STEFAN ZWEIG

Para quem se habituou, desde cedo, a considerar o escritor austríaco Stefan Zweig como uma das vozes fundamentais da literatura europeia, contra a opinião de muitos – inclusive respeitáveis, como José Régio – que o apresentavam como “aldrabão” ou “escritor para costureirinhas”, constitui um imenso prazer a leitura de Morte no Paraíso, a Tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines (editado pelo Círculo de Leitores). Com esta biografia, temos acesso a uma árvore imensa, com ramos (“zweig” significa “ramos” em alemão) fortes e frágeis, com raízes que tentam agarrar-se à terra, no medonho vendaval da Segunda Grande Guerra. Para além disto, Dines erigiu um monumento poliédrico à condição humana, onde leitor consegue encontrar as suas próprias fraquezas e as suas forças.


JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

O homem que não lia livros

Moro no Bairro Alto desde 1976 mas vivo em Lisboa desde 1966. E comecei por viver em Campolide uns meses e em Santa Catarina vários anos. Quer isto dizer que são já 40 anos de convívio permanente com alfarrabistas, leilões de arte, antiquários, livrarias, bibliotecas e etc. Outro dia fui ver a exposição de mais um grande leilão no Palácio do Correio Velho, ali na Calçada do Combro. Claro que não tenho dinheiro para mandar cantar um cego mas vou lá pelo prazer de ver. Neste caso descobri um quadro de Sousa Pinto, um notável pintor paisagista que nasceu em Angra do Heroísmo no ano de 1856 e faleceu na região da Bretanha francesa em 1939. Trata-se de Acendendo o cachimbo pela madrugada um quadro muito famoso que vale pelo menos 30 mil euros. Vejo a seu lado quadros de Silva Porto, Dominguez Alvarez, Jaime Murteira, Isaías Newton e muitos outros. Não posso comprar mas venho feliz com o que vi.
De repente suspendo a marcha porque descubro um jornalista dito cultural numa minúscula galeria de arte a falar para uma pequena plateia. Páro e fico a pensar. É este o homem que no seu jornal viu os meus livros um a um e sistematicamente dizia «este não interessa nem ao Menino Jesus». Bastava-lhe olhar o nome do autor e o título. Este pobre e pequeno homem não percebe que a história da literatura não passa por ele. No tempo de Cesário Verde quem era conhecido era Cláudio Nunes, no tempo de Eça de Queirós quem era popular era Pinheiro Chagas e no tempo de Camilo Pessanha o poeta era Augusto Gil. Olho para o homenzinho sem nenhum rancor. Ele está, como sempre esteve, a falar para o boneco. Eu, pelo contrário estou vivo e tenho pessoas que tomam a sério o que eu escrevo. O resto é conversa.

(Na imagem: "Acendendo o cachimbo pela madrugada", óleo de Sousa Pinto)
LEVI CONDINHO


Biografia - a partir do espelho

Só da remota infância guardas
a memória da água
dos seus sabores fontes diversas
- mais fresca era a da Espinheira -
gota a gota
foi o sangue sempre vivificado
irrigação do corpo sobrevivência do nada
esqueces agora o sabor após a ingestão
a actividade química dos fluxos que te percorrem
tem o sentido louco
da tesoura na máquina de Tinguely
abrindo e fechando as pontas
em busca de um objecto
jamais patente ao martírio do corte

tudo se passa numa tela iluminada
por uma luz inócua
desfocada
sem contrastes de sombra
ou imagens de apropriáveis contornos
caminhas e preparas um outro caminho
face a um outeiro sem substância
bordejado por muros invisíveis
há nessa ausência uma inconfessável
e íntima euforia
como a de um bicho que sem inquietação
pressente a morte

algures
ao Sul
esse bicho
cigarra grilo ralo
ou aquele a quem o nome nunca foi atribuído
prossegue a sua tarefa
cantando impassível nos ramos do teixo
nos sulcos abandonados da terra

DE VOLTA

O coordenador do "Estrada do Alicerce" está de novo em andamento na caminhada bloguística. Ainda hoje surgirão novidades.
Entretanto aqui fica uma imagem destes dias de disponibilidade, tirada em Alpalhão (Nisa).

BOA PÁSCOA !

Durante os próximos dias estarei fora da blogosfera, como escrevente e como leitor, disponível antes para os que me são mais queridos, para os meus livros e para lugares e ritmos que me dizem muito.
Não quero no entanto deixar de desejar a todos uma santa Páscoa. Como não posso oferecer-vos nem folares nem amêndoas de Portalegre (talvez as melhores do mundo!), deixo no vosso olhar uma belíssima fotografia das cerejeiras de Tóquio, tirada pela historiadora Kioko Koyso. Até breve!