DOIS POEMAS
PARA A NOITE DE NATAL


nascimento
[presépio]

Sopra-nos do barro. Ilumina o cabelo, a voz da montanha.
(Sobre a mesa, a cinza deste corpo.)
A cidade cresce, sem casas. A respiração queima, lentamente, os olhos, as unhas, a mão. O sangue. A chama permanece, tão pequena. O calor repousa sobre o musgo. Uma lágrima irrompe pela manhã. A gilbardeira coloca, sobre o peito, um pouco de alegria.
Nos olhos e no cabelo (nesta mão), as imagens reverdecem. O fogo tece-nos, mesmo à distância. O vento apaga (acende?) essa chama nascida no interior da montanha.
A criança sopra – o barro que somos. A palavra aquece-nos. A flama aquece o coração e o mundo.
(Sobre a mesa, a cinza desse corpo.)
O corpo navega, flutua. Desenha na terra essa criança - nascida sobre as águas.



memória
[José, o carpinteiro]

Dissolvo o sangue e a memória nesta criança que acolho sobre os braços.
[Uma árvore floresce em pleno inverno, perto da luz que nos aquece as veias.]
Dissipei a dúvida e cansaço neste sorriso que domina a minha voz. A madeira floresce neste ouro feito de lágrimas, de sombra, de agonia. Recordo agora, aqui, a longa fuga pelo deserto, pelo sal, pela palavra. Fugindo de mim mesmo, encontrei neste menino a esperança, o sol, a alma.
Que sobra hoje do encantamento, do calor e da luz na manjedoura? O rosto de uma mãe tão perturbado p’lo nascimento desta alegria? O sangue cobrindo este corpo? Os anjos cantando, como água, no meio da secura e da saudade?
Pouco sei desse tempo recolhido no menino que guardo sobre os braços. Transporto no silêncio do meu rosto outro silêncio sem tempo nem lugar: o calor desta criança semi-nua num mapa onde cabem terra e mar.


****


Com estes dois pequenos poemas em prosa, desejo a todos os leitores um Natal cheio de alegrias espirituais e com muita saúde.


(Na imagem, escultura em barro de Maria Helena Lourenço (2004), em colecção particular.)

Teatro de Espelhos
(texto de Rui Lage)

Sócrates dizia: "conhece-te a ti mesmo". Pessoa inverteu a máxima e disse, na sua poesia (e nesse livro maior da literatura de todos os tempos e lugares, o Livro do Desassossego): desconhece-te a ti mesmo. A ironia, ou o paradoxo, desta inversão, é que também a formulação pessoana aspira a uma espécie de "maiêutica" que consiste em revelar a existência humana em todo o seu esplendoroso vazio − e beleza. Pessoa percebeu que cada indivíduo é também uma abstracção de si mesmo, um "Eu" disperso e fragmentado. É verdade que foi Rimbaud o primeiro a descobrir que "Je est un autre", mas só Pessoa conseguiria dialogar com esse "autre", elegê-lo como interlocutor legítimo. A sua obra é um espelho (aliás, um teatro de espelhos) onde cada indivíduo, olhando-se, não poderá deixar de se reconhecer − de reconhecer que é uma mentira (ou fingimento de si) e, em novo passe de mágica, que nessa mentira reside toda a sua verdade. A consciência de si, nele, levou à perda da consciência, permitiu-lhe olhar-se como se fosse estranho a si mesmo e concluir que, afinal, não havia nada a não ser o vazio. Foi, por isso, de todos os poetas ocidentais, o mais universal e o mais humano. Por outro lado, é sempre com pudor que se fala de Pessoa, e a poesia portuguesa, a partir dos anos 70, começou a desenvolver uma relação complexada com a sua obra "monstruosa". Muitos começaram, entretanto, a afiar as espadas. Aqui e ali, ainda a medo, já se vão desferindo uns golpes na herança pessoana, tentando menorizar ou relativizar a sua obra. É grande a tentação, para um crítico, ensaísta ou académico, de aparecer como aquele que colocou Pessoa no seu "devido lugar"... O fantasma de Pessoa, porém, é daqueles que resiste a todos os exorcismos. Quanto mais o procuram desvalorizar, mais o enriquecem, ele que, ainda por cima, previra tudo isso. Falar pois da influência de Pessoa na cultura portuguesa contemporânea é uma redundância, pois tudo o que foi escrito ou pensado depois dele denuncia, de alguma forma, a sua marca. A sua visão do mundo, articulada na sua poesia, é definidora da nossa identidade (não da pátria, pois que a sua única obra menor é, precisamente, a Mensagem). O que é o "medo de existir" desse inesperado "best-seller" de José Gil senão uma versão extensa do "Ó Portugal, hoje és nevoeiro"? Fernando Pessoa, o maior poeta e filósofo português de sempre, levou a cabo, sozinho, uma revolução de lucidez: conheceu-se desconhecendo-se.

(Publicado originalmente no JL nº 918)

O bisneto de Frankenstein

Aquele senhor de olhar alucinado, de conspícuas barbaças na face, o cómico-trágico que as “eleições” iranianas deixaram presidente da “pobre Pérsia” como dizia Nostradamus, alegrou novamente os cretinos com outra cházada (passe o termo) perfeitamente à altura doutras tiradas anteriores suas.
Desta vez quer que os judeus se mudem para o Alaska ou, caso sofram, acho eu, de reumatismo e constipação, pelo menos para a Europa – lugar onde aliás, segundo o mesmo fulano, nunca ninguém lhes fez mal. De caminho informou os mais distraídos que sim senhor, visa arranjar um punhado de bombas nucleares (o que não será decerto para ir aos pardais).
Para minha tranquilidade psicológica, urge dizer que na blogsfera os comentadores mais sensatos e capazes, de Eduardo Pitta (“da literatura”) a José Cartaxo (“Viagens em terra alheia”) souberam articular o tom apropriado para efectivarem textos adequados à situação.
Há que, a exemplo de Michel Houllebecq, não ceder a chantagens de asseclas ou familiares do “politicamente correcto” e dizer com galhardia: “Quem anda a provocar um choque de civilizações, ou pelo menos a pôr-se a jeito para uma bela trepa, são os ulemas e seus discípulos, escorados por fora em jeito de ‘criados do médico louco’ pelo rebanho de ‘revolucionários profissionais’ que esperam que eles os vinguem do tombo que deram a Leste”.
Já se percebeu que os apaniguados dos mullahs mais tarde ou mais cedo vão ter de levar com a bombita nas narinas. Fingir que isto é ficção-científica é levar de facto a cegueira demasiado longe.
Mas esta rapaziada simultaneamente sinistra e inquietante ainda não percebeu que com gente daquele perfil não se pode jogar a feijões? Hein?

Nicolau Saião
(c/ ilustração de Manuel Huerta, Chile)

Vozes do Brasil

FLORIANO MARTINS


Por trás da memória


Resplenda um mito, seu nome vago.
Manchas do ser, fuligem, contemplação.
Reino fugaz de formas, fulgor mutante.
A sombra concentrada na memória
define a cartografia do abismo, queda
abismada pelo equívoco da matéria.
Arquivo de sombras, zelos e fraudes,
a imagem duplica-lhe a horda de vultos,
errância fantasmagórica de conceitos.
Não importa Klee ou Bacon, anotações
sutis do assombro. Da própria cauda
cuida a memória, Uroboros regurgitada
a cada confronto com a matéria do ser.



(Ilustração de Hélio Rôla)
POETAS NOVOS DE PORTUGAL

PEDRO GIL-PEDRO


Pendem
nas leiras – um arado que cega

à cabeça.

no fulcro
da ira
fecundam os crivos da manhã.

e:
ganchos de pureza –

as mulheres
levantam-se como um dedo aberto

nas traves do silêncio.


*****


uma corola de obscuridade

o semeador entrelaça as mãos e o corpo
nos instrumentos da ira e propõe-se

enfim

a lascar o silêncio
por fora

e por dentro

até à fulguração da pedra.


*****


o semeador levantou alto a mão
e respirou a pedra como se a semeasse

as mulheres olhavam-no em sobressalto
como animais de silêncio nos prumos do estio.

e só então
o ciclo da chuva nos teares.


Pedro Gil-Pedro (Sesimbra, 1973) é o pseudónimo de José Pedro Francisco. Trabalha em Lisboa e publicou Animais Cheios de Movimento no Inverno (Quasi, 2000), de onde se retiraram os três poemas que aqui divulgamos.