Livros de 2005" (veja-se o Mil Folhas de sábado passado) faz-me sempre lembrar o conto tradicional "Frei João Sem Cuidados", naquela parte em que o moleiro (disfarçado de frade) responde assim a um dos enigmas postos pelo rei:
"Deseja Vossa Majestade saber quanta água tem o mar?... Pois bem, para que possa responder-lhe com rigor, terá que mandar os seus súbditos tapar todos os rios e ribeiras que nele desaguam. Só assim saberei medir quanta água tem o vasto mar... Sem isso, nada feito!"
De igual modo, a minha resposta à pergunta "Quais são os melhores livros de 2005?" será sempre esta:
"Para que pudesse responder-vos, amigos, teria que ler, pelo menos, todos os volumezinhos que, na nossa língua, vieram a lume no ano que se finou. Como isso é impossível (pelo menos para mim... talvez haja super-homens que o consigam...), fico calado - porque, convenhamos, o calado vence tudo... Não gosto de injustiças. Ponto final!"
RAINER MARIA RILKE


INICIAL

Dá sempre a tua beleza
sem cálculo e sem palavras.
Calas-te e ela diz por ti: Sou.
E vem com múltiplo sentido,
vem finalmente sobre cada um.

(in O Livro das Imagens, 1902)


* * * *


A última casa desta aldeia está
tão só como a última casa do mundo.

A estrada, que a pequena aldeia não detém,
prolonga-se lentamente pela noite fora.

A pequena aldeia é só uma passagem,
cheia de medos e pressentimentos, entre duas amplidões,
caminho ao longo das casas, em vez de pontão.

E os que deixam a aldeia jornadeiam longamente,
e muitos morrem talvez pelo caminho.

(in O Livro da Peregrinação, 1901)


PS - Com a publicação destes dois poemas de Rilke, traduzidos por Paulo Quintela, "Estrada do Alicerce" homenageia humildemente essa figura ímpar da Cultura Portuguesa, a quem tantos devem e que tão maltratada foi na sua existência terrena, nomeadamente pela instituição universitária.

CRIAÇÃO DO HOMEM
(no segundo Livro de Henoc)

"No sexto dia dei ordens, usando a minha sabedoria para dar origem a um ser humano a partir dos sete elementos do universo. Em primeiro lugar, a carne foi retirada da própria terra. Em segundo lugar, o sangue foi obtido a partir do orvalho e do Sol. Em terceiro, formaram-se os olhos a partir das profundezas dos oceanos. Em quarto lugar, construíram-se os ossos a partir da pedra. Em quinto, a razão derivou dos anjos, em todos os seus movimentos, e das nuvens. Sexto, as veias e o cabelo foram feitos com ervas dos campos. Em sétimo lugar, o espírito derivou do meu próprio espírito, bem como do vento. Eu criei-o como Segundo Anjo na terra, para ser grandemente enaltecido. Dei-lhe, igualmente, um nome, criado a partir dos nomes das quatro direcções: A de Anatole, que quer dizer Este; D de Dusme, que significa Oeste; um segundo A para Arktos, Norte; e um M final para Mesembria, ou seja, Sul."

(Imagem: "A Criação do Homem", de Miguel Ângelo)
A FILOSOFIA DE
ÁLVARO RIBEIRO

Vale a pena comprar, ler e reler o 12º número da revista Teoremas de Filosofia. Trata-se, desta feita, de um número monográfico, onde são publicadas as comunicações apresentadas no colóquio "A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro", dinamizado por Pedro Martins e ocorrido em Sesimbra entre 5 e 6 de Março de 2005. Como costuma afirmar uma amiga minha, aí tudo se come... Todos os artigos manifestam uma altíssima qualidade, nalguns deles até fundamental. Aqui fica a lista, para abrir o apetite:
- "Apresentação de Álvaro Ribeiro aos sesimbrenses", de António Telmo;
- "Álvaro Ribeiro e a defesa da Filosofia Portuguesa", de Pedro Sinde;
- "O Porto em Lisboa: Álvaro Ribeiro", de Pinharanda Gomes;
- "A Literatura em Álvaro Ribeiro", de António Cândido Franco;
- "O pensamento político de Álvaro Ribeiro", de Jorge Preto;
- "O filosofo do porvir", de Joaquim Domingues;
- "A estética em Álvaro Ribeiro", de Luís Paixão;
- e "Álvaro Ribeiro, uma imaginação a Ocidente", de Carlos Aurélio.
A revista pode ser pedida a Joaquim Domingues, seu editor e proprietário, para a Rua do Areal de Cima, 91 - 4710-346 Braga.

Do artigo de António Cândido Franco acima referenciado, sobressaiu este parágrafo que se me afigura de grande importância:

"É na vida interior que nós encontramos as expressões da verdade. O trabalho dos poetas consiste em dar forma a essas expressões mentais, próprias do pensamento. Assim sendo, os poetas são os filósofos que falam (como os filósofos serão os poetas calados). Eles animam com formas reconhecíveis as ideias mais puras e luminosas. O trabalho dos poetas é mal reconhecido, mas não há salvação para a humanidade fora da poesia. Se os poetas não tomarem nas mãos o destino do mundo, (...) estamos condenados à destruição e ao desaparecimento mais rasteiro. A destruição que hoje afecta a linguagem verbal, reduzindo-a a um corpo articulado e automático, estritamente informativo, terá num futuro próximo consequências desastrosas no mundo."
Tradição Oral

[ESTA NOITE QUE HÁ-DE VIR]

Esta noite que há-de vir
Foram-me os ladrões ao monte
Roubaram-me o que eu não tinha
Deitaram-me fogo à fonte

Tenho tosse nas orelhas
Dor-de-dentes no cachaço
Amargam-me as sobrancelhas
Não vejo nada de um braço

(recolha de RV em Carreiras, Portalegre)